MBL reproduz prática nazista no Brasil do séc. XXI

“[…]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos
dizer nada.
[…]”

(Trecho de No caminho com Maiakóvski, de Eduardo Alves da Costa)

É extremamente vergonhoso o fato ocorrido no último domingo (10) em Porto Alegre. Além de grave, é sintomático – pois revela o momento sombrio que o País atravessa, a nuvem negra da desgraça – que uma exposição de arte tenha sido fechada pela acusação de que seu conteúdo, supostamente, faria apologia à pornografia, pedofilia e zoofilia. Esse fato ignominioso aconteceu quando o Santander Cultural resolveu fechar a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” após críticas advindas do Movimento Brasil Livre (MBL), que divulgou um vídeo afirmando de maneira agressiva que a exposição “só tem putaria, só tem sacanagem” e “é reconhecida como arte”.

A mostra que abrigava 264 obras de 85 artistas – entre eles nomes como Lygia Clark, Cândido Portinari e Alfredo Volpi -, ficaria aberta até o dia 08 de outubro, com um acervo contemplando diferentes linguagens como pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e colagens, abordando questões de gênero, diversidade e temática LGBT. O fato demonstra, além do elemento moralista do discurso dos censores, a presença de outro elemento, cujo conteúdo é tão somente a discriminação pela diferença, a incapacidade de aceitar o diverso, o distinto, o outro e, portanto, manifestam sua intolerância aos valores da democracia.

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Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva, de Fernando Baril, foi considerada imoral pelo MBL.

Ao exigir o fechamento da exposição por “atentar contra os bons costumes”, o MBL e seus seguidores abandonam o discurso liberal e abraçam a prática nazista. Com tal atitude, reproduziram a mesma orientação política utilizada por Hitler na Alemanha e por Stalin na U.R.S.S., que abominavam obras modernistas e perseguiam os artistas de vanguarda que não se alinhavam à sua cartilha. Em seu livro Era dos Extremos, Eric Hobsbawm descreve a situação da Arte sob os regimes totalitários do século XX:

“Nem a vanguarda alemã, nem a russa, portanto, sobreviveram à ascensão de Hitler e Stalin, e os dois países, na ponta de tudo que era avançado e reconhecido nas artes da década de 1920, quase desapareceram do panorama cultural” (p. 187)

Acusaram de maneira desqualificada a Lei Rouanet de financiar (R$ 800 mil) uma mostra que “ultraja símbolos religiosos”, como se a lei de incentivo à cultura tivesse como função avaliar o conteúdo exposto, ao invés de primar pela pluralidade de ideias. Uma lógica que segue a conduta dos mais peçonhentos censores. Por outro lado, alardeiam como se estivessem realmente preocupados com a cultura no Brasil, já que nada falaram sobre o corte de 41% do orçamento do Ministério da Cultura, sob o comando de Temer.

Blasfêmia e Arte degenerada

Entre os argumentos levantados pelo MBL e seus seguidores (notadamente “pessoas de bem”) são comuns as referências à exposição com termos como “pornografia”, “depravação” e “imoralidade”. Não à toa são semelhantes aos discursos proferidos pelos nazistas em Munique, em 1937, quando foi aberta uma exposição chamada Arte Degenerada (Haus der Kunst), cujo objetivo, além de ridicularizar os artistas, era inflamar a opinião pública contra as obras modernistas. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

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Exposição Arte Degenerada, promovida pelos nazistas em 1937.

A coordenadora do MBL/RS, Paula Cassola, do alto de sua arrogância, questionou a legitimidade das obras expostas, como se as obras precisassem de sua permissão para existirem ou como se eles (MBL e cia) fossem parâmetro justo para considerar o que é obra de arte e o que não é. Como ironizou o jornalista Lira Neto nas redes sociais, “os escandalizados com a mostra proibida pelo Santander nunca foram a uma galeria, a um grande museu ou nunca folhearam um livro de arte”. Com sua visão retrógrada e limitada, o que diriam de artistas como Balthus, Hans Bellmer ou Ren Hang? No mínimo seriam tomados por “pedófilos”, “blasfemadores”, “degenerados”, etc.

Contudo, como diz o ditado, o buraco é mais embaixo. Espera-se dos regimes democráticos que sejam resguardados os direitos de criticar uma exposição, até mesmo de boicotá-la. Impedi-la, censurá-la, porém, é atitude autoritária que não podemos tolerar. Se um grupo econômico, uma religião específica ou um partido político pode impor o fechamento de uma exposição, dentro em breve estarão, com o dedo em riste e bem acomodados aos podres poderes, nos apontando quais livros devemos ler, quais músicas devemos ouvir, quais filmes podemos assistir.

Movimento Brasil Livre?

