HHhH: homenagem aos resistentes da Operação Antropoide

Desesperado. Hoje a tarde meio dormindo: esse sofrimento vai acabar explodindo minha cabeça. Bem nas têmporas. Ao imaginar isso, o que de fato vi foi uma ferida de bala, só que as bordas do rombo estavam abertas para fora e tinham as pontas afiadas como uma lata aberta com violência.
Franz Kafka, Sonhos (Diário, 15 de outubro de 1913)

No dia 28 de maio de 1942, Joseph Goebbels escrevia em seu diário: “Uma notícia alarmante chega de Praga”. Referia-se ao atentado contra Reinhardt Heydrich. É esse atentado que vai orientar todas as ações de HHhH, romance de estreia do escritor francês Laurent Binet, que causou forte impressão na cena literária no ano de seu lançamento. O título faz referência a abreviação de uma frase alemã corrente na época, que significa: o cérebro de Himmler se chama Heydrich. Nos 257 capítulos que compõem a narrativa, o autor recria um dos grandes atos de resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial: a Operação Antropoide, responsável pelo assassinato de Heydrich, um dos mais perversos nazistas e um dos mentores intelectuais do Holocausto.

Designado por Hitler como “protetor” da Boêmia-Moravia (República Tcheca), Heydrich implementou um regime de terror com assassinatos em massa que fizeram crescer sua fama e seu poder no covil do partido nazista. Ao perseguir de maneira implacável e afugentar parte da resistência, Heydrich acreditou que possuía o controle absoluto de Praga, sentia-se um verdadeiro semi-rei no país de Kafka. Não esperava que, na Inglaterra, o governo tchecoslovaco em exílio preparava o atentado que tiraria sua vida.

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Reinhardt Heydrich (1904 – 1942)

Em seu Diário de Trabalho (Volume II – 1941–1947), no mesmo dia em que Goebbels escrevia sobre a “notícia alarmante” vinda de Praga, Brecht, por sua vez, exilado nos Estados Unidos, escrevia: “Com Lang, na praia, pensei num filme de refém (movido pela execução de Heydrich em Praga)”. (p. 111)

Logo no primeiro capítulo de HHhH o autor apresenta-nos um inusitado enunciado, onde questiona: “que há de mais vulgar do que um personagem inventado?” De fato, o romance de Binet opta por colocar em ação apenas personagens históricos, em contraposição aos personagens de ficção. Essa característica se repete em seu segundo romance, traduzido no Brasil com o título de Quem Matou Roland Barthes? (Com a diferença que em seu segundo romance os protagonistas são personagens de ficção). A dicotomia entre o romance tradicional (de tipo balzaquiano) e o romance contemporâneo é constantemente ressaltado pelo narrador em HHhH. Sua prosa híbrida é permeada por diferentes discursos, que abrange além do literário, o ensaístico, fait-divers, o biográfico e, sobretudo, o discurso histórico, cujo pano de fundo estrutura e organiza uma narrativa de caráter autoficcional.

Foi com a intenção de homenagear Jan Kubis e Josef Gabcik que Binet escreveu seu livro. Foram esses dois jovens, um tcheco e um eslovaco, ambos treinados no exterior para executarem numa manhã de quarta-feira, 27 de maio de 1942, o grande atentado contra o “açougueiro de Praga”. O tema adotado por Binet, contudo, não é novidade. Confirmando o que havia escrito em seu Diário no ano anterior, Brecht finaliza o roteiro de Os carrascos também morrem que será dirigido por Fritz Lang em 1943. O próprio romance HHhH de Laurent Binet inspirou a adaptação para o cinema feita por Cédric Jimenez, em 2016, com mesmo título.

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Cena de Os carrascos também morrem, Fritz Lang, 1943.

