Os detetives selvagens – Parte I

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Bolaño

O escritor chileno Roberto Bolaño (1953 – 2003) ganhou notoriedade no Brasil depois de sua morte, quando seus livros passaram a ser publicados no país. De lá pra cá, sua influência tem crescido e hoje o autor de 2666 é visto como um dos maiores escritores latino-americanos de sua geração. Autor de contos e romances que lhe trouxeram maior reconhecimento, Bolaño também escreveu poemas. Durante a Ditadura chilena, foi preso por seu envolvimento com o trotskismo e após escapar da prisão graças a ajuda de um conhecido de infância, deixou o país. Antes de estabelecer residência na Espanha, onde morreu de insuficiência hepática em Barcelona, Bolaño viveu alguns anos no México e passou um período na França.

Uma de suas obras mais importantes é o romance Os detetives selvagens, lançado em 1998 e eleito em 2006 como o livro chileno mais importante dos últimos 25 anos. A estrutura do romance de mais de seiscentas páginas é dividida em três partes. A primeira, intitulada Mexicanos Perdidos no México, Juan García Madero, poeta de dezessete anos que vive na Cidade do México, escreve cartas que iniciam em 2 de novembro de 1975 e vão até o dia 31 de dezembro do mesmo ano. Já nas primeiras cartas ele narra como conheceu um grupo de jovens poetas mexicanos durante uma oficina literária. O grupo é formado por meia dúzia de jovens vanguardistas que se auto intitulam real-visceralistas. No grupo, é perceptível os traços de influência tanto dos surrealistas franceses – citação de autores como Lautréamont, Breton, Queneau, – como de autores latinos que também flertaram com o surrealismo, como Octavio Paz e Julio Cortázar (o comportamento dos real-visceralistas remete ao Clube da Serpente, em O Jogo da Amarelinha). Uma característica desse romance é a presença de personagens e lugares que surgem em outras obras de Bolaño, como o personagem Arturo Belano, espécie de alter-ego do escritor, que também aparece em um dos contos de Chamadas Telefônicas.

Nas cartas de García Madero são descritos em um tom sarcástico o dia-a-dia dos real-visceralistas, que frequentam cafeterias da Cidade do México, discutem o panorama da literatura latino-americana, escrevem, fumam marijuana, visitam livrarias onde furtam um ou outro livro, etc. Apesar da primeira parte ser narrada por García Madero, o eixo central do romance é a busca que os poetas real-visceralistas Ulisses Lima e Arturo Belano fazem da poeta vanguardista mexicana Cesárea Tinajero, desaparecida misteriosamente. Em torno dessa busca, Madero conhece Maria e Angélica, filhas de Quim Font, um arquiteto que ajuda na edição de uma das revistas organizadas por Ulisses e Arturo. Ambas escrevem poesia e Madero acaba se envolvendo com Maria, a filha mais velha de Quim. Além de Maria, García Madero se relaciona com Rosário, uma garçonete que trabalha em uma das cafeterias frequentadas pelos real-visceralistas. Com o tempo, Madero abandona a casa onde mora com os tios e passa a dividir uma pequena pensão com Rosário.

A primeira parte do romance termina com a carta do dia 31 de dezembro de 1975. Nesse dia, Lupe, uma garota de programa amiga de Maria que frequenta a casa da família, passa a ser perseguida por Alberto, uma espécie de cafetão. Alberto decide perseguir Lupe quando esta se nega a continuar trabalhando pra ele. No dia de Ano Novo, o clima é tenso na casa da família Font. Com a presença de pintores, escritores, amigos da família e parte do grupo dos real-visceralistas, a casa é vigiada do lado de fora por Alberto e seus capangas, que observam e ameaçam as pessoas que entram na casa. A polícia que foi chamada, fingiu não importar, já que um dos policiais era amigo do cafetão de Lupe. Por fim, o pai de Maria resolve emprestar o carro para Arturo e Ulisses fugirem com Lupe. García Madero os acompanha numa sequência em que o desfecho remete a uma cena de cinema noir.

