Javier Marías e a frágil condição dos segredos

“De vossa cor as mãos agora tenho;
mas de possuir ficara envergonhada
um coração tão branco”
(William Shakespeare, Macbeth)

Comecemos por imaginar as consequências de um segredo familiar guardado e revelado após tantos anos. Depois passemos aos efeitos que podem acarretar, em um relacionamento ou nos membros de uma família, palavras enunciadas ou histórias silenciadas e subitamente desveladas: eis que estamos travando contato com algumas das inquietações de Coração Tão Branco, romance do escritor espanhol Javier Marías. Apontado como um clássico da literatura contemporânea, o romance lançado em 1992 só chegou ao Brasil em 2008, com edição da Companhia de Bolso e tradução de Eduardo Brandão. Dois anos antes a revista The Paris Review publicava uma entrevista com o escritor madrilenho, na qual aponta alguns autores que admiram sua obracomo L. M. Coetzee, Salman Rushdie e W. G. Sebald.

Em Coração Tão Branco (cujo título foi extraído de um verso de Shakespeare) Marías constrói uma prosa densa e vigorosa, na qual o desenvolvimento conduz o leitor por um emaranhado de digressões feitas pelo protagonista do romance, o tradutor e intérprete Juan. É ele que inicia a narração de um fato sombrio de sua família, o suicídio de sua tia Teresa Aguilera, apresentada nas primeiras linhas:

“Eu não queria saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados”. (p. 7)

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Alejandro Cerutti

A descoberta inesperada desse fato impulsiona o narrador a iniciar uma investigação interior, visitando fatos antigos de sua vida, buscando em sua memória a explicação para esses e outros acontecimentos. Para isso, Marías opera um intenso fluxo de consciência através do protagonista, que conhece Luísa em um encontro de trabalho com dois líderes mundiais (ela também intérprete e tradutora). Eles se casam e a história relatada por Juan inicia com sua viagem de lua de mel, onde desde então, passa a ter “pressentimentos de desastre”. O pai do narrador, Ranz, é outra peça fundamental da narrativa, uma vez que suas perguntas e insinuações “Bem, já se casou. E agora?”, “Luísa e você devem ter segredos, suponho”, “Quando você tiver segredos ou se já os tiver, não os conte”, são as senhas que dão acesso às histórias de seu próprio passado.

Curioso notar como a imagem em que Juan é confundido por uma mulher na sacada de um hotel em Havana se repete em um conto de Javier Marías, “Na viagem de lua-de-mel”, presente no livro Quando fui mortal. A diferença é que no conto a história se passa em Sevilha enquanto no romance a cena se desenvolve em Havana. Essa semelhança ou repetição remete aos conselhos de um personagem de Roberto Bolaño, Sensini, um veterano em concursos literários que incentiva o narrador a inscrever os mesmos contos em diferentes certames, alterando apenas alguns detalhes como os títulos, por exemplo.

As questões levantadas em Coração Tão Branco dizem respeito aos segredos e mentiras de família, as suspeitas e desconfianças que envolvem os casais e, sobretudo, ao papel que a descoberta (ainda que involuntária) de tais segredos possa acarretar. Para além dos temas preponderantes, outras questões são explorados em torno da temática central. Em uma das passagens, Juan tece comentários com Luísa a respeito de diferentes tipos de segredo.

“Olhe – eu lhe disse -, as pessoas que guardam segredos durante muito tempo nem sempre o fazem por vergonha ou para se proteger, às vezes é para proteger outros, ou para conservar amizades, ou amores, ou casamentos, para tornar a vida mais tolerável a seus filhos ou para tirar-lhes um medo, já costumam ter muitos” (p. 132)

O desfecho da trama ocorre no momento em que o leitor descobre o papel indireto de Ranz na morte de Teresa, que fora casado com ele antes de Juana, sua irmã. A revelação desse motivo surge quando Ranz, após ser interpelado por Luísa, relata o motivo de Luísa ter atentado contra si mesma, dias após o retorno de sua viagem de lua de mel. É em torno desse segredo que as palavras de Ranz “Luísa e você devem ter segredos, suponho”, “Quando você tiver segredos ou se já os tiver, não os conte”, assumem outra dimensão, confirmando assim, as suspeitas e os “pressentimentos de desastre” de um narrador em constante estado de apreensão.

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HHhH: homenagem aos resistentes da Operação Antropoide

Desesperado. Hoje a tarde meio dormindo: esse sofrimento vai acabar explodindo minha cabeça. Bem nas têmporas. Ao imaginar isso, o que de fato vi foi uma ferida de bala, só que as bordas do rombo estavam abertas para fora e tinham as pontas afiadas como uma lata aberta com violência.
Franz Kafka, Sonhos (Diário, 15 de outubro de 1913)

No dia 28 de maio de 1942, Joseph Goebbels escrevia em seu diário: “Uma notícia alarmante chega de Praga”. Referia-se ao atentado contra Reinhardt Heydrich. É esse atentado que vai orientar todas as ações de HHhH, romance de estreia do escritor francês Laurent Binet, que causou forte impressão na cena literária no ano de seu lançamento. O título faz referência a abreviação de uma frase alemã corrente na época, que significa: o cérebro de Himmler se chama Heydrich. Nos 257 capítulos que compõem a narrativa, o autor recria um dos grandes atos de resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial: a Operação Antropoide, responsável pelo assassinato de Heydrich, um dos mais perversos nazistas e um dos mentores intelectuais do Holocausto.

Designado por Hitler como “protetor” da Boêmia-Moravia (República Tcheca), Heydrich implementou um regime de terror com assassinatos em massa que fizeram crescer sua fama e seu poder no covil do partido nazista. Ao perseguir de maneira implacável e afugentar parte da resistência, Heydrich acreditou que possuía o controle absoluto de Praga, sentia-se um verdadeiro semi-rei no país de Kafka. Não esperava que, na Inglaterra, o governo tchecoslovaco em exílio preparava o atentado que tiraria sua vida.

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Reinhardt Heydrich (1904 – 1942)

Em seu Diário de Trabalho (Volume II – 1941–1947), no mesmo dia em que Goebbels escrevia sobre a “notícia alarmante” vinda de Praga, Brecht, por sua vez, exilado nos Estados Unidos, escrevia: “Com Lang, na praia, pensei num filme de refém (movido pela execução de Heydrich em Praga)”. (p. 111)

Logo no primeiro capítulo de HHhH o autor apresenta-nos um inusitado enunciado, onde questiona: “que há de mais vulgar do que um personagem inventado?” De fato, o romance de Binet opta por colocar em ação apenas personagens históricos, em contraposição aos personagens de ficção. Essa característica se repete em seu segundo romance, traduzido no Brasil com o título de Quem Matou Roland Barthes? (Com a diferença que em seu segundo romance os protagonistas são personagens de ficção). A dicotomia entre o romance tradicional (de tipo balzaquiano) e o romance contemporâneo é constantemente ressaltado pelo narrador em HHhH. Sua prosa híbrida é permeada por diferentes discursos, que abrange além do literário, o ensaístico, fait-divers, o biográfico e, sobretudo, o discurso histórico, cujo pano de fundo estrutura e organiza uma narrativa de caráter autoficcional.

