Pequena prosa sobre poesia

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Raymond Carver.

Anos atrás – devia ser 1956 ou 1957 -, quando eu era um adolescente, casado, ganhando a vida como entregador de uma farmácia em Yakima, uma pequena cidade do leste de Washington, fui certa vez fazer uma entrega numa casa na parte rica da cidade. Um senhor muito idoso, porém alerta, vestindo um suéter tipo cardigã, me convidou a entrar. Pediu-me que aguardasse na sala de estar enquanto procurava o talão de cheques.

Havia muitos livros naquela sala. De fato, havia livros por toda parte: na mesa de café e nas mesinhas de canto, no chão do lado do sofá – qualquer superfície disponível tinha se tornado um lugar de descanso para livros. Havia ate uma pequena biblioteca numa das paredes. (Eu nunca tinha visto uma biblioteca pessoal antes; filas e filas de livros dispostos em prateleiras embutidas, numa residência particular.) Enquanto esperava, meus olhos girando pela sala, notei, na mesa do café, uma revista com um nome singular e, para mim, impactante: Poetry. Fiquei surpreso e a apanhei. Era a primeira vez que eu me deparava com uma revista literária, ainda por cima uma revista de poesia, e fiquei pasmo. Talvez tenha sido ganancioso: peguei também um livro intitulado The Little Review Anthology, editado por Margaret Anderson. (Devo acrescentar que, na época, para mim era um mistério o que significava a palavra “editado”.) Corri as páginas da revista e, tomando ainda maior liberdade, folheei as páginas do livro. Havia muitos poemas no livro, mas também textos em prosa e algo que pareciam ser notas ou mesmo páginas de comentários sobre cada uma das sessões. O que poderia ser tudo aquilo?, imagine. Eu nunca tinha visto um livro como aquele – nem, é claro, uma revista como Poetry. Olhei para as duas publicações e secretamente, cobicei cada uma delas.

Quando o senhor terminou de preencher o cheque, disse, como se pudesse ler me coração: “Leve esse livro com você, filho. Pode ser que encontre algo de que goste. Você se interesse por poesia? Por que não leva a revista, também? Talvez um dia você mesmo escreva alguma coisa, e nesse caso vai precisar saber onde mandar”.

Para onde mandar. Algo – eu não sabia exatamente o que, mas senti que algo importante estava acontecendo. Eu tinha dezoito ou dezenove anos, estava obcecado com a necessidade de “escrever alguma coisa” e, por essa altura, tinha feito algumas tentativas desajeitadas e poemas. Mas na verdade nunca me ocorrera que pudesse existir um lugar para onde, de fato, enviar essas tentativas na esperança de que fossem lidas e até, possivelmente – incrivelmente, me parecia – consideradas para publicação. Mas bem ali na minha mão estava a prova visível de que, em algum lugar do vasto mundo, havia pessoas responsáveis que produziam – Deus do ceu! – uma revista mensal de poesia. Eu estava abalado. Me senti, como disse, diante de uma revelação. Agradeci àquele senhor muitas vezes e fui embora. Levei o cheque para meu patrão, o farmacêutico, e levei a revista Poetry e o livro The Little Review para casa comigo. E assim começou um aprendizado.

Claro que não lembro dos nomes de nenhum os colaboradores daquele número da revista. Provavelmente, havia alguns poetas renomados, mais velhos, ao lado de outros novos, “desconhecidos”, tal como acontece hoje em dia na revista. Naturalmente, naquele tempo eu não tinha ouvido falar de ninguém – nem lido nada, fosse literatura moderna, contemporânea ou qualquer outra. O que lembro é que a revista fora fundada em 1912 por uma mulher chamada Harriet Monroe. Lembro da data porque era o ano em que um pai nascera. Mais tarde, naquela noite, com os olhos ardendo de tanto ler, tive a clara sensação de que minha vida estava em vias de ser transformada de maneira significativa e mesmo, queiram perdoar, grandiosa.

Na antologia, havia uma séria discussão sobre o “modernismo” na literatura e sobre o papel exercido no progresso do modernismo por um homem com o estranho nome de Ezra Pound. Alguns de seus poemas, cartas e uma lista de regras – o que fazer e o que não fazer ao escrever – tinham sido incluídos na antologia. Fiquei sabendo que, nos primeiros anos de Poetry, Ezra Pound tinha sido um editor internacional da revista – a mesma revista que naquele dia chegara às minhas mãos. Além disso, Pound fora fundamental ao apresentar as obras de um grande número de poetas para a revista de Monroe, bem como para The Little Review, é claro; ele foi, como todos sabem, um editor e divulgador incansável – de poetas como H. D. [Hilda Doolitle], T. S. Eliot, James Joyce, Richard Aldington, para citar apenas alguns. Havia discussões e análises sobre movimentos poéticos; o imagismo, lembro, era um deles. Aprendi que, além de The Little Review, Poetry era uma das revistas que acolhiam textos imagistas. A essa altura, eu já estava cambaleando. Não vejo como poderia ter dormido muito naquela noite.