Importa ressaltar algumas características do MBL, principal grupo a se opor à exposição em Porto Alegre. Surgido nas Jornadas de Junho de 2013, o Movimento Brasil Livre despontou na cena política nacional como um grupo pró-impeachment, anti-corrupção e apartidário, mas não tardou para que surgissem as primeiras denúncias de que o movimento seria financiado por velhos partidos políticos, como PMDB, PSDB e DEM. Já em 2015, seus principais coordenadores (Kim Kataguiri e Fernando Holiday) não se embaraçaram ao fazerem ampla campanha para o notório corrupto Eduardo Cunha (PMDB), que presidiu a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2016. Em reportagem de 27 de maio de 2016, o portal UOL divulgava áudios em que Renan Antônio Ferreira dos Santos, um dos coordenadores do MBL, afirmava em mensagem a outro membro do grupo, que “tinha fechado com partidos políticos” para divulgar os protestos pelo impeachment “usando as máquinas deles também”. Em outra reportagem do dia 24 de julho desse ano, a Folha de São Paulo destacava que os “Líderes do Movimento Brasil Livre na mobilização pelo impeachment de Dilma Roussef, em 2016, vêm ganhando cargos comissionados em grandes cidades neste ano”, participando de governos e recebendo salários que chegam a R$ 10mil.

Em 2016, também não se intimidaram ao desempenharem o vergonhoso papel de milícia, intimidando estudantes que participavam de ocupações de escolas em Curitiba. São apoiadores do famigerado “Escola Sem Partido”, projeto que impõe a censura nas salas de aula e impede a livre docência, com o falso pretexto de defender a “isenção” e a “neutralidade”, como se houvesse neutralidade em qualquer discurso. Na prática, estão incentivando o desconhecimento e promovendo o obscurantismo, o dogmatismo, buscando por todos os meios impedir e cercear a difusão do conhecimento científico nas escolas. Para isso, contam com um time abjeto e conservador na Câmara dos Deputados, que aglutina as bancadas da bala, do boi e da bíblia. São apoiadores de primeira hora do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) que não esconde o desejo de candidatar-se a presidente do Brasil. É preciso resistir e combater os que aplaudem não apenas a retirada de direitos, mas também impedem a livre manifestação artística e cultural.

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Kim Kataguiri, do MBL e Jair Bolsonaro, ao lado dos comparsas que ajudaram a eleger Eduardo Cunha presidente da Câmara dos Deputados em 2015.

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A história da pintora Charlotte Salomon

Charlotte e seu pai Albert - 1927

Charlotte e seu pai Albert, 1927

Com mais de 500 mil exemplares vendidos apenas na França em 2014, foi com o romance Charlotte que o escritor e músico de jazz David Foenkinos conquistou importantes premiações literárias. Seu romance La Délicatesse foi adaptado para o cinema em 2011 e indicado ao César em 2012 na categoria de melhor adaptação, feita por seu irmão, Stéphane Foenkinos. Em Charlotte, o autor presta uma emocionante homenagem à pintora judia-alemã Charlotte Salomon, morta grávida aos 26 anos em Auschwitz. Escrito em verso, como um longo poema narrativo, o livro é dividido em oito partes e um epílogo. O tempo do romance é a primeira metade do século XX, pano de fundo que o autor utiliza para reconstruir a trajetória dos Grunwald, uma família burguesa de Berlim. A história inicia antes do nascimento da protagonista, como se nota nos primeiros versos da narrativa.

“Charlotte aprendeu a ler o seu nome num túmulo.

Portanto, ela não era a primeira Charlotte.
Houve antes a sua tia, irmã de sua mãe.
As duas irmãs foram muito unidas, até uma noite de novembro de 1913”.

O autor nos apresenta Franziska e Charlotte, as jovens e inseparáveis irmãs. O pai delas era um “intelectual rígido, amante das artes e de antiguidades”, diz o narrador. Sua mãe era uma mulher calma, de uma doçura quase melancólica. Com o tempo, de maneira silenciosa, a sombra da depressão se apossou de Charlotte. Numa noite fria de novembro de 1913, enquanto todos dormiam, Charlotte saiu de casa e se dirigiu até uma ponte, da qual se atirou. Depois de seu suicídio, a família Grunwald se recolhera em silêncio, com vergonha do que os vizinhos pudessem pensar.

Passado algum tempo, Franziska decide se tornar enfermeira durante a Primeira Guerra. Conhece o médico Albert, com quem se casa contrariando os pais. Ao engravidar, decide que a criança terá o mesmo nome da irmã, como uma homenagem. O marido protestou, não queria que a filha tivesse o nome de uma suicida. Mas não conseguiu convencer Franzsika do contrário e a menina foi chamada de Charlotte. Quando Charlotte tinha 10 anos, sua mãe também se suicidou, jogando-se da janela do apartamento. Seus avós e seu pai optaram por esconder a verdade. Disseram que a morte da mãe havia sido causada por uma gripe. Somente anos mais tarde ela viria a saber a verdade.