O caráter heroico da ação empreendida contra Heydrich no coração de Praga expôs os cidadãos tchecos ao revide alemão. Como vingança pela morte do “protetor”, a pequena cidade de Lídice foi completamente arrasada e seus cidadãos foram fuzilados ou enviados para campos de concentração. O governo alemão propagandeou os eventos de 10 de junho de 1942 como exemplo para quem atentasse contra as autoridades nazistas, causando enorme repúdio internacional. Esses e outros eventos são narrados com grande habilidade por Laurent Binet, que coloca seu romance na mesma tendência de alguns autores da literatura francesa contemporânea, que privilegiam o uso de personagens históricos e o estilo autoficcional do narrador (Mathieu Lindon em O que amar quer dizer, David Foenkinos em Charlotte, Patrick Deville em Viva!). Essa tendência autoficcional é destacada pela crítica Leyla Perrone-Moisés em seu livro Mutações da literatura no século XXI.

“Nos anos 80 a França foi inundada de livros cujo assunto era o próprio autor, suas experiências, pensamentos e sentimentos. Não eram diários, porque não registravam o acontecimento do dia-a-dia, em ordem cronológica. Não eram autobriografias, porque não narravam a vida inteira do autor, mas apenas alguns momentos desta. Não eram confissões, porque não tinham nenhum objetivo de autojustificação e nenhum caráter purgativo”. (p. 204)

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Dora Bruder e a memória do Holocausto

Dora Bruder

Dora Bruder (ao centro), com seus pais Cécile e Ernest Bruder.

Um traço característico da obra do Prêmio Nobel de Literatura de 2014, Patrick Modiano, é o entrelaçamento de diferentes gêneros literários em suas narrativas, passando com desenvoltura pelas memórias e relatos autobiográficos para o plano da ficção. Em seu romance de 1991, Flores da Ruína, é possível constatar esse estilo que intercala a história do narrador em primeira pessoa com a do próprio autor. Essa forma também é visível em um de seus romances mais celebrados, Dora Bruder, lançado em 1997. O livro nos conta a história de uma jovem judia que fora presa na Paris ocupada durante a Segunda Guerra Mundial e morta em Auschwitz, em 1943. A temática da França sob a Ocupação nazista, presente também no filme Lacombe Lucien (1974) cujo roteiro Modiano escreveu em parceria com Louis Malle, é retomado em Dora Bruder para criar uma narrativa melancólica sobre o destino trágico das vítimas do regime de Hitler em colaboração com governo francês de Vichy. Tudo começa quando o narrador (o próprio Modiano) encontra em 1988, numa antiga edição do jornal Paris-Soir de 31 de dezembro de 1941, um anúncio que pedia informações sobre o desaparecimento da jovem Dora Bruder, nascida em 25 de fevereiro de 1926. Diz o anúncio:

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Anúncio no jornal Paris-Soir de 31 de dezembro de 1941

“PARIS

Procura-se uma jovem, Dora Bruder, 15 anos, 1,55cm, rosto oval, olhos marrom-acinzentados, casacão cinza, suéter bordô, saia e chapéu azul marinho, sapatos marrons. Qualquer informação dirigir-se ao Sr. e à Sra. Bruder, bulevar Ornano, 41, Paris”. (p. 5)

A partir desse anúncio, passados 47 anos de seu desaparecimento, Modiano inicia uma saga em busca do passado de Dora e de sua família. Essa busca, porém, é fundada em pistas distantes no tempo e no espaço, marcada por lugares que despareceram, onde o narrador procura restituir os passos de Dora e o paradeiro de seus pais, imigrantes de origem húngara e austríaca. Para isso, o narrador autor visita antigos arquivos de polícia, consulta velhos documentos, fotografias, cartas, jornais da época, fait divers, etc. A Paris que emerge das páginas de Dora Bruder é uma cidade obscura, asfixiada pelos toques de recolher, pelas humilhações cotidianas e pelas prisões e deportações de judeus. Esse clima nos remete aos versos de Nosso Tempo, poema de Carlos Drummond de Andrade, escrito sob o calor da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, em que o poeta diz: “É tempo de meio silêncio / de boca gelada e murmúrio / palavra indireta, aviso / na esquina. Tempo de cinco sentidos / num só. O espião janta conosco”. O romance assume uma atmosfera nebulosa e opaca, de vazio e solidão, que correspondem com o estilo dos personagens de Modiano, quase todos seres fugidios, escorregadios. “São pessoas que não deixam vestígios atrás de si. Praticamente anônimas”.

