Jazz e Nouvelle Vague

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Cartaz do filme de Louis Malle

Em 1957, Jean-Paul Rappeneau (assistente do então jovem cineasta Louis Malle, que tinha 25 anos) convida o trompetista americano Miles Davis para compor a trilha sonora do primeiro filme de Louis Malle, “Ascenseur pour l’echafaud” (Ascensor para o cadafalso). O elenco conta Jeanne Moreau, que mais tarde ganharia reconhecimento internacional por sua atuação nos filmes da chamada “nova onda”, sobretudo no papel de Catherine, em Jules et Jim (1962) de François Truffaut. A criação da trilha composta por Miles Davis não durou mais que dois dias, iniciando na noite de 4 dezembro e terminando na manhã do dia seguinte. Nessa época, o jazz começava a conquistar o público europeu. Mesmo antes, no romance A Náusea de Sartre, publicado em 1938, várias passagens fazem referência direta ao jazz. Antoine Roquetin, narrador e personagem principal do romance de Sartre, repente várias vezes a letra de Some of these days. Em seu História Social do Jazz, Eric Hobsbawn fala sobre as diferenças entre a influência do jazz nos EUA, sua terra natal e sua influência no contexto europeu. “Mas o mais significativo é que, desde o início da década de 1950 em Hollywood – e desde o final da década de 1950, na televisão americana e no cinema europeu – surgiu a moda de criar, para filmes sobre crime, sexo e gerações perdidas, trilhas de jazz sérias ou descomprometidas, a maioria de caráter moderno. Musicalmente, os franceses foram os mais bem-sucedidos nesse tipo de ligação, principalmente com trilhas feitas por Miles Davis e o Modern Jazz Quartet (…) pois o jazz, nos Estados Unidos, é uma linguagem comum e não apenas, como na França, um tipo de gíria das classes altas”. O disco “Ascenseur pour l’echafaud”, além de Miles Davis no trompete, conta com o também americano Kenny Clarkes na bateria e os músicos franceses Barney Wilen, sax tenor, René Urtreger, piano e Pierre Michelot, baixo.

Miles Davis – Ascenseur pour l’echafaud (Full Album) http://migre.me/sgxde

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Benjamin e as cidades II: Paris

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O Sena, imagem extraída do livro Paris, de Mario Bucovich, citado por Benjamin.

