Alguma coisa urgentemente – Um conto de João Gilberto Noll

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João Gilberto Noll (1946 – 2017)

Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:

— Quando é que você vai morrer?

— Não vou te deixar sozinho, filho!

Falava-me com o olhar visivelmente emocionado e contava que antes me ensinaria a ler e escrever. Ele fazia questão de esquecer que eu sabia de tudo o que se passava com ele. Pra que ler? — eu lhe perguntava. Pra descrever a forma desta árvore — respondia-me um pouco irritado com minha pergunta. Mas logo se apaziguava.

— Quando você aprender a ler vai possuir de alguma forma todas as coisas, inclusive você mesmo.

No final de 1969 meu pai foi preso no interior do Paraná. (Dizem que passava armas a um grupo não sei de que espécie.) Tinha na época uma casa de caça e pesca em Ponta Grossa e já não me levava a passear.

No dia em que ele foi preso, eu fui arrastado para fora da loja por uma vizinha de pele muito clara, que me disse que eu ficaria uns dias na casa dela, que o meu pai iria viajar. Não acreditei em nada mas me fiz de crédulo como convinha a uma criança. Pois o que aconteceria se eu lhe dissesse que tudo aquilo era mentira? Como lidar com uma criança que sabe?

Puseram-me num colégio interno no interior de São Paulo. O padre-diretor me olhou e afirmou que lá eu seria feliz.

— Eu não gosto daqui.

— Você vai se acostumar e até gostar.

Os colegas me ensinaram a jogar futebol, a me masturbar e a roubar a comida dos padres. Eu ficava de pau duro e mostrava aos colegas. Mostrava as maçãs e os doces do roubo. Contava do meu pai. Um deles me odiava. O meu pai foi assassinado, me dizia ele com ódio nos olhos. O meu pai era bandido, ele contava espumando o coração.

Eu me calava. Pois se referir ao meu pai presumia um conhecimento que eu não tinha. Uma carta chegou dele. Mas o padre-diretor não me deixou lê-la, chamou-me no seu gabinete e contou que o meu pai ia bem.

— Ele vai bem.

Eu agradeci como normalmente fazia em qualquer contato com o padre-diretor e saí dizendo no mais silencioso de mim:

— Ele vai bem.

O menino que me odiava aproximou-se e falou que o pai dele tinha levado dezessete tiros.

Nas aulas de religião o padre Amâncio nos ensinava a rezar o terço e a repetir jaculatórias.

— Salve Maria! — ele exclamava a cada início de aula.

— Salve Maria! — os meninos respondiam em uníssono.

Quando cresci meu pai veio me buscar e ele estava sem um braço. O padre-diretor me perguntou:

— Você quer ir?

Olhei para meu pai e disse que eu já sabia ler e escrever.

— Então você saberá de tudo um dia — ele falou.

O menino que me odiava ficou na porta do colégio quando da nossa partida. Ele estava com o seu uniforme bem lavado e passado.

Na estrada para São Paulo paramos num restaurante. Eu pedi um conhaque e meu pai não se espantou. Lia um jornal.

Em São Paulo fomos para um quarto de pensão onde não recebíamos visitas.

— Vamos para o Rio — ele me comunicou sentado na cama e com o braço que lhe restava sobre as pernas.

No Rio fomos para um apartamento na Avenida Atlântica. De amigos , ele comentou. Mas embora o apartamento fosse bem mobiliado, ele vivia vazio.

— Eu quero saber — eu disse para o meu pai.

— Pode ser perigoso — ele respondeu.

E desliguei a televisão como se pronto para ouvir. Ele disse não. Ainda é cedo. E eu já tinha perdido a capacidade de chorar.

Eu procurei esquecer. Meu pai me pôs num colégio em Copacabana e comecei a crescer como tantos adolescentes do Rio. Comia a empregada do Alfredinho, um amigo do colégio, e, na praia, precisava sentar às vezes rapidamente porque era comum ficar de pau duro à passagem de alguém. Fingia então que observava o mar, a performance de algum surfista.

