Nadja, o romance antiliterário

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De modo a poder variar a inclinação da cabeça… (p. 110)

Nadja, romance de André Breton publicado em 1928 é um marco da literatura surrealista e um marco na história da sensibilidade. Livro radical que ultrapassa fronteiras, mais que um romance de vanguarda, Nadja possui em sua gênese características puramente antiliterárias. Mas como seria possível um romance antiliterário? Antes de mais nada, é preciso dizer que o discurso de Breton está em sintonia com sua concepção de escrita automática, que se utiliza dos métodos da psicanálise. Na introdução do romance ele anuncia que não pretende apresentar descrições, ao contrário, procura aboli-las. É aqui que surgem as 47 fotos distribuídas ao longo do romance. Segundo o autor, essas fotos cumprem o papel de substituir as exaustivas descrições. No que diz respeito à linguagem, o próprio Breton responde no prefácio escrito para a edição de 1962. “O tom adotado para a narrativa, que se calca na observação médica, principalmente neuropsiquiátrica, em que a tendência é registrar tudo o que o exame e o interrogatório podem fornecer, sem a mínima preocupação com o estilo”.

Mas as fotografias em Nadja vão além da supressão das descrições. As imagens, para os surrealistas, possuem papel preponderante. Entre os retratos de Paul Éluard, Benjamin Péret, Louis Aragon, Robert Desnos, Madame Sacco, a vidente, vemos quadros de Braque, Chirico e Max Ernst, desenhos de Nadja, além das imagens de lugares que o personagem (o próprio André) percorre e frequenta ao lado dela. São teatros antigos, mercado de pulgas, pequenos cafés, hotéis baratos escondidos em ruas e vielas de Paris, uma Paris onírica que seguimos sem direção, mas que ao final sempre nos leva ao caminho de Nadja. A relação entre André e Nadja é uma relação de amor, mas também uma relação que joga com o acaso, com o mistério, com a incerteza, com as adivinhações e as analogias, enfim, com uma dialética que opõe em determinado momento, o idealismo de Nadja e o objetivismo materialista do personagem, que se recusa a venerar o trabalho. Aqui Breton ataca abertamente o capitalismo, que impede o sonho como potência subversiva e promove a alienação em massa, criando um sistema de aviltamento a que submete à maioria das pessoas.

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Cena de Les Detraquées – A menina de há pouco entra sem dizer nada… (p. 49)

Maurice Blanchot caracterizou os limites que esse romance ultrapassou, e ao ultrapassar, criou possibilidades até então inexploradas, produzindo na literatura um frisson nouveau. “Nadja: não devemos nos afastar desse livro, livro ‘sempre futuro’, não apenas porque abriu um novo caminho para literatura (como se contentar com uma inovação dessas, justo quando é o futuro do futuro que está em jogo?), mas talvez porque, passando a confiar a cada um de nós o cuidado de compreender a ausência de obra que designa como seu centro, ele nos obriga a provar a partir de que falta e em virtude de que defeito toda escrita contém o que escreve”.

Walter Benjamin também percebeu a importância do movimento surrealista naquele momento (durante o Terceiro Reich Benjamin fugiu para França). Em seu ensaio Surrealismo: último instantâneo da inteligência europeia, Benjamin descreve de onde vem essa influência, essa “energia revolucionária” que os surrealistas encontram em locais que passariam desapercebidos, em fotografias antigas (as primeiras surgidas no final do século XIX). Segundo Benjamin, o movimento surrealista “Foi o primeiro a ter pressentido as energias revolucionárias que transparece no ‘antiquado’, nas primeiras construções de ferro, nas primeiras fábricas, nas primeiras fotografias, nos objetos que começam a extinguir-se, nos pianos de cauda, nas roupas de mais de cinco anos, nos locais mundanos, quando a moda começa a abandoná-los. Esses autores compreenderam melhor que ninguém a relação entre esses objetos e a revolução”.

