A entrevista de Louis-Ferdinand Céline para a Paris Review

A Companhia das Letras reuniu em três volumes as melhores entrevistas publicadas pela revista literária Paris Review. Entre as entrevistas publicadas em As entrevistas da Paris Review (Vol. 1) estão escritores como Jorge Luis Borges, William Faulkner, Paul Auster, Javier Marías e Ernest Hemingway. Nesse post, transcrevo a primeira parte da entrevista concedida pelo escritor francês Louis-Ferdinand Céline em 1960.

céline

Louis-Ferdinand Céline

Entrevista com Louis-Ferdinand Céline

A arte da ficção (Primeira parte)

            Louis-Ferdinand Destouches (Céline é um pseudônimo) nasceu em Paris em 27 de maio de 1894, filho de um escriturário pobre e uma rendeira. Depois de receber a educação primária, Destouches passou por várias profissões até 1913, quando ingressou na Cavalaria. No primeiro ano da Primeira Guerra Mundial, foi ferido na cabeça e saiu com trauma de guerra de uma ação pela qual foi condecorado por bravura. O sofrimento mental e físico causado por esses ferimentos o perseguiu pelo resto da vida.

Após ser dispensado por invalidez, obteve um diploma de médico; chegou a fazer parte da equipe de cirurgiões na fábrica da Ford em Detroit. Em seguida, foi para a África e, depois de um período na Liga das Nações, fixou-se em Paris, trabalhando como um médico mal remunerado entre os pobres.

O primeiro romance de Céline foi Viagem ao fim da noite, de 1932, que logo se tornou um sucesso mundial. Seu segundo romance, Morte a crédito, de 1936, consolidou mais a sua reputação. A linguagem coloquial de Céline, seus insights sobre a vida nos seus níveis mais baixos, seu escárnio – aliados à compaixão – influenciaram Sartre, Queneau, Bernanos, e, entre os americanos, Henry Miller, Burroughs, Ginsberg e Kerouac.

No final dos anos 1930, Céline começou a tender para os pontos de vista políticos fascistas e proclamou seu antissemitismo. Durante a ocupação alemã, sua ficha era ambígua. Depois da liberação, teve que fugir para Dinamarca, disfarçando sua identidade com seu nome real. Foi julgado in absentia, mas sua sentença logo depois foi revogada e ele pôde retornar à França, onde passou seus últimos anos de vida – parcialmente paralisado e num estado mental beirando a insanidade. De qualquer forma, Céline continuou a escrever, produzindo dois romances – De castelo em castelo, de 1957, e Norte, 1960 – considerados pelos críticos no mesmo patamar que seus dois grandes livros dos anos 1930. Morreu em Paris no dia 1 de julho 1961.

Jacques Darribehaude, Jean Guenot, André Parinaud & Claude Sarraute, 1964

CÉLINE

            Então o que posso lhe dizer? Não sei como agradar seus leitores. São pessoas com quem você tem que ser gentil… Você não pode perturbá-las. Elas querem que sejamos agradáveis sem abusarmos delas. Bom… Vamos conversar. Um autor não carrega tantos livros na bagagem. Viagem ao fim da noite, Morte a crédito – isto já deveria ser o suficiente… Entrei nisso por uma curiosidade. Curiosidade custa caro.  Tornei-me um cronista trágico. A maioria dos autores está em busca da tragédia sem conseguir encontrá-la. Eles se lembram de pequenas histórias pessoais que não são tragédias. Você dirá: os gregos. Os trágicos gregos tinham a impressão de que falavam com os deuses… Bem, claro… Por Cristo, não é todo dia que você tem a chance de telefonar para os deuses.

ENTREVISTADOR

            E como é, para o senhor, o trágico nos dias de hoje?

CÉLINE

            É Stalingrado. Aquilo sim era catarse! A queda de Stalingrado é o fim da Europa. houve um cataclismo. E o centro disso tudo foi Stalingrado. Lá você pode dizer que a civilização branca está acabada e bem-acabada. Então tudo isso criou algum barulho, alguma ebulição, as armas, as cachoeiras. E eu estava lá… lucrei com isso. Usei isso. Vendi isso. Evidentemente estive envolvido em situações – a situação dos judeus – que não eram da minha conta, eu não tinha nada que estar lá. Mesmo assim, descrevi-as… à minha maneira.