Misto de romance autobiográfico, ficção e história, Dora Bruder pode ser visto como uma homenagem em que Modiano encontra na história da heroína de seu romance, semelhanças com a história de seu próprio pai, que também viveu no mesmo período lúgubre. Numa das passagens, o autor de Remissão da Pena esclarece seu objetivo:

“Ao escrever este livro, lanço apelos, como sinais de um farol. Tenho dúvidas de que estes conseguirão iluminar a noite. Mas posso esperar” (p. 38)

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Patrick Modiano durante a inauguração da Promenade Dora Bruder. Foto: Martin Bureau/AFP

Com Dora Bruder, o autor nos apresenta a história de uma jovem judia que teve um fim semelhante ao de milhares de outros jovens judeus naquele período negro da história da Europa: primeiro fora presa Paris, enviada para o campo de Drancy, depois fora deportada e morta em Auschwitz. Assim como David Foenkinos cria em seu romance Charlotte (2014) o resgate da memória de uma jovem pintora judia desconhecida, com o mesmo destino de Dora, Patrick Modiano preserva em nossa consciência, através da memória e da ficção, as consequências nefastas da catástrofe nazista. Com sua obra, consegue dar nome a perseguidos, imprimir uma história de vida àqueles que foram silenciados e esvaziados de suas condições humanas.

Em 2015, um ano após receber o Prêmio Nobel de Literatura, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, inaugurou no 18º arrondissement da capital – mesmo bairro em que a jovem Dora vivera durante a Ocupação -, a Promenade Dora Bruder, uma homenagem ao romance de Modiano e à memória de Dora Bruder. O próprio Patrick Modiano esteve presente no dia da inauguração e comentou: “Dora Bruder tornou-se um símbolo. Ela agora representa na memória da cidade as milhares de crianças e adolescentes que partiram da França para serem assassinadas em Auschwitz”.

MBL reproduz prática nazista no Brasil do séc. XXI

“[…]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos
dizer nada.
[…]”

(Trecho de No caminho com Maiakóvski, de Eduardo Alves da Costa)

É extremamente vergonhoso o fato ocorrido no último domingo (10) em Porto Alegre. Além de grave, é sintomático – pois revela o momento sombrio que o País atravessa, a nuvem negra da desgraça – que uma exposição de arte tenha sido fechada pela acusação de que seu conteúdo, supostamente, faria apologia à pornografia, pedofilia e zoofilia. Esse fato ignominioso aconteceu quando o Santander Cultural resolveu fechar a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” após críticas advindas do Movimento Brasil Livre (MBL), que divulgou um vídeo afirmando de maneira agressiva que a exposição “só tem putaria, só tem sacanagem” e “é reconhecida como arte”.

A mostra que abrigava 264 obras de 85 artistas – entre eles nomes como Lygia Clark, Cândido Portinari e Alfredo Volpi -, ficaria aberta até o dia 08 de outubro, com um acervo contemplando diferentes linguagens como pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e colagens, abordando questões de gênero, diversidade e temática LGBT. O fato demonstra, além do elemento moralista do discurso dos censores, a presença de outro elemento, cujo conteúdo é tão somente a discriminação pela diferença, a incapacidade de aceitar o diverso, o distinto, o outro e, portanto, manifestam sua intolerância aos valores da democracia.

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Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva, de Fernando Baril, foi considerada imoral pelo MBL.

Ao exigir o fechamento da exposição por “atentar contra os bons costumes”, o MBL e seus seguidores abandonam o discurso liberal e abraçam a prática nazista. Com tal atitude, reproduziram a mesma orientação política utilizada por Hitler na Alemanha e por Stalin na U.R.S.S., que abominavam obras modernistas e perseguiam os artistas de vanguarda que não se alinhavam à sua cartilha. Em seu livro Era dos Extremos, Eric Hobsbawm descreve a situação da Arte sob os regimes totalitários do século XX:

“Nem a vanguarda alemã, nem a russa, portanto, sobreviveram à ascensão de Hitler e Stalin, e os dois países, na ponta de tudo que era avançado e reconhecido nas artes da década de 1920, quase desapareceram do panorama cultural” (p. 187)