Isso foi m 1956 ou 1957, como disse. Portanto, o que justifica o fato de eu ter levado 28 anos ou mais para, finalmente, enviar alguns textos para Poetry? Nada justifica. O mais espantoso, o fator crucial é que quando enviei alguma coisa, em 1984, a revista continuava lá, viva e ativa, sendo editada, como sempre, por pessoas responsáveis cujo propósito era manter esse empreendimento único funcionando em perfeita ordem. E uma dessas pessoas me escreveu, em sua função de editor, elogiando meus poemas e dizendo que a revista iria publicar seis deles no momento oportuno.

Se eu me senti bem, orgulhoso com isso? Claro que sim. E acredito que, em parte, devo um agradecimento especial àquele senhor amável e anônimo que me deu o seu exemplar da revista. Quem era ele? Certamente ele já morreu há muito tempo, e o conteúdo de sua pequena biblioteca deve ter se dispersado, indo para onde vai toda coleção pequena e excêntrica – e, afinal, provavelmente não muito valiosa: para os sebos e livrarias de segunda mão. Naquele dia, eu dissera a ele que leria a revista e o livro e voltaria para lhe contar o que tinha achado. Não o fiz, claro. Muitas outras coisas aconteceram; foi uma promessa feita facilmente e quebrada assim que a porta se fechou atrás de mim. Nunca voltei a vê-lo, e não sei o seu nome. Só posso dizer que esse encontro realmente ocorreu, e tal como o descrevi. Eu era apenas um garoto, mas nada pode explicar ou dar conta de um momento coo esse: o momento em que precisamente aquilo de que eu mais necessitava na vida – digamos, uma estrela-guia – me foi dado de modo casual e generoso. Nada remotamente próximo àquele momento aconteceu desde então.

Raymond Caver – Esta Vida (Poemas Escolhidos, tradução Cide Piquet)

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Javier Marías e a frágil condição dos segredos

“De vossa cor as mãos agora tenho;
mas de possuir ficara envergonhada
um coração tão branco”
(William Shakespeare, Macbeth)

Comecemos por imaginar as consequências de um segredo familiar guardado e revelado após tantos anos. Depois passemos aos efeitos que podem acarretar, em um relacionamento ou nos membros de uma família, palavras enunciadas ou histórias silenciadas e subitamente desveladas: eis que estamos travando contato com algumas das inquietações de Coração Tão Branco, romance do escritor espanhol Javier Marías. Apontado como um clássico da literatura contemporânea, o romance lançado em 1992 só chegou ao Brasil em 2008, com edição da Companhia de Bolso e tradução de Eduardo Brandão. Dois anos antes a revista The Paris Review publicava uma entrevista com o escritor madrilenho, na qual aponta alguns autores que admiram sua obracomo L. M. Coetzee, Salman Rushdie e W. G. Sebald.

Em Coração Tão Branco (cujo título foi extraído de um verso de Shakespeare) Marías constrói uma prosa densa e vigorosa, na qual o desenvolvimento conduz o leitor por um emaranhado de digressões feitas pelo protagonista do romance, o tradutor e intérprete Juan. É ele que inicia a narração de um fato sombrio de sua família, o suicídio de sua tia Teresa Aguilera, apresentada nas primeiras linhas:

“Eu não queria saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados”. (p. 7)

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Alejandro Cerutti

A descoberta inesperada desse fato impulsiona o narrador a iniciar uma investigação interior, visitando fatos antigos de sua vida, buscando em sua memória a explicação para esses e outros acontecimentos. Para isso, Marías opera um intenso fluxo de consciência através do protagonista, que conhece Luísa em um encontro de trabalho com dois líderes mundiais (ela também intérprete e tradutora). Eles se casam e a história relatada por Juan inicia com sua viagem de lua de mel, onde desde então, passa a ter “pressentimentos de desastre”. O pai do narrador, Ranz, é outra peça fundamental da narrativa, uma vez que suas perguntas e insinuações “Bem, já se casou. E agora?”, “Luísa e você devem ter segredos, suponho”, “Quando você tiver segredos ou se já os tiver, não os conte”, são as senhas que dão acesso às histórias de seu próprio passado.

Curioso notar como a imagem em que Juan é confundido por uma mulher na sacada de um hotel em Havana se repete em um conto de Javier Marías, “Na viagem de lua-de-mel”, presente no livro Quando fui mortal. A diferença é que no conto a história se passa em Sevilha enquanto no romance a cena se desenvolve em Havana. Essa semelhança ou repetição remete aos conselhos de um personagem de Roberto Bolaño, Sensini, um veterano em concursos literários que incentiva o narrador a inscrever os mesmos contos em diferentes certames, alterando apenas alguns detalhes como os títulos, por exemplo.

