Convite para a Ilha

 

jorge de lima

O poeta trabalha 

Não digo em que signo se encontra esta ilha

mas ilha mais bela não há no alto-mar.

O peixe cantor existe por lá.

Ao norte dá tudo: baleias azuis,

o ouriço vermelho, o boto voador.

A leste da ilha há o Gêiser gigante

deitando água morna. Quem quer se banhar?

Há plantas carnívoras sem gula que amam.

Ao sul o que há? – há rios de leite,

há terras bulindo, mulheres nascendo,

raízes subindo, lagunas tremendo,

coqueiros gemendo, areias se entreabrindo.

A oeste o que há? – não há o ocidente nem coisa de lá:

a terra está nova: devemos olhar o sol se elevar.

Convido os rapazes e as raparigas

pra ver esta ilha, correr nos seus bosques,

nos vales em flor, nadar nas lagunas,

brincar de esconder, dormir no areial,

caçar os amores que existem por lá.

O sol da meia-noite, a aurora boreal,

o cometa Halley, as moças nativas,

podeis desfrutar. Meninas partamos

enquanto esta ilha não vai afundar,

enquanto não chegam guerreiros das terras,

enquanto não chegam piratas do mar.

As noites! Que noites de imenso luar!

Podeis contemplar a Ursa maior,

A Lira, a Órion, a Luz de Altair,

estrelas cadentes correndo no espaço,

a estrela dos magos parada no ar.

Que noites, meninas, de imenso luar!

E as sestas? Que sestas! A brisa é tão mansa!

Há redes debaixo dos coqueirais,

sanfonas tocando, o sol se encobrindo,

as aves cantando canções de ninar.

Meninas partamos que as noites de escuro

não tardam a chegar. Então que é da ilha,

da ilha mais bela que há pelo mar

e onde se pode sonhar com os amores

que nunca na vida nos hão de chegar?

(Jorge de Lima)

 

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W. G. Sebald e a colonização do Congo

congo

As primeiras notícias sobre maneira e medida dos crimes cometidos contra a população nativa durante a colonização no Congo chegaram a público em 1903 através de Roger Casement, que naquela ocasião tinha o posto de cônsul britânico em Boma. Casement, sobre quem Korzeniowski comentou com um conhecido em Londres que este saberia relatar coisas que ele, Korzeniowski, há muito procurava esquecer, em um memorando apresentado ao Foreign Secretary lord Lansdowne deu indicações precisas sobre a exploração dos negros que nenhuma medida de consideração atenuava, em todos os locais de construção da colônia forçados a trabalhar da manhã à noite pessimamente alimentados e com freqüência acorrentados uns aos outros, sem nenhum pagamento, em última análise até literalmente caírem no chão.
Quem sobe o curso superior do rio Congo e não está ofuscado pela cobiça financeira, escreveu Casement, verá desenrolar-se diante de seus olhos a agonia de um povo inteiro com histórias que cortam o coração, e que deixam na sombra todos os relatos de sofrimento da Bíblia. Casement não deixou dúvidas sobre o fato de que todos os anos centenas de milhares de trabalhadores escravos eram levados à morte por seus capatazes brancos, e que mutilar, decepar mãos e pés e matar a tiros faziam parte das punições realizadas diariamente no Congo para manter a disciplina. Uma conversa pessoal para o qual o rei Leopoldo convidou Casement a ir até Bruxelas deveria servir para abrandar a situação criada pela intervenção de Casement, e para uma avaliação do perigo que as atividades de Casement representavam para os empreendimentos coloniais belgas. O trabalho feito pelos negros, disse Leopoldo, era considerado por ele próprio um legítimo sucedêneo de impostos, e se eventualmente, o que não queria negar, ocorriam excessos preocupantes de parte dos capatazes brancos, isso podia ser atribuído ao fato lamentável, porém dificilmente alterável de que o clima do Congo causava uma espécie de demência na mente de muitos brancos, que infelizmente nem sempre se podia evitar em tempo. Como Casement não mudasse de opinião diante de tais argumentos, Leopoldo usou do privilégio da influência real em Londres, e como conseqüência com duplicidade diplomática o relatório Casement foi de um lado elogiado como modelar, e seu autor recebeu o título Commander of the Order os St. Michael and St. George, mas de outro lado nada foi feito que pudesse prejudicar os interesses belgas.

W. G. Sebald. Os anéis de saturno. Tradução: Lya Luft. Editora Record, 2002, p. 135-137