Foi com a intenção de homenagear Jan Kubis e Josef Gabcik que Binet escreveu seu livro. Foram esses dois jovens, um tcheco e um eslovaco, ambos treinados no exterior para executarem numa manhã de quarta-feira, 27 de maio de 1942, o grande atentado contra o “açougueiro de Praga”. O tema adotado por Binet, contudo, não é novidade. Confirmando o que havia escrito em seu Diário no ano anterior, Brecht finaliza o roteiro de Os carrascos também morrem que será dirigido por Fritz Lang em 1943. O próprio romance HHhH de Laurent Binet inspirou a adaptação para o cinema feita por Cédric Jimenez, em 2016, com mesmo título.

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Cena de Os carrascos também morrem, Fritz Lang, 1943.

O caráter heroico da ação empreendida contra Heydrich no coração de Praga expôs os cidadãos tchecos ao revide alemão. Como vingança pela morte do “protetor”, a pequena cidade de Lídice foi completamente arrasada e seus cidadãos foram fuzilados ou enviados para campos de concentração. O governo alemão propagandeou os eventos de 10 de junho de 1942 como exemplo para quem atentasse contra as autoridades nazistas, causando enorme repúdio internacional. Esses e outros eventos são narrados com grande habilidade por Laurent Binet, que coloca seu romance na mesma tendência de alguns autores da literatura francesa contemporânea, que privilegiam o uso de personagens históricos e o estilo autoficcional do narrador (Mathieu Lindon em O que amar quer dizer, David Foenkinos em Charlotte, Patrick Deville em Viva!). Essa tendência autoficcional é destacada pela crítica Leyla Perrone-Moisés em seu livro Mutações da literatura no século XXI.

“Nos anos 80 a França foi inundada de livros cujo assunto era o próprio autor, suas experiências, pensamentos e sentimentos. Não eram diários, porque não registravam o acontecimento do dia-a-dia, em ordem cronológica. Não eram autobriografias, porque não narravam a vida inteira do autor, mas apenas alguns momentos desta. Não eram confissões, porque não tinham nenhum objetivo de autojustificação e nenhum caráter purgativo”. (p. 204)

Em Pssica, Amazônia é cenário do horror

O leitor desavisado que estiver à procura da exuberância da Amazônia ou do exotismo da região nas páginas de “Pssica” (2015), romance do jornalista e escritor paraense Edyr Augusto, pode ter suas expectativas frustradas. Isso porque a poética do autor de Moscow se afasta dos clichês amazônicos, passa ao largo do regionalismo literário, criando uma obra cuja paisagem urbana soma-se a uma linguagem que explora a gíria marginal do Norte do Brasil, imprimindo assim, um ritmo e uma velocidade próprios ao texto. O que vemos aqui é uma Amazônia provinciana, um Pará gangrenado pela corrupção e assolado pela violência urbana. A trama ambientada em Belém também percorre municípios da Ilha do Marajó e finaliza em Caiena, capital da Guiana Francesa.

A protagonista deste pequeno romance policial de pouco mais de noventa páginas é Janalice, jovem de 14 anos que se vê expulsa de casa após seu namorado divulgar um vídeo em que ela protagoniza uma “cena de felação” com o mesmo. Difamada na escola, discriminada e expulsa de casa pelos pais, Janalice é obrigada a viver temporariamente na casa de seus tios, Daiane e Célio. Não sabia que justamente ali, na casa de seus parentes, não apenas teria sua dignidade violada como também seria vítima de abusos sexuais cotidianos. Seria o começo de sua saga, que envolve o vício em drogas e a prostituição infantil. Em uma das passagens, quando o personagem “Portuga” encontra a jovem no porto de Breves, “a maior cidade do Marajó”, ela explica sua condição.

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“Me raptaram, me venderam e agora sou prostituta. Isso na tua boca? Foi um soco que um miserável me deu. Filho da puta. Deus me abandonou. Só pode ser. Não acredito em mais nada. Sou uma fodida, sozinha no mundo. Me salva. Como? Sei lá, me compra, me leva contigo. Pra onde vocês vão agora? Pra Caiena. Caiena? É. Pra ser prostituta”. (p. 62)

Além da jovem protagonista, surgem outros personagens que compõem o quadro geral desse impactante thriller policial. Ladrões, prostitutas, cafetões, viciados, políticos criminosos… toda essa fauna surge nas páginas de Pssica. Um deles é Préa, marginal que lidera um bando que age roubando cargas nos rios da região – no Norte, esses grupos são conhecidos como ratos d’água – e que passa ser perseguido pelo angolano Manoel Tourinhos, o “Portuga”. O comerciante estrangeiro é vítima do bando que acaba matando sua esposa, Ana Maura, durante o assalto ao seu armazém. Outro personagem importante no desenvolvimento da intriga é Amadeu, delegado aposentado, amigo de Pedro, o pai de Janalice. Arrependido, Pedro consulta o amigo, que ainda “faz uns servicinhos”, no intuito de que Amadeu inicie uma investigação sobre o paradeiro de Janalice. Ele aceita.

“Amadeu andou por Ó de Almeida, Presidente Vargas, Aristides Lobo, Manoel Barata, Riachuelo, Frei Gil e Primeiro de Março. Conferindo. Ninguém sabia de nada. Nunca tinham visto. Com uma foto. Foi nos camelôs. Esse brinco foi comprado aqui? E essa menina, conhece? Não. Aqui? Não sei, não, doutor. É tanta gente que vem aqui. Será que não sabem, mesmo? Bom, ela circulou poucos dias, pode não ter dado para notar. Encostou na banca do Alvino, na praça da República. Viram essa garota por aqui? Não sei. Parece que sim. Mas essas meninas chegam todas bonitinhas, embarcam na droga com os moleques e vão murchando. Os garotos se aproveitam. Fodem elas, viciam e depois dão um chute. Difícil dizer. Tá bom por hoje”. (p. 18)

Lançando luzes sobre um tema que demonstra o atraso, a violência e a ausência do poder público nas diferentes regiões da Amazônia, os 17 capítulos de Pssica apresentam em seu realismo nu, um retrato sombrio de nossa realidade, sobretudo da mulher e sua condição. Pssica, o título do livro, é uma gíria cujo significado está relacionado ao azar, à má sorte que acompanha Janalice até o fim do romance. Abandono, traição, vingança, injustiça, crueldade e horror são alguns tópicos presentes nesse texto que insere a paisagem urbana da capital paraense e dos municípios da região, com todas as suas mazelas, no panorama das boas obras da literatura contemporânea brasileira.

Dora Bruder e a memória do Holocausto

Dora Bruder

Dora Bruder (ao centro), com seus pais Cécile e Ernest Bruder.

