Notas sobre O Pavilhão Dourado

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Yukio Mishima

Yukio Mishima (1925 – 1970) é considerado um dos mais importantes escritores japoneses do século XX. Autor de ensaios, peças, contos, poesias e romance, publicou em 1956, em formato de folhetim, o romance O Pavilhão Dourado. Ambientado em Kioto, no Japão, a narrativa se passa nos anos do pós guerra, refletindo ainda o espírito de um país invadido e derrotado durante a Segunda Guerra Mundial. O personagem principal e narrador é Mizoguchi, um jovem de origem humilde, tímido e gago, que sofre de um forte complexo de inferioridade. Após a morte de seu pai, fica sob os cuidados do prior, o responsável pelo Pavilhão. Trabalhando como ajudante no templo zen do Pavilhão Dourado, Mizoguchi pretende tornar-se sacerdote do templo, que seu pai considerava como um dos locais mais belos do mundo. A ideia do belo e a influência do Pavilhão Dourado no aspirante a sacerdote, é um dos pontos centrais do romance, pois o que o autor apresenta é uma imagem clara do modo como a Beleza pode ser alienante e opressiva. Ao mesmo tempo, é com uma linguagem rica e expressiva que Mishima descreve nos dez capítulos do romance, passagens referentes a arquitetura e ao lago que contorna o Pavilhão Dourado, o pensamento e a introspecção do narrador, a morte de Uiko, seu primeiro amor, até o desenlace com incêndio do templo.

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O contato de Mizoguchi com dois outros personagens, será determinante para o desenvolvimento pessoal do narrador. São dois opostos. Tsurukawa e Kashiwagi possuem atitudes, aparência e temperança contrárias. O primeiro simboliza o lado humano pacífico e sensível, enquanto o segundo, um jovem manco, alimenta ideias destrutivas e perversas, e ambos irão com suas personalidades opostas, influenciar diretamente Mizoguchi. Sua idealização do Pavilhão Dourado, a força que ele desperta em sua consciência, interferindo em suas ações, bloqueando certas atitudes, passam a assumir um caráter opressivo. Como nos extremos entre Tsurukawa e Kashiwagi, seu sentimento pelo Pavilhão Dourado passa da idealização ao ódio, e em seu íntimo, o bem e o mal disputam a hegemonia de seu coração.

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A expressividade e precisão das imagens criadas pelo autor acompanha o desenvolvimento e o desenlace da narrativa. Passagens como a da prostituta humilhada na neve pelo soldado americano, são imagens que causam forte impressão.

“O rosto da mulher parecia pálido sob os reflexos da neve. O batom rubro contrastava fortemente com a pele pálida sem cor de sangue. Ela espirrou no instante em que saiu do veículo. Seus olhos cansados da embriaguez se ergueram por um breve momento em um olhar distante, juntando pequenos vincos sobre o nariz afilado, mas em seguida voltaram a se fazer turvos e sombrios. E chamou pelo companheiro, de nome Jack, que pronunciava como Já-a-ck”

O sentimento de perversidade, que Mizoguchi descobre ao sentir sob seus pés, alguma coisa sendo esmagada no ventre da prostituta (era o filho dela, que morrera após a agressão), a maldade gratuita no ato de um jovem budista e o prazer sentido nesse ato, que é o próprio sentimento de perversidade; o adultério de sua mãe; a morte brusca e inesperada de Tsurukawa; a confiança abalada do prior do templo; todos esses elementos, as diversas situações vividas e sobretudo o contato com Kashiwagi e Tsurukawa, colocam em relevo a tênue aproximação de sentimentos e sensações díspares como o belo e o bem, o mal e a perversidade. Com todos eles Mizoguchi terá contato. Sua personalidade e seu amadurecimento se moldam no contato com os extremos, qual sua idealização pelo Pavilhão Dourado, que ao fim, acaba sendo incendiado por suas próprias mãos, num ato destrutivo e ao mesmo tempo libertador.

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