Não gostava de constatar o quanto me atormentavam algumas coisas. Até meu pai desaparecer novamente. Fiquei sozinho no apartamento da Avenida Atlântica sem que ninguém tomasse conhecimento. E eu já tinha me acostumado com o mistério daquele apartamento. Já não queria saber a quem pertencia, porque vivia vazio. O segredo alimentava o meu silêncio. E eu precisava desse silêncio para continuar ali. Ah, me esqueci de dizer que meu pai tinha deixado algum dinheiro no cofre. Esse dinheiro foi o suficiente para sete meses. Gastava pouco e procurava não pensar no que aconteceria quando ele acabasse. Sabia que estava sozinho, com o único dinheiro acabando, mas era preciso preservar aquele ar folgado dos garotos da minha idade, falsificar a assinatura do meu pai sem remorsos a cada exigência do colégio.

Eu não dava bola para a limpeza do apartamento. Ele estava bem sujo. Mas eu ficava tão pouco em casa que não dava importância à sujeira, aos lençóis encardidos. Tinha bons amigos no colégio, duas ou três amigas que me deixavam a mão livre para passá-la onde eu bem entendesse.

Mas o dinheiro tinha acabado e eu estava caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana tarde da noite, quando notei um grupo de garotões parados na esquina da Barão de Ipanema, encostados num carro e enrolando um baseado. Quando passei, eles me ofereceram. Um tapinha? Eu aceitei. Um deles me disse olha ali, não perde essa, cara! Olhei para onde ele tinha apontado e vi um Mercedes parado na esquina com um homem de uns trinta anos dentro. Vai lá, eles me empurraram. E eu fui.

— Quer entrar? — o homem me disse.

Eu manjei tudo e pensei que estava sem dinheiro.

— Trezentas pratas — falei.

Ele abriu a porta e disse entra, o carro subiu a Niemeyer, não havia ninguém no morro em que o homem parou. Uma fita tocava acho que uma música clássica e o homem me disse que era de São Paulo. Me ofereceu cigarro, chiclete e começou a tirar a minha roupa. Eu pedi antes o dinheiro. Ele me deu as três notas de cem abertas, novinhas. E eu nu e o homem começando a pegar em mim, me mordia de ficar marca, quase me tira um pedaço da boca. Eu tinha um bom físico e isso excitava ele, deixava o homem louco. A fita tinha terminado e só se ouvia um grilo.

— Vamos — disse o homem ligando o carro.

Eu tinha gozado e precisei me limpar com a sunga.

No dia seguinte meu pai voltou, apareceu na porta muito magro, sem dois dentes. Resolvi contar:

— Eu ontem me prostituí, fui com um homem em troca de trezentas pratas.

Meu pai me olhou sem surpresas e disse que eu procurasse fazer outra história da minha vida. Ele então sentou-se e foi incisivo:

— Eu vim para morrer. A minha morte vai ser um pouco badalada pelos jornais, a polícia me odeia, há anos me procura. Vão te descobrir mas não dê uma única declaração, diga que não sabe de nada. O que e verdade.

— E se me torturarem? — perguntei.

— Você é menor e eles estão precisando evitar escândalos.

Eu fui para a janela pensando que ia chorar, mas só consegui ficar olhando o mar e sentir que precisava fazer alguma coisa urgentemente. Virei a cabeça e vi que meu pai dormia. Aliás, não foi bem isso o que pensei, pensei que ele já estivesse morto e fui correndo segurar o seu único pulso.