ENTREVISTADOR

           Uma maneira que causou escândalo, com a publicação de Viagem. Seu estilo abalou muitos hábitos.

CÉLINE

           Eles consideram isso invenção. Olhe os impressionistas. Num belo dia eles pegaram seus quadros e começaram a pintar na rua. Eles observaram como é, de fato, almoçar sobre a grama. Os músicos também trabalharam nisso. De Bach a Debusy há uma grande diferença. Eles causaram algumas revoluções. Eles mexeram nas cores, nos sons. Para mim, isso se dá com as palavras, a posição das palavras. No que diz respeito à literatura francesa, serei o sábio, não se engane. Somos os pupilos das religiões – católica, protestante, judaica… Bem, as religiões cristãs. Quem dirigiu a educação francesa através dos séculos foram os jesuítas. Eles nos ensinaram como fazer frases traduzidas do latim, bem equilibradas, com verbo, sujeito, complemento, ritmo. Enfim – aqui um discurso, lá uma pregação, por toda parte um sermão! Eles falam de um autor: “Ele tece uma bela frase!”. Já eu, digo: “Isto é ilegível”. Eles dizem: ”Que magnífica linguagem teatral!”. Eu olho, ouço. Isto é chato, isto não é nada, isto é nulo. Já eu, eu levei a palavra falada à impressa. E de uma só vez.

ENTREVISTADOR

            É isso que o senhor chama de sua “musiquinha”, não é?

CÉLINE

            Chamo de “musiquinha” porque sou modesto, mas isto é uma transformação muito árdua de se alcançar. Isto é trabalho. Não se parece com o jeito como as coisas se apresentam, mas tem qualidade. Para escrever um romance como um dos meus, você tem que escrever oitenta mil páginas para conseguir oitocentas. Algumas pessoas dizem, falando de mim: “Há uma eloquência natural… Ele escreve como fala… São palavras do dia-a-dia. São praticamente idênticas… Você as reconhece”. Ora, isto é “transformação”. Simplesmente não é a palavra que você está esperando, nem a situação que você está esperando. Uma palavra usada dessa forma se torna ao mesmo tempo mais íntima e mais exata do que aquilo que você encontra por aí. Você constrói seu estilo. Isto ajuda a pôr para fora o que você quer mostrar de si mesmo.

céline et bébert

Céline e seu gato Bébert

ENTREVISTADOR

            O que o senhor está tentando mostrar?

CÉLINE

            Emoção. Savy, o biólogo, disse algo apropriado: No princípio era a emoção, e não havia o verbo. Quando você encosta numa ameba ela se retrai, ela tem emoção, ela não fala, mas tem emoção. Um bebê chora, um cavalo galopa. Somente a nós foi concedido o verbo. Isto lhe dá o político, o escritor, o profeta. O verbo é horrível. Você não consegue cheirá-lo. Mas para  chegar ao ponto que consegue traduzir esta emoção, é uma dificuldade que ninguém imagina… É feio… É sobre-humano… É um truque que pode matar uma pessoa.

ENTREVISTADOR

            Entretanto, o senhor sempre reconheceu a necessidade de escrever.

CÉLINE

            Não se faz nada de graça. Você tem que pagar. Uma história que você cria não vale nada. A única história que vale alguma coisa é aquela pela qual você paga. Só quando você paga por ela, você tem o direito de transformá-la. Caso contrário, não presta. Quanto a mim, eu trabalho… Tenho um contrato que preciso cumprir. Só que hoje tenho sessenta e seis anos, estou setenta e cinco por cento mutilado. Na minha idade a maioria dos homens está aposentada. Devo seis milhões à Gallimard… então sou obrigado a continuar trabalhando… Já tenho outro romance em obras: é sempre a mesma coisa… Uma ninharia. Conheço alguns romances. Mas os romances são um pouco como as rendas… uma arte que desapareceu com os conventos. Os romances não podem competir com carros, cinema, televisão, bebida. Um sujeito que comeu bem, escapou da grande guerra, de noite dá um beliscão na sua velha, e acaba-se o dia. Está acabado.

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