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Blanche Derval… (p. 52)

Uma cena considero particularmente especial no enredo labiríntico de Nadja. Trata-se do momento em que o personagem vai ao Théâtre de Deux-Masques (velho teatro “onde, durante o espetáculo, os ratinhos farejavam, roçando pelos nossos pés”), impulsionado pela curiosidade, já que a peça em cartaz “a única obra dramática (…) de que eu queira me lembrar”, havia gerado polêmica ao ponto da crítica pedir sua interdição. Chama-se Les Détraquées (As Desequilibradas), se passa em um pensionato de meninas e um dia após o intervalo, próximo das férias, na sala da diretora, uma das meninas que havia solicitado a visita de sua avó (pedia que fosse lhe buscar o mais rápido possível e fazia algumas queixas contra a diretora), mas colocada frente a esta, negou tudo o que confessara. Essa menina havia sumido sem deixar rastro e causara a mobilização de todos no lugar. Com nuances de um conto policial, uma personagem misteriosa, Solange, interpretada pela atriz “mais admirável e sem dúvida a única atriz daquele tempo, a quem vi representar nos Deux-Masques em várias outras peças em que não estava menos bela, mas de quem, talvez para minha grande vergonha, no entanto, nunca mais ouvi falar: Blanche Derval”, concentra em si todas as suspeitas, porém seu ar dissimulado e seu olhar frio, desvia-lhe por alguns momentos das suspeitas. A tranquilidade da diretora e de Solange começa a levantar suspeitas e no momento em que a diretora abre o armário de sua sala, o corpo da menina aparece ensanguentado, de cabeça pra baixo e despenca no chão. De repente, diz o narrador “O grito, o grito inesquecível (Na representação, acharam por bem advertir o público de que a artista que interpretava o papel da criança tinha dezessete anos completos. O essencial é que parecia ter onze). Não sei se o grito de que falo punha exatamente fim à peça (…) não tenham querido que Solange passasse por mais provações e que essa personagem, tentadora demais para ser verdadeira, devesse sofrer uma aparência de castigo que ela, aliás, nega com todo seu esplendor”.

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Seus olhos de avenca… (p. 102)

No prefácio assinado por Eliane Robert Moraes, Breton surge como herdeiro dos escritores oitocentistas (não notamos apenas os ecos do fantástico em Lautréamont, Nerval, Huysmans, mas também as pegadas de Victor Hugo, Eugène Sue e Zola), que exploraram as ruas de Paris “buscando vias de acesso às regiões mais secretas da alma humana”. A errância do personagem que vasculha as ruas da capital francesa pode ser encontrada também em Baudelaire, o flâneur que observa com admiração as fachadas de mármore e vidro das galerias das grandes cidades. Baudelaire critica a cidade de Bruxelas por essa não oferecer ao poeta, o prazer de flanar sem rumo certo, distraído, maravilhado pelas passagens e galerias.

Quem sou eu?, pergunta-se o personagem no início do romance. Quem é você?, dirige sua pergunta à misteriosa Nadja. “Eu sou a alma errante”.

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Um conto de Marguerite Duras

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Cartaz do colóquio em homenagem ao centenário de Duras, realizado em Belém

Em função da comemoração de seu centenário em 2014, Marguerite Duras foi tema de um recente colóquio e mostra de cinema realizado em Belém com o título “Uma poética do transbordamento”. Foi em Saigon (antiga Indochina francesa) que Duras nasceu em 1914 e passou sua infância e adolescência. Aos 18 anos mudou-se para Paris, onde estuda Direito, Matemática e Ciências Políticas. No final da Segunda Guerra Mundial Marguerite Duras foi filiada ao Partido Comunista Francês, mas rompeu em 1950. Teve papel destacado no movimento contra a guerra da Argélia e durante as manifestações do Maio de 68.

Seu legado literário inclui romances como o vencedor do Prêmio Gouncourt de1984, O amante, peças de teatro e roteiros cinematográficos, alguns muito famosos como Hiroshima Mon Amour, filme dirigido pelo cineasta Alain Resnais. Marguerite Duras morreu em Paris, em 3 de março de 1996. Abaixo, um conto presente em seu livro Cadernos da Guerra e outros textos, publicado em 2009.

BAILARINAS CAMBOJANAS

         Era naquela parte do alto Camboja presa entre o mar e a montanha, para o lado da fronteira do Sião. Lá só há uma estrada cada vez pior e que para, vencida, diante do mar. A serra do Elefante a ladeia até o fim e mergulha no calmo golfo de Ream, onde algumas ilhotas ainda se notam, cada vez mais raras. Algumas aldeiazinhas pobres estão semeadas à beira da estrada, enfiadas na floresta. Pela tarde elas se acendem; grandes fogueiras de lenha verde e pesadas colunas de fumaça resinosa embalsamam o campo.

Essa lokhon, essa dançarina, ia de aldeia em aldeia. Quando chegou a Bem-Teai, eu estava lá por acaso. Um pequeno tam-tam monótono anunciava-a desde a manhã; sem trégua ela chamava, implorava que se viesse vê-la; caída a noite, os caminhos ficaram cheios de curiosos, de mulheres e homens vindos de outras aldeias.