Acusaram de maneira desqualificada a Lei Rouanet de financiar (R$ 800 mil) uma mostra que “ultraja símbolos religiosos”, como se a lei de incentivo à cultura tivesse como função avaliar o conteúdo exposto, ao invés de primar pela pluralidade de ideias. Uma lógica que segue a conduta dos mais peçonhentos censores. Por outro lado, alardeiam como se estivessem realmente preocupados com a cultura no Brasil, já que nada falaram sobre o corte de 41% do orçamento do Ministério da Cultura, sob o comando de Temer.

Blasfêmia e Arte degenerada

Entre os argumentos levantados pelo MBL e seus seguidores (notadamente “pessoas de bem”) são comuns as referências à exposição com termos como “pornografia”, “depravação” e “imoralidade”. Não à toa são semelhantes aos discursos proferidos pelos nazistas em Munique, em 1937, quando foi aberta uma exposição chamada Arte Degenerada (Haus der Kunst), cujo objetivo, além de ridicularizar os artistas, era inflamar a opinião pública contra as obras modernistas. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

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Exposição Arte Degenerada, promovida pelos nazistas em 1937.

A coordenadora do MBL/RS, Paula Cassola, do alto de sua arrogância, questionou a legitimidade das obras expostas, como se as obras precisassem de sua permissão para existirem ou como se eles (MBL e cia) fossem parâmetro justo para considerar o que é obra de arte e o que não é. Como ironizou o jornalista Lira Neto nas redes sociais, “os escandalizados com a mostra proibida pelo Santander nunca foram a uma galeria, a um grande museu ou nunca folhearam um livro de arte”. Com sua visão retrógrada e limitada, o que diriam de artistas como Balthus, Hans Bellmer ou Ren Hang? No mínimo seriam tomados por “pedófilos”, “blasfemadores”, “degenerados”, etc.

Contudo, como diz o ditado, o buraco é mais embaixo. Espera-se dos regimes democráticos que sejam resguardados os direitos de criticar uma exposição, até mesmo de boicotá-la. Impedi-la, censurá-la, porém, é atitude autoritária que não podemos tolerar. Se um grupo econômico, uma religião específica ou um partido político pode impor o fechamento de uma exposição, dentro em breve estarão, com o dedo em riste e bem acomodados aos podres poderes, nos apontando quais livros devemos ler, quais músicas devemos ouvir, quais filmes podemos assistir.

Movimento Brasil Livre?

Importa ressaltar algumas características do MBL, principal grupo a se opor à exposição em Porto Alegre. Surgido nas Jornadas de Junho de 2013, o Movimento Brasil Livre despontou na cena política nacional como um grupo pró-impeachment, anti-corrupção e apartidário, mas não tardou para que surgissem as primeiras denúncias de que o movimento seria financiado por velhos partidos políticos, como PMDB, PSDB e DEM. Já em 2015, seus principais coordenadores (Kim Kataguiri e Fernando Holiday) não se embaraçaram ao fazerem ampla campanha para o notório corrupto Eduardo Cunha (PMDB), que presidiu a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2016. Em reportagem de 27 de maio de 2016, o portal UOL divulgava áudios em que Renan Antônio Ferreira dos Santos, um dos coordenadores do MBL, afirmava em mensagem a outro membro do grupo, que “tinha fechado com partidos políticos” para divulgar os protestos pelo impeachment “usando as máquinas deles também”. Em outra reportagem do dia 24 de julho desse ano, a Folha de São Paulo destacava que os “Líderes do Movimento Brasil Livre na mobilização pelo impeachment de Dilma Roussef, em 2016, vêm ganhando cargos comissionados em grandes cidades neste ano”, participando de governos e recebendo salários que chegam a R$ 10mil.

