Três poemas de Benjamin Péret

péret.jpg

 

Alô

Meu avião em chamas meu castelo inundado de vinho do Reno

meu gueto de íris negras minha orelha de cristal

meu rochedo despencando-se pela falésia para esmagar o guarda-florestal

meu caracol de opala meu mosquito de ar

meu acolchoado de aves-do-paraíso minha cabeleira de escuma negra

meu túmulo estilhaçado minha chuva de gafanhotos vermelhos

minha ilha voadora minha uva turquesa

minha colisão de loucos e prudentes automóveis minha platibanda selvagem

meu pistilo de dente-de-leão projetado no meu olho

meu bulbo de tulipa no cérebro

minha gazela perdida num cinema das avenidas

meu estojinho de sol minha fruta de vulcão

meu riso de lagoa escondida onde vão se afogar os profetas distraídos

minha inundação de cassis minha borboleta de cogumelo

minha cascata azul como uma vaga de maremoto que faz a primavera

meu revólver de coral cuja boca me chama como o olho d’um poço cintilante

gelado como o espelho onde contemplas a fuga dos colibris do teu olhar

perdido numa mostra de lençóis rodeada de múmias

eu te amo

 

Piscada

Bandos de papagaios atravessam minha cabeça quando te vejo de perfil

e o céu de banha estria-se de relâmpagos azuis que traçam teu nome em todos os sentidos

Rosa penteada de tribo negra perdida numa escada onde os seios agudos das mulheres olham pelos olhos dos homens

Hoje eu olho pelos teus cabelos

Rosa de opala da manhã

e desperto pelos teus olhos

Rosa de armadura

e penso pelos teus seios de explosão

Rosa de lagoa esverdeada pelas rãs

e durmo no teu umbigo de mar Cáspio

Rosa de rosa do mato durante a greve geral

e me perco entre teus ombros de via láctea fecundada por cometas

Rosa de jasmim na noite da lavagem dos linhos

Rosa de casa assombrada

Rosa de floresta negra inundada de selos azuis e verdes

Rosa de papagaio-de-papel sobre um terreno baldio onde brigam crianças

Rosa de fumaça de charuto

Rosa de espuma de mar feita cristal

Rosa

 

Nascente

É Rosa menos Rosa

diz a chuvarada que se alegra por refrescar o vinho branco

aguardando arrombar as igrejas num qualquer dia de Páscoa

É Rosa menos Rosa

e como está o tempo

quando o touro furioso da grande catarata me invade

sob suas asas de corvos escorraçados de mil torres em ruínas

como está o tempo

É um tempo Rosa com um sol de verdade de Rosa

e vou beber Rosa comendo Rosa

até adormecer num sono Rosa

vestido de sonhos Rosa

e o alvorecer Rosa me despertará como um cogumelo Rosa

onde se verá a imagem de Rosa rodeada de um halo Rosa

Tradução: Suely Bastos