O acerto de contas de Thomas Bernhard

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São muitos os personagens que marcaram a história da literatura universal com suas personalidades e atitudes desregradas. O que dizer, por exemplo, de Lafcadio, personagem de Os Porões do Vaticano, de André Gide? Ou do jovem Bayard, personagem do romance Sartoris, de William Faulkner ou ainda Morravagin, do franco-suíço Blaise Cendrars? Todos têm em comum características que chocam a moral estabelecida, que ultrapassam as linhas da ordem num salto. Em uma palavra: gente transgressora. É mais ou menos nessa linha que segue o narrador criado por Thomas Bernhard em seu último romance.

Um personagem que não suporta o seu passado e a relação com seus parentes mais próximos, por isso, procura extinguir toda a sua história através de um livro que pretende escrever. Alguém que simplesmente odeia tudo o que diz respeito à sua família, seu país e sua cidade natal. Eis o leitmotiv de Extinção, romance do escritor e dramaturgo austríaco Thomas Bernhard (1931 – 1989). Franz-Josef Murau, protagonista e narrador do romance, não mede palavras e não disfarça o seu despudor para referir-se ao seu irmão como um imbecil, a seus pais como repulsivos e suas irmãs como abjetas. Esse sentimento de pura aversão pela família percorre as quase quinhentas páginas do romance, dividido em duas partes, cada parte contendo um único parágrafo. Com sua prosa loquaz, grandiloquente e repetitiva, mas também burlesca, irônica e muitas vezes contraditória, Bernhard cria uma narrativa atravessada pelo monólogo interior, em que as ações são sobrepostas pelas reflexões e reminiscências, que dão vazão ao incessante fluxo de consciência de Franz-Josef Murau.

Na primeira parte do romance, intitulada Telegrama, o narrador inicia falando sobre o conteúdo de um telegrama que acabara de receber em Roma, de suas irmãs, anunciando a morte de seus pais e do irmão mais velho, Johannes, em um acidente de carro. Franz-Josef voltara há poucos dias de Wolfsegg, interior da Áustria, quando assistira o casamento de uma de suas irmãs, Caecilia. Em conversa com Gambetti, seu aluno de literatura alemã em Roma, Franz comenta sobre a sensação de estar de volta à Itália, ao seu apartamento na Piazza Minerva, de frente ao Panteão e longe do palavrório tedioso de sua família.

“Falar com Gambetti, também naquele dia, fora outra vez um grande prazer para mim, depois das conversas custosas, cansativas com a minha família em Wolfsegg, todas elas circunscritas às necessidades cotidianas de caráter absolutamente privado e primitivo” (P.8).

No decorrer da narrativa, poucas ações se desenrolam. A primeira delas se passa em Roma, no apartamento do narrador, onde ele lê e relê o telegrama que anuncia a morte dos pais e do irmão. A outra ação se passa quando ele retorna a Wolfsegg, para o enterro dos familiares. Sua narração foge de qualquer discurso linear e temporal, ainda que as ações tenham uma linearidade.

Franz-Josef Murau é um intelectual, apreciador de arte e profundo conhecedor de literatura alemã, francesa e italiana. Sua formação estética se deu através da influência direta de seu tio Georg, que também sempre fora marginalizado pela família. Absolutamente avesso ao sentimentalismo e a moral cristã, após receber o telegrama (sem que a notícia o tenha abalado em algum momento), Murau se lamenta que nos próximos dias não poderá discutir As Afinidades Eletivas com Gambetti, como haviam combinado. Lamenta não a morte dos pais e do irmão, mas o fato de não mais poder encontrar Gambetti nos dias seguintes. Ao invés de conversar sobre O mundo como vontade e representação, Franz-Josef teria que voltar para Wolfsegg, se acercar de suas irmãs e falar sobre os trâmites do enterro dos pais e do irmão e, sem dúvida, sobre a questão da herança.