Em 2016, também não se intimidaram ao desempenharem o vergonhoso papel de milícia, intimidando estudantes que participavam de ocupações de escolas em Curitiba. São apoiadores do famigerado “Escola Sem Partido”, projeto que impõe a censura nas salas de aula e impede a livre docência, com o falso pretexto de defender a “isenção” e a “neutralidade”, como se houvesse neutralidade em qualquer discurso. Na prática, estão incentivando o desconhecimento e promovendo o obscurantismo, o dogmatismo, buscando por todos os meios impedir e cercear a difusão do conhecimento científico nas escolas. Para isso, contam com um time abjeto e conservador na Câmara dos Deputados, que aglutina as bancadas da bala, do boi e da bíblia. São apoiadores de primeira hora do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) que não esconde o desejo de candidatar-se a presidente do Brasil. É preciso resistir e combater os que aplaudem não apenas a retirada de direitos, mas também impedem a livre manifestação artística e cultural.

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Kim Kataguiri, do MBL e Jair Bolsonaro, ao lado dos comparsas que ajudaram a eleger Eduardo Cunha presidente da Câmara dos Deputados em 2015.

‘Viva!’, romance de Patrick Deville

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Natália Sedova, Frida Kahlo, Trotsky e Max Schachtman

No ano em que a Revolução Russa de 1917 completa seu primeiro centenário, é lançado no Brasil o romance Viva! (Editora 34) do escritor e historiador francês Patrick Deville, que resgata os últimos anos de exílio de Leon Trotsky no México e a saga do escritor e poeta inglês Malcolm Lowry. Duas figuras ideologicamente antagônicas que oscilaram entre a genialidade, a loucura e a tragédia. Depois de ajudar a fazer a Revolução ao lado de Lênin, e após a morte deste, Trotsky encontra a hostilidade de Stálin e é expulso do partido, depois é expulso da U.R.S.S. até ser finalmente assassinado em 1940. Malcolm Lowry, por sua vez, era um burguês de orientação conservadora, sustentado pelas mesadas do pai, e pretendia transformar a prosa poética inglesa. Acabou perdendo a razão após concluir seu romance À sombra do vulcão, que durou cerca de dez anos para ser finalizado.

Além dos dois personagens centrais, temos a presença do próprio autor, que narra encontros, entrevistas e descreve os locais que visitou e pelos quais os protagonistas passaram, como Kazan, cidade russa às margens do rio Volga que foi tomada pelo Exército Vermelho em 1918 ou a cabana no Canadá em que Lowry se refugiou para terminar o seu romance, após deixar o México. A obra de Deville traça um vasto panorama da efervescência política e cultural que sacudia o mundo durante as primeiras décadas do século passado como as revoluções mexicana e russa e a revolta contra a presença americana na Nicarágua, liderada por Augusto César Sandino. Diferentemente do romance do escritor cubano Leonardo Padura – no qual o autor de Literatura e Revolução também é um dos protagonistas – onde a narrativa histórica é ficcionada, o livro de Patrick Deville se apresenta como um “romance sem ficção”, alternando a narração entre a terceira e a primeira pessoa, apresentando minúcias de fatos históricos, cartas, confidências, ao mesmo tempo em que subverte e fragmenta a linearidade temporal da obra.

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Malcolm Lowry

Em volta dos protagonistas, surgem dezenas de outros personagens ilustres que fizeram parte daqueles anos agitados no México do então presidente Lázaro Cárdenas, que governou o País de 1934 até 1940. Entre pintores, escritores, fotógrafos e revolucionários, o autor nos apresenta situações em que entram em cena Frida Kahlo, Diego Rivera, Victor Serge, André Breton, Antonin Artaud, Tina Modotti, Edward Weston, David Alfaro Siqueiros, este último sendo o responsável pelo primeiro atentado que Trotsky sofrera no México. Após fracassar em sua tentativa, David Alfaro Siqueiros se exila no Chile, onde é recebido pelo poeta Pablo Neruda. Umas das passagens do romance fala do momento em que, ainda exilado na Noruega, Trotsky pensava em partir para Barcelona e lutar na Guerra Civil Espanhola ao lado de Andreu Nin, dirigente do POUM, torturado e assassinado por stalinistas espanhóis.

