Manuel Bandeira: iniciação em Marcel Proust

Duas vezes tentei ler o Proust e fracassei. Foi no tempo em que o genial romancista ainda vivia, o que afinal é um bom ponto para mim: não se tinha formado ainda o mito-Proust; não tinham ainda aparecido os admiradores das dúzias, os urubus da consagração póstuma. Foi ainda no tempo em que Graça Aranha escrevia: “Proust não nos rejuvenesce”, consideração importante para quem quer rejuvenescer. Hoje Proust continua a não nos rejuvenescer. Proust continua difícil de ler, mas como morreu e lhe reconhecem o gênio, todo mundo precisa “ter lido” Proust, porque toda a gente está sentindo que o romancista de À procura do tempo perdido é um desses nomes que ficam e se estendem marcando nas gerações.

Aliás ninguém se envergonhe de não haver reconhecido por si próprio a força que o escritor dissimulava nas incidentes do estilo mais puxa-puxa que se tem notícia na história de todas as literaturas. André Gide, que é… André Gide, boiou também nos primeiros contatos com Proust. Este, embora dispondo de editor e de jornal, acariciava o desejo de se fazer editar pela Nouvelle Revue Française, onde lhe parecia que seu livro ficaria colocado na verdadeira atmosfera que lhe conviria. Na Nouvelle Revue mandava e desmandava o Gide. Pois o bom do Marcel Proust sofreu o vexame de repetidas recusas. Não foi editado pela Nouvelle Revue e por culpa de André Gide, por cujas mãos passaram os originais. Quando o romance apareceu, editado por outra casa, é que Gide percebeu o erro em que tinha caído.

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Marylou (Kristen Stewart) lendo Proust em uma cena de On the Road, Walter Salles, 2012.

Estou escrevendo esta crônica no mesmo estado de espírito em que o autor de L’Imoraliste escreveu a nobre carta com que felicitou Proust e se desculpou e penitenciou de sua leviandade: ”Meu caro Proust, há alguns dias já que não largo o seu livro; supersaturo-me dele com delícia: esponjo-me nele…”

O erro de Gide provinha de uma prática muito comum, perdoável em quem está por dever de ofício forçado a ajuizar de centenas de originais: o hábito de lançar a vista num trecho tomado ao acaso. Gide foi infeliz em dois ensaios; deu o livro por julgado.

As razões do meu fracasso foram mais graves porque não eram de leviandade. Peguei do começo um romance de Proust. Depois de trinta páginas o famoso estilo embastido havia criado para mim uma atmosfera irrespirável. Ora, agora sei por que razão fracassei e quero que a minha experiência sirva aos outros nesta época em que é preciso ter lido Proust.

O livro que duas vezes me desanimou foi À l’Ombre des jeunes filles en fleur. O que estou lendo agora e entendendo é o primeiro da série, o Du Côté de chez Swann. E estou como Gide: não largo o livro, sobressaturando-me dele, esponjando-me nele.

Sem dúvida há sempre que vencer os arames farpados das incidentes proustianas. Será necessário ler duas ou três períodos como este por exemplo: “E da mesma maneira que ela afiança não ter precisão do bico suplementar que o concierge e o chasseur que ele despacha de repente vendo que é hora para pôr no gelo a bebida de um freguês – tendo declinado o oferecimento de Francisca de me preparar a tisana ou de ficar ao pé de mim, eu…”. Uf! Essa maneira de escrever e a remissão frequente a quanto ficou atrás faz com que Proust tenha de ser lido desde a primeira linha do primeiro tomo que começa o romance único que é a sua grande obra. Só assim é que a gente se sente iniciado no mundo de Proust, e, para empregar uma expressão dele, a sentir em sua prosa de ritmo uniforme e toda amarrada de conjunções e incidentes ou explicativas “uma espécie de vida sentimental e contínua”.

Uma vez embreado nessa “espécie de vida sentimental e contínua”, vai-se até o fim do mundo proustiano, com pena desde logo que ele venha acabar um dia.

Extraído do livro Crônicas Inéditas 2 (Cosac Naify)
Revista Souza Cruz, novembro 1930

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