O pulso ainda tinha vida. Eu preciso fazer alguma coisa urgentemente, a minha cabeça martelava. É que eu não tinha gostado de ir com aquele homem na noite anterior, meu pai ia morrer e eu não tinha um puto centavo. De onde sairia a minha sobrevivência? Então pensei em denunciar meu pai para a polícia para ser recebido pelos jornais e ganhar casa e comida em algum orfanato, ou na casa de alguma família. Mas não, isso eu não fiz porque gostava do meu pai e não estava interessado em morar em orfanato ou com alguma família, e eu tinha pena do meu pai deitado ali no sofá, dormindo de tão fraco. Mas precisava me comunicar com alguém, contar o que estava acontecendo. Mas quem?

Comecei a faltar às aulas e ficava andando pela praia, pensando o que fazer com meu pai que ficava em casa dormindo, feio e velho. E eu não tinha arranjado mais um puto centavo. Ainda bem que tinha um amigo vendedor daquelas carrocinhas da Geneal que me quebrava o galho com um cachorro-quente. Eu dizia bota bastante mostarda, esquenta bem esse pão, mete molho. Ele obedecia como se me quisesse bem. Mas eu não conseguia contar para ele o que estava acontecendo comigo. Eu apenas comentava com ele a bunda das mulheres ou alguma cicatriz numa barriga. É cesariana, ele ensinava. E eu fingia que nunca tinha ouvido falar em cesariana, e aguçava seu prazer de ensinar o que era cesariana. Um dia ele me perguntou:

— Você tem quantos irmãos?

Eu respondi sete.

— O teu pai manda brasa, hein?

Fiquei pensando no que responder, talvez fosse a ocasião de contar tudo pra ele, admitir que eu precisava de ajuda. Mas o que um vendedor da Geneal poderia fazer por mim senão contar para a polícia? Então me calei e fui embora.

Quando cheguei em casa entendi de vez que meu pai era um moribundo. Ele já não acordava, tinha certos espasmos, engrolava a língua e eu assistia. O apartamento nessa época tinha um cheiro ruim, de coisa estragada. Mas dessa vez eu não fiquei assistindo e procurei ajudar o velho. Levantei a cabeça dele, botei um travesseiro embaixo e tentei conversar com ele.

— O que você está sentindo? — perguntei.

— Já não sinto nada — ele respondeu com uma dificuldade que metia medo.

— Dói?

— Já não sinto dor nenhuma.

De vez em quando lhe trazia um cachorro-quente que meu amigo da Geneal me dava, mas meu pai repelia qualquer coisa e expulsava os pedaços de pão e salsicha para o canto da boca. Numa dessas ocasiões em que eu limpava os restos de pão e salsicha da sua boca com um pano de prato a campainha tocou. A campainha tocou. Fui abrir a porta com muito medo, com o pano de prato ainda na mão. Era o Alfredinho.

— A diretora quer saber por que você nunca mais apareceu no colégio — ele perguntou.

Falei pra ele entrar e disse que eu estava doente, com a garganta inflamada, mas que eu voltaria pro colégio no dia seguinte porque já estava quase bom. Alfredinho sentiu o cheiro ruim da casa, tenho certeza, mas fez questão de não demonstrar nada.

Quando ele sentou no sofá e que eu notei como o sofá estava puído e que Alfredinho sentava nele com certo cuidado, como se o sofá fosse despencar debaixo da bunda, mas ele disfarçava e fazia que não notava nada de anormal, nem a barata que descia a parede à direita, nem os ruídos do meu pai que às vezes se debatia e gemia no quarto ao lado. Eu sentei na poltrona e fiquei falando tudo que me vinha à cabeça para distraí-lo dos ruídos do meu pai, da barata na parede, do puído do sofá, da sujeira e do cheiro do apartamento, falei que nos dias da doença eu lia na cama o dia inteiro umas revistinhas de sacanagem, eram dinamarquesas as tais revistinhas, e sabe como é que eu consegui essas revistinhas?, roubei no escritório do meu pai, estavam escondidas na gaveta da mesa dele, não te mostro porque emprestei pra um amigo meu, um sacana que trabalha numa carrocinha da Geneal aqui na praia, ele mostrou pra um amigo dele que bateu uma punheta com a revistinha na mão, tem uma mulher com as pernas assim e a câmera pega a foto bem daqui, bem daqui cara, ó como os caras tiraram a foto da mulher, ela assim e a câmera pega bem desse ângulo aqui, não é de bater uma punheta mesmo?, a câmera pertinho assim e a mulher nua e com as pernas desse jeito, não tou mentindo não cara, você vai ver, um dia você vai ver, só que agora a revistinha não tá comigo, por isso que eu digo que ficar doente de vez em quando é uma boa, eu o dia inteiro deitado na cama lendo revistinha de sacanagem, sem ninguém pra me aporrinhar com aula e trabalho de grupo, só eu e as minhas revistinhas, você precisava ver, cara, você também ia curtir ficar doente nessa de revistinha de sacanagem, ninguém pra me encher o saco, ninguém cara, ninguém.