“Na Noruega, Trotsky considerara a possibilidade de ir para a Catalunha, isso em 1936, vinte anos depois de a polícia espanhola tê-lo embarcado à força no porto de Barcelona, quando encontrara Arthur Cravan a bordo do Montserrat. E podemos imaginar, nos fronts republicanos, o que seria o anúncio da presença clandestina do antigo chefe do Exército Vermelho. Sem dúvida ele não teria durado muito na guerra fratricida entre o POUM e o Komintern. Depois de sabotar a revolução espanhola e antes de assinar o pacto germano-soviético, Stálin exigira que o ouro do Banco da Espanha fosse posto a salvo em Moscou. Em troca do dinheiro, enviara uns poucos combatentes e uma pletora de comissários políticos. Entre eles o general Kotov e sua companheira Caridad Mercader, mãe de Ramón, e David Alfaro Siqueiros, e Vittorio Vidali e sua companheira Tina Modotti, todos membros ou afiliados da turminha do México”. (2016, p. 85)

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Tina Modotti

Em outra passagem, Patrick Deville descreve um diálogo entre Walter Benjamin e Bertolt Brecht sobre a qualidade literária do ex Comissário do Povo. Segundo Deville, após ler Minha Vida, a autobiografia de Trotsky, Benjamin ficara impactado com a obra e, ao comentar sobre o assunto com Brecht, o poeta respondera que “Trotsky bem poderia ser o maior escritor europeu de seu tempo”.

“Em uma temporada em Ibiza, em 1932, Walter Benjamin é profundamente tocado pela leitura de Minha Vida, e mais tarde Bertolt Brecht declara diante dele que Trotsky bem poderia ser o maior escritor europeu de seu tempo. No ano seguinte, os livros de Walter Benjamin são queimados, tal como os de Stephen Zweig. Em 26 de setembro de 1940, um mês depois do assassinato de Trotsky neste lugar onde nos encontramos, Walter Benjamin desembarca do trem e se suicida num quarto de hotel em Port-Bou, dois anos antes do suicídio de Stephen Zweig no Brasil”. (2016, p. 78)

Uma das características positivas do romance de Deville é conseguir fazer ligações em tempos e espaços distintos, traçando laços e unindo personagens díspares como Lowry e Trotsky ou Artaud e Breton. Sua obra é uma celebração da utopia, dos grandes sonhos e das grandes realizações históricas, políticas e estéticas, sem esquecer as dores e perdas acumuladas às margens de tais processos.

André Breton, o nadador entre duas palavras

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Máscara de André Breton feita pelo escultor francês René Iché

         “Transformar o mundo” e “mudar a vida”. A junção da máxima do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) e do poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891). Assim sintetizava o programa defendido por André Breton (1896-1966), incansável defensor de uma arte revolucionária, que não sucumbisse nem ao tradicionalismo formal nem se rebaixasse ao panfletarismo vulgar, foi o mentor intelectual de uma das principais vanguardas europeias do século XX, o surrealismo. O momento de crise do capitalismo na primeira metade do século XX foi sentido também em diferentes linguagens artísticas, da literatura à pintura. Artistas buscaram levar ao extremo o experimentalismo modernista e as transformações presentes no final do século XIX. A fonte de Marcel Duchamp (1887-1968) havia sido exposta em 1917 e o Ulysses de James Joyce (1882-1941) publicado em fevereiro de 1922. Para o escritor e crítico italiano Umberto Eco “a primeira metade do século XX, até os anos 60 no máximo (depois já é mais difícil), foi palco de uma luta dramática entre a Beleza da provocação e a Beleza do consumo” (ECO, 2004, p. 414).

         Publicado em 1923, o Manifesto Surrealista propõe a escrita automática como método para descrever o funcionamento do pensamento e libertar o homem da prisão do pensamento racionalista, à luz do inconsciente. Em um trecho do manifesto, Breton resume o significado que atribuiu à escolha do título : “Em homenagem a Guillaume Apollinaire, Soulpault e eu demos o nome de SURREALISMO ao novo modo de expressão que tínhamos à nossa disposição e que estávamos ansiosos por pôr ao alcance de nossos amigos”. André Breton admirava e acreditava que o surrealismo tivera a influência decisiva de escritores como Charles Baudelaire (1821-1867), Lautréamont (1846-1870) e Alfred Jarry (1873-1907).