O que mantém a aversão de Franz por sua família e por Wolfsegg, é o fato de saber que eles (a família) sempre nutriram um grande desprezo por tudo o que ele fazia, dizia ou pensava. Sabia que no fundo sua família era indiferente a tudo que lhe agradasse, mesmo quando ele ainda era criança. Os pais sempre preferiram a companhia do irmão mais velho, agora morto. Como sua família fosse formada por latifundiários que há muitas gerações mantinham um vasto domínio sobre as terras do vilarejo de Wolfsegg, acumulara ao longo das gerações nada menos que cinco bibliotecas. Essas bibliotecas viviam a maior parte do tempo fechadas, ninguém as visitava e os livros disponíveis, segundo o narrador, eram sempre livros de orientação católica. Como seus pais fossem incultos e seus irmãos indiferentes aos livros, quase ninguém fazia uso das bibliotecas de Wolfsegg.

“Em nossas bibliotecas, imagine só, disse a Gambetti, eles haviam mantido sob chave os livros por assim dizer profanos, à diferença dos livros católicos, os armários com os livros profanos haviam ficado trancados por décadas, se não por séculos, dissera a Gambetti, somente os livros católicos eram de livre acesso, os profanos isolados, inacessíveis, não deviam ser lidos, deviam ficar confinados, como se tivessem confinado o espírito livre nesses armários, Gambetti, eles confinavam nesses armários os livros que não eram católicos” (P. 109).

Franz era o único a frequentar as bibliotecas da família, incentivado por seu tio Georg, irmão de seu pai. O fato de ser o único dos filhos que frequentava assiduamente as bibliotecas da família, fez com que sua mãe passasse a acusá-lo de frequentá-las com o único propósito de cultivar os “seus pensamentos aberrantes”. É nesse ambiente opressivo e nessa atmosfera provinciana que Franz passa sua infância. Não bastasse essa relação tumultuosa, outro trauma que persegue a vida do narrador é o passado nazista de Wolfsegg e de seus pais, que abraçaram com convicção o nacional-socialismo. Como o ambiente de Wolfsegg se tornava cada vez mais reacionário e hostil, Georg, seu tio, não encontrou outra saída senão deixar a Áustria, e passou a viver primeiro em Nice, depois em Cannes, na França.

“Meu pai era um nazista chantageado a tanto, é preciso que você saiba Gambetti, incitado naturalmente pela minha mãe, que foi uma nacional-socialista histérica durante todo o domínio nazista, é preciso que você saiba, uma Mulher Alemã, como ela própria sempre se definiu. No aniversário de Hitler, a bandeira nazista era regularmente hasteada em Wolfsegg, dissera a Gambetti, era asqueroso. Afinal meu tio Georg saiu de Wolfsegg sobretudo porque não queria suportar e não podia suportar o nacional-socialismo, que lá se difundiu com toda a força”. (P. 143).

Na visão do narrador, sua mãe sempre fora a pessoa mais pérfida, maquiavélica e ambiciosa que conhecera. É ela a responsável por todos os constrangimentos, humilhações e traumas de que fora vítima na infância e juventude. Com sua mania de grandeza e seus vícios típicos dos pequenos burgueses, como diz o narrador, gastava enormes quantias em viagens constantes a Viena, Munique, Roma, Paris e Londres. Seu desprezo pela arte era “compensado” pela futilidade das compras que efetuava em seus passeios pelas metrópoles europeias. Seu marido, o pai de Franz, era constantemente manipulado pela mulher, que mantinha um caso às escondidas com Spadolini, um jovem bispo do Vaticano, que travara amizade com o próprio Franz em Roma.

Somente depois de várias horas observando três fotografias que guardava em uma gaveta do seu escritório (uma foto de suas duas irmãs, em Cannes, outra de seu irmão, em um barco à vela e uma terceira dos seus pais, em uma estação em Londres), Franz resolve ligar para as poucas pessoas com quem mantém contato em Roma e anunciar que está voltando para Wolfsegg. Nesse sentindo, a história não avança, nada acontece enquanto Franz está segurando o telegrama na mão. No mais das vezes, o narrador vai até a janela do apartamento, ou senta-se diante da escrivaninha e fica horas observando as fotografias de sua família.

“Recoloquei as fotografias na gaveta da escrivaninha e decidi bater um fio a meus amigos, como se diz, e partir de Roma com o primeiro avião da manhã, para casa. Meus dedos não tremiam, meu corpo não vacilava. Tinha a cabeça perfeitamente lúcida. O que o telegrama significava, eu sabia”. (P. 227).

