Borges e o culto dos livros

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Jorge Luis Borges

Entrevista extraída do livro “Sobre a filosofia e outros diálogos – Borges & Osvaldo Ferrari” (Tradução: John O’Kuinghttons).

OSWALDO FERRARI – Um de seus ensaios, sr. Borges, que se chama “Sob o culto dos livros”, me faz lembrar títulos e autores que o senhor cita familiarmente, digamos.

JORGE LUIS BORGES – Não lembro absolutamente nada daquele artigo… mas, falo dos livros sagrados? Do fato de cada país escolher o seu?

O senhor menciona o primeiro, mas se refere também àqueles que falam contra os livros, a favor da língua oral; por exemplo, há um relato de Platão no qual se diz que a leitura excessiva faz com que cheguemos ao descuido da memória, e que dependamos dos símbolos.

Me parece que Schopenhauer disse que ler era pensar com um cérebro alheio, o que é a mesma ideia, não é? Bem, não é a mesma ideia, mas de qualquer forma, é contra os livros. Será que eu citei aquilo?

Não.

Talvez falasse sobre o tema de que cada país escolhe, prefere ser representado por um livro, e que esse livro costuma não ser parecido com o país. Por exemplo, entende-se que Shakespeare é a Inglaterra; no entanto, nenhuma das características habituais do inglês se encontra em Shakespeare, já que os ingleses costumam ser reservados, de poucas palavras, e Shakespeare flui como um grande rio, abunda em hipérboles, em metáforas, é absolutamente o contrário de um inglês. Ou, no caso de Goethe, temos os alemães, facilmente fanáticos, e Goethe vem a ser o contrário disso: um homem tolerante, um homem que, quando Napoleão invade a Alemanha, vai cumprimentá-lo. Goethe não se parece nada com um alemão. Agora, parece que, em geral acontece assim, não é?

Especialmente no caso dos clássicos.

Especialmente no caso dos clássicos, sim. Ou, por exemplo, a Espanha e Cervantes. Bem… a Espanha contemporânea de Cervantes é a Espanha das fogueiras do Santo Ofício, a Espanha fanática. E Cervantes, sendo espanhol, é um homem sorridente, o imaginamos tolerante; não tinha nada a ver. Seria como se cada país procurasse uma espécie de contraveneno no autor que escolhe. No caso da França, eles têm uma literatura tão rica que não escolheram uma pessoa, mas se Hugo for escolhido, é evidente que Hugo não se parece com a maioria dos franceses.

É claro.

E aqui, curiosamente, os militares aceitaram com entusiasmo a canonização de Martín Fierro, que era um desertor – um desertor que passa para o inimigo. No entanto, os militares argentinos veneram o Matín Fierro.

Quanto a seu culto pessoal pelos livros, sr. Borges, eu lembro entre seus prediletos As mil e uma noites, a Bíblia, e, entre muitas outras, a Enciclopédia Britânica.

É que eu penso que, para um homem ocioso e curioso, a enciclopédia pode ser o mais agradável dos gêneros literários. E, além disso, teria um pai ilustre, que seria Plínio: a História Natural de Plínio é uma enciclopédia. Ali você encontra notícias sobre as artes, sobre a história – não é apenas uma história natural no sentido que atualmente lhe damos- e sobre as lendas, e também sobre os mitos, já que quando ele fala de algum animal, por exemplo, não diz apenas tudo o que averiguou, mas tudo aquilo que a lenda diz: as propriedades mágicas que lhe eram atribuídas, nas quais, provavelmente, Plínio não acreditava. Mas, enfim, ele fez uma esplêndida enciclopédia, escrita, ao mesmo tempo, em um estilo barroco.

E particularmente em relação à Enciclopédia Britânica, o que encontrou ao longo do tempo?