  1. Em Machado de Assis, temos em algum momento, através de um de seus personagens, a ideia de que Paris é a “capital do mundo”. Em um ensaio dedicado à capital francesa, no livro Imagens de pensamento – Sobre o haxixe e outras drogas, Benjamin analisa, na arquitetura, na História e em outros aspectos da cidade, o fascínio que ela despertou em muitos artistas e nele próprio. Não à toa, essa “imagem de pensamento” sobre a cidade chama-se “Declaração de amor dos poetas e dos artistas à capital do mundo”. Segundo Benjamin, uma das principais características de Paris, ou melhor, aquilo que melhor lhe representa, é o espelho. “Paris, a cidade no espelho”.
  1. Para o filósofo alemão, nenhuma cidade possui relação mais próxima, mais íntima com o livro que Paris. A ideia de Giraudoux segundo a qual “o supremo sentimento de liberdade humana é o de deambular ao longo do curso de um rio”,  que Benjamin resgata e insere-a no contexto da cidade, observando que “aqui o ócio mais acabado e a mais feliz liberdade conduzem-nos para o livro e para dentro dos livros. Há séculos que a hera de folhas eruditas prolifera pelos cais despidos do Sena: Paris é a grande sala de uma biblioteca atravessada pelo Sena”. Em sua imagem da cidade, a arquitetura, as praças, tudo é motivo literário ou motivo de inspiração literária. O romance Notre-Dame de Victor Hugo, Os noivos da Torre Eifell, de Jean Cocteau, o romance policial O fantasma da ópera, de Leroux, etc.
  1. “Esta cidade inscreveu-se de forma tão indelével na literatura porque ela própria é animada por um espírito muito próximo dos livros. Não é verdade que ela, como um romancista experimentado, preparou de longa data os mais fascinantes motivos da sua construção? Nela temos as grandes vias estratégicas, destinada a garantir às tropas o acesso a Paris pela Porte de Maillot, a Porte de Vincennes, a Porte de Versailles. E numa bela manhã, de um dia para o outro, Paris tinha as melhores vias para o trânsito automóvel de toda a Europa. Temos a Torre Eiffel – um puro monumento da técnica com espírito esportivo -, e um belo dia acordamos e é uma estação de rádio europeia. E as incontáveis praças vazias: não serão elas páginas solenes, imagens de página inteira nos volumes da história universal? Na Place de Grèves brilha, em números vermelhos, o ano de 1789. Rodeado pelos ângulos dos telhados da Place des Vosgues, onde encontrou a morte Henrique II. Com traços apagados, uma escrita indecifrável naquela Place Maubert, outrora porta de entrada na Paris sinistra…”
  1. Walter Benjamin descreve em sua imagem da capital francesa, um outro aspecto, que diz respeito aos apaixonados que renderam homenagem à cidade. “Quase sempre os amantes mais apaixonados por esta cidade vieram de fora. E estão espalhados por todo o globo”. Paris a cidade espelho, refletida em uma miríade de fachadas de bistrô, painéis de vidro. “Não foram apenas o céu e a atmosfera, os anúncios luminosos nos boulevards, à noite, que fizeram de Paris a ‘cidade luz’. Paris é a cidade espelho: liso como um espelho é o asfalto das ruas (…) na fachada de todos os bistrôs, painéis de vidro: as mulheres veem-se ao espelho neles, mais do que em qualquer outro lugar. A beleza das parisienses saiu desses espelhos. Antes de o homem vê-la, já dez espelhos a observaram (…) Os espelhos são o elemento espiritual desta cidade, o seu brasão, no qual se inscrevem ainda os emblemas de todas as academias poéticas”. Os espelhos foscos, embaçados das tavernas, refletem-se, segundo o filósofo, no naturalismo de Zola e “o modo como se refletem uns nos outros em séries infinitas é o contraponto da infinita recordação de recordações em que, sob a pena de Marcel Proust, se transformou sua própria vida”.

