A história da pintora Charlotte Salomon

Charlotte e seu pai Albert - 1927

Charlotte e seu pai Albert, 1927

Com mais de 500 mil exemplares vendidos apenas na França em 2014, foi com o romance Charlotte que o escritor e músico de jazz David Foenkinos conquistou importantes premiações literárias. Seu romance La Délicatesse foi adaptado para o cinema em 2011 e indicado ao César em 2012 na categoria de melhor adaptação, feita por seu irmão, Stéphane Foenkinos. Em Charlotte, o autor presta uma emocionante homenagem à pintora judia-alemã Charlotte Salomon, morta grávida aos 26 anos em Auschwitz. Escrito em verso, como um longo poema narrativo, o livro é dividido em oito partes e um epílogo. O tempo do romance é a primeira metade do século XX, pano de fundo que o autor utiliza para reconstruir a trajetória dos Grunwald, uma família burguesa de Berlim. A história inicia antes do nascimento da protagonista, como se nota nos primeiros versos da narrativa.

“Charlotte aprendeu a ler o seu nome num túmulo.

 

Portanto, ela não era a primeira Charlotte.

Houve antes a sua tia, irmã de sua mãe.

As duas irmãs foram muito unidas, até uma noite de novembro de 1913”.

O autor nos apresenta Franziska e Charlotte, as jovens e inseparáveis irmãs. O pai delas era um “intelectual rígido, amante das artes e de antiguidades”, diz o narrador. Sua mãe era uma mulher calma, de uma doçura quase melancólica. Com o tempo, de maneira silenciosa, a sombra da depressão se apossou de Charlotte. Numa noite fria de novembro de 1913, enquanto todos dormiam, Charlotte saiu de casa e se dirigiu até uma ponte, da qual se atirou. Depois de seu suicídio, a família Grunwald se recolhera em silêncio, com vergonha do que os vizinhos pudessem pensar.

Passado algum tempo, Franziska decide se tornar enfermeira durante a Primeira Guerra. Conhece o médico Albert, com quem se casa contrariando os pais. Ao engravidar, decide que a criança terá o mesmo nome da irmã, como uma homenagem. O marido protestou, não queria que a filha tivesse o nome de uma suicida. Mas não conseguiu convencer Franzsika do contrário e a menina foi chamada de Charlotte. Quando Charlotte tinha 10 anos, sua mãe também se suicidou, jogando-se da janela do apartamento. Seus avós e seu pai optaram por esconder a verdade. Disseram que a morte da mãe havia sido causada por uma gripe. Somente anos mais tarde ela viria a saber a verdade.

Foenkinos nos mostra que a vida de Charlotte Salomon foi uma sucessão de tragédias. Os suicídios continuaram na família Grunwald, era uma característica deles. Porém, ela se refugiou na criação, decidiu que queria ser pintora e começou a frequentar as aulas nas Belas Artes de Berlim. Com a proibição dos judeus de frequentarem a academia, Charlotte permaneceu assistindo as aulas pela força de seu talento. As coisas estavam ficando cada vez mais difíceis para os judeus na Alemanha, até que o pai de Charlotte, incentivado pela filha, conhece Paula, uma famosa cantora lírica. A casa que vivia no silêncio desde a morte de Franziska, passou a receber animadas soirées frequentadas por uma elite cultural que aglutinava médicos, artistas e intelectuais.

É somente no exílio, em Nice, que Charlotte Salomon desenvolve sua obra de maneira consciente. Antes de sair de Berlim, ela conheceu Alfred, seu primeiro e único amor. Ela não queria partir sem ele, mas as coisas ficaram insustentáveis e os avós conseguiram convencê-la de ir encontrá-los no sul da França. Inconsolada com a morte das duas filhas, sua avó também termina se suicidando. Essa perda faz com que Charlotte utilize toda sua energia na tentativa de reconstruir sua história através da pintura. Ela confia seu trabalho a um médico que sempre a incentivara. Tempo depois, Charlotte conhece Alexander, com quem passa a viver e de quem fica grávida, no momento em que é denunciada por uma ligação anônima.

“Com todos os faróis apagados, o caminhão estacionou sem ruído.

Dois homens entraram de cada lado do jardim.

Naquele exato momento, Charlotte saía de casa.

Ela deu de cara com os soldados.

Eles se precipitaram para ela e agarram pelo braço.

Ela gritou com todas as suas forças.

Debateu-se, tentou fugir.

Um alemão puxou-a violentamente pelo cabelo.

E lhe deu um golpe no ventre.

Ela disse que estava grávida e implorou clemência.

Por favor, deixem-me.

Isso não tinha nenhuma importância para eles”.

Charlotte

Stolpersteine ou Placas do Tropeço, Gunter Demnig

 

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