Segunda parte da entrevista com Louis-Ferdinand Céline

celine et arletty à meudon 1958

Céline e sua mulher Arletty, Meudon 1958

Segunda parte da entrevista com Louis-Ferdinand Céline publicada na revista americana Paris Review (1960).

ENTREVISTADOR

            O senhor se lembra de ter tido um choque, uma explosão literária que o marcou?

CÉLINE

            Nunca! Comecei na medicina, queria a medicina e certamente, não a literatura. Jesus Cristo, não! Se existem algumas pessoas que me parecem talentosas, eu acho que são – sempre os mesmos – Paul Morand, Ramuz, Barbusse, os sujeitos que foram feitos para isso.

ENTREVISTADOR

Na sua infância, o senhor não pensava em ser escritor?

CÉLINE

            Não, não, não, definitivamente não. Eu tinha uma admiração enorme por médicos. Aquilo era realmente extraordinário, era mesmo. Medicina era minha paixão.

ENTREVISTADOR

            Na sua infância, o que um médico representava?

CÉLINE

            Apenas um tipo que vinha para a passage Choiseul para atender minha mãe doente, meu pai. Eu via um sujeito miraculoso, isso mesmo, que curava, que fazia coisas surpreendentes com um corpo que não queria mais funcionar. Eu achava aquilo magnífico. Ele parecia ser muito sábio. Eu achava aquilo absolutamente mágico.

ENTREVISTADOR

            E hoje, o que um médico representa para o senhor?

CÉLINE

Bah! Agora ele está tão maltratado pela sociedade que tem que competir com todo mundo, não tem mais prestígio, nenhum prestígio. Desde que passou a se vestir como um frentista de posto de gasolina, bem, pouco a pouco, foi se tornando um frentista de gasolina. Não tem muito mais o que dizer, a dona de casa tem o Larousse Médica, e aí até mesmo as doenças perderam o prestígio, muito poucas ainda têm algum, então, olhe o que acontece: nem sífilis, nem gonorreia, nem tifo. Os antibióticos tiraram bastante a tragédia da medicina. Então não existe mais peste, não existe mais cólera.

ENTERVISTADOR

            E as doenças mentais e nervosas, não aumentaram por sua vez?

CÉLINE

            Bem, nesse caso não temos muito que fazer. Algumas loucuras matam, mas não muitas. Porém, quanto aos meios loucos, Paris está cheia deles. Há uma necessidade natural de buscar excitação, mas obviamente todas as bundas que você vê pela cidade inflamam a atração sexual a um ponto que… leva os adolescentes à loucura, não leva?

ENTREVISTADOR

            Quando o senhor estava trabalhando na Ford, teve a impressão de que o modo de vida imposto às pessoas que trabalhavam lá poderia agravar os distúrbios mentais?

CÉLINE

            Não necessariamente. Tive um médico-chefe na Ford que costuma dizer: “Eles dizem que os chimpanzés catam algodão. Acho que seria preferível ver alguns  trabalhando nas máquinas”. Os doentes são preferíveis, muito mais apegados à fábrica do que os saudáveis, os saudáveis estão sempre se demitindo, enquanto os doentes permanecem muito bem no trabalho. Mas o problema humano agora não é a medicina. São, principalmente, as mulheres que consultam os médicos. A mulher é cheia de problemas, porque claramente é ela que tem todo tipo de fraqueza conhecida. Ela precisa… Ela quer permanecer jovem. Ela tem sua menopausa, sua menstruação, todo cuidado genital, que é muito delicado, isso faz dela um mártir, não é mesmo? Então esse mártir vive de qualquer maneira, sangra, não sangra, vai ao médico, passa por operações, não passa por operações, é operada de novo, e nesse meio tempo dá à luz, perde a forma, e tudo isso é importante. Ela quer permanecer jovem, manter bem a sua forma. Não quer fazer nada e não consegue fazer nada. Não tem músculos. Isso é um grande problema… raramente reconhecido. Isso mantém os salões de beleza, os médicos charlatões, os farmacêuticos. Mas isso não apresenta nenhuma situação médica interessante, o declínio da mulher. É obviamente uma rosa murchando, você não pode dizer que é um problema médico, ou um problema agrícola. Num jardim, quando você vê uma rosa murchar, você aceita. Outra vai desabrochar. Quanto à mulher, ela não quer morrer. Esta é a parte difícil.