O segundo capítulo, O Testamento, é marcado pela volta do narrador à casa de seus pais em Wolfsegg. Antes de subir até sua casa, onde sabia que iria encontrar suas irmãs Caecilia e Amalia, Franz-Josef Murau resolve passear pelo bosque, observar a vila das crianças, onde passara momentos felizes em sua infância. Retarda ao máximo o encontro com as irmãs. Imagina a lista de pessoas que em poucas horas estarão no vilarejo para acompanhar o velório. Entre essas pessoas, algumas causam verdadeira aversão ao narrador: são os antigos partidários do nacional-socialismo, pessoas vinculadas à Liga dos Camaradas, grupo de tendência manifestadamente nazista, que travara relações com seus pais durante o Terceiro Reich. Para compensar a presença sórdida dessas pessoas, ele aguarda a companhia de Spadolini, o bispo do Vaticano que tivera um caso com sua mãe durante anos.

Após a chegada do bispo do Vaticano, que fora extremamente bem recebido, Franz se surpreende com a imagem que Spadolini começa a traçar de seus pais. Sentado à mesa com suas irmãs e seu cunhado, Franz-Josef escuta com atenção o bispo se referir ao seu pai como um “filósofo”, um homem íntegro e bom. Desconfia quando este diz que sua mãe era uma mulher “culta”, “apaixonada por Mahler” e amiga dos artistas. A confiança que Franz depositava em Spadolini, fica abalada. Ele não podia acreditar que seus pais pudessem ter esse lado que ele nunca fora capaz de perceber. Então passou a imaginar de que maneira Spadolini subira tão rapidamente os degraus da hierarquia da Igreja Católica. Sem dúvida, pensa o narrador, a base de falsidade, mentiras e conchavos, um papel que ele (Spadolini) aprendera a representar como ninguém.

“O homem da Igreja fez desabrochar, já nas poucas horas que passou aqui, sua indescritível arte do cálculo, pensei, sua calculada arte da falsificação, perante nossos olhos e ouvidos, por assim dizer, converteu imbecis em inteligências e malvados em santos, analfabetos em filósofos e gente na verdade abjeta em modelos de caráter. A feiúra em beleza, a baixeza e mesquinharia em grandeza interior e exterior, os monstros em seres humanos, para sermos precisos”. (P. 424)

Não apenas sua família passa a ser alvo de suas críticas e elas não cessam nem mesmo durante o velório e o enterro de seus pais e do irmão mais velho. Seu cunhado, o “vendedor de rolhas para garrafas de vinho”, a literatura alemã contemporânea, a Igreja Católica, o nacional-socialismo, o pseudo-socialismo, a Áustria, Wolfsegg… poucos escapam às rajadas fulminantes de Franz-Josef Murau. Sobre a literatura alemã contemporânea, Murau diz que não passa de uma literatura burocrática, produzida por burocratas. A exceção de Kafka e Maria (poetisa amiga de Franz que vive em Roma), nada se salva dessa literatura. O socialismo que vigora em alguns países da Europa, constata o narrador, nada mais é que uma grande deturpação do verdadeiro socialismo, uma falsificação grotesca perpetrada por partidos convertidos em fiéis defensores dos interesses do mercado e do capital. A Igreja Católica, diz Franz-Josef Murau, foi capaz de incutir esse espírito filistino ao povo austríaco, essa passividade que foi forjada pela tenaz católica durante muitos séculos de domínio espiritual.

Após o enterro, sem saber ao certo qual seria o futuro que ele daria a Wolfsegg, já que agora era o proprietário por direito, Franz esboça uma tentativa de restaurar a vila das crianças, acreditando que dessa forma, parte de sua infância seria também restaurada. Mas logo depois muda de ideia e sem comunicar suas irmãs, decide simplesmente doar incondicionalmente toda as propriedades de Wolfsegg, tal como ela se encontra, à Comunidade Israelita de Viena. Assim é concluída a extinção de Wolfsegg, o acerto de contas final de Bernhard com seu país, bem como o final do romance que o narrador pretendia escrever, cujo título também é Extinção.