Um traço característico da obra do Prêmio Nobel de Literatura de 2014, Patrick Modiano, é o entrelaçamento de diferentes gêneros literários em suas narrativas, passando com desenvoltura pelas memórias e relatos autobiográficos para o plano da ficção. Em seu romance de 1991, Flores da Ruína, é possível constatar esse estilo que intercala a história do narrador em primeira pessoa com a do próprio autor. Essa forma também é visível em um de seus romances mais celebrados, Dora Bruder, lançado em 1997. O livro nos conta a história de uma jovem judia que fora presa na Paris ocupada durante a Segunda Guerra Mundial e morta em Auschwitz, em 1943. A temática da França sob a Ocupação nazista, presente também no filme Lacombe Lucien (1974) cujo roteiro Modiano escreveu em parceria com Louis Malle, é retomado em Dora Bruder para criar uma narrativa melancólica sobre o destino trágico das vítimas do regime de Hitler em colaboração com governo francês de Vichy. Tudo começa quando o narrador (o próprio Modiano) encontra em 1988, numa antiga edição do jornal Paris-Soir de 31 de dezembro de 1941, um anúncio que pedia informações sobre o desaparecimento da jovem Dora Bruder, nascida em 25 de fevereiro de 1926. Diz o anúncio:

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Anúncio no jornal Paris-Soir de 31 de dezembro de 1941

“PARIS

Procura-se uma jovem, Dora Bruder, 15 anos, 1,55cm, rosto oval, olhos marrom-acinzentados, casacão cinza, suéter bordô, saia e chapéu azul marinho, sapatos marrons. Qualquer informação dirigir-se ao Sr. e à Sra. Bruder, bulevar Ornano, 41, Paris”. (p. 5)

A partir desse anúncio, passados 47 anos de seu desaparecimento, Modiano inicia uma saga em busca do passado de Dora e de sua família. Essa busca, porém, é fundada em pistas distantes no tempo e no espaço, marcada por lugares que despareceram, onde o narrador procura restituir os passos de Dora e o paradeiro de seus pais, imigrantes de origem húngara e austríaca. Para isso, o narrador autor visita antigos arquivos de polícia, consulta velhos documentos, fotografias, cartas, jornais da época, fait divers, etc. A Paris que emerge das páginas de Dora Bruder é uma cidade obscura, asfixiada pelos toques de recolher, pelas humilhações cotidianas e pelas prisões e deportações de judeus. Esse clima nos remete aos versos de Nosso Tempo, poema de Carlos Drummond de Andrade, escrito sob o calor da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, em que o poeta diz: “É tempo de meio silêncio / de boca gelada e murmúrio / palavra indireta, aviso / na esquina. Tempo de cinco sentidos / num só. O espião janta conosco”. O romance assume uma atmosfera nebulosa e opaca, de vazio e solidão, que correspondem com o estilo dos personagens de Modiano, quase todos seres fugidios, escorregadios. “São pessoas que não deixam vestígios atrás de si. Praticamente anônimas”.

Misto de romance autobiográfico, ficção e história, Dora Bruder pode ser visto como uma homenagem em que Modiano encontra na história da heroína de seu romance, semelhanças com a história de seu próprio pai, que também viveu no mesmo período lúgubre. Numa das passagens, o autor de Remissão da Pena esclarece seu objetivo:

“Ao escrever este livro, lanço apelos, como sinais de um farol. Tenho dúvidas de que estes conseguirão iluminar a noite. Mas posso esperar” (p. 38)

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Patrick Modiano durante a inauguração da Promenade Dora Bruder. Foto: Martin Bureau/AFP

Com Dora Bruder, o autor nos apresenta a história de uma jovem judia que teve um fim semelhante ao de milhares de outros jovens judeus naquele período negro da história da Europa: primeiro fora presa Paris, enviada para o campo de Drancy, depois fora deportada e morta em Auschwitz. Assim como David Foenkinos cria em seu romance Charlotte (2014) o resgate da memória de uma jovem pintora judia desconhecida, com o mesmo destino de Dora, Patrick Modiano preserva em nossa consciência, através da memória e da ficção, as consequências nefastas da catástrofe nazista. Com sua obra, consegue dar nome a perseguidos, imprimir uma história de vida àqueles que foram silenciados e esvaziados de suas condições humanas.

Em 2015, um ano após receber o Prêmio Nobel de Literatura, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, inaugurou no 18º arrondissement da capital – mesmo bairro em que a jovem Dora vivera durante a Ocupação -, a Promenade Dora Bruder, uma homenagem ao romance de Modiano e à memória de Dora Bruder. O próprio Patrick Modiano esteve presente no dia da inauguração e comentou: “Dora Bruder tornou-se um símbolo. Ela agora representa na memória da cidade as milhares de crianças e adolescentes que partiram da França para serem assassinadas em Auschwitz”.

‘Viva!’, romance de Patrick Deville

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Natália Sedova, Frida Kahlo, Trotsky e Max Schachtman

No ano em que a Revolução Russa de 1917 completa seu primeiro centenário, é lançado no Brasil o romance Viva! (Editora 34) do escritor e historiador francês Patrick Deville, que resgata os últimos anos de exílio de Leon Trotsky no México e a saga do escritor e poeta inglês Malcolm Lowry. Duas figuras ideologicamente antagônicas que oscilaram entre a genialidade, a loucura e a tragédia. Depois de ajudar a fazer a Revolução ao lado de Lênin, e após a morte deste, Trotsky encontra a hostilidade de Stálin e é expulso do partido, depois é expulso da U.R.S.S. até ser finalmente assassinado em 1940. Malcolm Lowry, por sua vez, era um burguês de orientação conservadora, sustentado pelas mesadas do pai, e pretendia transformar a prosa poética inglesa. Acabou perdendo a razão após concluir seu romance À sombra do vulcão, que durou cerca de dez anos para ser finalizado.

Além dos dois personagens centrais, temos a presença do próprio autor, que narra encontros, entrevistas e descreve os locais que visitou e pelos quais os protagonistas passaram, como Kazan, cidade russa às margens do rio Volga que foi tomada pelo Exército Vermelho em 1918 ou a cabana no Canadá em que Lowry se refugiou para terminar o seu romance, após deixar o México. A obra de Deville traça um vasto panorama da efervescência política e cultural que sacudia o mundo durante as primeiras décadas do século passado como as revoluções mexicana e russa e a revolta contra a presença americana na Nicarágua, liderada por Augusto César Sandino. Diferentemente do romance do escritor cubano Leonardo Padura – no qual o autor de Literatura e Revolução também é um dos protagonistas – onde a narrativa histórica é ficcionada, o livro de Patrick Deville se apresenta como um “romance sem ficção”, alternando a narração entre a terceira e a primeira pessoa, apresentando minúcias de fatos históricos, cartas, confidências, ao mesmo tempo em que subverte e fragmenta a linearidade temporal da obra.

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Malcolm Lowry

Em volta dos protagonistas, surgem dezenas de outros personagens ilustres que fizeram parte daqueles anos agitados no México do então presidente Lázaro Cárdenas, que governou o País de 1934 até 1940. Entre pintores, escritores, fotógrafos e revolucionários, o autor nos apresenta situações em que entram em cena Frida Kahlo, Diego Rivera, Victor Serge, André Breton, Antonin Artaud, Tina Modotti, Edward Weston, David Alfaro Siqueiros, este último sendo o responsável pelo primeiro atentado que Trotsky sofrera no México. Após fracassar em sua tentativa, David Alfaro Siqueiros se exila no Chile, onde é recebido pelo poeta Pablo Neruda. Umas das passagens do romance fala do momento em que, ainda exilado na Noruega, Trotsky pensava em partir para Barcelona e lutar na Guerra Civil Espanhola ao lado de Andreu Nin, dirigente do POUM, torturado e assassinado por stalinistas espanhóis.

