Em Pssica, Amazônia é cenário do horror

O leitor desavisado que estiver à procura da exuberância da Amazônia ou do exotismo da região nas páginas de “Pssica” (2015), romance do jornalista e escritor paraense Edyr Augusto, pode ter suas expectativas frustradas. Isso porque a poética do autor de Moscow se afasta dos clichês amazônicos, passa ao largo do regionalismo literário, criando uma obra cuja paisagem urbana soma-se a uma linguagem que explora a gíria marginal do Norte do Brasil, imprimindo assim, um ritmo e uma velocidade próprios ao texto. O que vemos aqui é uma Amazônia provinciana, um Pará gangrenado pela corrupção e assolado pela violência urbana. A trama ambientada em Belém também percorre municípios da Ilha do Marajó e finaliza em Caiena, capital da Guiana Francesa.

A protagonista deste pequeno romance policial de pouco mais de noventa páginas é Janalice, jovem de 14 anos que se vê expulsa de casa após seu namorado divulgar um vídeo em que ela protagoniza uma “cena de felação” com o mesmo. Difamada na escola, discriminada e expulsa de casa pelos pais, Janalice é obrigada a viver temporariamente na casa de seus tios, Daiane e Célio. Não sabia que justamente ali, na casa de seus parentes, não apenas teria sua dignidade violada como também seria vítima de abusos sexuais cotidianos. Seria o começo de sua saga, que envolve o vício em drogas e a prostituição infantil. Em uma das passagens, quando o personagem “Portuga” encontra a jovem no porto de Breves, “a maior cidade do Marajó”, ela explica sua condição.

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“Me raptaram, me venderam e agora sou prostituta. Isso na tua boca? Foi um soco que um miserável me deu. Filho da puta. Deus me abandonou. Só pode ser. Não acredito em mais nada. Sou uma fodida, sozinha no mundo. Me salva. Como? Sei lá, me compra, me leva contigo. Pra onde vocês vão agora? Pra Caiena. Caiena? É. Pra ser prostituta”. (p. 62)

Além da jovem protagonista, surgem outros personagens que compõem o quadro geral desse impactante thriller policial. Ladrões, prostitutas, cafetões, viciados, políticos criminosos… toda essa fauna surge nas páginas de Pssica. Um deles é Préa, marginal que lidera um bando que age roubando cargas nos rios da região – no Norte, esses grupos são conhecidos como ratos d’água – e que passa ser perseguido pelo angolano Manoel Tourinhos, o “Portuga”. O comerciante estrangeiro é vítima do bando que acaba matando sua esposa, Ana Maura, durante o assalto ao seu armazém. Outro personagem importante no desenvolvimento da intriga é Amadeu, delegado aposentado, amigo de Pedro, o pai de Janalice. Arrependido, Pedro consulta o amigo, que ainda “faz uns servicinhos”, no intuito de que Amadeu inicie uma investigação sobre o paradeiro de Janalice. Ele aceita.

“Amadeu andou por Ó de Almeida, Presidente Vargas, Aristides Lobo, Manoel Barata, Riachuelo, Frei Gil e Primeiro de Março. Conferindo. Ninguém sabia de nada. Nunca tinham visto. Com uma foto. Foi nos camelôs. Esse brinco foi comprado aqui? E essa menina, conhece? Não. Aqui? Não sei, não, doutor. É tanta gente que vem aqui. Será que não sabem, mesmo? Bom, ela circulou poucos dias, pode não ter dado para notar. Encostou na banca do Alvino, na praça da República. Viram essa garota por aqui? Não sei. Parece que sim. Mas essas meninas chegam todas bonitinhas, embarcam na droga com os moleques e vão murchando. Os garotos se aproveitam. Fodem elas, viciam e depois dão um chute. Difícil dizer. Tá bom por hoje”. (p. 18)

Lançando luzes sobre um tema que demonstra o atraso, a violência e a ausência do poder público nas diferentes regiões da Amazônia, os 17 capítulos de Pssica apresentam em seu realismo nu, um retrato sombrio de nossa realidade, sobretudo da mulher e sua condição. Pssica, o título do livro, é uma gíria cujo significado está relacionado ao azar, à má sorte que acompanha Janalice até o fim do romance. Abandono, traição, vingança, injustiça, crueldade e horror são alguns tópicos presentes nesse texto que insere a paisagem urbana da capital paraense e dos municípios da região, com todas as suas mazelas, no panorama das boas obras da literatura contemporânea brasileira.

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