A última entrevista de Céline

Céline par Gen Paul (extrait) LFC et Gen Paul ds les rues de Montmartre

Céline em Montmartre, por Gen Paul

A última entrevista concedida pelo autor de Viagem ao fim da noite aconteceu em 1 de junho de 1961 para a revista literária Paris Review. Um mês depois o escritor morreria.

ENTREVISTADOR

Nos seus romances, o amor tem muita importância? 

CÉLINE

Nenhuma. Você não precisa dele. Você deve ter modéstia quando é um romancista.

ENTREVISTADOR

E a amizade?

CÉLINE

Não menciono isso, tampouco.

ENTREVISTADOR

Bem, o senhor acha que deve se concentrar em sentimentos que não sejam importantes?

CÉLINE

Você deve falar sobre o trabalho. Isso é tudo o que importa.  E, além do mais, com muita discrição. Fala-se demais, com publicidade demais. Somos apenas objetos de publicidade. Isso é repugnante. Chegará o tempo em que todos poderão se curar com a modéstia. Não só na literatura como também em tudo. Estamos contaminados pela publicidade. Isso é realmente desprezível. Não há nada a fazer a não ser o seu trabalho, e bico calado. E é isso. O público olha para isso, não olha para aquilo, lê isso, ou não lê aquilo, e este é o negócio. O autor só tem que desaparecer.

ENTREVISTADOR

O senhor escreve pelo prazer de escrever?

CÉLINE

Não, absolutamente não. Se eu tivesse dinheiro, nunca escreveria. Regra número um.

ENTREVISTADOR

O senhor não escreve para expressar seu amor ou seu ódio?

CÉLINE

Não, de jeito nenhum! É só da minha conta ou não se aprovo esses sentimentos de que você está falando, amor e amizade; o público não tem nada a ver com isso.

ENTREVISTADOR

O senhor se interessa pelos seus contemporâneos?

CÉLINE

Não, nem um pouco. Fiquei interessado neles uma vez, para impedi-los de correr para  guerra. De qualquer maneira, eles não foram para guerra, mas voltaram cobertos de glória. Quanto a mim, bem, eu fui jogado na prisão. Meti-me em confusão por me preocupar com eles. Eu não deveria ter me preocupado. Eu devia me preocupar só comigo mesmo.

ENTREVISTADOR

Em seus últimos livros há certa quantidade de sentimentos que o revelam? 

CÉLINE

Você consegue se revelar, não importa como. Não é difícil.

ENTREVISTADOR

Está querendo nos convencer de que não há nada de íntimos em seus últimos livros?

CÉLINE

De íntimo, não, nada. Deve haver só uma coisa, a única, que é: não sei brincar com a  vida. Tenho certa superioridade sobre os outros que estão, depois de tudo, arruinados, porque eles estão sempre gozando a vida. Para gozar a vida, isto é, beber, comer, arrotar, foder, um monte de coisas que deixa o sujeito vazio, ou liberal. Já eu, não, não sou um gozador, de jeito nenhum. Então a coisa funciona bem. Sei como escolher. Sei como provar, mas, como disse o romano decadente: não é só ir para o bordel, é não ir embora o que conta, não é mesmo? Estive lá – toda a minha vida nos bordéis, mas caí fora rápido. Não bebo, não gosto de comer. Isso é para os merdas. Tenho o direito, não tenho? Só tenho uma vida: é dormir e ser deixado em paz.

ENTREVISTADOR

Quais são os escritores que o senhor reconhece um real talento para escrever?

CÉLINE

Há três figurões que por um grande período pensei que fossem escritores. Morand, Ramuz, Barbusse eram escritores. Eles tinham a intuição. Eram feitos para isso. Porém os outros não foram feitos para isso. Pelo amor de Deus, eram impostores, um bando de impostores, e os impostores são os mestres.

ENTREVISTADOR

O senhor acha que é ainda um dos maiores escritores vivos?

CÉLINE

Que nada. Os grandes escritores… não tenho que ficar dando voltas com adjetivos. Primeiro você tem que morrer, e quando você estiver morto, aí eles vão classificá-lo. Primeiramente você tem que estar morto.

ENTREVISTADOR

Está convencido de que a posterioridade lhe fará justiça?

CÉLINE

Mas, por Deus, não estou convencido! Bom Deus, não. E talvez nem mesmo exista uma França, então. Serão os chineses e os berberes que farão o inventário, e eles ficarão bastante perturbados com a minha literatura, meu estilo de tramar, minhas reticências… Isso não é difícil. Terminei, já que estamos falando sobre “literatura”. Terminei. Depois de Morte a crédito, eu já tinha dito tudo, e não foi muito.

ENTREVISTADOR

O senhor detesta a vida?

CÉLINE

Bem, não posso dizer que amo a vida. Tolero a vida porque estou vivo e tenho responsabilidades. Fora isso, faço bem o tipo da escola dos pessimistas. Tenho que ter esperança em alguma coisa. E não espero por nada. Espero morrer da maneira mais indolor possível. Como todo mundo. E é isso. Que ninguém sofra por mim, ou por causa de mim. Bem, morrer pacificamente, hum? Morrer, se possível, de uma infecção, ou, bem, eu mesmo acabo comigo. Seria bem mais simples. O que virá, é isto o que será mais e mais duro. É muito mais doloroso trabalhar agora do que há um ano, e no próximo ano será mais árduo que este ano. Isto é tudo.

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2 comentários sobre “A última entrevista de Céline

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