As questões levantadas em Coração Tão Branco dizem respeito aos segredos e mentiras de família, as suspeitas e desconfianças que envolvem os casais e, sobretudo, ao papel que a descoberta (ainda que involuntária) de tais segredos possa acarretar. Para além dos temas preponderantes, outras questões são explorados em torno da temática central. Em uma das passagens, Juan tece comentários com Luísa a respeito de diferentes tipos de segredo.

“Olhe – eu lhe disse -, as pessoas que guardam segredos durante muito tempo nem sempre o fazem por vergonha ou para se proteger, às vezes é para proteger outros, ou para conservar amizades, ou amores, ou casamentos, para tornar a vida mais tolerável a seus filhos ou para tirar-lhes um medo, já costumam ter muitos” (p. 132)

O desfecho da trama ocorre no momento em que o leitor descobre o papel indireto de Ranz na morte de Teresa, que fora casado com ele antes de Juana, sua irmã. A revelação desse motivo surge quando Ranz, após ser interpelado por Luísa, relata o motivo de Luísa ter atentado contra si mesma, dias após o retorno de sua viagem de lua de mel. É em torno desse segredo que as palavras de Ranz “Luísa e você devem ter segredos, suponho”, “Quando você tiver segredos ou se já os tiver, não os conte”, assumem outra dimensão, confirmando assim, as suspeitas e os “pressentimentos de desastre” de um narrador em constante estado de apreensão.

HHhH: homenagem aos resistentes da Operação Antropoide

Desesperado. Hoje a tarde meio dormindo: esse sofrimento vai acabar explodindo minha cabeça. Bem nas têmporas. Ao imaginar isso, o que de fato vi foi uma ferida de bala, só que as bordas do rombo estavam abertas para fora e tinham as pontas afiadas como uma lata aberta com violência.
Franz Kafka, Sonhos (Diário, 15 de outubro de 1913)

No dia 28 de maio de 1942, Joseph Goebbels escrevia em seu diário: “Uma notícia alarmante chega de Praga”. Referia-se ao atentado contra Reinhardt Heydrich. É esse atentado que vai orientar todas as ações de HHhH, romance de estreia do escritor francês Laurent Binet, que causou forte impressão na cena literária no ano de seu lançamento. O título faz referência a abreviação de uma frase alemã corrente na época, que significa: o cérebro de Himmler se chama Heydrich. Nos 257 capítulos que compõem a narrativa, o autor recria um dos grandes atos de resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial: a Operação Antropoide, responsável pelo assassinato de Heydrich, um dos mais perversos nazistas e um dos mentores intelectuais do Holocausto.

Designado por Hitler como “protetor” da Boêmia-Moravia (República Tcheca), Heydrich implementou um regime de terror com assassinatos em massa que fizeram crescer sua fama e seu poder no covil do partido nazista. Ao perseguir de maneira implacável e afugentar parte da resistência, Heydrich acreditou que possuía o controle absoluto de Praga, sentia-se um verdadeiro semi-rei no país de Kafka. Não esperava que, na Inglaterra, o governo tchecoslovaco em exílio preparava o atentado que tiraria sua vida.

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Reinhardt Heydrich (1904 – 1942)

Em seu Diário de Trabalho (Volume II – 1941–1947), no mesmo dia em que Goebbels escrevia sobre a “notícia alarmante” vinda de Praga, Brecht, por sua vez, exilado nos Estados Unidos, escrevia: “Com Lang, na praia, pensei num filme de refém (movido pela execução de Heydrich em Praga)”. (p. 111)

Logo no primeiro capítulo de HHhH o autor apresenta-nos um inusitado enunciado, onde questiona: “que há de mais vulgar do que um personagem inventado?” De fato, o romance de Binet opta por colocar em ação apenas personagens históricos, em contraposição aos personagens de ficção. Essa característica se repete em seu segundo romance, traduzido no Brasil com o título de Quem Matou Roland Barthes? (Com a diferença que em seu segundo romance os protagonistas são personagens de ficção). A dicotomia entre o romance tradicional (de tipo balzaquiano) e o romance contemporâneo é constantemente ressaltado pelo narrador em HHhH. Sua prosa híbrida é permeada por diferentes discursos, que abrange além do literário, o ensaístico, fait-divers, o biográfico e, sobretudo, o discurso histórico, cujo pano de fundo estrutura e organiza uma narrativa de caráter autoficcional.