“Na Noruega, Trotsky considerara a possibilidade de ir para a Catalunha, isso em 1936, vinte anos depois de a polícia espanhola tê-lo embarcado à força no porto de Barcelona, quando encontrara Arthur Cravan a bordo do Montserrat. E podemos imaginar, nos fronts republicanos, o que seria o anúncio da presença clandestina do antigo chefe do Exército Vermelho. Sem dúvida ele não teria durado muito na guerra fratricida entre o POUM e o Komintern. Depois de sabotar a revolução espanhola e antes de assinar o pacto germano-soviético, Stálin exigira que o ouro do Banco da Espanha fosse posto a salvo em Moscou. Em troca do dinheiro, enviara uns poucos combatentes e uma pletora de comissários políticos. Entre eles o general Kotov e sua companheira Caridad Mercader, mãe de Ramón, e David Alfaro Siqueiros, e Vittorio Vidali e sua companheira Tina Modotti, todos membros ou afiliados da turminha do México”. (2016, p. 85)

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Tina Modotti

Em outra passagem, Patrick Deville descreve um diálogo entre Walter Benjamin e Bertolt Brecht sobre a qualidade literária do ex Comissário do Povo. Segundo Deville, após ler Minha Vida, a autobiografia de Trotsky, Benjamin ficara impactado com a obra e, ao comentar sobre o assunto com Brecht, o poeta respondera que “Trotsky bem poderia ser o maior escritor europeu de seu tempo”.

“Em uma temporada em Ibiza, em 1932, Walter Benjamin é profundamente tocado pela leitura de Minha Vida, e mais tarde Bertolt Brecht declara diante dele que Trotsky bem poderia ser o maior escritor europeu de seu tempo. No ano seguinte, os livros de Walter Benjamin são queimados, tal como os de Stephen Zweig. Em 26 de setembro de 1940, um mês depois do assassinato de Trotsky neste lugar onde nos encontramos, Walter Benjamin desembarca do trem e se suicida num quarto de hotel em Port-Bou, dois anos antes do suicídio de Stephen Zweig no Brasil”. (2016, p. 78)

Uma das características positivas do romance de Deville é conseguir fazer ligações em tempos e espaços distintos, traçando laços e unindo personagens díspares como Lowry e Trotsky ou Artaud e Breton. Sua obra é uma celebração da utopia, dos grandes sonhos e das grandes realizações históricas, políticas e estéticas, sem esquecer as dores e perdas acumuladas às margens de tais processos.

A história da pintora Charlotte Salomon

Charlotte e seu pai Albert - 1927

Charlotte e seu pai Albert, 1927

Com mais de 500 mil exemplares vendidos apenas na França em 2014, foi com o romance Charlotte que o escritor e músico de jazz David Foenkinos conquistou importantes premiações literárias. Seu romance La Délicatesse foi adaptado para o cinema em 2011 e indicado ao César em 2012 na categoria de melhor adaptação, feita por seu irmão, Stéphane Foenkinos. Em Charlotte, o autor presta uma emocionante homenagem à pintora judia-alemã Charlotte Salomon, morta grávida aos 26 anos em Auschwitz. Escrito em verso, como um longo poema narrativo, o livro é dividido em oito partes e um epílogo. O tempo do romance é a primeira metade do século XX, pano de fundo que o autor utiliza para reconstruir a trajetória dos Grunwald, uma família burguesa de Berlim. A história inicia antes do nascimento da protagonista, como se nota nos primeiros versos da narrativa.

“Charlotte aprendeu a ler o seu nome num túmulo.

Portanto, ela não era a primeira Charlotte.
Houve antes a sua tia, irmã de sua mãe.
As duas irmãs foram muito unidas, até uma noite de novembro de 1913”.

O autor nos apresenta Franziska e Charlotte, as jovens e inseparáveis irmãs. O pai delas era um “intelectual rígido, amante das artes e de antiguidades”, diz o narrador. Sua mãe era uma mulher calma, de uma doçura quase melancólica. Com o tempo, de maneira silenciosa, a sombra da depressão se apossou de Charlotte. Numa noite fria de novembro de 1913, enquanto todos dormiam, Charlotte saiu de casa e se dirigiu até uma ponte, da qual se atirou. Depois de seu suicídio, a família Grunwald se recolhera em silêncio, com vergonha do que os vizinhos pudessem pensar.

Passado algum tempo, Franziska decide se tornar enfermeira durante a Primeira Guerra. Conhece o médico Albert, com quem se casa contrariando os pais. Ao engravidar, decide que a criança terá o mesmo nome da irmã, como uma homenagem. O marido protestou, não queria que a filha tivesse o nome de uma suicida. Mas não conseguiu convencer Franzsika do contrário e a menina foi chamada de Charlotte. Quando Charlotte tinha 10 anos, sua mãe também se suicidou, jogando-se da janela do apartamento. Seus avós e seu pai optaram por esconder a verdade. Disseram que a morte da mãe havia sido causada por uma gripe. Somente anos mais tarde ela viria a saber a verdade.

Foenkinos nos mostra que a vida de Charlotte Salomon foi uma sucessão de tragédias. Os suicídios continuaram na família Grunwald, era uma característica deles. Porém, ela se refugiou na criação, decidiu que queria ser pintora e começou a frequentar as aulas nas Belas Artes de Berlim. Com a proibição dos judeus de frequentarem a academia, Charlotte permaneceu assistindo as aulas pela força de seu talento. As coisas estavam ficando cada vez mais difíceis para os judeus na Alemanha, até que o pai de Charlotte, incentivado pela filha, conhece Paula, uma famosa cantora lírica. A casa que vivia no silêncio desde a morte de Franziska, passou a receber animadas soirées frequentadas por uma elite cultural que aglutinava médicos, artistas e intelectuais.

É somente no exílio, em Nice, que Charlotte Salomon desenvolve sua obra de maneira consciente. Antes de sair de Berlim, ela conheceu Alfred, seu primeiro e único amor. Ela não queria partir sem ele, mas as coisas ficaram insustentáveis e os avós conseguiram convencê-la de ir encontrá-los no sul da França. Inconsolada com a morte das duas filhas, sua avó também termina se suicidando. Essa perda faz com que Charlotte utilize toda sua energia na tentativa de reconstruir sua história através da pintura. Ela confia seu trabalho a um médico que sempre a incentivara. Tempo depois, Charlotte conhece Alexander, com quem passa a viver e de quem fica grávida, no momento em que é denunciada por uma ligação anônima.

“Com todos os faróis apagados, o caminhão estacionou sem ruído.
Dois homens entraram de cada lado do jardim.
Naquele exato momento, Charlotte saía de casa.
Ela deu de cara com os soldados.
Eles se precipitaram para ela e agarram pelo braço.
Ela gritou com todas as suas forças.
Debateu-se, tentou fugir.
Um alemão puxou-a violentamente pelo cabelo.
E lhe deu um golpe no ventre.
Ela disse que estava grávida e implorou clemência.
Por favor, deixem-me.
Isso não tinha nenhuma importância para eles”.

Charlotte

Stolpersteine ou Placas do Tropeço, Gunter Demnig

 

Sobre Quem Matou Roland Barthes?

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Laurent Binet

Na tarde de 25 de fevereiro de 1980, após sair de um almoço com o futuro presidente da França, François Miterrand, o filósofo, crítico literário e semiólogo francês Roland Barthes (1915 – 1980) é atropelado por uma caminhonete de lavanderia quando atravessava a rue des Écoles, em Paris. Esse é o ponto de partida de La Septième Fonction du Langage, romance de Laurent Binet lançado em 2015 na França e traduzido no Brasil no ano passado com o título de Quem matou Roland Barthes? Utilizando o atropelamento que vitimou o autor de Fragmentos de um discurso amoroso como mote da narrativa, Laurent Binet sustenta ao longo de seu “thriller filosófico” que o acidente de Barthes não fora por acaso, mas premeditado e intencional. O motivo do assassinato seria um documento que Barthes possuía no momento do atropelamento, no qual consta a descoberta feita por Jakobson, da sétima função da linguagem. Em Linguística e Comunicação, Roman Jakobson (1896 – 1982) definiu as funções da linguagem nas seguintes categorias: função referencial, função emotiva, função conativa, função fática, função metalinguística e função poética. Assim, a descoberta de uma nova função “mágica ou encantatória”, que teria capacidade de convencer e agir diretamente sobre as pessoas, independente do contexto ou ocasião, colocava Barthes na mira de muitos interesses, entre os quais estavam espiões soviéticos, búlgaros e japoneses, arrivistas intelectuais, políticos ambiciosos, etc…

Roland Barthes, Philippe Sollers, Stanislas Ivankov

Roland Barthes e Philippe Sollers, 1972.