Foenkinos nos mostra que a vida de Charlotte Salomon foi uma sucessão de tragédias. Os suicídios continuaram na família Grunwald, era uma característica deles. Porém, ela se refugiou na criação, decidiu que queria ser pintora e começou a frequentar as aulas nas Belas Artes de Berlim. Com a proibição dos judeus de frequentarem a academia, Charlotte permaneceu assistindo as aulas pela força de seu talento. As coisas estavam ficando cada vez mais difíceis para os judeus na Alemanha, até que o pai de Charlotte, incentivado pela filha, conhece Paula, uma famosa cantora lírica. A casa que vivia no silêncio desde a morte de Franziska, passou a receber animadas soirées frequentadas por uma elite cultural que aglutinava médicos, artistas e intelectuais.

É somente no exílio, em Nice, que Charlotte Salomon desenvolve sua obra de maneira consciente. Antes de sair de Berlim, ela conheceu Alfred, seu primeiro e único amor. Ela não queria partir sem ele, mas as coisas ficaram insustentáveis e os avós conseguiram convencê-la de ir encontrá-los no sul da França. Inconsolada com a morte das duas filhas, sua avó também termina se suicidando. Essa perda faz com que Charlotte utilize toda sua energia na tentativa de reconstruir sua história através da pintura. Ela confia seu trabalho a um médico que sempre a incentivara. Tempo depois, Charlotte conhece Alexander, com quem passa a viver e de quem fica grávida, no momento em que é denunciada por uma ligação anônima.

“Com todos os faróis apagados, o caminhão estacionou sem ruído.
Dois homens entraram de cada lado do jardim.
Naquele exato momento, Charlotte saía de casa.
Ela deu de cara com os soldados.
Eles se precipitaram para ela e agarram pelo braço.
Ela gritou com todas as suas forças.
Debateu-se, tentou fugir.
Um alemão puxou-a violentamente pelo cabelo.
E lhe deu um golpe no ventre.
Ela disse que estava grávida e implorou clemência.
Por favor, deixem-me.
Isso não tinha nenhuma importância para eles”.

Charlotte

Stolpersteine ou Placas do Tropeço, Gunter Demnig

 

A origem do mundo, de Gustave Courbet

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A origem do mundo (1866) Óleo sobre tela, 46 x 55 cm

A origem do mundo (L’Origine du monde), é uma obra do pintor realista Gustave Courbet (1819-1877) e sua influência pode ser atribuída aos fotógrafos pornográficos daquele período. A obra pertenceu primeiramente ao colecionador turco Khalil Bey e durante o período em que Courbet estava vivo, o quadro se manteve clandestino. Posteriormente a obra passou pelas mãos do psicanalista Jacques Lacan, antes de entrar no Museu d’Orsay, em Paris. Para Courbet, se uma coisa é verdadeira, mesmo sendo feia, ela merece ser retratada em sua pintura. Seu estilo contribuiu essencialmente para o surgimento do movimento impressionista e o desenvolvimento da pintura moderna.

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Gustave Courbet

Gustave Courbet conciliou seu estilo vanguardista de observação direta da Natureza sem a pretensão de idealizá-la com a militância política. Participou ativamente da Comuna de Paris em 1871 e pagou seu compromisso com os operários parisienses com exílio, processos, degradação física e econômica. Argan comenta em seu livro “Arte Moderna”, as características políticas do pintor Gustave Courbet: “Em política, Courbet foi um revolucionário, ou melhor, um rebelde: recusou a Legião de Honra, foi ardoroso partidário da Comuna (1871) e, como tal, aprisionado, obrigado a se refugiar na Suíça, despojado de todos os seus bens. Mas não transpôs sua paixão política para a arte, ao contrário do que, em 1830, fizera um artista menos ‘engajado’, Delacroix; sua pintura, porém, foi realizada com uma consciência certamente política. Um realismo ideologicamente orientado já não seria realismo, porque não refletiria a realidade como ela é, e sim como se gostaria ou não que ela fosse. O realismo de Courbet, todavia, responde à necessidade de tomar consciência da realidade em suas dilacerações e contradições, de se identificar com ela, vivê-la, isto é, de se formar aquela noção da situação objetiva sem a qual a ideologia não é ímpeto revolucionário, mas pura utopia”.

O artista gostava de dizer que “quando eu morrer, deve-se dizer de mim: não pertenceu a escola alguma, a nenhuma igreja, a nenhuma instituição, a nenhuma academia, sobretudo a nenhum regime, senão o da liberdade”.