Aí eu parei de falar e o Alfredinho me olhava como se eu estivesse falando coisas que assustassem ele, ficou me olhando com uma cara de babaca, meio assim desconfiado, e nem sei bem o que passou pela cabeça dele quando meu pai lá no quarto me chamou, era a primeira vez que meu pai me chamava pelo nome, eu mesmo levei um susto de ouvir meu pai me chamar pelo meu nome, e me levantei meio apavorado porque não queria que ninguém soubesse do meu pai, do meu segredo, da minha vida, eu queria que o Alfredinho fosse embora e que não voltasse nunca mais, então eu me levantei e disse que tinha que fazer uns negócios, e ele foi caminhando de costas em direção à porta, como se estivesse com medo de mim, e eu dizendo que amanhã eu vou aparecer no colégio, pode dizer pra diretora que amanhã eu converso com ela, e o meu pai me chamou de novo com sua voz de agonizante, o meu pai me chamava pela primeira vez pelo meu nome, e eu disse tchau até amanhã, e o Alfredinho disse tchau até amanhã, e eu continuava com o pano de prato na mão e fechei a porta bem ligeiro porque não aguentava mais o Alfredinho ali na minha frente não dizendo nem uma palavra, e fui correndo pro quarto e vi que o meu pai estava com os olhos duros olhando pra mim, e eu fiquei parado na porta do quarto pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente.

O conto acima foi publicado no livro “Romances e Contos Reunidos”. Foi adaptado para o cinema  em 1983 com o título “Nunca fomos tão felizes”, direção de Murilo Salles.

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A morte dos enfermos: Sartre e Haneke

No filme Amor, do diretor austríaco Michael Haneke, durante a cena em que George (Jean-Louis Trintignant) tenta forçar Anne (Emmanuelle Riva) a beber água, existe uma semelhança em relação à cisma que surge durante o diálogo entre Charles Darbédat e sua filha Ève, no conto O Quarto, de Jean-Paul Sartre. Quando Anne se recusa a engolir a água que fora forçada a beber e termina por cuspi-la, numa súbita revolta contra a imposição do marido, este acaba reagindo dando-lhe um tapa no rosto. No conto de Sartre, no diálogo entre pai e filha, quando Charles tenta convencer a filha a internar seu marido, que vive preso no quarto do apartamento do casal, isolado do mundo por problemas mentais cada vez mais agudos, Ève recusa a proposta do pai, insistindo em manter o marido no apartamento, alegando o seu amor por ele. É nessa passagem que o senhor Darbédat se irrita, reagindo às palavras da filha.

“ – Eu o amo do jeito que está – disse Ève rapidamente e meio aborrecida.

