Dois poemas de Apollinaire

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Noite estrelada – Van Gogh (1889)

 

A PONTE MIRABEAU

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

Nossos amores

Devo lembrar a cena

Vinha a alegria sempre após a pena

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

Mãos entre as mãos fiquemos face a face

Enquanto sob

A ponte dos braços passa

Dos eternos olhares a onda tão lassa

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

O amor se vai como essa água corrente

O amor se vai

Como a vida é lenta

E como a esperança é violenta

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

Passam os dias passam as semanas

Nem o tempo passado

Nem os amores voltam

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

 

LUAR

Lua melifluente aos lábios dos dementes

Os pomares e os burgos têm fome ingente

Os astros muito bem figuram as abelhas

Desse mel luminoso a pingar das parreiras

Pois eis que lentamente caindo do céu

Cada raio de lua é um raio de mel

Ora oculto concebo a tão doce aventura

Temo o dado de fogo dessa abelha Arctura

Que pôs em minhas mãos raios sem cabimento

E colheu mel lunar lá na rosa dos ventos

 

(Tradução: Mario Laranjeira)

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Solidariedade ao professor Evandro Medeiros

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Movimentos sociais, estudantes, técnicos e professores da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) devem fazer um grande ato público em frente ao prédio do Poder Judiciário local no próximo dia 5 de Maio, às 9 horas da manhã, que é quando o professor Evandro Medeiros, da Unifesspa, prestará depoimento por ter sido acusado de uso indevido das próprias razões, durante manifesto ocorrido em 20 de novembro do ano passado, em solidariedade aos atingidos pela tragédia de Mariana (MG).

Em carta apresentada durante assembleia universitária ontem (25) e que será distribuída para assinatura até o dia da audiência, os professores, estudantes e técnicos da Unifesspa lembram que entre os diversos pontos que integram o estatuto pro tempore da instituição, com objetivo de nortear sua atuação, está a defesa dos direitos humanos e a preservação do meio ambiente, sendo este um dos princípios institucionais (Conforme o art. 2º, VIII, Resolução n.º 17 de 29/10/2015-CONSUN).

“Diante disso, todos os sujeitos que integram a universidade têm obrigação – cada um dentro de sua esfera de atuação – de se integrar às dinâmicas sociais locais, contribuindo na resolução de problemas, seja por meio de pesquisas científicas, seja por intervenções, dando concretude ao tripé de qualquer instituição de ensino superior, que é ensino, pesquisa e extensão”, diz trecho do manifesto.

Ainda segundo o documento, foi pautado nessa visão e a partir desse compromisso, que o professor Evandro Medeiros, junto com estudantes, outros servidores da Unifesspa e moradores que vivem nas margens da Estrada de Ferro Carajás (EFC), em Marabá, participaram, em novembro do ano passado, de ato em solidariedade aos moradores de Mariana (MG), que foi arrasada pelo rompimento de barragem de rejeitos da Samarco/Vale naquele mesmo mês, causando prejuízo ambiental e social incalculável.

Durante o ato, realizado ao lado dos trilhos da Ferrovia Carajás, ocorreram atividades que estimularam a criação cultural e o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo, tanto entre os estudantes quanto entre os professores e os próprios moradores que vivem naquela localidade, conforme dispõe o Artigo 3º do estatuto pro tempore da Unifesspa.

Por outro lado, durante todo o tempo em que aconteceu o ato em solidariedade aos moradores de Mariana, não houve ações violentas e tampouco risco à segurança ferroviária. “Ou seja, não há motivo para denunciar o professor Evandro Medeiros ou qualquer outro manifestante por crime algum. Trata-se de uma medida desproporcional tomada pela Vale, que parece mais buscar – via poder judiciário – um mecanismo de intimidação não apenas ao professor, mas a todos que se manifestarem contra os interesses da mineradora”, diz a carta.

“Diante do exposto, os professores, técnicos e estudantes da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) ratificam seu compromisso social, moral e estatutário de envolvimento nos problemas enfrentados pelos moradores desta região, sobretudo os mais pobres, e repudiam a ação judicial movida pela mineradora Vale contra o professor Evandro Medeiros e ainda se solidarizam com este e convidam todos a participar de grande ato público em frente à sede do Poder Judiciário local no próximo dia 5 de maio, a partir das 9 horas da manhã, que é quando o professor Evandro será ouvido pelas autoridades judiciais sobre as acusações imputadas contra ele pela Mineradora Vale”, convoca.

Da mesma forma, também, os professores, técnicos e estudantes da Unifesspa se solidarizam com os cidadãos Tiago Cruz, Iara Reis, João Reis, Waldy Gonçalves Neves e demais manifestantes do Bairro Alzira Mutran, que são alvos de inquéritos da Polícia Civil, por se organizarem para lutar por seus direitos.

Fonte: http://marabanoticias.com.br/index.php/noticias/manchete/404-protesto-vai-marcar-oitiva-do-professor-evandro-medeiros

Somos todos grupelhos

Guattari

A luta de classes não passa mais simplesmente por um front delimitado entre os proletários e os burgueses, facilmente detectável nas cidades e nos vilarejos; ela está igualmente inscrita através de numerosos estigmas na pele e na vida dos explorados, pelas marcas de autoridade, de posição, de nível de vida; é preciso decifrá-la a partir do vocabulário de uns e de outros, seu jeito de falar, a marca de seus carros, a moda de suas roupas, etc. Não tem fim! A luta de classe contaminou, como um vírus, a atitude do professor com seus alunos, a dos pais com suas crianças, a do médico com seus doentes; ela ganhou o interior de cada um de nós com seu eu, com o ideal de status que acreditamos ter de adotar para nós mesmos. Já está mais do que na hora de se organizar em todos os níveis para encarar esta luta de classe generalizada. Já é hora de elaborar uma estratégia para cada um destes níveis, pois eles se condicionam mutuamente. De que serviria, por exemplo, propor às massas um programa de revolucionarização ao antiautoritária contra os chefinhos e companhia limitada, se os próprios militantes continuam sendo portadores de vírus burocráticos superativas, se eles se comportam com os militantes dos outros grupos, no interior de seu próprio grupo, com seus próximos ou cada um consigo mesmo, como perfeitos canalhas, perfeitos carolas? De que serve afirmar a legitimidade das aspirações das massas se o desejo é negado em todo lugar onde tenta vir à tona na realidade cotidiana? Os fins políticos são pessoas desencarnadas. Eles acham que se pode e se deve poupar as preocupações neste domínio para mobilizar toda a sua energia em objetivos políticos gerais. Estão muito enganados! Pois na ausência de desejo a energia se autoconsome sob a forma de sintoma, de inibição e de angústia. E pelo tempo que já estão nessa, já podiam ter se dado conta destas coisas por si mesmos! (Guattari, Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo, Trad. Suely Belinha Rolnik, Editora Brasiliense, 1981, p. 15).