O romance se situa no estilo policial, com uso de pistas, suspeitos, interrogatórios,  intrigas e desfechos. Os protagonistas são o delegado Jacques Bayard (um anti-intelectual conservador que remete ao delegado Cabeção do filme O Bandido da Luz Vermelha) encarregado de investigar a morte de Roland Barthes, e o jovem professor Simon Herzog, que auxilia Bayard no meio acadêmico e o orienta pelo emaranhado de conceitos da semiologia e da filosofia. O enredo estruturado em cinco partes e 99 capítulos, percorre em cada parte, uma geografia: Paris, Bolonha, Ithaca, Veneza e novamente Paris. O tempo do romance é a década de 80, a França é governada por Giscard d’Estaing, que determina as investigações sobre a morte de Barthes com o objetivo de elucidar o caso e se apossar do valioso documento, que sumiu no momento do atropelamento. Entre o vasto universo de personagens, Binnet utiliza figuras como Foucault, Deleuze, Judith Butler, Derrida, Umberto Eco, Julia Kristeva, Althusser, Sartre, Philippe Sollers, Chomsky, sem, no entanto, deixar de satirizar e zombar muitos desses personagens e do meio acadêmico pelo qual transitam. Dessa forma, o autor consegue construir uma narrativa densa, de caráter “filosófico”, ao mesmo tempo atravessada por uma prosa divertida e burlesca. A própria dicotomia criada pelos estereótipos do delegado “brutamontes reacionário” com o professor magricela “rato de biblioteca”, atesta essa impressão. Na passagem abaixo, vemos o momento em que Bayard chega na universidade de Vincennes para recrutar Simon para a “operação”:

“Bayard, que se lembra de seus longínquos anos de direito em Assas, descobre um lugar totalmente pitoresco e distante: para ter acesso às salas de aula, deve atravessar um tipo de mercado, povoado de africanos, pular por cima dos drogados comatosos caídos no chão, passar diante de um tanque sem água e repleto de detritos, margear as paredes descascadas cobertas de cartazes e grafites nos quais pode ler: ‘Professores, estudantes, reitores, pessoal administrativo: morram, seus putos!’; ‘Não ao fechamento da feira de alimentos!’; ‘Não à mudança de Vincennes para Nogent’; ‘Não à mudança de Vincennes para Marne-la-Vallée’; ‘Não à mudança de Vincennes pra Savigny-sur-Orge’; ‘Não à mudança de Vincennes para Saint-Denis’; ‘Viva a revolução proletária’; ‘Viva a revolução iraniana’; ‘Maoistas = fascistas’; ‘Trotskistas = estalinistas’; ‘Lacan = tira’; ‘Badiou = nazista’; ‘Althusser = assassino’; ‘Deleuze = fode a tua mãe’; ‘Cixous = fode comigo’; ‘Foucault = puta de Khomeiny’; ‘Barthes = social-traidor pró chinês’; ‘Calliclès = SS’; ‘É proibido proibir de proibir’; ‘União das esquerdas = no teu cu’; ‘Vem pra minha casa, a gente vai ler o capital! Assinado: Balibar’… Estudantes fedendo a maconha o abordam com agressividade, passando-lhe toneladas de panfletos: ‘Camarada, sabe o que está acontecendo no Chile? Em El Salvador? Você se sente afetado com o que se passa na Argentina? E em Moçambique? Está pouco ligando para Moçambique? Sabe onde fica? Quer que eu te fale de Timor? Fora isso, a gente está coletando dinheiro para alfabetização na Nicarágua. Me paga um café?”. (2016, p. 31-32)

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Michel Foucault em Vincennes

Um traço marcante do romance é a forma como o autor transita pelo discurso ensaístico, biográfico e ficcional, possibilitando uma leitura intertextual da obra. A passagem em que Althusser mata sua mulher estrangulada, é um exemplo de como o autor intercala um dado real, histórico (o assassinato de Helène), com o inventivo, o ficcional (o motivo que teria levado Althusser assassinar sua esposa), usando o sumiço do documento que continha a sétima função da linguagem como motivo para o estrangulamento. Em outro capítulo, que se passa no campus da universidade americana de Ithaca, Binet apresenta um panorama da influência e das divergências em torno da French Theory no meio acadêmico norteamericano. Em sua apresentação durante um  colóquio, John Searle diverge de Derrida e discorre sobre atos de fala, ilocutório, perlocutório, elocução, conceitos da filosofia da linguagem que o professor Simon Herzog conhece bem. Em outros momentos, o autor se apropria de símbolos da cultura pop, da publicidade, do cinema de ação e do thriller de suspense. A paródia também é um recurso utilizado por Binet, que ao longo da narrativa, não deixa de satirizar o companheiro de Julia Kristeva, o escritor Philippe Sollers.

“Difícil imaginar o que Kristeva pensa de Sollers em 1980. Que seu dandismo histriônico, sua libertinagem so French, sua presunção patológica, seu estilo adolescente panfletário e sua cultura épate-bourgeois tenham conseguido seduzir a bulgarazinha recém-desembarcada da Europa oriental, nos anos 1960, admitamos. Quinze anos depois, seria de imaginar que ela está menos encantada, mas quem sabe? O que parece evidente é que a associação deles é sólida, que funcionou perfeitamente desde o início e que continua a funcionar: um time consolidado em que os papéis estão bem atribuídos. Para ele, a fanfarronice, as mundanidades e as palhaçadas idiotas. Para ela, o charme eslavo venenoso, glacial, estruturalista, os arcanos do mundo universitário, a gestão dos manda-chuvas, os aspectos técnicos, institucionais e, como deve ser, burocráticos da ascensão de ambos. (Ele não sabe preencher um formulário bancário, reza a lenda)”. (2016, p. 126-127)

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O surpreendente desfecho do romance levanta uma das questões centrais do livro, que afirma o poder da linguagem e daqueles que detém o domínio do discurso e de suas funções como fator decisivo para exercer o poder em sociedade, desde a Antiguidade até os dias atuais. Penso no comentário que Agamben faz em O homem sem conteúdo, da visão de Platão sobre o poeta e do “poder da arte sobre o espírito”. Diz Agamben que, para Platão “o poder da arte sobre o espírito lhe parecia tão grande que ele pensava que ela poderia, sozinha, destruir o próprio fundamento da sua cidade; e, todavia, se ele era constrangido a bani-la, o fazia, mas apenas a contragosto, ‘porque temos consciência do fascínio que ela exerce sobre nós”. (2012, p. 22-23). No caso de Simon, é o uso que o personagem faz desse domínio que permite salvar sua própria pele no final do livro. Em outro momento, quando Bayard e Simon encontram Umberto Eco em Bolonha, na Itália, este relata a existência de uma curiosa seita herege em que seus membros se exercitam através de confrontos retóricos “em nome da beleza do verbo”.