ENTREVISTADOR

            Sua profissão como médico lhe trouxe um certo número de revelações e experiências que transmitiu em seus livros.

CÉLINE

            Ah, sim! Claro! Passei trinta e cinco anos clinicando, então isso conta um pouco. Andei muito por aí na minha juventude. Subimos muitas escadas, vimos muitas pessoas. Devo dizer que isso me ajudou bastante em todos os sentidos. Sim, bastante. Mas não escrevi nenhum romance médico, isso é abominavelmente chato… Como Soubiran.

ENTREVISTADOR

            A sua vocação médica se revelou muito cedo. Apesar disso, o senhor começou de modo inteiramente diferente.

CÉLINE

            Ah, sim! E como! Queriam fazer de mim um comprador. Um vendedor de loja de departamentos. Nós não tínhamos nada. Meus pais não tinham recursos, você entende? Comecei na pobreza, e assim estou terminando.

ENTREVISTADOR

             E como era a vida para os pequenos comerciantes por volta de 1900?

CÉLINE

            Dura, muito dura. No sentido de que mal tínhamos o suficiente para comer, e você tinha que manter as aparências. Por exemplo, nós tínhamos duas frentes de lojas na passage Choiseul, mas sempre ficava somente uma acesa porque a outra estava vazia. E você tinha que lavar a calçada antes de ir trabalhar. Meu pai não era brincadeira. Bem. Minha mãe tinha brincos. Nós sempre o levávamos para casa de penhora no fim do mês, para pagarmos a conta de gás. Ah, não, isso era horrível.

ENTREVISTADOR

            O senhor viveu por muito tempo na passage Choiseul?

CÉLINE

            Bem, dezoito anos. Até eu me alistar.  Era uma pobreza extrema. Mais difícil que a pobreza, porque na pobreza você vai levando, degenerando, se embebedando, mas aquela era uma pobreza que o mantinha para cima, pobreza dignificada. Era terrível. A vida inteira eu comia macarrão. Porque minha mãe costumava consertar rendados velhos. E uma coisa sobre renda antiga é que os odores ficam pra sempre nela. E você não podia entregar os rendados malcheirosos! Então, o que não dava cheiro? A cozinha na passage Choiseul ficava no segundo andar, do tamanho de um guarda-louças. Você chegava ao segundo andar através de uma escadaria em espiral, e assim, você tinha que ficar subindo e descendo interminavelmente para ver se a comida estava cozida, se estava fervendo, se não estava fervendo, era insuportável. E meu pai era um escriturário. Ele chegava em casa às cinco. Ele tinha que fazer as entregas para ela. Aquilo sim era pobreza, pobreza dignificada.

ENTREVISTADOR

            O senhor também sentia o desconforto da pobreza quando ia pra escola?

CÉLINE

            Não éramos ricos na escola. Era uma escola estadual, você sabe, não havia complexos. Nem muitos complexos de inferioridade, também. Todos éramos iguais, criancinhas pulguentas. Não, não havia ninguém rico naquele lugar. Conhecíamos quem era rico. Eram uns dois ou três. Nós os venerávamos! Meus pais costumavam me dizer, aquelas pessoas eram ricas, os comerciantes locais de tecido. Senhor Prudhomme. Eles entraram lá por engano, mas nós os reconhecemos, com admiração. Naquela época venerávamos quem era rico! Pela sua riqueza! E ao mesmo tempo pensávamos que os ricos eram inteligentes.

ENTREVISTADOR

            Quando e como o senhor se deu conta da injustiça que isso representava?

CÉLINE

            Devo confessar que muito tempo depois. Depois da guerra. Veja, isso aconteceu quando comecei a ver as pessoas fazendo dinheiro enquanto outras estavam morrendo nas trincheiras. Via isso e não podia fazer nada. Tempos depois, estava na Liga das Nações, e lá vi a luz. Vi que o mundo era realmente regido pelo Bezerro de Ouro, pelo Dinheiro! Sem brincadeira! Implacavelmente. A consciência social com certeza chegou tarde para mim. Não tinha isso, era resignado.

ENTREVISTADOR

            A atitude de seus pais era de aceitação?