“Vi a cara dos capangas dentro do Camaro. Um deles fumava charuto. Vi o rosto de Ulisses e suas mãos, que se moviam nos comandos do carro de Quim. Vi a cara de Belano, que fitava impassível o gigolô, como se coisa não fosse com ele. Vi Lupe tapar o rosto no banco de trás. Pensei que a janela da porta do carro não iria resistir a outro chute, e de um salto eu me vi ao lado de Alberto. Depois vi Alberto cambalear. Recendia a álcool, certamente eles também tinham comemorado o fim do ano. Vi meu punho direito (o único livre, pois na outra mão levava meus livros) se projetar outras vez sobre o corpo do gigolô, e desta vez eu o vi cair. Senti que me chamavam da casa, mas não me virei. Chutei o corpo que estava aos meus pés e vi o Impala finalmente se mover. Vi os dois capangas saírem do Camaro e se dirigirem a mim. Vi que Lupe me olhava de dentro do carro e abria a porta para mim. Soube que sempre tivera vontade ir embora. Entrei e, antes que desse tempo de fechar a porta, Ulisses subitamente acelerou. Ouvi um disparo ou algo que parecia um disparo. Atiraram na gente, filhos-da-puta, Lupe disse. Virei-me e pelo vidro traseiro vi uma sombra no meio da rua. Nessa sombra, emoldurada pela janela estritamente retangular do Impala, estava concentrada toda tristeza do mundo. São fogos de artifício, ouvi Belano dizer enquanto nosso carro dava um pinote e deixava para trás a casa das irmãs Font, o Camaro dos valentões, a rua Colina e em menos de dois segundos já estávamos na avenida Oaxaca e nos perdíamos em direção ao norte do DF”. (p. 142)

Burroughs, o junky!

O romance autobiográfico de William S. Burroughs, Junky, lançado em 1953, pode ser considerado, ao lado das obras Howl, de Allen Ginsberg e On The Road, de Jack Kerouac, um clássico da Beat Generation. A história narrada em primeira pessoa inicia com as lembranças da infância de Bill, nascido em fevereiro de 1914, “numa grande cidade do meio-oeste” americano. Avesso à matemática e aos jogos competitivos, o jovem William desenvolve seu gosto pela imaginação e pelos livros. “O fato é que me tornei um doente imaginário crônico (…) Lia mais do que a média dos garotos americanos daquele tempo e lugar: Oscar Wilde, Anatole France, Baudelaire e até Gide”. Com o passar dos anos o narrador-protagonista vai revelando os seus primeiros contatos com as drogas, até culminar em sua dependência de heroína e seu envolvimento no tráfico, como forma de garantir o seu próprio consumo. É durante os anos da Segunda Guerra Mundial que Bill têm suas primeiras experiências com drogas pesadas. “Minha primeira experiência com junk foi durante a guerra, em 1944 ou 1945”. Nesse período, Bill segue perambulando, flanando por Nova York na companhia de seus parceiros de “junk”, gíria usada pelos malucos para designar a heroína. Falar de drogas nos EUA nessa época era um grande tabu, muito diferente de hoje, onde a maconha já é legalizada para fins medicinais e recreativos em diversos estados, incluindo a capital Washington. Na introdução à edição de 1977, Allen Ginsberg comenta as dificuldades e os riscos que os usuários de drogas corriam naqueles anos. Era a ofensiva da famigerada “war on drugs”.

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 “Havia naquela época – e ainda hoje vibram resquícios da paranoia oficial policialesca cultivada pela Delegacia Federal de Entorpecentes (Narcotics Bureau) – uma forte crença implícita, ou pressuposição: se alguém dissesse em voz alta “fumo” (sem contar droga pesada, junk) no ônibus ou no metrô, podia ser preso. Mesmo que estivesse apenas discutindo mudanças na legislação. Era praticamente ilegal falar sobre drogas. Uma década depois, ainda era impossível promover uma discussão nacional na TV sobre as leis que regiam o assunto sem que a Delegacia Federal de Entorpecentes e a FCC (Federal Communications Comission) se intrometessem, semanas depois, com clipes produzidos para a TV que denunciavam o debate. Isso é história”.

A vida dos junkies não é nada fácil. Uma vida de aventuras e riscos, no fio da navalha. Como diz o narrador: “Aprendi a equação junk. Droga pesada não é um meio de aumentar o prazer de viver. Junk não é um barato. É um meio de vida”. Pequenos furtos no metrô e nas estações, risco constante de ser flagrado pelos policiais e ser enquadrado em leis antidrogas, o trabalho de aturar viciados que sempre pedem fiado, a dificuldade em enfrentar as clínicas de reabilitação e se manter limpo após o tratamento, a prostituição e as relações homoafetivas do narrador, a procura por heroína em lugares desconhecidos como Nova Orleans e o México…

