O romance cubano El hombre que amaba a los perros

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Primeira edição do romance El hombre que amaba a los perros

Publicado em 2009 e traduzido no Brasil em dezembro de 2013 pela Boitempo Editora, O homem que amava os cachorros é um romance que se desenvolve ao longo de fatos históricos que marcaram profundamente a humanidade no século XX. Revolução Russa, Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial, são alguns dos cenários que compõe o romance. O livro do escritor cubano Leonardo Padura coloca no centro de sua narrativa a história de três personagens: o líder bolchevique Leon Trotski, seu assassino, o militante catalão Ramón Mercader e o cubano aspirante a escritor Iván.

Iván vive em Havana e trabalha em uma paupérrima clínica veterinária e conhece na praia um homem que costumava aparecer na orla para passear com dois cachorros. Após conhecer o homem, o escritor – que havia publicado um livro de contos que alcançara certa notoriedade em Cuba e que agora estava afastado do mundo das letras – descobre que a história que aquele homem começara a revelar se tratava de um crime abjeto e emblemático: o assassinato de Trotski. Jaime López (assim se chamava o homem que acompanhava os cães) ao longo de alguns encontros com Iván acaba revelando que o assassino do dirigente bolchevique era seu amigo de muitas datas e a partir daí conhecemos os impulsos e os motivos que levaram Ramón Mercader a assassinar Liev Davídovich (Trotski era um pseudônimo). É nesse momento que Iván encontra um tema para seu novo livro.

Com uma narrativa empolgante caracterizada por seu estilo policial, o romance se desenvolve intercalando três histórias. Da expulsão do partido seguido pela deportação da própria União Soviética, Trostki se vê condenado pela burocracia stalinista a um exílio forçado. Depois de passar pela Turkia, França e Noruega, países que após um período cederam às pressões do governo da União Soviética e acabaram expulsando o velho bolchevique pra fora de suas fronteiras, é no México que o ex comandante do Exército Vermelho vai enfrentar a propaganda detratora vinda de Moscou. Ao lado de Diego Rivera e Frida Kahlo, que acolhem Trotski e sua companheira Natalia Sedova na Casa Azul em Coyoacán, Cidade do México, acompanhamos momentos dramáticos da vida do casal russo, como a misteriosa morte de seu filho Liova em Paris, responsável por organizar na França a fundação da IV Internacional. Também acompanhamos o início e o fim da conturbada relação extraconjugal de Trotski e Frida Kahlo, os desentendimentos com Diego Rivera e a visita que o escritor surrealista André Breton faz ao casal exilado no México.

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O escritor cubano Leonardo Padura

De seu assassino, conhecemos a história do jovem comunista da Catalunha, que após se apaixonar perdidamente por uma comunista (África), se torna um militante profissional. Depois de lutar em defesa da República Espanhola é recrutado por quadros do Partido Comunista Soviético para desenvolver “uma grande tarefa para revolução mundial”. A partir daqui vemos a mudança no perfil do espanhol Ramón Mercader, que passa por diversos treinamentos em território soviético, até se tornar um servo fiel e obediente dos ditames “do camarada Stálin”. Na pele de Jacques Mornard, Ramón Mercader acompanha de Paris os comandos vindos de Moscou e aguarda ansiosamente o dia em que poderá desferir o derradeiro golpe que eliminará de vez a presença física de Leon Trotski.

Outro tema abordado pelo escritor cubano é o drama que muitos jovens sentiram durante a década de 80, momento em que a ilha vivia uma forte crise social acompanhada das ausências de liberdades democráticas. Nesse cenário, Padura aborda o tema da homossexualidade através do professor universitário irmão de Iván. Quando o professor assume sua posição sexual ele acaba sendo expulso da universidade onde trabalhava, encontrando também a hostilidade da própria família.

Por sua habilidade com a narrativa, seu estilo noir e sua pesquisa histórica, Leonardo Padura escreve um romance envolvente que resgata não só a história de personagens importantes do século XX, mas também nos leva a refletir sobre os mecanismos de poder que se estabeleceram no seio do primeiro Estado operário e os efeitos que resultaram dos expurgos, das perseguições políticas de opositores bem como a campanha massiva que após marginalizar politicamente, conseguiu enfim, assassinar o maior crítico da burocracia soviética. Por outro lado, El hombre que amaba a los perros também reflete sobre o fim trágico dos três personagens que norteiam o romance: Trotski é assassinado covardemente; Após cometer seu crime e passar alguns anos na prisão, Ramón leva uma vida abjeta até sua morte; Iván morre de maneira desoladora, soterrado pelo teto precário de sua casa que desaba enquanto ele dormia. Com essa visão final da vida e dos esforços que os personagens fizeram para defender suas ideias e suas utopias, Leonardo Padura desvenda não só a traição stalinista como os caminhos funestos que a ditadura castrista vem levando há algumas décadas em Cuba. No fim das contas, percebemos no final do romance outra ligação entre os personagens que vai além do contexto histórico por um simples fato: os três eram homens que amavam os cachorros.

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