Modiano: ficção e história

modiano

Patrick Modiano

  1. Publicado em 1991, Flores da Ruína, romance do escritor francês Patrick Modiano (vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2014), é uma incansável busca pela desconhecida história por trás de lugares comuns da capital francesa. Narrado em primeira pessoa, o autor utiliza em várias passagens da narrativa, referências autobiográficas, mencionando ora o irmão morto ainda na infância, ora o pai, um judeu preso durante a Ocupação. Com um estilo de frases curtas, o autor explora a quebra cronológica do tempo narrativo. Modiano faz com que seu personagem ande sem nenhum destino certo, e assim, ele começa a reencontrar lugares que fazem parte de suas lembranças, mas que há muito tempo ele não revia. “Sentia-me apreensivo ao passar por lugares onde não colocava os pés desde meus dezoito anos”. Os lugares pelos quais o narrador irá seguir até o fim da narrativa, são jardins, praças, estações de metrô, cafés, restaurantes e outros ambientes, que fazem ressurgir na memória e imaginação do narrador (aqui misturam-se história e ficção), um tempo e uma geografia tardia, alterada, transformada e ressignificada em uma realidade que esconde discretamente, suas ligações com o passado. “Tinha a sensação de que os lugares permaneceram do jeito que eu os havia deixado no início dos anos sessenta, e que foram abandonados na mesma época, lá se iam mais de vinte e cinco anos”. Surge ainda, em algumas passagens e como pano de fundo, referências diretas a momentos históricos da França, como a Ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial e a revolta de estudantes em Maio de 68.
  2.  Para seguir em busca de pistas que ajudem e descrever a história daqueles lugares, o narrador conta com o auxílio de jornais antigos, listas telefônicas, pesquisas em anuário, guias de ruas, etc. É no momento em que desemboca numa praça que o narrador irá lembrar do número 26 da rue des Fossés-Saint Jacques. Foi nesse endereço que, em 1933 “um jovem casal se suicida por razões misteriosas”. Esse caso irá acompanhar o narrador até o fim, que pretende encontrar as causas de um crime cometido há muitos anos. Sabe-se pouco sobre o casal. Urbain T. “jovem engenheiro” e Gisele S. “uma bela mulher loura, alta e esbelta”. Aparentavam uma vida tranquila e feliz e numa noite de sábado, resolvem sair para jantar. Retornam duas da manhã para seu apartamento, “acompanhados por dois casais que tinham acabado de conhecer”. Às quatro horas os dois casais vão embora e pouco tempo depois, ouvem-se disparos. Uma vizinha decide, horas depois, tocar a campainha. A mulher aparece na porta, ensanguentada, ferida abaixo do seio esquerdo. “Ela murmurou: Meu marido! Meu marido! Morto”. Com a chegada do comissário de polícia, a cena do crime. “Ele ainda segurava o revólver na mão crispada. Tinha se suicidado com uma bala no coração” e ainda assim, havia deixado um bilhete, escrito às pressas, que dizia: “Minha mulher se matou. Estávamos bêbados. Eu me matei. Não procurem…”.
  3. Modiano persiste, até o fim do romance, no uso da memória, das lembranças e recordações como elementos determinantes na construção e desenvolvimento da narrativa. Outros personagens secundários também são evocados, como Jaqueline, a namorada do narrador que o acompanha ainda muito jovem, com vinte anos, para Viena, Áustria; Claude Bernard, que possuía um armazém no mercado de pulgas e um sebo na avenue de Clichy; o tímido e misterioso Pacheco; a dinamarquesa que lhe oferece Whisky, quando ele está fugindo de uma aula, etc. Para o narrador de Flores da Ruína, trata-se de criar um mundo próprio, forjado na força da memória e dos fragmentos da história, que somados ao caos da realidade, imprimem a singularidade de um espaço poético. De modo que a grande aventura do personagem é determinada em encontrar na realidade, fragmentos e ecos de um passado e de uma Paris ausente, distante, como a vista de uma cidade que, ao longe, permanece encoberta por um cinza invernal, ou como diria Eliot, uma fulva neblina.

Uivo – III parte

Carl Salomon! Eu estou com você em Rockland onde você está mais louco do que eu

Eu estou com você em Rockland

onde você deve sentir-se muito estranho

Eu estou com você em Rockland

onde você imita a sombra da minha mãe

Eu estou com você em Rockland

onde você assassinou suas doze secretárias

Eu estou com você em Rockland

onde você ri desse humor invisível

Eu estou com você em Rockland

onde somos grandes escritores na mesma abominável máquina de escrever

Eu estou com você em Rockland

onde seu estado se tomou muito grave e é noticiado pelo rádio

Eu estou com você em Rockland

onde as faculdades do crânio não aguentam mais os vermes dos sentidos

Eu estou com você em Rockland

onde você bebe os chás dos seios das solteironas de Utica

Eu estou com você em Rockland

onde você bolina os corpos das suas enfermeiras as hárpias do Bronx

Eu estou com você em Rockland

onde você grita dentro de uma camisa de força que está perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo

Eu estou com você em Rockland

onde você martela o piano catatônico a alma é inocente e imortal e nunca poderia morrer impiamente num hospício armado,

Eu estou com você em Rockland

onde com mais cinquenta eletrochoques sua alma nunca mais retornará a seu corpo de volta da sua peregrinação rumo a uma cruz no vazio

Eu estou com você em Rockland

onde você acusa os seus médicos de loucura e prepara a revolução socialista hebraica contra o Gólgota nacional e fascista

Eu estou com você em Rockland

onde você rasga os céus de Long Island e faz surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo sobre-humano

Eu estou com você em Rockland

onde há mais vinte cinco mil camaradas loucos todos juntos cantando versos finais da Internacional

Eu estou com você em Rockland

onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos sob nossas cobertas os Estados Unidos que tossem a noite toda e não nos deixam dormir

Eu estou com você em Rockland

onde despertamos eletrocutados do coma pelos nossos próprios aeroplanos da mente roncando sobre o telhado eles vieram jogar bombas angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora ó choque de misericórdia salpicado de estrelas a guerra eterna chegou Ó vitória esquece tua roupa de baixo estamos livres

Eu estou com você em Rockland

nos meus sonhos você caminha gotejante de volta de uma viagem marítima pela grande rodovia que atravessa América em lágrimas até a porta do comeu chalé dentro da Noite Ocidental

andy

Andy Warhol – Campbell’s Soup

Uivo – II parte

Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias! Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!

Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!

Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!

Moloch cuja a mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!

Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!

Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio! Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!

Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!

Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz escorrendo do céu!

Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! Subúrbios invisíveis! Tesouros de esqueletos! Capitais cegas! Indústrias demoníacas! Nações espectrais! Invencíveis hospícios! Caralhos de granito! Bombas monstruosas!

Eles quebraram suas costas levando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!

Visões! Profecias! Alucinações! Milagres! Êxtases! Descendo pela correnteza do rio americano!

Sonhos! Adorações! Iluminações! Religiões! O carregamento todo de bosta sensitiva!

Desabamentos! Sobre o rio! Saltos e crucifixões descendo a correnteza! Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! Jogados nos rochedos do Tempo!

Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! O olhar selvagem! Os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! Rumo à solidão! Acenando! Levando flores! Rio abaixo! Rua acima!

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Jackson Pollock

Uivo – I parte

Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

I

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,

Arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,

Que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,

Que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,

Que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,

Que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o Terror através da parede,

Que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para New York,

Que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite

Com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,

Incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,

Solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,

Que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,

Que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,

Que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,

Batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,

Tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,

Intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada à rua,

Que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões-postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,

Sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliados de Newark,

Que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,

Que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,

Que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,

Que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários,

Que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural,

Que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à meia-noite,

Que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para África,

Que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra de suas calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,

Que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais em suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,

Que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,

Que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island

Que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,

Que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,

Que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,

Que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,

Que enrabaram e foram enrabados por serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,

Que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseiras, que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmen pra quem quisesse vir,

Que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespassá-los com sua espalda,

Que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão,

Que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão de boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,

Que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,

Que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N. C. herói secreto destes poemas, garanhão e Adônis de Denver – prazer ao lembrar das suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também,

Que apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam até as agências de desemprego,

Que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto com montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,

Que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamento do Hudson à luz azul de holofote antiaéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,

Que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,

Que choraram diante do romance de ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,

Que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos,

Que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,

Que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,

Que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht & tortillas sonhando com o puro reino vegetal,

Que se atiram sob caminhões de carne em busca de um ovo,

Que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças por todos os dias da década seguinte,

Que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram,

Que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanelas em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido dos batalhões de ferro da moda & os guinchos de nitroglicerina das bichas das propaganda & o gás mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta,

Que se jogaram da ponte de Brooklyn, isso realmente aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros de Chinatown, nem uma cerveja de graça,

Que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se da janela do metrô, saltaram no imundo rio Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30 na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,

Que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília de cadeia do Gólgota de carro envenenado de cada um ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,

Que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido uma visão para descobrir a Eternidade,

Que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver & esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está com saudades dos seus heróis,

Que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando por sua salvação e luz e peito até que a calma iluminasse seu cabelo por um segundo,

Que se arrebentaram nas suas mentes na prisão aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada e o encanto da realidade em seus corações que entoavam suaves blues de Alacatraz,

Que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave Buda ou Tânger para os garotos ou Pacífico Sul para a locomotiva negra ou Havard para Narciso para o cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o túmulo,

Que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,

Que jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e em seguida se apresentaram nos degraus de granito do manicômio com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,

E que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrasol choque elétrico hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pingue-pong & amnésia, que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica de pingue-pongue, mergulhando logo a seguir na catatonia,

Voltando anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue e lágrimas e dedos para a visível condenação de louco nas celas das cidades-manicômio do Leste,

Piligrim State, Rockland, Greystone, seus corredores fétidos, brigando com ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão à meia noite dos domínios de mausoléu druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos transformados em pedras tão pesadas quanto a lua,

Com a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela do cortiço e a última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação –

Ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo –

E que por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro & do plano vibratório,

Que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arranjo da alma entre 2 imagens justapostas e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque de consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,

Para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento em sua cabeça nua e infinita,

O vagabundo louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo após a morte,

E se reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz no espectro da trompa dourada da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com que as cidades tremessem até seu último rádio,

Com o coração absoluto do poema da vida arrancado de seus corpos bom para comer por mais mil anos.