Foi com a intenção de homenagear Jan Kubis e Josef Gabcik que Binet escreveu seu livro. Foram esses dois jovens, um tcheco e um eslovaco, ambos treinados no exterior para executarem numa manhã de quarta-feira, 27 de maio de 1942, o grande atentado contra o “açougueiro de Praga”. O tema adotado por Binet, contudo, não é novidade. Confirmando o que havia escrito em seu Diário no ano anterior, Brecht finaliza o roteiro de Os carrascos também morrem que será dirigido por Fritz Lang em 1943. O próprio romance HHhH de Laurent Binet inspirou a adaptação para o cinema feita por Cédric Jimenez, em 2016, com mesmo título.

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Cena de Os carrascos também morrem, Fritz Lang, 1943.

O caráter heroico da ação empreendida contra Heydrich no coração de Praga expôs os cidadãos tchecos ao revide alemão. Como vingança pela morte do “protetor”, a pequena cidade de Lídice foi completamente arrasada e seus cidadãos foram fuzilados ou enviados para campos de concentração. O governo alemão propagandeou os eventos de 10 de junho de 1942 como exemplo para quem atentasse contra as autoridades nazistas, causando enorme repúdio internacional. Esses e outros eventos são narrados com grande habilidade por Laurent Binet, que coloca seu romance na mesma tendência de alguns autores da literatura francesa contemporânea, que privilegiam o uso de personagens históricos e o estilo autoficcional do narrador (Mathieu Lindon em O que amar quer dizer, David Foenkinos em Charlotte, Patrick Deville em Viva!). Essa tendência autoficcional é destacada pela crítica Leyla Perrone-Moisés em seu livro Mutações da literatura no século XXI.

“Nos anos 80 a França foi inundada de livros cujo assunto era o próprio autor, suas experiências, pensamentos e sentimentos. Não eram diários, porque não registravam o acontecimento do dia-a-dia, em ordem cronológica. Não eram autobriografias, porque não narravam a vida inteira do autor, mas apenas alguns momentos desta. Não eram confissões, porque não tinham nenhum objetivo de autojustificação e nenhum caráter purgativo”. (p. 204)

Manuel Bandeira: iniciação em Marcel Proust

Duas vezes tentei ler o Proust e fracassei. Foi no tempo em que o genial romancista ainda vivia, o que afinal é um bom ponto para mim: não se tinha formado ainda o mito-Proust; não tinham ainda aparecido os admiradores das dúzias, os urubus da consagração póstuma. Foi ainda no tempo em que Graça Aranha escrevia: “Proust não nos rejuvenesce”, consideração importante para quem quer rejuvenescer. Hoje Proust continua a não nos rejuvenescer. Proust continua difícil de ler, mas como morreu e lhe reconhecem o gênio, todo mundo precisa “ter lido” Proust, porque toda a gente está sentindo que o romancista de À procura do tempo perdido é um desses nomes que ficam e se estendem marcando nas gerações.

Aliás ninguém se envergonhe de não haver reconhecido por si próprio a força que o escritor dissimulava nas incidentes do estilo mais puxa-puxa que se tem notícia na história de todas as literaturas. André Gide, que é… André Gide, boiou também nos primeiros contatos com Proust. Este, embora dispondo de editor e de jornal, acariciava o desejo de se fazer editar pela Nouvelle Revue Française, onde lhe parecia que seu livro ficaria colocado na verdadeira atmosfera que lhe conviria. Na Nouvelle Revue mandava e desmandava o Gide. Pois o bom do Marcel Proust sofreu o vexame de repetidas recusas. Não foi editado pela Nouvelle Revue e por culpa de André Gide, por cujas mãos passaram os originais. Quando o romance apareceu, editado por outra casa, é que Gide percebeu o erro em que tinha caído.

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Marylou (Kristen Stewart) lendo Proust em uma cena de On the Road, Walter Salles, 2012.

Estou escrevendo esta crônica no mesmo estado de espírito em que o autor de L’Imoraliste escreveu a nobre carta com que felicitou Proust e se desculpou e penitenciou de sua leviandade: ”Meu caro Proust, há alguns dias já que não largo o seu livro; supersaturo-me dele com delícia: esponjo-me nele…”

O erro de Gide provinha de uma prática muito comum, perdoável em quem está por dever de ofício forçado a ajuizar de centenas de originais: o hábito de lançar a vista num trecho tomado ao acaso. Gide foi infeliz em dois ensaios; deu o livro por julgado.

As razões do meu fracasso foram mais graves porque não eram de leviandade. Peguei do começo um romance de Proust. Depois de trinta páginas o famoso estilo embastido havia criado para mim uma atmosfera irrespirável. Ora, agora sei por que razão fracassei e quero que a minha experiência sirva aos outros nesta época em que é preciso ter lido Proust.

O livro que duas vezes me desanimou foi À l’Ombre des jeunes filles en fleur. O que estou lendo agora e entendendo é o primeiro da série, o Du Côté de chez Swann. E estou como Gide: não largo o livro, sobressaturando-me dele, esponjando-me nele.