CÉLINE

Louis-Ferdinand-Céline

Louis-Ferdinand Céline

Era uma aceitação frenética! Minha mãe sempre me dizia: “Pobre menino, se não houvesse as pessoas ricas (porque eu já tinha uma pequena ideia de como isso acontecia), se não existissem as pessoas ricas, não teríamos o que comer. Os ricos têm responsabilidades”. Minha mãe adorava os ricos, sabe? Então, o que você espera, isso me afetou também. Não fiquei muito convencido. Não. Mas eu não ousava dar uma opinião, não, não. Minha mãe, que estava com os rendados até o pescoço, jamais sonhou em poder usar um daqueles. Pois eles eram feitos para os clientes. Nunca. Não era para nós. Assim como o joalheiro. Ele não usava joia. A esposa do joalheiro nunca usou joias. Fui um dos seus mensageiros. No Robert, na rua Royale; no Lacloche, rua de la Paix. Eu era muito ativo naqueles dias. U-lá-lá! Eu fazia tudo muito rápido. Estou fora de forma agora, mas naquela época podia até competir com o metrô. Sempre machucávamos os pés. Meus pés sempre ficavam feridos. Pois, você sabe, não trocávamos os sapatos com tanta frequência. Nossos sapatos ficavam muito pequenos e nós crescíamos cada vez mais. Eu fazia todo meu percurso a pé. Sim… Consciência social… quando eu estava  na Cavalaria, ia às caçadas do príncipe Orloff e da duquesa de Uzès, e costumávamos usar os cavalos dos oficiais. Isso era o mais longe que se podia chegar. Éramos totalmente como gado. Sim. Ficou claro que isso fazia parte do jogo.

ENTREVISTADOR

            O senhor foi muito influenciado por sua mãe?

CÉLINE

            Tenho o caráter dela. Muito mais do qualquer outra coisa. Ela era difícil, impossível, aquela mulher! Devo dizer que ela tinha um temperamento complicado. Enfim, ela não aproveitava a vida. Sempre preocupada e sempre exausta. Trabalhou até os últimos minutos da sua vida.

ENTREVISTADOR

            Como ela o chamava? Ferdinand?

CÉLINE

            Não, Louis. Ela queria me ver numa grande loja, no Hôtel de Ville, no Louvre. Como um encarregado de compras. Este era o ideal para ela. Meu pai também pensava assim. Porque ele teve pouco sucesso com seu diploma de Letras! E meu avô tinha doutorado! Eles tiveram tão pouco sucesso, eles diziam: “Negócios, ele terá sucesso nos negócios”.

ENTREVISTADOR

            Seu pai não poderia ter alcançado uma situação melhor se aderisse ao magistério?

CÉLINE

            Sim, pobre homem, mas olhe o que aconteceu: ele precisava de um diploma para ensinar, e ele só tinha o diploma de formação geral, e não pôde ir mais adiante porque não tinha dinheiro. Seu pai havia morrido deixando esposa e cinco filhos.

ENTREVISTADOR

            E seu pai morreu idoso?

CÉLINE

            Ele morreu quando Viagem foi publicado, em 1932.

ENTREVISTADOR

            Antes de o livro sair?

CÉLINE

            Pouco antes. Ele não ia gostar. E, tem mais, era ciumento. Não me via como escritor. Nem eu mesmo. Pelo menos caso, tínhamos chegado a um acordo.

ENTREVISTADOR

            E como sua mãe reagiu aos seus livros?

CÉLINE

            Ela os considerava perigosos e obscenos, e achava que trariam problemas. Via que isso ia terminar muito mal. Ela tinha uma natureza prudente.

ENTREVISTADOR

            Ela leu seus livros?

CÉLINE

            Ah, ela não conseguia, isso não estava ao seu alcance. Ela pensava que tudo isso era vulgar, então não lia livros, não era do tipo de mulher que lia. Não era nem um pouco vaidosa. Trabalhou até a morte. Eu estava na prisão. E soube que ela havia morrido. Não, eu estava chegando em Copenhague quando soube da sua morte. Uma viagem terrível, muito ruim, sim – a orquestração perfeita. Abominável. Mas aas coisas só são abomináveis por um lado, não se esqueça. E, você sabe… a experiência é uma lâmpada fraca que só ilumina aquele que a carrega… e incomunicável… Tenho que guardá-la para mim mesmo. Para mim, você só deveria ter o direito de morrer se tivesse uma boa história para contar. Para entrar, você conta uma história e passa adiante. É sobre isso que Morte a crédito fala. Simbolicamente, o prêmio da vida sendo a morte. Tendo em vista que… não é o bom Deus quem dita as regras, e, sim, o diabo. O homem. A natureza é nojenta; dê só uma olhada, a vida dos pássaros, a vida animal.