– Não é verdade – retrucou o sr. Darbédat energicamente. – Não é verdade: você não o ama, não pode amá-lo. Não se pode ter tais sentimentos senão por um ser normal e são. Por Pierre, você tem compaixão, não há dúvida, e também não há dúvida de que você se lembra dos três anos de felicidade que lhe deve, mas não me diga que o ama, eu não poderia acreditar”. (p. 47)

Evidentemente, não há agressão física na passagem acima, mas no diálogo entre o senhor Darbédat e sua filha Ève, as palavras ditas pelo pai são agressões verbais, que, como na cena entre George e Anne, são provocados pela recusa da imposição de um ser ao outro, do ser “saudável” ao ser enfermo, em ambos os casos.

Amor

No filme de Haneke, a filha do casal George e Anne, Eva (Isabelle Huppert), possui o nome parecido com a filha do casal Darbédat, Ève. No conto de Sartre, Ève se recusa a internar seu marido Pierre, enquanto Eva, no filme de Haneke, tenta convencer o pai a internar sua mãe. Em determinada passagem, após discutir com a filha, sem ter conseguido convencê-la a internar o marido, o pensamento de Charles Darbédat mostra o caráter imperioso de seu desejo, que pretende a qualquer custo a internação de seu genro.

“Beijou-a precipitadamente e saiu. ‘Seria preciso’, pensava descendo a escada, ‘mandar dois brutamontes para levar à força esse coitado, metê-lo debaixo de uma boa ducha sem lhe pedir licença”. (p. 49)

*

Os temas abordados tanto no conto de Sartre quanto no filme de Haneke, apresentam um desfecho que em ambas as obras, termina com o enfermo morto por seu próprio parceiro, ou quase isso. No conto O Quarto, a morte de Pierre não se materializa, é apenas enunciada por Ève. No final de Amor, George acaba cometendo um ato inesperado. Sua atitude repentina, asfixiando Anne com o travesseiro, contrasta com os cuidados habituais que ele tinha com a saúde da mulher. Parte desses cuidados foi a promessa que fizera de não mandá-la para uma clínica ou hospital, como desejava sua filha Eva, mas que ela iria permanecer ali, sendo tratada e cuidada ao seu lado. O clímax do filme também coincide com o final do conto de Sartre, onde Ève, sabendo que seu marido entrará numa alienação completa em menos de um ano, permanece recusando os conselhos de seu pai e do Dr. Franchot e mantém-se inabalável em sua postura de manter Pierre no quarto, longe de um manicômio. Contudo, assim como a inesperada atitude de George com Anne, é não menos surpreendente a atitude de Ève com Pierre, no final do conto.

“Isso vai começar antes de um ano, foi o que Franchot me disse’. Mas a angústia não a deixava; um ano; um inverno, uma primavera, um verão, o começo de outro outono. Um dia aqueles traços se deformariam; ele deixaria pender o queixo e entreabriria os olhos lacrimejantes. Ève inclinou-se sobre a mão de Pierre e nela pousou seus lábios. ‘Eu o matarei antes que aconteça”. (p. 64)

Os dois reis e os dois labirintos

Contam os homens dignos de fé (mas Alá sabe mais) que nos primeiros tempos houve um rei das ilhas da Babilônia que reuniu seus arquitetos e magos e os mandou construir um labirinto tão desconcertante e sutil, que os varões mais prudentes não se aventuraram a entrar, e os que entravam se perdiam. A obra era um escândalo, porque a confusão e a maravilha são operações próprias de Deus, e não dos homens. Com o passar do tempo veio à sua corte um rei dos árabes, e o rei da Babilônia (para zombar da simplicidade do hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde perambulou ofendido e confuso até o cair da tarde. Então implorou socorro divino e deu com a porta. Seus lábios não proferiram queixa alguma, mas disse ao rei da Babilônia que ele na Arábia também tinha um labirinto que, se Deus fosse servido, lhe daria a conhecer algum dia. Depois voltou à Arábia, reuniu seus capitães e alcaides e devastou os reinos da Babilônia com tamanha boa sorte que arrasou seus castelos, dizimou sua gente e aprisionou o próprio rei. Amarrou-o em cima de um camelo veloz e o levou para o deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: “Ó rei do tempo e substância e cifra do século!, na Babilônia desejaste que eu me perdesse num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; o Poderoso teve por bem que eu agora te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros para impedir a passagem”.
Logo depois, desamarrou-o e o abandonou no meio do deserto, onde ele morreu de fome e sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