“A cidade cristã, diz Eco, repousava sobre três pilares: o ginásio, o teatro e a escola retórica. Temos o vestígio dessa tripartição ainda hoje numa sociedade do espetáculo que promove ao nível de celebridades três categorias de indivíduos: os esportistas, os atores (ou cantores, o teatro antigo não fazia distinção) e os políticos. Dessas três categorias, a terceira, até agora, sempre foi a mais forte (mesmo se vemos que com Ronald Reagan as categorias nem sempre são estanques), porque implica o domínio da arma mais poderosa: a linguagem.

Desde a Antiguidade até hoje, o domínio da linguagem sempre foi a implicação política fundamental, mesmo durante o período feudal, que aparentemente consagrava a lei da força física e da superioridade militar. Maquiavel explica ao príncipe que não é pela força mas pelo temor que se governa, e isso não é a mesma coisa: o temor é produto do discurso sobre a força. Allora, quem domina o discurso, por sua capacidade de suscitar temor e amor, é virtualmente o dono do mundo, eh!”

Foi sobre esse pressuposto teórico protomaquiavélico, e também para barrar a influência crescente do cristianismo, que uma seita de hereges fundou o Logi Consilium no século III depois de Cristo.

Em seguida, o Logi Consilium espalhou-se pela Itália, depois pela França, onde tomará o nome de Clube Logos no século XVIII, durante a Revolução”. (2016, p. 186)

Enrique Vila-Matas e a metaliteratura

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Enrique Vila-Matas

Paris não tem fim é o décimo terceiro livro do escritor catalão Enrique Vila-Matas, cujo narrador relembra os anos de sua juventude na capital francesa, quando saiu de Barcelona e fugiu do regime franquista decidido a tentar a vida de escritor na França, tal como fizera seu ídolo Ernst Hemingway e outros escritores da geração perdida. O título do livro de Vila-Matas foi extraído do romance de Hemingway Paris é uma festa, que também fala sobre os anos da juventude do autor em Paris, quando era “muito pobre e muito feliz”. Sua admiração pelo autor de Adeus às armas e sua vontade de levar uma vida ao estilo do escritor americano, fez com que o narrador (que não sabemos o nome) fosse à Paris “em meados dos anos setenta”, em busca de um ambiente propício para escrever seu primeiro romance. Sobrevivendo às custas de uma pequena mesada que seu pai enviava da Espanha, o narrador consegue se hospedar em um quarto minúsculo, uma água-furtada cuja dona era ninguém menos que Marguerite Duras, que incentiva o narrador a se dedicar à escrita.

Ainda nas primeiras páginas o narrador revela que vai participar de uma palestra de três dias, cujo título é “Paris não tem fim”. Descobrimos que o tema da narrativa é justamente o conteúdo da palestra do narrador, que busca tratar seus anos na França sob o olhar da ironia. A maneira como o autor se utiliza de citações de poemas, cenas de filmes e passagens de romances na construção e desenvolvimento da narrativa (e da conferência), é um dos aspectos mais interessantes do livro. Vila-Matas ficcionaliza algumas situações que de fato aconteceram, como por exemplo, a viagem do grupo ligado a revista Tel Quel, que em abril de 1974, visitou a China.

“Naquele 9 de abril, eu estava prestes a cruzar o bulevar Saint-Germain com Marguerite Duras e Raúl Escari quando, de repente, um grande carro negro, quase funerário e de qualquer forma nada primaveril, freou de chofre e parou junto a nós. Olhei e pude ver em seu interior Julia Kristeva, Phillipe Sollers, Marcelin Pleynet e uma quarta pessoa que não identifiquei. Sollers baixou o vidro do carro e falou alguns breves segundos com Marguerite. Não entendi nada do que disseram. Depois, o carro arrancou e desapareceu na distância, acabou esfumando-se no fundo do bulevar. Então Marguerite prontamente disse: ‘Vão para a China”. (p. 69-70)

E logo no parágrafo seguinte:

“O curioso é que era verdade. Em abril e maio de 1974, uma delegação francesa composta por três membros da revista Tel Quel (Sollers, Kristeva e Pleynet), mais François Wahl e Roland Barthes, visitou a China. Foram de Pequim a Xangai e de Nanquim a Xian. Na volta, Barthes publicou um célebre artigo no Le Monde, onde se mostrava decepcionado diante do que ouvira e vira. (p. 70)

Uma das características do livro de Vila-Matas é utilizar o autor de ficção como personagem da própria ficção, fazendo uso constante de referências extraídas da literatura, construindo assim uma narrativa tecida pela metaliteratura ou metaficção. Como afirma a professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés, em seu mais recente livro, “Mutações da literatura no século XXI”, uma das particularidades da literatura contemporânea é que “boa parte da ficção e poesia atuais está encharcada de referências à ficção e à poesia anteriores, na forma de citação, alusão, pastiche ou paródia. Essa ‘memória da biblioteca’ remete à questão do ‘fim da literatura’ que se tornou não apenas um tema acadêmico, mas também um tema literário”. (p. 117)

O debate em torno do fim da literatura é outro aspecto da obra do autor de Bartleby e companhia, que questiona a própria existência do romance tal como o conhecemos. Em recente entrevista ao jornal português Observador, Vila-Matas afirmou: “Acho que o romance se esgotou com as grandes obras como ‘Vermelho e Negro’, ‘Guerra & Paz’ e ‘Madame Bovary’. Não quero isto dizer que não haja obras boas, mas o gênero ‘romance’, no sentido clássico, individualmente, está esgotado”.

Dessa forma, Enrique Vila-Matas permite criar através de sua linguagem, uma espécie de expansão da consciência literária do leitor, manuseando habilmente citações dos mais diversos autores (Borges, Cortázar, Proust, Valéry, Queneau) e narrando episódios do ambiente boêmio e cultural francês, como a festa que fora convidado por Marguerite Duras e onde conhecera a atriz Isabelle Adjani, que havia acabado de filmar, segundo o narrador, L’Histoire d’Adele H., de François Truffaut. Foi o olhar de Adjani, diz o narrador, que o inspirara a construir a personagem de seu primeiro romance, a Assassina Ilustrada. Em outra passagem onde o autor explora o senso de humor, o narrador encontra seu amigo Raúl Escari fumando um baseado com William Burroughs, nos altos da catedral de Notre Dame.

“A fotógrafa Martine Barrat, amiga de amigos comuns, estava imortalizando com sua câmera Raúl Escari, que naquele preciso instante compartilhava um joint com William Burroughs, porque era Burroughs quem estava ali com meu amigo, no mesmo momento não tive nenhuma dúvida, embora meu estranhamento, surpresa e excitação diante de tal descoberta tivessem sido grandes. O que fazia Raúl com aquele famoso escritor lá no alto de Notre Dame? Claro que, quando ia perguntar, eu também deveria ter me perguntado o que eu fazia lá no alto”. (p. 131)

Apesar de declarar o esgotamento da forma do romance clássico na atualidade, Enrique Vila-Matas não é um apocalíptico, no sentindo de decretar a morte de novas experiências no âmbito da linguagem literária. O próprio autor faz de sua narrativa fragmentada e permeada pela intertextualidade, a possibilidade mesma da existência de uma ficção contemporânea, permitindo assim um hibridismo que admite o gênero autobiográfico e ensaístico, convivendo harmoniosamente no mesmo plano da linguagem ficcional.