Sem dúvida há sempre que vencer os arames farpados das incidentes proustianas. Será necessário ler duas ou três períodos como este por exemplo: “E da mesma maneira que ela afiança não ter precisão do bico suplementar que o concierge e o chasseur que ele despacha de repente vendo que é hora para pôr no gelo a bebida de um freguês – tendo declinado o oferecimento de Francisca de me preparar a tisana ou de ficar ao pé de mim, eu…”. Uf! Essa maneira de escrever e a remissão frequente a quanto ficou atrás faz com que Proust tenha de ser lido desde a primeira linha do primeiro tomo que começa o romance único que é a sua grande obra. Só assim é que a gente se sente iniciado no mundo de Proust, e, para empregar uma expressão dele, a sentir em sua prosa de ritmo uniforme e toda amarrada de conjunções e incidentes ou explicativas “uma espécie de vida sentimental e contínua”.

Uma vez embreado nessa “espécie de vida sentimental e contínua”, vai-se até o fim do mundo proustiano, com pena desde logo que ele venha acabar um dia.

Extraído do livro Crônicas Inéditas 2 (Cosac Naify)
Revista Souza Cruz, novembro 1930

Em Pssica, Amazônia é cenário do horror

O leitor desavisado que estiver à procura da exuberância da Amazônia ou do exotismo da região nas páginas de “Pssica” (2015), romance do jornalista e escritor paraense Edyr Augusto, pode ter suas expectativas frustradas. Isso porque a poética do autor de Moscow se afasta dos clichês amazônicos, passa ao largo do regionalismo literário, criando uma obra cuja paisagem urbana soma-se a uma linguagem que explora a gíria marginal do Norte do Brasil, imprimindo assim, um ritmo e uma velocidade próprios ao texto. O que vemos aqui é uma Amazônia provinciana, um Pará gangrenado pela corrupção e assolado pela violência urbana. A trama ambientada em Belém também percorre municípios da Ilha do Marajó e finaliza em Caiena, capital da Guiana Francesa.

A protagonista deste pequeno romance policial de pouco mais de noventa páginas é Janalice, jovem de 14 anos que se vê expulsa de casa após seu namorado divulgar um vídeo em que ela protagoniza uma “cena de felação” com o mesmo. Difamada na escola, discriminada e expulsa de casa pelos pais, Janalice é obrigada a viver temporariamente na casa de seus tios, Daiane e Célio. Não sabia que justamente ali, na casa de seus parentes, não apenas teria sua dignidade violada como também seria vítima de abusos sexuais cotidianos. Seria o começo de sua saga, que envolve o vício em drogas e a prostituição infantil. Em uma das passagens, quando o personagem “Portuga” encontra a jovem no porto de Breves, “a maior cidade do Marajó”, ela explica sua condição.

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“Me raptaram, me venderam e agora sou prostituta. Isso na tua boca? Foi um soco que um miserável me deu. Filho da puta. Deus me abandonou. Só pode ser. Não acredito em mais nada. Sou uma fodida, sozinha no mundo. Me salva. Como? Sei lá, me compra, me leva contigo. Pra onde vocês vão agora? Pra Caiena. Caiena? É. Pra ser prostituta”. (p. 62)

Além da jovem protagonista, surgem outros personagens que compõem o quadro geral desse impactante thriller policial. Ladrões, prostitutas, cafetões, viciados, políticos criminosos… toda essa fauna surge nas páginas de Pssica. Um deles é Préa, marginal que lidera um bando que age roubando cargas nos rios da região – no Norte, esses grupos são conhecidos como ratos d’água – e que passa ser perseguido pelo angolano Manoel Tourinhos, o “Portuga”. O comerciante estrangeiro é vítima do bando que acaba matando sua esposa, Ana Maura, durante o assalto ao seu armazém. Outro personagem importante no desenvolvimento da intriga é Amadeu, delegado aposentado, amigo de Pedro, o pai de Janalice. Arrependido, Pedro consulta o amigo, que ainda “faz uns servicinhos”, no intuito de que Amadeu inicie uma investigação sobre o paradeiro de Janalice. Ele aceita.

