Javier Marías e a frágil condição dos segredos

“De vossa cor as mãos agora tenho;
mas de possuir ficara envergonhada
um coração tão branco”
(William Shakespeare, Macbeth)

Comecemos por imaginar as consequências de um segredo familiar guardado e revelado após tantos anos. Depois passemos aos efeitos que podem acarretar, em um relacionamento ou nos membros de uma família, palavras enunciadas ou histórias silenciadas e subitamente desveladas: eis que estamos travando contato com algumas das inquietações de Coração Tão Branco, romance do escritor espanhol Javier Marías. Apontado como um clássico da literatura contemporânea, o romance lançado em 1992 só chegou ao Brasil em 2008, com edição da Companhia de Bolso e tradução de Eduardo Brandão. Dois anos antes a revista The Paris Review publicava uma entrevista com o escritor madrilenho, na qual aponta alguns autores que admiram sua obracomo L. M. Coetzee, Salman Rushdie e W. G. Sebald.

Em Coração Tão Branco (cujo título foi extraído de um verso de Shakespeare) Marías constrói uma prosa densa e vigorosa, na qual o desenvolvimento conduz o leitor por um emaranhado de digressões feitas pelo protagonista do romance, o tradutor e intérprete Juan. É ele que inicia a narração de um fato sombrio de sua família, o suicídio de sua tia Teresa Aguilera, apresentada nas primeiras linhas:

“Eu não queria saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados”. (p. 7)

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Alejandro Cerutti

A descoberta inesperada desse fato impulsiona o narrador a iniciar uma investigação interior, visitando fatos antigos de sua vida, buscando em sua memória a explicação para esses e outros acontecimentos. Para isso, Marías opera um intenso fluxo de consciência através do protagonista, que conhece Luísa em um encontro de trabalho com dois líderes mundiais (ela também intérprete e tradutora). Eles se casam e a história relatada por Juan inicia com sua viagem de lua de mel, onde desde então, passa a ter “pressentimentos de desastre”. O pai do narrador, Ranz, é outra peça fundamental da narrativa, uma vez que suas perguntas e insinuações “Bem, já se casou. E agora?”, “Luísa e você devem ter segredos, suponho”, “Quando você tiver segredos ou se já os tiver, não os conte”, são as senhas que dão acesso às histórias de seu próprio passado.

Curioso notar como a imagem em que Juan é confundido por uma mulher na sacada de um hotel em Havana se repete em um conto de Javier Marías, “Na viagem de lua-de-mel”, presente no livro Quando fui mortal. A diferença é que no conto a história se passa em Sevilha enquanto no romance a cena se desenvolve em Havana. Essa semelhança ou repetição remete aos conselhos de um personagem de Roberto Bolaño, Sensini, um veterano em concursos literários que incentiva o narrador a inscrever os mesmos contos em diferentes certames, alterando apenas alguns detalhes como os títulos, por exemplo.

As questões levantadas em Coração Tão Branco dizem respeito aos segredos e mentiras de família, as suspeitas e desconfianças que envolvem os casais e, sobretudo, ao papel que a descoberta (ainda que involuntária) de tais segredos possa acarretar. Para além dos temas preponderantes, outras questões são explorados em torno da temática central. Em uma das passagens, Juan tece comentários com Luísa a respeito de diferentes tipos de segredo.

“Olhe – eu lhe disse -, as pessoas que guardam segredos durante muito tempo nem sempre o fazem por vergonha ou para se proteger, às vezes é para proteger outros, ou para conservar amizades, ou amores, ou casamentos, para tornar a vida mais tolerável a seus filhos ou para tirar-lhes um medo, já costumam ter muitos” (p. 132)

O desfecho da trama ocorre no momento em que o leitor descobre o papel indireto de Ranz na morte de Teresa, que fora casado com ele antes de Juana, sua irmã. A revelação desse motivo surge quando Ranz, após ser interpelado por Luísa, relata o motivo de Luísa ter atentado contra si mesma, dias após o retorno de sua viagem de lua de mel. É em torno desse segredo que as palavras de Ranz “Luísa e você devem ter segredos, suponho”, “Quando você tiver segredos ou se já os tiver, não os conte”, assumem outra dimensão, confirmando assim, as suspeitas e os “pressentimentos de desastre” de um narrador em constante estado de apreensão.

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