O acerto de contas de Thomas Bernhard

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São muitos os personagens que marcaram a história da literatura universal com suas personalidades e atitudes desregradas. O que dizer, por exemplo, de Lafcadio, personagem de Os Porões do Vaticano, de André Gide? Ou do jovem Bayard, personagem do romance Sartoris, de William Faulkner ou ainda Morravagin, do franco-suíço Blaise Cendrars? Todos têm em comum características que chocam a moral estabelecida, que ultrapassam as linhas da ordem num salto. Em uma palavra: gente transgressora. É mais ou menos nessa linha que segue o narrador criado por Thomas Bernhard em seu último romance.

Um personagem que não suporta o seu passado e a relação com seus parentes mais próximos, por isso, procura extinguir toda a sua história através de um livro que pretende escrever. Alguém que simplesmente odeia tudo o que diz respeito à sua família, seu país e sua cidade natal. Eis o leitmotiv de Extinção, romance do escritor e dramaturgo austríaco Thomas Bernhard (1931 – 1989). Franz-Josef Murau, protagonista e narrador do romance, não mede palavras e não disfarça o seu despudor para referir-se ao seu irmão como um imbecil, a seus pais como repulsivos e suas irmãs como abjetas. Esse sentimento de pura aversão pela família percorre as quase quinhentas páginas do romance, dividido em duas partes, cada parte contendo um único parágrafo. Com sua prosa loquaz, grandiloquente e repetitiva, mas também burlesca, irônica e muitas vezes contraditória, Bernhard cria uma narrativa atravessada pelo monólogo interior, em que as ações são sobrepostas pelas reflexões e reminiscências, que dão vazão ao incessante fluxo de consciência de Franz-Josef Murau.

Na primeira parte do romance, intitulada Telegrama, o narrador inicia falando sobre o conteúdo de um telegrama que acabara de receber em Roma, de suas irmãs, anunciando a morte de seus pais e do irmão mais velho, Johannes, em um acidente de carro. Franz-Josef voltara há poucos dias de Wolfsegg, interior da Áustria, quando assistira o casamento de uma de suas irmãs, Caecilia. Em conversa com Gambetti, seu aluno de literatura alemã em Roma, Franz comenta sobre a sensação de estar de volta à Itália, ao seu apartamento na Piazza Minerva, de frente ao Panteão e longe do palavrório tedioso de sua família.

“Falar com Gambetti, também naquele dia, fora outra vez um grande prazer para mim, depois das conversas custosas, cansativas com a minha família em Wolfsegg, todas elas circunscritas às necessidades cotidianas de caráter absolutamente privado e primitivo” (P.8).

No decorrer da narrativa, poucas ações se desenrolam. A primeira delas se passa em Roma, no apartamento do narrador, onde ele lê e relê o telegrama que anuncia a morte dos pais e do irmão. A outra ação se passa quando ele retorna a Wolfsegg, para o enterro dos familiares. Sua narração foge de qualquer discurso linear e temporal, ainda que as ações tenham uma linearidade.

Franz-Josef Murau é um intelectual, apreciador de arte e profundo conhecedor de literatura alemã, francesa e italiana. Sua formação estética se deu através da influência direta de seu tio Georg, que também sempre fora marginalizado pela família. Absolutamente avesso ao sentimentalismo e a moral cristã, após receber o telegrama (sem que a notícia o tenha abalado em algum momento), Murau se lamenta que nos próximos dias não poderá discutir As Afinidades Eletivas com Gambetti, como haviam combinado. Lamenta não a morte dos pais e do irmão, mas o fato de não mais poder encontrar Gambetti nos dias seguintes. Ao invés de conversar sobre O mundo como vontade e representação, Franz-Josef teria que voltar para Wolfsegg, se acercar de suas irmãs e falar sobre os trâmites do enterro dos pais e do irmão e, sem dúvida, sobre a questão da herança.

O que mantém a aversão de Franz por sua família e por Wolfsegg, é o fato de saber que eles (a família) sempre nutriram um grande desprezo por tudo o que ele fazia, dizia ou pensava. Sabia que no fundo sua família era indiferente a tudo que lhe agradasse, mesmo quando ele ainda era criança. Os pais sempre preferiram a companhia do irmão mais velho, agora morto. Como sua família fosse formada por latifundiários que há muitas gerações mantinham um vasto domínio sobre as terras do vilarejo de Wolfsegg, acumulara ao longo das gerações nada menos que cinco bibliotecas. Essas bibliotecas viviam a maior parte do tempo fechadas, ninguém as visitava e os livros disponíveis, segundo o narrador, eram sempre livros de orientação católica. Como seus pais fossem incultos e seus irmãos indiferentes aos livros, quase ninguém fazia uso das bibliotecas de Wolfsegg.

“Em nossas bibliotecas, imagine só, disse a Gambetti, eles haviam mantido sob chave os livros por assim dizer profanos, à diferença dos livros católicos, os armários com os livros profanos haviam ficado trancados por décadas, se não por séculos, dissera a Gambetti, somente os livros católicos eram de livre acesso, os profanos isolados, inacessíveis, não deviam ser lidos, deviam ficar confinados, como se tivessem confinado o espírito livre nesses armários, Gambetti, eles confinavam nesses armários os livros que não eram católicos” (P. 109).

Franz era o único a frequentar as bibliotecas da família, incentivado por seu tio Georg, irmão de seu pai. O fato de ser o único dos filhos que frequentava assiduamente as bibliotecas da família, fez com que sua mãe passasse a acusá-lo de frequentá-las com o único propósito de cultivar os “seus pensamentos aberrantes”. É nesse ambiente opressivo e nessa atmosfera provinciana que Franz passa sua infância. Não bastasse essa relação tumultuosa, outro trauma que persegue a vida do narrador é o passado nazista de Wolfsegg e de seus pais, que abraçaram com convicção o nacional-socialismo. Como o ambiente de Wolfsegg se tornava cada vez mais reacionário e hostil, Georg, seu tio, não encontrou outra saída senão deixar a Áustria, e passou a viver primeiro em Nice, depois em Cannes, na França.

“Meu pai era um nazista chantageado a tanto, é preciso que você saiba Gambetti, incitado naturalmente pela minha mãe, que foi uma nacional-socialista histérica durante todo o domínio nazista, é preciso que você saiba, uma Mulher Alemã, como ela própria sempre se definiu. No aniversário de Hitler, a bandeira nazista era regularmente hasteada em Wolfsegg, dissera a Gambetti, era asqueroso. Afinal meu tio Georg saiu de Wolfsegg sobretudo porque não queria suportar e não podia suportar o nacional-socialismo, que lá se difundiu com toda a força”. (P. 143).

Na visão do narrador, sua mãe sempre fora a pessoa mais pérfida, maquiavélica e ambiciosa que conhecera. É ela a responsável por todos os constrangimentos, humilhações e traumas de que fora vítima na infância e juventude. Com sua mania de grandeza e seus vícios típicos dos pequenos burgueses, como diz o narrador, gastava enormes quantias em viagens constantes a Viena, Munique, Roma, Paris e Londres. Seu desprezo pela arte era “compensado” pela futilidade das compras que efetuava em seus passeios pelas metrópoles europeias. Seu marido, o pai de Franz, era constantemente manipulado pela mulher, que mantinha um caso às escondidas com Spadolini, um jovem bispo do Vaticano, que travara amizade com o próprio Franz em Roma.