Quando cheguei, a palhoça estava escura e já repleta de gente. No meio, sobre um estrado nu, a lokhon já estava dançando. Lamparinas fumarentas pareciam isolá-la do resto do mundo e da noite. Uma velha cambojana, num canto da palhoça, agachada, cantava uma melopeia de ritmo duro. Sua voz era vazia e rouca. Sua voz era feia, mas ela sabia colocar na voz a paixão de um ritmo impecável; por vezes, para segui-lo, ela gritava, não podendo mais cantar, e seu grito parecia de desespero. Essa lembrança sempre continua para mim como uma visão:

A moça dança; ainda é jovem e, no entanto, sua beleza é madura e já pronta para o sacrifício do declínio.

Vestida de outros falsos embaçados, está mal maquiada, maquiada com cal. Seus ombros estão nus e os braços também. Deve ter andado por longos dias debaixo do sol, pois o pescoço está queimado. A pele do braço é branca e fresca e os pesados braceletes parecem mordê-la.

Ela não sabe dançar, é uma pagã, uma falsa lokhon. Dá sua dança a todos, dá sua juventude, não sabe guardar nada e, terminada a dança, dá seu corpo pelo resto da noite. Ninguém a quereria como criada, ela só dança à noite. De dia, dorme em alguma valeta ou anda pelas estradas com sua velha cantora, que só tem a ela.

Graças a sua dança, compreendi a dança khmer, aquela que desde de séculos alimenta um povo com as magia e carrega um [grande] cerimonial até nessa palhoça escura e …

Marguerite Duras

Marguerite Duras na França, 1955

Ela e a velha começam juntas. As primeiras notas cantadas são baixas e sombrias, mas sente-se logo que elas chamam outras, mais distantes.

A dança se inicia sobriamente, como se dedicasse uma extrema atenção para nascer no momento exato. Começa com uma batida de saltos; depois sobe, sinuosa e lenta até os quadris. Espalha-se e vive intensamente  no torso que logo se torna uma coisa fechada, infinitamente preciosa, de onde a dança tenta escapar sem se fartar.

Os quadris imobilizam-se, as pernas separam-se uma da outra e os pés fixam-se sabiamente. Então os braços e o busto recebem de repente a graça e são tomados pela necessidade da dança. Os braços flexíveis parecem partidos pelo eflúvio que recebem de repente a graça e são tomados pela necessidade da dança. Os braços flexíveis parecem partidos pelo eflúvio que recebem. Por vezes eles vivem contrariamente; um atrás rechaçando e defendendo, o outro levado à frente, com a palma inflamada, implorando. A mão, a divina mão está quebrada como por um peso grande demais.  Está rígida e sofre infinitamente.

Uma vez que começa, ela improvisa, sem dúvida. Pensa-se na derradeira atenção da dançarina de corte aprisionada em sua dança, essa segunda vida que a designou e que a possui. Já esta, esta é livre, e trama a sua dança numa solidão perfeita consigo mesma.

Dir-se-ia que ela se estira para fora do próprio corpo, de repente cansada de [abranger] tão pouco espaço, de não poder ir mais longe fora de si mesma.

Depois a dança para.

A dançarina volta a seu pequeno corpo acanhado e lasso. Ofegante e fosca pelo calor, ela descansava. Todos consideravam com uma curiosidade baixa e cruel. Despida pela primeira vez, sua nudez de aparato ficava exposta; e os homens a desejavam de repente por causa dessa fadiga que a entregava a eles.

Ela teve de dançar a noite toda. Por longo tempo o pequeno tambor lançou seu apelo menor. Só parou quando a fresca madrugada entrou na palhoça, esgotada.

Ela se foi com o dia, pois era daquelas que não podem parar em lugar algum.

A preciosíssima dançarina de corte riria de sua dança e de sua sorte, sem compreender que ela também foi designada para levar aos campos longínquos a mensagem de sua dança mal aprendida.

Veja mais: Filme com roteiro escrito por Marguerite Duras e dirigido por Alain Resnais, Hiroshima mon amour (1959). [Legendas em espanhol]

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O romance cubano El hombre que amaba a los perros

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Primeira edição do romance El hombre que amaba a los perros

Publicado em 2009 e traduzido no Brasil em dezembro de 2013 pela Boitempo Editora, O homem que amava os cachorros é um romance que se desenvolve ao longo de fatos históricos que marcaram profundamente a humanidade no século XX. Revolução Russa, Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial, são alguns dos cenários que compõe o romance. O livro do escritor cubano Leonardo Padura coloca no centro de sua narrativa a história de três personagens: o líder bolchevique Leon Trotski, seu assassino, o militante catalão Ramón Mercader e o cubano aspirante a escritor Iván.