Antes de mais nada, extensos artigos – atualmente as enciclopédias são feitas para consulta, de modo que contêm abundantes artigos muito breves. Por outro lado, a Enciclopédia Britânica era feita para a leitura, ou seja, era uma série de ensaios, ensaios de Macaulay, ensaios de Stevenson, ensaios de Swinburne, nas últimas edições, algum ensaio de Bernard Shaw também. Ensaios, por exemplo, de Bertrand Russell sobre Zenão de Eleia. Sem dúvida já lhe contei que eu costumava ir com meu pai à Biblioteca Nacional; eu era muito tímido – continuo sendo muito tímido -, não me atrevia a pedir livros, mas, nas prateleiras, havia obras de consulta, de onde eu pegava aleatoriamente, por exemplo, um volume da Enciclopédia Britânica. Um dia, tive muita sorte porque peguei o volume D-R; então, pude ler uma excelente biografia de Dryden, sobre quem Eliot escreveu um livro. Depois, um extenso artigo sobre os druidas e outro sobre os drusos do Líbano, que acreditam na transmigração das almas, por exemplo, e onde se fala dos drusos chineses. Bem, naquele dia eu tive muita sorte: Dryden, druidas e drusos, e tudo no mesmo volume, que era o D-R. Outros dias não foram tão afortunados; eu ia com meu pai… meu pai procurava livros de psicologia – ele era professor de psicologia -, mas eu costumava ler a Enciclopédia Britânica e depois lia Huckleberry Finn, de Mark Twain, na Biblioteca Nacional. E nunca teria imaginado que em um futuro muito improvável eu seria diretor da biblioteca; se alguém tivesse me dito isso, teria pensado que era uma brincadeira. No entanto, isso aconteceu, e quando fui diretor, lembrei daquele rapaz que ia com seu pai e pegava timidamente da prateleira algum volume da enciclopédia.

E foi diretor durante quase duas décadas, me parece.

Não sei as datas com precisão, porque eu fui indicado em 55, e não sei em que ano voltou Perón, porque, decorosamente, eu não podia continuar.

Em 73, dezoito anos na biblioteca.

Bom, não está mal, não é? Quem é o diretor agora?

Até recentemente foi Gregório Weinberg.

Ah, sim, me parece que renunciou, não é?

Renunciou, e ainda não sei quem o substitui.

Eu lembro que os subsídios que recebíamos eram magros, não é? E, talvez, agora também. Talvez Weinberg tenha renunciado por esse motivo.

Como sempre; então, tinham que se virar com o mínimo?

Bem, o Ministério da Educação foi sempre o mais desvalido, o mais desprotegido de todos. Talvez continue sendo.

A outra referência que o senhor faz nesse ensaio, sr. Borges, é a do oitavo livro da Odisséia, na qual se diz que Deus deu a desgraça aos homens para que tenham alguma coisa que cantar.

Sim, me parece que diz que tecem desventuras para que os homens das futuras gerações tenham algo para cantar, não é?

Sim.

Bem, isso já seria suficiente para demonstrar que a Odisséia é posterior à Ilíada, porque não imaginamos uma reflexão desse tipo na Ilíada.

Sim, porque Homero dá a ideia dos começos…

Sim, e, como disse Rubén Darío: não há dúvida de que Homero tinha seu Homero, já que a literatura sempre pressupõe um mestre, ou uma tradição. Pode-se dizer que a linguagem já é uma tradição, cada linguagem é uma tradição, cada linguagem oferece uma série de possibilidades e também de impossibilidades, ou de dificuldades. Eu não me lembro desse ensaio: “Sobre o culto dos livros”.

Está em Outras Inquisições.

Sem dúvida existe, já que não acredito que o senhor o invente para testar minha memória ou minha desmemória.

(Ri.) Existe, e é de 1951.

Ah, bom, nesse caso, tenho absoluto direito de tê-lo esquecido; seria muito triste ter ficado lembrando o ano de 1951.

Mas o senhor o fecha com aquela frase de Mallarmé.

Sim, que tudo conduz a um livro, não é?

Sim.

Sim, porque eu pego esses versos de Homero e digo que os dois dizem a mesma coisa. Mas Homero pensava ainda no cantar, pensava na poesia que flui; por outro lado, Mallarmé pensava em um livro, e, de alguma forma, em um livro sagrado. Mas, na verdade, é a mesma coisa; tudo para em um livro, ou tudo nos leva a um livro.

Ou seja, em última instância, o acontecer é literário. Mas um livro que o senhor recomenda sempre, até para quem não se dedica à literatura, é a Bíblia.

Bem, porque a Bíblia é uma biblioteca. Agora, que estranha essa ideia dos hebreus de atribuírem obras tão díspares como o Gênesis, O cântico dos cânticos, o livro de Jó, o Eclesiastes, de atribuírem todas essas obras em um só autor: o espírito. E é evidente que correspondem a obras muito diferentes e a regiões muito diferentes – especialmente a séculos diferentes, momentos diversos do pensamento.

Bom, deve ter relação com aquela outra frase da Bíblia: “O espírito sopra onde quer”.

Sim, está no Evangelho de João, me parece, nos primeiros versículos.