Após várias idas e vindas das clínicas de reabilitação, Bill decide rumar para o México, onde pretende permanecer durante tempo indeterminado. Lá se envolve outra vez com junk. A rotina dos viciados, o meio social em que circulam, a lenta degeneração do corpo, tudo enfim, vai aos poucos cansando o narrador. Decidido a parar de usar heroína, Bill lê algo sobre o yage, uma droga usada “por índios nas cabeceiras do rio Amazonas”. Trata-se do chá que conhecemos como Ayahuasca. Com a descoberta do yage, resolve seguir para Colômbia. Assim, o que Bill pretende não é abandonar de uma vez por todas as drogas e sim, encontrar no yage, aquilo que havia buscado nas outras substâncias. “Talvez eu descubra no yage o que eu andava procurando no junk, na maconha, na cocaína. Yage talvez me dê o barato definitivo”. Dessa forma, podemos dizer que o romance de Burroughs  é uma obra e um ato de pura transgressão, desde o tema do vício em drogas pesadas, passando pelas relações homoafetivas, pela prostituição e pela prática de pequenos crimes. Uma obra que vai na contramão do conservadorismo americano da época e propõe ao leitor, um estilo de vida baseado nas drogas, no “desregramento de todos os sentidos” rimbaudiano e antecipa o futuro estilo de vida dos hippies e o surgimento da contracultura americana.

PRODUÇÃO ACADÊMICA

Extrapolar a sala de aula e compreender a relação ensino-aprendizagem como conjunção de múltiplas e plurais atividades de pesquisa, extensão, culturais e políticas constitui um desafio. (RUBIM, 1995, p. 1)

Eu já estava do outro lado quando comecei a caminhar na minha própria linha. Fui procurar conhecer em outras áreas de conhecimento o sentido da minha arte, da minha formação como artista-professor-pesquisador. Da avaliação e aprendizado que adquiria em sala de aula, daquele espaço que faltava entre as aulas teóricas e práticas, de toda extensão que desse continuidade aos meus pensamentos e fazer discente na universidade. Desempenhava minhas funções e conhecia a dinâmica do profissionalismo, transitava e evoluía a cada passo: passei por todo o campus Guamá (institutos, blocos, R.U, beira do rio, vadião), lá encontrei horizontes que despertavam novos olhares sobre a vida universitária, conheci o mundo da pesquisa e desbravei outros sentidos; passei pelo PPGArtes onde interagi com pensamentos poéticos e leituras sobre o conhecimento da vida; pelo ICAonde contribui na produção e comunicação das informações artísticas; pelos estágios em escolas e instituições que me ensinavam a dinâmica do profissionalismo; por grupos de pesquisas, congressos e encontros que ampliavam o conhecimento artístico para o meu entendimento cênico; pelos amores, aventuras e crises que encontrava pelos caminhos que me faziam seguir a diante e acabava na disciplina: Exercício da Cena 5 – Posto[1]. No meio da trilha tinha mais espontaneidade e atenção em demarcar território. Ali o caminho largo me traçava outras possibilidades de reler o entendimento do espaço, desde o universo até minha extensão de sobrevivente no planeta cosmo. Redescobria-me como um circulo que divaga em outros pensamentos que desbravam as linhas de um rizoma:

[…] Diferentemente das árvores ou de suas raízes, o rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços de mesma natureza; ele põe em jogo regimes de signos muito diferentes, inclusive estados de não signos. O rizoma não se deixa reconduzir nem ao Uno nem ao múltiplo. Ele não é o Uno que devém dois, nem mesmo que deveria diretamente três, quatro ou cinco etc. Ele não é um múltiplo que deriva do Uno, nem ao qual o Uno se acrescentaria (n-1). Ele não é feito de unidades, mas de dimensões, ou antes de direções movediças. Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda […] (DELEUZE, 1995, p. 43).

Estava no meio dessa construção universitária, algo abria os meus olhos ao som das vozes codificadas em outras línguas que embalavam a leitura do novo; da real forma de comunicação entre linhas. Quando me perguntavam qual era o meu curso, respondia de uma forma que levasse a informação até a linha de pesquisa de quem perguntava, deixando fluir a comunicação artística de um discente em teatro. Em outros momentos mostrava na prática a minha formação e dialogava com o outro. É preciso sair do descanso. Superar o absurdo. Se inquietar, esgotar a energia que te explode. Acreditar no novo, realizar sonhos, crescer ao nível do mundo. Se juntar ao estranho; deixar a sua moradia e ser a sua casa. Compartilhar conhecimento e contribuir no desenvolvimento; no documento memorável de um acontecimento histórico.