(Tradução: Claudio Willer)

Jean-Michel Basquiat & Keith Haring

Jean-Michel Basquiat & Keith Haring

Benjamin e as cidades I: Nápoles

Heinrich Hermanns - A Festive Afternoon with a view over Naples

Heinrich Hermanns – A Festive Afternoon with a view over Naples

  1. Em Imagens de pensamento – Sobre o haxixe e outras drogas, Benjamin descreve em forma de diário, vários aspectos de algumas das cidades que visitou. Em 1924 o filósofo alemão esteve na Ilha de Capri, na companhia da revolucionária russa Asja Lacis, cuja autoria do texto sobre Nápoles, publicado no Frankfurter Zeitung, é atribuída a ambos. Nesse texto, Benjamin enxerga em Nápoles (e não em Roma) o último reduto do catolicismo italiano. Um dos personagens da cidade, Alfonso Maria de’ Liguori (1696 – 1787) beatificado em 1816 e proclamado santo em 1839 pelo papa Gregorio XVI, é caracterizado como o “santo que flexibilizou as práticas da igreja (…) no ofício de delinquentes e prostitutas”. Outro detalhe percebido: a única a se igualar à criminalidade organizada da Camorra é a Igreja e não a Polícia.
  1. A cidade é percebida também em seus aspectos de miséria e delinquência. A paisagem urbana é vista em sua ausência de luz, como uma cidade cinza, “de um cinzento vermelho ocre, um cinzento branco” onde a ordem só consegue espaço ao abrigo dos “grandes hotéis e armazéns do cais”, ao passo que a anarquia impera no antigo centro da cidade; aqui, diz o autor, não se orienta pelo número das casas, mas pelas “lojas, fontes e igrejas”. Em certas bancas das ruas do porto o viajante pode encontrar “pontas de cigarro, cabeças de gato e restos de comida”. Nápoles produz o seu próprio som e o barulho da cidade é oriundo dos jogos de azar, das festas populares que ocupam as ruas e se somam ao vozerio dos jovens vendedores de jornais. Benjamin identifica esse vozerio, é “o grito da manufatura urbana”. Os cafés da cidade nem de longe lembra os cafés vienenses, reservado às elites burguesas. O café napolitano, comenta o filósofo, é tumultuado, um lugar “onde não é possível passar muito tempo” e “quanto mais pobre o bairro, mais numerosas são as tabernas”.

Conversa galante

Eliot

Eliot

Observo: “Nossa sentimental amiga, a Lua!

Ou talvez (é fantástico, admito)

Seja o balão do Preste João que agora fito

Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar

Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar.”

E ela: “Como divagais!”

Eu, então: “Alguém modula no teclado

Esse noturno raro, com que explicamos

A noite e o luar; partitura que roubamos

Para dar forma ao nosso nada.”

E ela: “Me dirá isso respeito?”

“Oh, não! Eu é que de vazios sou apenas feito.”

“Vós, senhora, sois a perene ironia,

A eterna inimiga do absoluto,

A que mais de leve torce nossa tristeza erradia!

Com vosso ar indiferente e resoluto,

De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios…”

E ela: “Seremos afinal assim tão sérios?”

(Tradução: Ivan Junqueira)