(Jorge Luis Borges – O Aleph)

Borges

Borges

Um conto de Marguerite Duras

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Cartaz do colóquio em homenagem ao centenário de Duras, realizado em Belém

Em função da comemoração de seu centenário em 2014, Marguerite Duras foi tema de um recente colóquio e mostra de cinema realizado em Belém com o título “Uma poética do transbordamento”. Foi em Saigon (antiga Indochina francesa) que Duras nasceu em 1914 e passou sua infância e adolescência. Aos 18 anos mudou-se para Paris, onde estuda Direito, Matemática e Ciências Políticas. No final da Segunda Guerra Mundial Marguerite Duras foi filiada ao Partido Comunista Francês, mas rompeu em 1950. Teve papel destacado no movimento contra a guerra da Argélia e durante as manifestações do Maio de 68.

Seu legado literário inclui romances como o vencedor do Prêmio Gouncourt de1984, O amante, peças de teatro e roteiros cinematográficos, alguns muito famosos como Hiroshima Mon Amour, filme dirigido pelo cineasta Alain Resnais. Marguerite Duras morreu em Paris, em 3 de março de 1996. Abaixo, um conto presente em seu livro Cadernos da Guerra e outros textos, publicado em 2009.

BAILARINAS CAMBOJANAS

         Era naquela parte do alto Camboja presa entre o mar e a montanha, para o lado da fronteira do Sião. Lá só há uma estrada cada vez pior e que para, vencida, diante do mar. A serra do Elefante a ladeia até o fim e mergulha no calmo golfo de Ream, onde algumas ilhotas ainda se notam, cada vez mais raras. Algumas aldeiazinhas pobres estão semeadas à beira da estrada, enfiadas na floresta. Pela tarde elas se acendem; grandes fogueiras de lenha verde e pesadas colunas de fumaça resinosa embalsamam o campo.

Essa lokhon, essa dançarina, ia de aldeia em aldeia. Quando chegou a Bem-Teai, eu estava lá por acaso. Um pequeno tam-tam monótono anunciava-a desde a manhã; sem trégua ela chamava, implorava que se viesse vê-la; caída a noite, os caminhos ficaram cheios de curiosos, de mulheres e homens vindos de outras aldeias.

Quando cheguei, a palhoça estava escura e já repleta de gente. No meio, sobre um estrado nu, a lokhon já estava dançando. Lamparinas fumarentas pareciam isolá-la do resto do mundo e da noite. Uma velha cambojana, num canto da palhoça, agachada, cantava uma melopeia de ritmo duro. Sua voz era vazia e rouca. Sua voz era feia, mas ela sabia colocar na voz a paixão de um ritmo impecável; por vezes, para segui-lo, ela gritava, não podendo mais cantar, e seu grito parecia de desespero. Essa lembrança sempre continua para mim como uma visão:

A moça dança; ainda é jovem e, no entanto, sua beleza é madura e já pronta para o sacrifício do declínio.

Vestida de outros falsos embaçados, está mal maquiada, maquiada com cal. Seus ombros estão nus e os braços também. Deve ter andado por longos dias debaixo do sol, pois o pescoço está queimado. A pele do braço é branca e fresca e os pesados braceletes parecem mordê-la.

Ela não sabe dançar, é uma pagã, uma falsa lokhon. Dá sua dança a todos, dá sua juventude, não sabe guardar nada e, terminada a dança, dá seu corpo pelo resto da noite. Ninguém a quereria como criada, ela só dança à noite. De dia, dorme em alguma valeta ou anda pelas estradas com sua velha cantora, que só tem a ela.

