Dora Bruder e a memória do Holocausto

Dora Bruder

Dora Bruder (ao centro), com seus pais Cécile e Ernest Bruder.

Um traço característico da obra do Prêmio Nobel de Literatura de 2014, Patrick Modiano, é o entrelaçamento de diferentes gêneros literários em suas narrativas, passando com desenvoltura pelas memórias e relatos autobiográficos para o plano da ficção. Em seu romance de 1991, Flores da Ruína, é possível constatar esse estilo que intercala a história do narrador em primeira pessoa com a do próprio autor. Essa forma também é visível em um de seus romances mais celebrados, Dora Bruder, lançado em 1997. O livro nos conta a história de uma jovem judia que fora presa na Paris ocupada durante a Segunda Guerra Mundial e morta em Auschwitz, em 1943. A temática da França sob a Ocupação nazista, presente também no filme Lacombe Lucien (1974) cujo roteiro Modiano escreveu em parceria com Louis Malle, é retomado em Dora Bruder para criar uma narrativa melancólica sobre o destino trágico das vítimas do regime de Hitler em colaboração com governo francês de Vichy. Tudo começa quando o narrador (o próprio Modiano) encontra em 1988, numa antiga edição do jornal Paris-Soir de 31 de dezembro de 1941, um anúncio que pedia informações sobre o desaparecimento da jovem Dora Bruder, nascida em 25 de fevereiro de 1926. Diz o anúncio:

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Anúncio no jornal Paris-Soir de 31 de dezembro de 1941

“PARIS

Procura-se uma jovem, Dora Bruder, 15 anos, 1,55cm, rosto oval, olhos marrom-acinzentados, casacão cinza, suéter bordô, saia e chapéu azul marinho, sapatos marrons. Qualquer informação dirigir-se ao Sr. e à Sra. Bruder, bulevar Ornano, 41, Paris”. (p. 5)

A partir desse anúncio, passados 47 anos de seu desaparecimento, Modiano inicia uma saga em busca do passado de Dora e de sua família. Essa busca, porém, é fundada em pistas distantes no tempo e no espaço, marcada por lugares que despareceram, onde o narrador procura restituir os passos de Dora e o paradeiro de seus pais, imigrantes de origem húngara e austríaca. Para isso, o narrador autor visita antigos arquivos de polícia, consulta velhos documentos, fotografias, cartas, jornais da época, fait divers, etc. A Paris que emerge das páginas de Dora Bruder é uma cidade obscura, asfixiada pelos toques de recolher, pelas humilhações cotidianas e pelas prisões e deportações de judeus. Esse clima nos remete aos versos de Nosso Tempo, poema de Carlos Drummond de Andrade, escrito sob o calor da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, em que o poeta diz: “É tempo de meio silêncio / de boca gelada e murmúrio / palavra indireta, aviso / na esquina. Tempo de cinco sentidos / num só. O espião janta conosco”. O romance assume uma atmosfera nebulosa e opaca, de vazio e solidão, que correspondem com o estilo dos personagens de Modiano, quase todos seres fugidios, escorregadios. “São pessoas que não deixam vestígios atrás de si. Praticamente anônimas”.

Misto de romance autobiográfico, ficção e história, Dora Bruder pode ser visto como uma homenagem em que Modiano encontra na história da heroína de seu romance, semelhanças com a história de seu próprio pai, que também viveu no mesmo período lúgubre. Numa das passagens, o autor de Remissão da Pena esclarece seu objetivo:

“Ao escrever este livro, lanço apelos, como sinais de um farol. Tenho dúvidas de que estes conseguirão iluminar a noite. Mas posso esperar” (p. 38)

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Patrick Modiano durante a inauguração da Promenade Dora Bruder. Foto: Martin Bureau/AFP

Com Dora Bruder, o autor nos apresenta a história de uma jovem judia que teve um fim semelhante ao de milhares de outros jovens judeus naquele período negro da história da Europa: primeiro fora presa Paris, enviada para o campo de Drancy, depois fora deportada e morta em Auschwitz. Assim como David Foenkinos cria em seu romance Charlotte (2014) o resgate da memória de uma jovem pintora judia desconhecida, com o mesmo destino de Dora, Patrick Modiano preserva em nossa consciência, através da memória e da ficção, as consequências nefastas da catástrofe nazista. Com sua obra, consegue dar nome a perseguidos, imprimir uma história de vida àqueles que foram silenciados e esvaziados de suas condições humanas.