Antes de lançar o Manifesto Surrealista, Breton participou do grupo dadaísta, fundada pelo poeta Tristan Tzara (1896-1963).  Os dadaísta defendiam a antiarte, seguiam todos os caminhos que levasse à destruição e questionamento da obra de arte como um todo; nesse sentido, questionavam todas as conquistas da civilização ocidental, do liberalismo burguês e sua crença cega no progresso e no futuro. Então veio a Revolução de Outubro, a Primeira Guerra Mundial, a crise de 29 e os artistas absorveram todo esse impacto. Vejamos um trecho do manifesto dadá, escrito por Tristan Tzara em 1918:“Eu digo a vocês: Não existe um começo e não iremos tremer, não somos sentimentais. Somos um vento furioso, arrancando a roupa suja das nuvens e orações, preparando o grande espetáculo de desastres, fogo e decomposição. Nós vamos colocar fim ao luto e substituir lágrimas por sirenes gritando de um continente a outro. Pavilhões de alegrias intensas e viúvas envenenadas.” A tendência política do dadaísmo é o anarquismo. Após a saída de Breton, suas posições políticas se afastam do anarquismo e se aproxima do marxismo. Crítico diante da postura da URSS e do Partido Comunista Francês, André Breton se aproxima do velho bolchevique Leon Trotski (1879-1940), e juntos com o pintor mexicano Diego Rivera (1886-1957) escrevem em 1938 o manifesto “Por uma arte revolucionária e Independente”.

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Surrealistas de Paris

Em um dos trechos do Manifesto, Breton compara o prazer provocado pela experiência surrealista ao prazer dado pelo uso do haxixe: “A análise dos misteriosos efeitos e dos gozos especiais que o surrealismo  pode engendrar não pode faltar no presente estudo, e sim de advertir que, em muitos aspectos, o surrealismo parece um vício novo que não é privilégio exclusivo de uns poucos indivíduos, mas que, como o haxixe, pode satisfazer a todos os que tenham gostos refinados” (BRETON, 1969, p. 57).

Em torno de si, Breton reuniu artistas de diversas linguagens: cineastas, fotógrafos, pintores, poetas, romancistas. Intransigente na defesa do surrealismo, rompeu relações com os pintores Salvador Dalí (1904-1989) e Max Ernst (1891-1976) e os expulsou do restrito círculo dos surrealistas, alegando mercenarismo de ambas as partes. O cineasta espanhol Luís Buñuel (1900-1983), autor de Um cão andaluz (filme produzido em coautoria com Salvador Dalí), conta em sua autobiografia “Meu último suspiro”, a visão que tinha do grupo surrealista: “Devorados por sonhos do tamanho da terra, não éramos nada – apenas um grupo de intelectuais insolentes que confabulavam num café e publicavam uma revista. Um punhado de idealistas instantaneamente divididos quando se tratava de participar de forma direta e violenta da ação” (BUÑUEL, 2009, p. 174).

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Salvador Dalí e Luis Buñuel em Figueras, 1929.

Luis Buñuel também fala da forte personalidade de Breton e do dogmatismo que em certas ocasiões dominava e orientava a conduta dos surrealistas. Um desses encontros é narrado pelo cineasta em suas memórias. Trata-se de um encontro com Breton e outros membros do círculo surrealista, a despeito do sucesso de “Um cão andaluz”:

“Dias depois da minha conversa com Éluard, Breton me perguntou:

– Buñuel, você poderia vir a minha casa esta noite, para uma pequena reunião?

Aceitei, não desconfiando de nada, e deparei com o grupo em formação completa. Tratava-se de um julgamento em regra. Aragon exercia com autoridade o papel do promotor e me acusava em termos violentos de ter cedido meu roteiro a uma revista burguesa. Além disso, o sucesso comercial de Um cão andaluz começava parecer suspeito. Como um filme provocador podia lotar os cinemas? Que explicação eu podia dar?

Sozinho perante todo o grupo, eu tentava me defender, mas era difícil. Ouvi inclusive Breton me perguntar:

– Você está com a polícia ou com a gente?” (BUÑUEL, 2009, p. 157).