Graças a sua dança, compreendi a dança khmer, aquela que desde de séculos alimenta um povo com as magia e carrega um [grande] cerimonial até nessa palhoça escura e …

Marguerite Duras

Marguerite Duras na França, 1955

Ela e a velha começam juntas. As primeiras notas cantadas são baixas e sombrias, mas sente-se logo que elas chamam outras, mais distantes.

A dança se inicia sobriamente, como se dedicasse uma extrema atenção para nascer no momento exato. Começa com uma batida de saltos; depois sobe, sinuosa e lenta até os quadris. Espalha-se e vive intensamente  no torso que logo se torna uma coisa fechada, infinitamente preciosa, de onde a dança tenta escapar sem se fartar.

Os quadris imobilizam-se, as pernas separam-se uma da outra e os pés fixam-se sabiamente. Então os braços e o busto recebem de repente a graça e são tomados pela necessidade da dança. Os braços flexíveis parecem partidos pelo eflúvio que recebem de repente a graça e são tomados pela necessidade da dança. Os braços flexíveis parecem partidos pelo eflúvio que recebem. Por vezes eles vivem contrariamente; um atrás rechaçando e defendendo, o outro levado à frente, com a palma inflamada, implorando. A mão, a divina mão está quebrada como por um peso grande demais.  Está rígida e sofre infinitamente.

Uma vez que começa, ela improvisa, sem dúvida. Pensa-se na derradeira atenção da dançarina de corte aprisionada em sua dança, essa segunda vida que a designou e que a possui. Já esta, esta é livre, e trama a sua dança numa solidão perfeita consigo mesma.

Dir-se-ia que ela se estira para fora do próprio corpo, de repente cansada de [abranger] tão pouco espaço, de não poder ir mais longe fora de si mesma.

Depois a dança para.

A dançarina volta a seu pequeno corpo acanhado e lasso. Ofegante e fosca pelo calor, ela descansava. Todos consideravam com uma curiosidade baixa e cruel. Despida pela primeira vez, sua nudez de aparato ficava exposta; e os homens a desejavam de repente por causa dessa fadiga que a entregava a eles.

Ela teve de dançar a noite toda. Por longo tempo o pequeno tambor lançou seu apelo menor. Só parou quando a fresca madrugada entrou na palhoça, esgotada.

Ela se foi com o dia, pois era daquelas que não podem parar em lugar algum.

A preciosíssima dançarina de corte riria de sua dança e de sua sorte, sem compreender que ela também foi designada para levar aos campos longínquos a mensagem de sua dança mal aprendida.

Veja mais: Filme com roteiro escrito por Marguerite Duras e dirigido por Alain Resnais, Hiroshima mon amour (1959). [Legendas em espanhol]

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“O veredicto”, de Franz Kafka

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Franz Kafka

A novela do escritor tcheco Franz Kafka “O veredicto” (1912), é uma das poucas obras que o autor publicou quando ainda estava vivo. O tema de representação da novela é o absurdo da vida e sua história possui traços de semelhança com o romance “A Metamorfose”, escrita no mesmo ano.

Em “O Veredicto”, o personagem Georg (outra a semelhança com A metamorfose é o nome dos personagens, Gregor e Georg) se encontra diante da figura opressiva de seu pai, bem como Gregor Samsa sente-se em “A metamorfose” diante de sua família que lhe trata com repugnância.  Essas duas obras estão ligadas pela relação de semelhança entre os personagens, que diante de si, encontram na figura do pai, o ser onipresente, com seu olhar severo e intimidador; assim Georg Bendemann se sente diante de seu pai. Ao anunciar pra ele (um homem velho com a “cabeça de cabelos brancos e desgrenhados”), que vai enviar uma carta para seu amigo que mora na Rússia, contando sobre seu noivado (tema presente também em Carta ao pai escrita em 1919), seu pai lhe responde de maneira desconcertante:

– Georg – disse o pai esticando para os lados a boca desdentada -, ouça bem. Você veio a mim para se aconselhar comigo sobre esse assunto. Isso o honra, sem dúvida. Mas não é nada, é pior do que nada, se você agora não me disser toda a verdade. Não quero levantar questões que não cabem aqui. Desde a morte de nossa querida mãe aconteceram certas coisas que não são nada bonitas. Talvez chegue a horas também de discuti-las – e talvez ela chegue mais cedo que pensamos. Na loja muita coisa foge ao meu controle, talvez não pelas minhas costas -, não tenho mais força suficiente, minha memória começa a falhar, já não tenho visão para tudo isso. Em primeiro lugar, é o curso da natureza; em segundo, a morte da nossa mamãe me abateu muito mais doque a você. Mas já que estamos falando desse assunto, dessa carta, peço-lhe, por favor, Georg, que não me engane. É uma ninharia, não vale nem um suspiro, por isso não me engane. Você realmente tem esse amigo em São Petesburgo?”

É importante perceber como em Kafka esse tema da opressiva figura paterna vai evoluir para uma segunda fase em que o autor de O castelo deixará de relacionar esse sentimento pessoal de opressão, essa “burocratização da figura paterna” para dar lugar a uma opressão maior, mais totalizante. É no absurdo dessa opressão totalizante que o personagem do romance O castelo, se debate em busca de um encontro com o alcaide do vilarejo, sempre distante e inacessível para o agrimensor K. Em O castelo é o personagem K que vai ao encontro (ainda que inacessível) da figura que personifica o poder, o estado; Em O processo, dá-se o contrário, posto que é na figura do estado que Josef K. se encontra ameaçado, quando no início do romance o narrador descreve:

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Franz Kafka

“Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum”.

Nesse sentido, em O veredicto quem assume o papel de condenar é o pai do personagem Georg, sendo transferida essa função para o tribunal no romance O processo.

         O texto de O veredicto que Kafka dedicou a Felice Bauer foi escrito na noite de 22 para 23 de setembro de 1912 e não é por acaso que a noiva do personagem Georg chama-se Frieda Brandenfeld, nome que possui as mesmas iniciais da musa de Kafka, Felice Bauer.

A novela em seu enredo apresenta a sentença do “pai-tribunal” que zomba com cinismo de Georg ao ver o filho se queixar do amigo que deixou de responder suas cartas após se mudar para São Petesburgo:

“– Como você hoje me divertiu quando veio perguntar se devia escrever ao seu amigo sobre o noivado! Ele sabe de tudo, jovem estúpido, ele sabe de tudo! Eu escrevi a ele porque você se esqueceu de me tirar o material para escrever. É por isso que há anos ele não vem, ele sabe de tudo cem vezes mais do que você mesmo, amassa sem abrir as suas cartas na mão esquerda enquanto com a direita segura as minhas diante dos olhos para ler”.

Após discutir com Georg, seu pai brada toda sua autoridade contra o filho e define sua “sentença” de modo ameaçador quando declara, “por isso saiba agora: eu o condeno à morte por afogamento!”

No final da novela, após receber o seu “veredito”, Georg desce apressado as escadas de sua casa e se choca com a criada que se preparava “para arrumar a casa pela manhã”. Ao sair do prédio, ele corre em “direção à agua” (que podemos interpretar como o rio que Georg observa de dentro do seu quarto, no início da novela) e antes de se jogar, observa por uma grade um ônibus que passa pela rua e imagina que ele irá abafar o barulho que fará quando se jogar. Finalmente, antes de se jogar o anti-herói kafkiano exclama em voz baixa:

“- Queridos pais, eu sempre os amei – e se deixou cair.

Nesse momento o trânsito sobre a ponte era praticamente interminável”.

Veja mais: Drama do diretor tcheco Jan Nemec, (Die Verwandlung) filmado em 1975, baseado no romance de Franz Kafka, A metamorfose