“Amadeu andou por Ó de Almeida, Presidente Vargas, Aristides Lobo, Manoel Barata, Riachuelo, Frei Gil e Primeiro de Março. Conferindo. Ninguém sabia de nada. Nunca tinham visto. Com uma foto. Foi nos camelôs. Esse brinco foi comprado aqui? E essa menina, conhece? Não. Aqui? Não sei, não, doutor. É tanta gente que vem aqui. Será que não sabem, mesmo? Bom, ela circulou poucos dias, pode não ter dado para notar. Encostou na banca do Alvino, na praça da República. Viram essa garota por aqui? Não sei. Parece que sim. Mas essas meninas chegam todas bonitinhas, embarcam na droga com os moleques e vão murchando. Os garotos se aproveitam. Fodem elas, viciam e depois dão um chute. Difícil dizer. Tá bom por hoje”. (p. 18)

Lançando luzes sobre um tema que demonstra o atraso, a violência e a ausência do poder público nas diferentes regiões da Amazônia, os 17 capítulos de Pssica apresentam em seu realismo nu, um retrato sombrio de nossa realidade, sobretudo da mulher e sua condição. Pssica, o título do livro, é uma gíria cujo significado está relacionado ao azar, à má sorte que acompanha Janalice até o fim do romance. Abandono, traição, vingança, injustiça, crueldade e horror são alguns tópicos presentes nesse texto que insere a paisagem urbana da capital paraense e dos municípios da região, com todas as suas mazelas, no panorama das boas obras da literatura contemporânea brasileira.

Dora Bruder e a memória do Holocausto

Dora Bruder

Dora Bruder (ao centro), com seus pais Cécile e Ernest Bruder.

Um traço característico da obra do Prêmio Nobel de Literatura de 2014, Patrick Modiano, é o entrelaçamento de diferentes gêneros literários em suas narrativas, passando com desenvoltura pelas memórias e relatos autobiográficos para o plano da ficção. Em seu romance de 1991, Flores da Ruína, é possível constatar esse estilo que intercala a história do narrador em primeira pessoa com a do próprio autor. Essa forma também é visível em um de seus romances mais celebrados, Dora Bruder, lançado em 1997. O livro nos conta a história de uma jovem judia que fora presa na Paris ocupada durante a Segunda Guerra Mundial e morta em Auschwitz, em 1943. A temática da França sob a Ocupação nazista, presente também no filme Lacombe Lucien (1974) cujo roteiro Modiano escreveu em parceria com Louis Malle, é retomado em Dora Bruder para criar uma narrativa melancólica sobre o destino trágico das vítimas do regime de Hitler em colaboração com governo francês de Vichy. Tudo começa quando o narrador (o próprio Modiano) encontra em 1988, numa antiga edição do jornal Paris-Soir de 31 de dezembro de 1941, um anúncio que pedia informações sobre o desaparecimento da jovem Dora Bruder, nascida em 25 de fevereiro de 1926. Diz o anúncio:

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Anúncio no jornal Paris-Soir de 31 de dezembro de 1941

“PARIS

Procura-se uma jovem, Dora Bruder, 15 anos, 1,55cm, rosto oval, olhos marrom-acinzentados, casacão cinza, suéter bordô, saia e chapéu azul marinho, sapatos marrons. Qualquer informação dirigir-se ao Sr. e à Sra. Bruder, bulevar Ornano, 41, Paris”. (p. 5)

A partir desse anúncio, passados 47 anos de seu desaparecimento, Modiano inicia uma saga em busca do passado de Dora e de sua família. Essa busca, porém, é fundada em pistas distantes no tempo e no espaço, marcada por lugares que despareceram, onde o narrador procura restituir os passos de Dora e o paradeiro de seus pais, imigrantes de origem húngara e austríaca. Para isso, o narrador autor visita antigos arquivos de polícia, consulta velhos documentos, fotografias, cartas, jornais da época, fait divers, etc. A Paris que emerge das páginas de Dora Bruder é uma cidade obscura, asfixiada pelos toques de recolher, pelas humilhações cotidianas e pelas prisões e deportações de judeus. Esse clima nos remete aos versos de Nosso Tempo, poema de Carlos Drummond de Andrade, escrito sob o calor da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, em que o poeta diz: “É tempo de meio silêncio / de boca gelada e murmúrio / palavra indireta, aviso / na esquina. Tempo de cinco sentidos / num só. O espião janta conosco”. O romance assume uma atmosfera nebulosa e opaca, de vazio e solidão, que correspondem com o estilo dos personagens de Modiano, quase todos seres fugidios, escorregadios. “São pessoas que não deixam vestígios atrás de si. Praticamente anônimas”.

Misto de romance autobiográfico, ficção e história, Dora Bruder pode ser visto como uma homenagem em que Modiano encontra na história da heroína de seu romance, semelhanças com a história de seu próprio pai, que também viveu no mesmo período lúgubre. Numa das passagens, o autor de Remissão da Pena esclarece seu objetivo:

“Ao escrever este livro, lanço apelos, como sinais de um farol. Tenho dúvidas de que estes conseguirão iluminar a noite. Mas posso esperar” (p. 38)

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Patrick Modiano durante a inauguração da Promenade Dora Bruder. Foto: Martin Bureau/AFP

Com Dora Bruder, o autor nos apresenta a história de uma jovem judia que teve um fim semelhante ao de milhares de outros jovens judeus naquele período negro da história da Europa: primeiro fora presa Paris, enviada para o campo de Drancy, depois fora deportada e morta em Auschwitz. Assim como David Foenkinos cria em seu romance Charlotte (2014) o resgate da memória de uma jovem pintora judia desconhecida, com o mesmo destino de Dora, Patrick Modiano preserva em nossa consciência, através da memória e da ficção, as consequências nefastas da catástrofe nazista. Com sua obra, consegue dar nome a perseguidos, imprimir uma história de vida àqueles que foram silenciados e esvaziados de suas condições humanas.