Somente depois de várias horas observando três fotografias que guardava em uma gaveta do seu escritório (uma foto de suas duas irmãs, em Cannes, outra de seu irmão, em um barco à vela e uma terceira dos seus pais, em uma estação em Londres), Franz resolve ligar para as poucas pessoas com quem mantém contato em Roma e anunciar que está voltando para Wolfsegg. Nesse sentindo, a história não avança, nada acontece enquanto Franz está segurando o telegrama na mão. No mais das vezes, o narrador vai até a janela do apartamento, ou senta-se diante da escrivaninha e fica horas observando as fotografias de sua família.

“Recoloquei as fotografias na gaveta da escrivaninha e decidi bater um fio a meus amigos, como se diz, e partir de Roma com o primeiro avião da manhã, para casa. Meus dedos não tremiam, meu corpo não vacilava. Tinha a cabeça perfeitamente lúcida. O que o telegrama significava, eu sabia”. (P. 227).

O segundo capítulo, O Testamento, é marcado pela volta do narrador à casa de seus pais em Wolfsegg. Antes de subir até sua casa, onde sabia que iria encontrar suas irmãs Caecilia e Amalia, Franz-Josef Murau resolve passear pelo bosque, observar a vila das crianças, onde passara momentos felizes em sua infância. Retarda ao máximo o encontro com as irmãs. Imagina a lista de pessoas que em poucas horas estarão no vilarejo para acompanhar o velório. Entre essas pessoas, algumas causam verdadeira aversão ao narrador: são os antigos partidários do nacional-socialismo, pessoas vinculadas à Liga dos Camaradas, grupo de tendência manifestadamente nazista, que travara relações com seus pais durante o Terceiro Reich. Para compensar a presença sórdida dessas pessoas, ele aguarda a companhia de Spadolini, o bispo do Vaticano que tivera um caso com sua mãe durante anos.

Após a chegada do bispo do Vaticano, que fora extremamente bem recebido, Franz se surpreende com a imagem que Spadolini começa a traçar de seus pais. Sentado à mesa com suas irmãs e seu cunhado, Franz-Josef escuta com atenção o bispo se referir ao seu pai como um “filósofo”, um homem íntegro e bom. Desconfia quando este diz que sua mãe era uma mulher “culta”, “apaixonada por Mahler” e amiga dos artistas. A confiança que Franz depositava em Spadolini, fica abalada. Ele não podia acreditar que seus pais pudessem ter esse lado que ele nunca fora capaz de perceber. Então passou a imaginar de que maneira Spadolini subira tão rapidamente os degraus da hierarquia da Igreja Católica. Sem dúvida, pensa o narrador, a base de falsidade, mentiras e conchavos, um papel que ele (Spadolini) aprendera a representar como ninguém.

“O homem da Igreja fez desabrochar, já nas poucas horas que passou aqui, sua indescritível arte do cálculo, pensei, sua calculada arte da falsificação, perante nossos olhos e ouvidos, por assim dizer, converteu imbecis em inteligências e malvados em santos, analfabetos em filósofos e gente na verdade abjeta em modelos de caráter. A feiúra em beleza, a baixeza e mesquinharia em grandeza interior e exterior, os monstros em seres humanos, para sermos precisos”. (P. 424)

Não apenas sua família passa a ser alvo de suas críticas e elas não cessam nem mesmo durante o velório e o enterro de seus pais e do irmão mais velho. Seu cunhado, o “vendedor de rolhas para garrafas de vinho”, a literatura alemã contemporânea, a Igreja Católica, o nacional-socialismo, o pseudo-socialismo, a Áustria, Wolfsegg… poucos escapam às rajadas fulminantes de Franz-Josef Murau. Sobre a literatura alemã contemporânea, Murau diz que não passa de uma literatura burocrática, produzida por burocratas. A exceção de Kafka e Maria (poetisa amiga de Franz que vive em Roma), nada se salva dessa literatura. O socialismo que vigora em alguns países da Europa, constata o narrador, nada mais é que uma grande deturpação do verdadeiro socialismo, uma falsificação grotesca perpetrada por partidos convertidos em fiéis defensores dos interesses do mercado e do capital. A Igreja Católica, diz Franz-Josef Murau, foi capaz de incutir esse espírito filistino ao povo austríaco, essa passividade que foi forjada pela tenaz católica durante muitos séculos de domínio espiritual.

Após o enterro, sem saber ao certo qual seria o futuro que ele daria a Wolfsegg, já que agora era o proprietário por direito, Franz esboça uma tentativa de restaurar a vila das crianças, acreditando que dessa forma, parte de sua infância seria também restaurada. Mas logo depois muda de ideia e sem comunicar suas irmãs, decide simplesmente doar incondicionalmente toda as propriedades de Wolfsegg, tal como ela se encontra, à Comunidade Israelita de Viena. Assim é concluída a extinção de Wolfsegg, o acerto de contas final de Bernhard com seu país, bem como o final do romance que o narrador pretendia escrever, cujo título também é Extinção.

W. G. Sebald e a colonização do Congo

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As primeiras notícias sobre maneira e medida dos crimes cometidos contra a população nativa durante a colonização no Congo chegaram a público em 1903 através de Roger Casement, que naquela ocasião tinha o posto de cônsul britânico em Boma. Casement, sobre quem Korzeniowski comentou com um conhecido em Londres que este saberia relatar coisas que ele, Korzeniowski, há muito procurava esquecer, em um memorando apresentado ao Foreign Secretary lord Lansdowne deu indicações precisas sobre a exploração dos negros que nenhuma medida de consideração atenuava, em todos os locais de construção da colônia forçados a trabalhar da manhã à noite pessimamente alimentados e com freqüência acorrentados uns aos outros, sem nenhum pagamento, em última análise até literalmente caírem no chão.
Quem sobe o curso superior do rio Congo e não está ofuscado pela cobiça financeira, escreveu Casement, verá desenrolar-se diante de seus olhos a agonia de um povo inteiro com histórias que cortam o coração, e que deixam na sombra todos os relatos de sofrimento da Bíblia. Casement não deixou dúvidas sobre o fato de que todos os anos centenas de milhares de trabalhadores escravos eram levados à morte por seus capatazes brancos, e que mutilar, decepar mãos e pés e matar a tiros faziam parte das punições realizadas diariamente no Congo para manter a disciplina. Uma conversa pessoal para o qual o rei Leopoldo convidou Casement a ir até Bruxelas deveria servir para abrandar a situação criada pela intervenção de Casement, e para uma avaliação do perigo que as atividades de Casement representavam para os empreendimentos coloniais belgas. O trabalho feito pelos negros, disse Leopoldo, era considerado por ele próprio um legítimo sucedêneo de impostos, e se eventualmente, o que não queria negar, ocorriam excessos preocupantes de parte dos capatazes brancos, isso podia ser atribuído ao fato lamentável, porém dificilmente alterável de que o clima do Congo causava uma espécie de demência na mente de muitos brancos, que infelizmente nem sempre se podia evitar em tempo. Como Casement não mudasse de opinião diante de tais argumentos, Leopoldo usou do privilégio da influência real em Londres, e como conseqüência com duplicidade diplomática o relatório Casement foi de um lado elogiado como modelar, e seu autor recebeu o título Commander of the Order os St. Michael and St. George, mas de outro lado nada foi feito que pudesse prejudicar os interesses belgas.

W. G. Sebald. Os anéis de saturno. Tradução: Lya Luft. Editora Record, 2002, p. 135-137