No infinito espaço procurei entender o meu campo de pesquisa, as informações chegavam de todas as partes e tentava capturar pelo raciocínio do meu aprendizado. O entendimento do conhecimento fluía e a produção acadêmica acontecia. Estava em movimento com outras linhas de pesquisa e descobria o mundo; me fazia presente até parar na dúvida e perceber por onde caminhar. Liguei o nobreak e conectei-me ao ciberespaço. Cartografei fatos (http://goo.gl/ept9sl) e organizei o andamento dos dias, das aulas, do pensamento teatral.

Tudo confunde o tempo-espaço da minha mente. Subtrai sistematicamente as condiçõesexistentes do corpo. Aperta confrontos com o coração e rompe a ligação com a mente. Olho desgarrado para as informações do mundo, procuro adaptá-la a minha rotina. Tudo se perde, sai pelos poros e a existência não me qualifica como ser. Sobrevoo, perco a noção de amplitude; esbarro no invisível que detona a imaginação por não superar o ar que respiro. Sufoco-me acreditando que amanhã será melhor. Acredito em novas fases de sobrevivência. Saio do game-over. Pulo ao som da distorção; me dilato na batida cadente da explosão do meteoro. Multiplico-me em dois pensamentos, torno-me frágil. Sou expulso da terra. Vago no infinito inexistente que me acolhe. Grito em animus, recomponho-me em anima. Sou transversal; alquimista sobrevivente por sentimentos múltiplos. Tenho arte saturada no grau zero da escrita.

Pedir a noção dos pensamentos. A trajetória da formação teatral se aplica em todas as linguagens. Tudo é código existencialista da comunicação. Penso a arte, para obtê-la, como grande fomentadora do entendimento para o despertar de um novo amanhecer. Percebo a plenitude de territórios de conhecimentos científicos, infinitos consentimento linguístico da informação. Tudo é modo de sobrevivência. Visualidade alinhada da vida. Cartografia do som desenhado na imaginação. No raciocínio de ideias de possíveis diálogos que se transformavam às vezes em poemas de conhecimentos adquirido no curso:

Postagem Um pequeno diálogo com a imaginação e seusfundamentos para a construção do que não existe

– Hoje foi me apresentado a poesia de Manoel de Barros.

– Não, não era nenhuma poesia romântica.

– O romantismo ia além das palavras bonitas.

– Existia a simplicidade através do olhar do poeta.

– O olhar que poucos têm.

Fecheis os olhos e vi naquele escuro a verdadeira arte das palavras. Elas se misturavam com os objetos formando sentimentos que tiravam de mim o que já não tinha. “O que tuas mãos fazem?”, perguntou um objeto que estava esquecido no chão. Não respondi. Apenas imaginei o que elas poderiam fazer. “Para onde teus pés te levam?”, perguntou outro objeto que impedia o meu caminho. Fiquei pensando sobre isso. Acho que mesmo parado podemos ir para onde quisermos, desde que nossa imaginação se sinta à vontade.

Juntei todas as minhas indecisões e troquei por um pequeno espaço no universo. Irei construir um planeta com minhas lembranças do passado. Onde meu corpo se transformará em outros corpos para não me sentir só. Onde viver não será mais uma obrigação. Meus sonhos se transformaram em músicas para fazer a sonoplastia do meu cotidiano. Irei viver no meu mundo, onde a realidade será ficção e ficção será a minha realidade. Irei viver como num filme, num livro, numa poesia de Manoel de Barros:

– Em seu mundo inteligente e cheio de loucuras o que pretende fazer?

– Deixar minha realidade e viver de ficção para ir além das fronteiras.

– Eu não sou mais eu. Sou tudo.

– Sou todas as coisas.

(Blog Corpo Palavra, 25/05/2011)

Esse post no blog me fez perceber o objetivo de um dialogo; da onde ele parte e como é construído. Como poderia trabalhar de vários modos o meu conhecimento, praticando o entendimento da realidade e de outros códigos da minha interpretação de conteúdo. Em alguns casos demostrava apenas uma parte da minha ação, da compreensão funcional das coisas. Aprendia conhecendo e ensinado fatos que me traziam retornos pra vivenciar esse estado de ser. A presença em cada parte me trazia um bem, desde o local ao universal. Pertencia de fato a educação e pesquisa em teatro. Tinha a área do conhecimento cênico em mim.

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[1] Exercício da Cena 5 (posto) é uma disciplina criada pela turma 2012 que dava continuidade a nossa grade curricular após o termino das aulas. As aulas aconteciam num posto de gasolina que fica em frente à ETDUFPA onde desempenhávamos a tarefa da descontração.

Por Bernard Freire, estudante de Artes Cênicas / UFPA