Em 1966, um mês após a morte de Breton, o filósofo Michel Foucault concedeu uma entrevista, publicada em seus “Ditos e escritos III”, na qual o filósofo rende uma homenagem à André Breton, poeta da loucura, do sonho e do inconsciente.

Abaixo, trechos da entrevista com Michel Foucault

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Michel Foucault

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Michel Foucault: “Um nadador entre duas palavras”, entrevista com C. Bonnefoy (1966).

– Para um filósofo de 1966 que se interroga sobre a linguagem, sobre o saber, o que representam André Breton e o surrealismo?

– Tenho a impressão de que há duas grandes famílias de fundadores. Há os que edificam e colocam a primeira pedra; há os que escavam e esvaziam. Talvez estejamos, em nosso espaço incerto, mais próximos dos que escavam: de Nietzsche (mais que de Husserl), de Klee (mais que de Picasso). Breton pertence a essa família. Certamente, a instituição surrealista mascarou os grandes gestos mudos que abriam o espaço diante deles. Talvez aquele fosse somente o jogo, a mistificação surrealistas: abrir através de ritos que pareciam excluir, fazer crescer o deserto, nele colocando limites aparentemente imperiosos. Em todo caso, estamos atualmente no vazio deixado por Breton atrás de si.

– Mas como você explica que em certas épocas Breton tenha se preocupado com o engajamento político?

– Sempre me surpreendeu o fato de que o que está em questão em sua obra não é a história, mas a revolução; não a política, mas o absoluto poder de mudar a vida. A incompatibilidade profunda entre marxistas e existencialistas de tipo sartreano de um lado, e Breton, do outro, vem sem dúvida do fato de que para Marx ou Sartre a escrita faz parte do mundo, enquanto para Breton um livro, uma frase, uma palavra por si sós podem constituir a antimatéria do mundo e compensar todo o universo.

– Mas Breton não dava tanta importância à vida quanto à escrita? Não há, em Nadja, em L’amour fou, em Les vases comunicants como que uma espécie de osmose permanente entre a escrita e a vida, entre a vida e a escrita?

– Quando as outras descobertas de Breton já estavam pelo menos anunciadas em Goethe, Nietzsche, Mallarmé, ou em outros, o que realmente se deva ele em particular é a descoberta de um espaço que não é o da filosofia, nem o da literatura, nem o da arte, mas o da experiência. Estamos hoje em uma era em que a experiência – e o pensamento que é inseparável dela – se desenvolve com uma extraordinária riqueza, ao mesmo tempo em uma unidade e em uma dispersão que apagam as fronteiras das províncias outrora estabelecidas.

Toda a rede que percorre as obras de Breton, Bataille, Leiris e Blanchot, que percorre os domínios da etnologia, da história da arte, da história das religiões, da linguística, da psicanálise, apaga infalivelmente as velhas rubricas nas quais nossa própria cultura se classificava e revela aos nossos olhos parentescos, vizinhanças, relações imprevistas. É muito provável que se devam essa dispersão e essa nova unidade de nossa cultura à pessoa e à obra de André Breton. Ele foi, simultaneamente, o dispersor e o aglutinador de toda essa agitação da experiência moderna.

A descoberta do domínio da experiência permitia a Breton ficar completamente  fora da literatura, poder contestar não apenas todas as obras literárias já existentes, mas a própria existência da literatura; mas ela também lhe permitia abrir às linguagens possíveis domínios que, até então, haviam permanecido em silêncio, marginais” (FOUCAULT, 2009, p. 246).

A beleza será CONVULSIVA, ou não será”. (André Breton)

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André Breton, por Man Ray

Veja mais: “Um cão andaluz”, filme surrealista dirigido por Luis Buñuel e escrito com Salvador Dalí (1928).

*BRETON, André. Manifestos del surrealismo. Madrid: Edciones Guadarrama, 1969

*BUÑUEL, Luis. Meu último suspiro. São Paulo: Cosac Naify, 2009

*ECO, Humberto. História da beleza. Rio de Janeiro: Editora Record, 2004

*FOUCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009