Iván vive em Havana e trabalha em uma paupérrima clínica veterinária e conhece na praia um homem que costumava aparecer na orla para passear com dois cachorros. Após conhecer o homem, o escritor – que havia publicado um livro de contos que alcançara certa notoriedade em Cuba e que agora estava afastado do mundo das letras – descobre que a história que aquele homem começara a revelar se tratava de um crime abjeto e emblemático: o assassinato de Trotski. Jaime López (assim se chamava o homem que acompanhava os cães) ao longo de alguns encontros com Iván acaba revelando que o assassino do dirigente bolchevique era seu amigo de muitas datas e a partir daí conhecemos os impulsos e os motivos que levaram Ramón Mercader a assassinar Liev Davídovich (Trotski era um pseudônimo). É nesse momento que Iván encontra um tema para seu novo livro.

Com uma narrativa empolgante caracterizada por seu estilo policial, o romance se desenvolve intercalando três histórias. Da expulsão do partido seguido pela deportação da própria União Soviética, Trostki se vê condenado pela burocracia stalinista a um exílio forçado. Depois de passar pela Turkia, França e Noruega, países que após um período cederam às pressões do governo da União Soviética e acabaram expulsando o velho bolchevique pra fora de suas fronteiras, é no México que o ex comandante do Exército Vermelho vai enfrentar a propaganda detratora vinda de Moscou. Ao lado de Diego Rivera e Frida Kahlo, que acolhem Trotski e sua companheira Natalia Sedova na Casa Azul em Coyoacán, Cidade do México, acompanhamos momentos dramáticos da vida do casal russo, como a misteriosa morte de seu filho Liova em Paris, responsável por organizar na França a fundação da IV Internacional. Também acompanhamos o início e o fim da conturbada relação extraconjugal de Trotski e Frida Kahlo, os desentendimentos com Diego Rivera e a visita que o escritor surrealista André Breton faz ao casal exilado no México.

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O escritor cubano Leonardo Padura

De seu assassino, conhecemos a história do jovem comunista da Catalunha, que após se apaixonar perdidamente por uma comunista (África), se torna um militante profissional. Depois de lutar em defesa da República Espanhola é recrutado por quadros do Partido Comunista Soviético para desenvolver “uma grande tarefa para revolução mundial”. A partir daqui vemos a mudança no perfil do espanhol Ramón Mercader, que passa por diversos treinamentos em território soviético, até se tornar um servo fiel e obediente dos ditames “do camarada Stálin”. Na pele de Jacques Mornard, Ramón Mercader acompanha de Paris os comandos vindos de Moscou e aguarda ansiosamente o dia em que poderá desferir o derradeiro golpe que eliminará de vez a presença física de Leon Trotski.

Outro tema abordado pelo escritor cubano é o drama que muitos jovens sentiram durante a década de 80, momento em que a ilha vivia uma forte crise social acompanhada das ausências de liberdades democráticas. Nesse cenário, Padura aborda o tema da homossexualidade através do professor universitário irmão de Iván. Quando o professor assume sua posição sexual ele acaba sendo expulso da universidade onde trabalhava, encontrando também a hostilidade da própria família.

Por sua habilidade com a narrativa, seu estilo noir e sua pesquisa histórica, Leonardo Padura escreve um romance envolvente que resgata não só a história de personagens importantes do século XX, mas também nos leva a refletir sobre os mecanismos de poder que se estabeleceram no seio do primeiro Estado operário e os efeitos que resultaram dos expurgos, das perseguições políticas de opositores bem como a campanha massiva que após marginalizar politicamente, conseguiu enfim, assassinar o maior crítico da burocracia soviética. Por outro lado, El hombre que amaba a los perros também reflete sobre o fim trágico dos três personagens que norteiam o romance: Trotski é assassinado covardemente; Após cometer seu crime e passar alguns anos na prisão, Ramón leva uma vida abjeta até sua morte; Iván morre de maneira desoladora, soterrado pelo teto precário de sua casa que desaba enquanto ele dormia. Com essa visão final da vida e dos esforços que os personagens fizeram para defender suas ideias e suas utopias, Leonardo Padura desvenda não só a traição stalinista como os caminhos funestos que a ditadura castrista vem levando há algumas décadas em Cuba. No fim das contas, percebemos no final do romance outra ligação entre os personagens que vai além do contexto histórico por um simples fato: os três eram homens que amavam os cachorros.