Em 2015, um ano após receber o Prêmio Nobel de Literatura, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, inaugurou no 18º arrondissement da capital – mesmo bairro em que a jovem Dora vivera durante a Ocupação -, a Promenade Dora Bruder, uma homenagem ao romance de Modiano e à memória de Dora Bruder. O próprio Patrick Modiano esteve presente no dia da inauguração e comentou: “Dora Bruder tornou-se um símbolo. Ela agora representa na memória da cidade as milhares de crianças e adolescentes que partiram da França para serem assassinadas em Auschwitz”.

MBL reproduz prática nazista no Brasil do séc. XXI

“[…]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos
dizer nada.
[…]”

(Trecho de No caminho com Maiakóvski, de Eduardo Alves da Costa)

É extremamente vergonhoso o fato ocorrido no último domingo (10) em Porto Alegre. Além de grave, é sintomático – pois revela o momento sombrio que o País atravessa, a nuvem negra da desgraça – que uma exposição de arte tenha sido fechada pela acusação de que seu conteúdo, supostamente, faria apologia à pornografia, pedofilia e zoofilia. Esse fato ignominioso aconteceu quando o Santander Cultural resolveu fechar a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” após críticas advindas do Movimento Brasil Livre (MBL), que divulgou um vídeo afirmando de maneira agressiva que a exposição “só tem putaria, só tem sacanagem” e “é reconhecida como arte”.

A mostra que abrigava 264 obras de 85 artistas – entre eles nomes como Lygia Clark, Cândido Portinari e Alfredo Volpi -, ficaria aberta até o dia 08 de outubro, com um acervo contemplando diferentes linguagens como pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e colagens, abordando questões de gênero, diversidade e temática LGBT. O fato demonstra, além do elemento moralista do discurso dos censores, a presença de outro elemento, cujo conteúdo é tão somente a discriminação pela diferença, a incapacidade de aceitar o diverso, o distinto, o outro e, portanto, manifestam sua intolerância aos valores da democracia.

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Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva, de Fernando Baril, foi considerada imoral pelo MBL.

Ao exigir o fechamento da exposição por “atentar contra os bons costumes”, o MBL e seus seguidores abandonam o discurso liberal e abraçam a prática nazista. Com tal atitude, reproduziram a mesma orientação política utilizada por Hitler na Alemanha e por Stalin na U.R.S.S., que abominavam obras modernistas e perseguiam os artistas de vanguarda que não se alinhavam à sua cartilha. Em seu livro Era dos Extremos, Eric Hobsbawm descreve a situação da Arte sob os regimes totalitários do século XX:

“Nem a vanguarda alemã, nem a russa, portanto, sobreviveram à ascensão de Hitler e Stalin, e os dois países, na ponta de tudo que era avançado e reconhecido nas artes da década de 1920, quase desapareceram do panorama cultural” (p. 187)

Acusaram de maneira desqualificada a Lei Rouanet de financiar (R$ 800 mil) uma mostra que “ultraja símbolos religiosos”, como se a lei de incentivo à cultura tivesse como função avaliar o conteúdo exposto, ao invés de primar pela pluralidade de ideias. Uma lógica que segue a conduta dos mais peçonhentos censores. Por outro lado, alardeiam como se estivessem realmente preocupados com a cultura no Brasil, já que nada falaram sobre o corte de 41% do orçamento do Ministério da Cultura, sob o comando de Temer.

Blasfêmia e Arte degenerada

Entre os argumentos levantados pelo MBL e seus seguidores (notadamente “pessoas de bem”) são comuns as referências à exposição com termos como “pornografia”, “depravação” e “imoralidade”. Não à toa são semelhantes aos discursos proferidos pelos nazistas em Munique, em 1937, quando foi aberta uma exposição chamada Arte Degenerada (Haus der Kunst), cujo objetivo, além de ridicularizar os artistas, era inflamar a opinião pública contra as obras modernistas. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

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Exposição Arte Degenerada, promovida pelos nazistas em 1937.