ENTREVISTADOR

            Quando em sua vida o senhor foi feliz?

CÉLINE

            Muito feliz, nunca, eu acho. Porque o que você precisa, envelhecendo… Acho que se me dessem um monte de dinheiro para gastar – eu adoraria isso – eu me daria a chance de me aposentar e sumir, então não teria que trabalhar e poderia ficar observando os outros. A felicidade seria ficar sozinho, no litoral, e ser deixado em paz. E comer muito pouco; sim. Quase nada. Uma vela. Eu viveria sem eletricidade e sem outras coisas. Uma vela! Uma vela, e assim eu leria jornais. Vejo as outras pessoas agitadas, sobretudo excitadas por ambição; a vida delas é um show, os ricos vivem trocando convites para que a performance continue. Já vi isso, já vivi entre as pessoas da sociedade – “Escute, Gontran, ouça o que ele disse para você; Oh, Gaston, você realmente estava em forma ontem, hein! Mostrou a ele como é que era, hein! Ele me falou sobre isso ontem à noite, de novo! Sua esposa estava dizendo: Oh, Gaston nos surpreendeu!”.  É uma comédia. Eles gastam o tempo deles com esse tipo de coisa. Cada um caçando o outro, encontrando-se nos mesmos clubes de golfe, nos mesmos restaurantes.

ENTREVISTADOR

            Se o senhor tivesse uma outra oportunidade, buscaria a felicidade fora da literatura?

CÉLINE

            Mas é claro! Não peço alegria. Não sinto alegria. Aproveitar a vida é uma questão de temperamento, de dieta. Você tem que comer bem, beber bem, daí os dias passam rápido, não é mesmo? Comer e beber bem, dar uma volta de carro, ler alguns jornais, e, logo, lá se foi um dia. Seu jornal, alguns convidados, café da manhã, meu Deus, já é hora do almoço quando você sai para passear. Ver alguns amigos à tarde, e lá se vai o dia. À noite, cama, como de costume, e olhos fechados. E lá está você. E quanto mais idade, mais as coisas vão rápidas não é? Um dia é interminável quando você é jovem, por outro lado, quando você envelhece tudo fica muito breve. Quando você se aposenta, um dia é um flash; quando você é menino, é muito vagaroso.

ENTREVISTADOR

            Como o senhor preencheria seu tempo se estivesse aposentado e com renda?

CÉLINE

            Eu leria os jornais. Daria uma pequena caminhada onde ninguém pudesse me ver.

ENTREVISTADOR

            O senhor pode caminhar por aqui?

CÉLINE

            Não, nunca! É melhor não!

ENTREVISTADOR

            Por que não?

CÉLINE

            Eu seria notado. E não quero isso. Não quero ser visto. Num porto você desaparece. No Havre… Creio que ninguém notaria um sujeito nas docas do Havre. Você não vê nada, um velho marinheiro, um velho tolo…

ENTREVISTADOR

           E o senhor gosta de barcos?

CÉLINE

            Sim, sim. Adoro ficar observando-os. Vê-los indo e vindo. Isto e o quebra-mar, e eu fico feliz. Eles soltam fumaça, vão embora, e não têm nada ver com você, hein? Ninguém lhe pergunta nada! Sim, e você lê o jornal local, Le Petit Havrais, e… e é isso. Já é tudo. Eu viveria minha vida bem diferente.

ENTREVISTADOR

            Existem algumas pessoas que serviram de exemplo pra o senhor? Pessoas que gostaria de ter imitado?

CÉLINE

            Não, porque isso tudo é magnífico, tudo isso, e não quero ser magnífico, não sinto desejo por tudo isso, só quero ser um velho homem ignorado. Essas são as pessoas que vivem nas enciclopédias, não quero isso.

ENTREVISTADOR

            Quis dizer as pessoas que o senhor pôde encontrar na vida diária.

CÉLINE

            Não, não, não. Sempre os vejo prejudicando outras pessoas. Eles me dão nos nervos. Não. Tenho certo tipo de modéstia da minha mãe, uma insignificância absoluta, realmente absoluta! O que me interessa é ser ignorado. Tenho um apetite, um apetite animal pela vida reclusa. Sim gosto muito de Boulogne, sim, Boulogne-sur-mer. Eu frequentemente ia à Saint-Malo, mas isso não é mais possível. Sou mais ou menos conhecido lá. Lugares aonde as pessoas nunca vão…

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