Em 2015, um ano após receber o Prêmio Nobel de Literatura, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, inaugurou no 18º arrondissement da capital – mesmo bairro em que a jovem Dora vivera durante a Ocupação -, a Promenade Dora Bruder, uma homenagem ao romance de Modiano e à memória de Dora Bruder. O próprio Patrick Modiano esteve presente no dia da inauguração e comentou: “Dora Bruder tornou-se um símbolo. Ela agora representa na memória da cidade as milhares de crianças e adolescentes que partiram da França para serem assassinadas em Auschwitz”.

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MBL reproduz prática nazista no Brasil do séc. XXI

“[…]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos
dizer nada.
[…]”

(Trecho de No caminho com Maiakóvski, de Eduardo Alves da Costa)

É extremamente vergonhoso o fato ocorrido no último domingo (10) em Porto Alegre. Além de grave, é sintomático – pois revela o momento sombrio que o País atravessa, a nuvem negra da desgraça – que uma exposição de arte tenha sido fechada pela acusação de que seu conteúdo, supostamente, faria apologia à pornografia, pedofilia e zoofilia. Esse fato ignominioso aconteceu quando o Santander Cultural resolveu fechar a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” após críticas advindas do Movimento Brasil Livre (MBL), que divulgou um vídeo afirmando de maneira agressiva que a exposição “só tem putaria, só tem sacanagem” e “é reconhecida como arte”.

A mostra que abrigava 264 obras de 85 artistas – entre eles nomes como Lygia Clark, Cândido Portinari e Alfredo Volpi -, ficaria aberta até o dia 08 de outubro, com um acervo contemplando diferentes linguagens como pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e colagens, abordando questões de gênero, diversidade e temática LGBT. O fato demonstra, além do elemento moralista do discurso dos censores, a presença de outro elemento, cujo conteúdo é tão somente a discriminação pela diferença, a incapacidade de aceitar o diverso, o distinto, o outro e, portanto, manifestam sua intolerância aos valores da democracia.

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Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva, de Fernando Baril, foi considerada imoral pelo MBL.

Ao exigir o fechamento da exposição por “atentar contra os bons costumes”, o MBL e seus seguidores abandonam o discurso liberal e abraçam a prática nazista. Com tal atitude, reproduziram a mesma orientação política utilizada por Hitler na Alemanha e por Stalin na U.R.S.S., que abominavam obras modernistas e perseguiam os artistas de vanguarda que não se alinhavam à sua cartilha. Em seu livro Era dos Extremos, Eric Hobsbawm descreve a situação da Arte sob os regimes totalitários do século XX:

“Nem a vanguarda alemã, nem a russa, portanto, sobreviveram à ascensão de Hitler e Stalin, e os dois países, na ponta de tudo que era avançado e reconhecido nas artes da década de 1920, quase desapareceram do panorama cultural” (p. 187)

Acusaram de maneira desqualificada a Lei Rouanet de financiar (R$ 800 mil) uma mostra que “ultraja símbolos religiosos”, como se a lei de incentivo à cultura tivesse como função avaliar o conteúdo exposto, ao invés de primar pela pluralidade de ideias. Uma lógica que segue a conduta dos mais peçonhentos censores. Por outro lado, alardeiam como se estivessem realmente preocupados com a cultura no Brasil, já que nada falaram sobre o corte de 41% do orçamento do Ministério da Cultura, sob o comando de Temer.

Blasfêmia e Arte degenerada

Entre os argumentos levantados pelo MBL e seus seguidores (notadamente “pessoas de bem”) são comuns as referências à exposição com termos como “pornografia”, “depravação” e “imoralidade”. Não à toa são semelhantes aos discursos proferidos pelos nazistas em Munique, em 1937, quando foi aberta uma exposição chamada Arte Degenerada (Haus der Kunst), cujo objetivo, além de ridicularizar os artistas, era inflamar a opinião pública contra as obras modernistas. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

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Exposição Arte Degenerada, promovida pelos nazistas em 1937.

A coordenadora do MBL/RS, Paula Cassola, do alto de sua arrogância, questionou a legitimidade das obras expostas, como se as obras precisassem de sua permissão para existirem ou como se eles (MBL e cia) fossem parâmetro justo para considerar o que é obra de arte e o que não é. Como ironizou o jornalista Lira Neto nas redes sociais, “os escandalizados com a mostra proibida pelo Santander nunca foram a uma galeria, a um grande museu ou nunca folhearam um livro de arte”. Com sua visão retrógrada e limitada, o que diriam de artistas como Balthus, Hans Bellmer ou Ren Hang? No mínimo seriam tomados por “pedófilos”, “blasfemadores”, “degenerados”, etc.