A coordenadora do MBL/RS, Paula Cassola, do alto de sua arrogância, questionou a legitimidade das obras expostas, como se as obras precisassem de sua permissão para existirem ou como se eles (MBL e cia) fossem parâmetro justo para considerar o que é obra de arte e o que não é. Como ironizou o jornalista Lira Neto nas redes sociais, “os escandalizados com a mostra proibida pelo Santander nunca foram a uma galeria, a um grande museu ou nunca folhearam um livro de arte”. Com sua visão retrógrada e limitada, o que diriam de artistas como Balthus, Hans Bellmer ou Ren Hang? No mínimo seriam tomados por “pedófilos”, “blasfemadores”, “degenerados”, etc.

Contudo, como diz o ditado, o buraco é mais embaixo. Espera-se dos regimes democráticos que sejam resguardados os direitos de criticar uma exposição, até mesmo de boicotá-la. Impedi-la, censurá-la, porém, é atitude autoritária que não podemos tolerar. Se um grupo econômico, uma religião específica ou um partido político pode impor o fechamento de uma exposição, dentro em breve estarão, com o dedo em riste e bem acomodados aos podres poderes, nos apontando quais livros devemos ler, quais músicas devemos ouvir, quais filmes podemos assistir.

Movimento Brasil Livre?

Importa ressaltar algumas características do MBL, principal grupo a se opor à exposição em Porto Alegre. Surgido nas Jornadas de Junho de 2013, o Movimento Brasil Livre despontou na cena política nacional como um grupo pró-impeachment, anti-corrupção e apartidário, mas não tardou para que surgissem as primeiras denúncias de que o movimento seria financiado por velhos partidos políticos, como PMDB, PSDB e DEM. Já em 2015, seus principais coordenadores (Kim Kataguiri e Fernando Holiday) não se embaraçaram ao fazerem ampla campanha para o notório corrupto Eduardo Cunha (PMDB), que presidiu a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2016. Em reportagem de 27 de maio de 2016, o portal UOL divulgava áudios em que Renan Antônio Ferreira dos Santos, um dos coordenadores do MBL, afirmava em mensagem a outro membro do grupo, que “tinha fechado com partidos políticos” para divulgar os protestos pelo impeachment “usando as máquinas deles também”. Em outra reportagem do dia 24 de julho desse ano, a Folha de São Paulo destacava que os “Líderes do Movimento Brasil Livre na mobilização pelo impeachment de Dilma Roussef, em 2016, vêm ganhando cargos comissionados em grandes cidades neste ano”, participando de governos e recebendo salários que chegam a R$ 10mil.

Em 2016, também não se intimidaram ao desempenharem o vergonhoso papel de milícia, intimidando estudantes que participavam de ocupações de escolas em Curitiba. São apoiadores do famigerado “Escola Sem Partido”, projeto que impõe a censura nas salas de aula e impede a livre docência, com o falso pretexto de defender a “isenção” e a “neutralidade”, como se houvesse neutralidade em qualquer discurso. Na prática, estão incentivando o desconhecimento e promovendo o obscurantismo, o dogmatismo, buscando por todos os meios impedir e cercear a difusão do conhecimento científico nas escolas. Para isso, contam com um time abjeto e conservador na Câmara dos Deputados, que aglutina as bancadas da bala, do boi e da bíblia. São apoiadores de primeira hora do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) que não esconde o desejo de candidatar-se a presidente do Brasil. É preciso resistir e combater os que aplaudem não apenas a retirada de direitos, mas também impedem a livre manifestação artística e cultural.

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Kim Kataguiri, do MBL e Jair Bolsonaro, ao lado dos comparsas que ajudaram a eleger Eduardo Cunha presidente da Câmara dos Deputados em 2015.

Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta (1973)

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Ponta Negra meu farol
Rasga a noite, rompe a escuridão
Enfrenta o mar

Trabalhar de sol a sol
Não é mais do que escravidão
Mas vou tentar

Acima estão os versos iniciais de Ponta Negra, composição de Danilo Caymmi e José Carlos Pádua, quinta faixa de um disco raro da MPB intitulado Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta”, gravado em 1973 e até hoje inédito em CD. A faixa conta com a participação de Nana Caymmi, que faz um belo dueto com o irmão Danilo. Destaque também para a flauta de Danilo e para o piano de Tenório Jr., que resgata certa atmosfera do rock progressivo, presente também em Belo Horror, quarta faixa do disco.

Beto Guedes / Danilo Caymmi / Novelli / Toninho Horta

 

A banda responsável por esse registro histórico é composta por músicos que participaram do Clube da Esquina, lançado no anterior (1972), em espacial os mineiros Beto Guedes e Toninho Horta. As músicas que compõem as nove faixas do álbum já trazem as características que depois iria caracterizar o som de cada um deles: a flauta de Danilo Caymmi, o vocal de Beto Guedes, a guitarra de Toninho Horta. Cada músico contribuiu com duas faixas, exceto o pernambucano Novelli, que apresenta três composições, Viva Eu, Meio a Meio e Luiza.