A prosa anárquica de Gombrowicz

Witold Gombrowicz

Witold Gombrowicz

  1. Decidido a abandonar o lar, a casa onde mora com seus pais em Varsóvia, o personagem principal de Cosmos (romance escrito em 1965 pelo polonês Witold Gombrowicz) anda sem rumo, apenas com a certeza de ir. Para onde? Não se sabe. Witold (o personagem do romance tem o mesmo nome do autor, como alguns personagens de Kafka e Céline) segue seu caminho sem destino certo, até encontrar em uma das esquinas, com aspecto perdido, um desconhecido que está procurando uma casa, um apartamento ou algo do tipo. Após esse encontro, os dois saem juntos, em busca de um lugar pra ficar. Até o final da narrativa, Witold e Fuks protagonizam uma aventura anárquica que termina com um final insólito.
  1. Encontro casual, destino, o que estaria por trás do encontro entre Witold e Fuks? Acompanhamos assim, a longa caminhada dos dois e vemos aos poucos, Witold se cansando da mesma história de Fuks. Sempre as mesmas reclamações contra seu chefe, Drozdowski. Nesse sentindo, o nome de Fuks assume um tom galhofeiro, satírico (a pronúncia parecida com o “Fuck” inglês). Sem saber por que os dois acabam se encontrando, eles aceitam essa “casualidade” e seguem, em busca de uma pensão. Após andarem bastante, encontram uma casa, pequena, simples, mas que cabe no parco orçamento de ambos. Na casa, um senhor idoso (Leon) e sua esposa, caricaturalmente chamada de “Dona Redonda”, a filha do casal (Lena), seu marido (Ludwik) e a empregada da pensão, Katassia. Esse é o círculo de personagens centrais do romance de Gombrowicz. Ao longo da narrativa, outros personagens secundários surgem, como o padre e os dois casais que estão em lua de mel e se ajuntam com a família para fazer um passeio pelas montanhas.
  1. Uma das características desse romance é um sem fim de situações bizarras e absurdas que surgem e acompanha os personagens ao longo da trama. É assim, que, antes de chegar à pensão, Witold e Fuks encontram em um terreno baldio próximo à pensão, um pardal enforcado. Essa imagem do pardal enforcado será determinante e insistentemente retomada no romance. A ela, somam-se outras imagens também absurdas. A partir daí, uma série de conexões estapafúrdias é estabelecida. Para o pardal enforcado no terreno baldio, Fuks e Witold encontram “pistas” que podem levar a desvendar o “mistério” do pássaro morto. Entre as pistas, algumas setas encontradas no teto do quarto (que no fundo não passa de pequenas rachaduras que acabam formando vagamente e sugerindo a presença das tais setas) que apontavam para o quintal da casa e que, por sua vez, no quintal, um graveto pendurado era semelhante ao pardal pendurado e depois, um varal de roupas apontava para o quarto de Lena. Entre essas “conexões”, essas divagações, os personagens vão seguindo uma aventura detetivesca, até o momento em que são envolvidos em outras situações, não menos pitorescas.
  1. Numa noite, após tentar entrar no quarto de Lena, pois o varal apontava pra lá, Witold acaba voltando sem conseguir entrar no quarto. Bate, espera, mas ninguém abre. Resolve voltar. Procura Fuks, que não encontra. Onde estaria? Nesse momento, o gato de Lena atravessa o corredor escuro e para diante de Witold que num impulso, estrangula o animal e pendura-o no muro do quintal. Após estrangular o gato, imediatamente Witold se arrepende, sem saber o motivo que o levou a cometer essa atrocidade. Ainda assim, consegue manter-se em silêncio e apenas observa o pavor de todos na casa, de modo que não levanta suspeitas. O clima na casa, contudo, fica pesado e Leon propõe um passeio pelas montanhas, que prontamente é aceito por todos. Somente Katassia ficou cuidando da casa e além da família, dois casais recém casados se juntam ao grupo. É aqui se que se aproxima o final da narrativa e que de maneira inesperada, após um jantar, Witold sai pra dar uma volta e acaba encontrando o corpo de Ludwik pendurado em uma árvore. Quem poderia ter matado o pacato Ludwik, marido de Lena, genro de Leon e Dona Redonda? Esse crime, cruel e inesperado, assim como outras situações estranhas que surgem na prosa de Gombrowicz, terminam sem ser elucidadas, de maneira anárquica e sem conclusão definida, deixando ao leitor a tarefa de seguir as pistas que Witold e Fuks traçaram ao longo do romance. O cosmos (do grego “organização”, “ordem”) é implodido pelo autor, já que as supostas relações entre os sinais encontrados por Fuks e Witold não encontram ordem, ao contrário, são arbitrariamente estabelecidos.