Contudo, como diz o ditado, o buraco é mais embaixo. Espera-se dos regimes democráticos que sejam resguardados os direitos de criticar uma exposição, até mesmo de boicotá-la. Impedi-la, censurá-la, porém, é atitude autoritária que não podemos tolerar. Se um grupo econômico, uma religião específica ou um partido político pode impor o fechamento de uma exposição, dentro em breve estarão, com o dedo em riste e bem acomodados aos podres poderes, nos apontando quais livros devemos ler, quais músicas devemos ouvir, quais filmes podemos assistir.

Movimento Brasil Livre?

Importa ressaltar algumas características do MBL, principal grupo a se opor à exposição em Porto Alegre. Surgido nas Jornadas de Junho de 2013, o Movimento Brasil Livre despontou na cena política nacional como um grupo pró-impeachment, anti-corrupção e apartidário, mas não tardou para que surgissem as primeiras denúncias de que o movimento seria financiado por velhos partidos políticos, como PMDB, PSDB e DEM. Já em 2015, seus principais coordenadores (Kim Kataguiri e Fernando Holiday) não se embaraçaram ao fazerem ampla campanha para o notório corrupto Eduardo Cunha (PMDB), que presidiu a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2016. Em reportagem de 27 de maio de 2016, o portal UOL divulgava áudios em que Renan Antônio Ferreira dos Santos, um dos coordenadores do MBL, afirmava em mensagem a outro membro do grupo, que “tinha fechado com partidos políticos” para divulgar os protestos pelo impeachment “usando as máquinas deles também”. Em outra reportagem do dia 24 de julho desse ano, a Folha de São Paulo destacava que os “Líderes do Movimento Brasil Livre na mobilização pelo impeachment de Dilma Roussef, em 2016, vêm ganhando cargos comissionados em grandes cidades neste ano”, participando de governos e recebendo salários que chegam a R$ 10mil.

Em 2016, também não se intimidaram ao desempenharem o vergonhoso papel de milícia, intimidando estudantes que participavam de ocupações de escolas em Curitiba. São apoiadores do famigerado “Escola Sem Partido”, projeto que impõe a censura nas salas de aula e impede a livre docência, com o falso pretexto de defender a “isenção” e a “neutralidade”, como se houvesse neutralidade em qualquer discurso. Na prática, estão incentivando o desconhecimento e promovendo o obscurantismo, o dogmatismo, buscando por todos os meios impedir e cercear a difusão do conhecimento científico nas escolas. Para isso, contam com um time abjeto e conservador na Câmara dos Deputados, que aglutina as bancadas da bala, do boi e da bíblia. São apoiadores de primeira hora do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) que não esconde o desejo de candidatar-se a presidente do Brasil. É preciso resistir e combater os que aplaudem não apenas a retirada de direitos, mas também impedem a livre manifestação artística e cultural.

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Kim Kataguiri, do MBL e Jair Bolsonaro, ao lado dos comparsas que ajudaram a eleger Eduardo Cunha presidente da Câmara dos Deputados em 2015.

Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta (1973)

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Ponta Negra meu farol
Rasga a noite, rompe a escuridão
Enfrenta o mar

Trabalhar de sol a sol
Não é mais do que escravidão
Mas vou tentar

Acima estão os versos iniciais de Ponta Negra, composição de Danilo Caymmi e José Carlos Pádua, quinta faixa de um disco raro da MPB intitulado Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta”, gravado em 1973 e até hoje inédito em CD. A faixa conta com a participação de Nana Caymmi, que faz um belo dueto com o irmão Danilo. Destaque também para a flauta de Danilo e para o piano de Tenório Jr., que resgata certa atmosfera do rock progressivo, presente também em Belo Horror, quarta faixa do disco.

Beto Guedes / Danilo Caymmi / Novelli / Toninho Horta

 

A banda responsável por esse registro histórico é composta por músicos que participaram do Clube da Esquina, lançado no anterior (1972), em espacial os mineiros Beto Guedes e Toninho Horta. As músicas que compõem as nove faixas do álbum já trazem as características que depois iria caracterizar o som de cada um deles: a flauta de Danilo Caymmi, o vocal de Beto Guedes, a guitarra de Toninho Horta. Cada músico contribuiu com duas faixas, exceto o pernambucano Novelli, que apresenta três composições, Viva Eu, Meio a Meio e Luiza.