Sim, que o senhor comparou, em outra das nossas conversas, com aquela frase de Whistler: “Art happens” (a arte acontece).

Eu não sabia disso, mas é claro, é a mesma ideia, “a arte acontece”, “o espírito sopra onde quer”. Ou seja, é o contrário, bem, da sociologia da poesia, não é? Do fato de se estudar a poesia socialmente, de se estudar as condições que produziram a poesia… Isso me faz lembrar Heine, que dizia que o historiador é o profeta retrospectivo (ri), aquele que profetiza o que já aconteceu. Seria a mesma ideia.

É claro, um poeta às avessas.

Sim, que profetiza o que já aconteceu, e aquilo que já sabe que aconteceu, não é? “O profeta que olha para trás”, o historiador.

De quem é essa frase sr. Borges?

É de Heine, seria a arte de adivinhar o passado, a história, não é?

Sim, a arte do historiador.

Sim, quando algo já aconteceu, se demonstra que era inevitável que acontecesse. Mas, o interessante seria aplicar isso ao futuro (Ambos riem).

Isso é mais difícil do que adivinhar o passado, é mais difícil ser profeta que ser historiador.

Bom, as histórias da literatura são feitas um pouco dessa forma; depois se demonstra a influência do ambiente, e, depois, como, logicamente, a obra tem que resultar desse autor. Mas isso não se aplica ao futuro, ou seja, não recebemos os nomes e a obra dos escritores do século XXI, não é?

Mas nas histórias da literatura não se deve exigir tanta propriedade como na história propriamente dita; nelas, ainda se permite ser literário.

Sim, tomara.

Outro livro familiar na sua biblioteca é, me parece, As mil e uma noites.

Sim, e meu desconhecimento do árabe me permitiu lê-lo em muitas traduções, e, sem dúvida já devo tê-lo dito, das que li, talvez a mais agradável seja a de Cansinos Assens, exceto se a mais agradável for a primeira de Antoine Galland, que revelou esse livro ao Ocidente.

No seu ensaio, há outra ideia que me interessou; nele se diz que, para os antigos, a palavra escrita era somente um sucedâneo da palavra oral.

Sim, creio que Platão diz que os livros parecem coisas vivas, mas com eles acontece o mesmo que acontece com uma efígie: que não responde quando falamos com ela.

Sim, claro.

Então, precisamente para que livro o falasse, ele inventou o diálogo, que se antecipa às perguntas do leitor e que permite uma ramificação do pensamento e uma explicação.

Sim, isso em relação à língua oral, mas o senhor acrescenta que lá pelo século IV começa o predomínio da língua escrita sobre a oral.

Ah, e cito aquela história de uma pessoa que se surpreende com outra que está lendo em voz baixa.

Sim, Santo Agostinho ficando surpreendido com Santo Antônio, me parece.

Sim, ele está surpreso porque você vê aquilo que nunca tinha visto: uma pessoa lendo em voz baixa. Sim, porque os livros eram manuscritos. O senhor deve ter comprovado muitas vezes isso, quando recebemos uma carta, e se esta carta não está escrita com uma caligrafia que não é, digamos, excelente, a lemos em voz alta para tentar entender, não é?

Sim.

Bom, e se os livros eram manuscritos, era natural que fossem lidos em voz alta. Mas, além dessa informação, creio que, se estivermos lendo silenciosamente e chegarmos a uma passagem eloquente, essa passagem nos comove, e tendemos a lê-la em voz alta. Eu penso que uma passagem bem escrita obriga a uma leitura em voz alta. No caso dos versos, isso é evidente, porque a música do verso exige que, pelo menos, seja murmurada; mas de qualquer forma, tem que ser ouvida. Por outro lado, se você está lendo algo puramente lógico, puramente abstrato, não; nesse caso, você pode prescindir da leitura em voz alta. Mas não pode prescindir dessa leitura quando é um poema.

Faz parte dessa, pelo menos mínima, exaltação que exige a poesia.

Sim, mas é claro que isso agora está se perdendo, já que as pessoas estão perdendo o ouvido. Infelizmente, agora todos são capazes de leitura em voz baixa, porque não escutam o que leem, passam diretamente para o sentido do texto.

Enrique Vila-Matas e a metaliteratura

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Enrique Vila-Matas

Paris não tem fim é o décimo terceiro livro do escritor catalão Enrique Vila-Matas, cujo narrador relembra os anos de sua juventude na capital francesa, quando saiu de Barcelona e fugiu do regime franquista decidido a tentar a vida de escritor na França, tal como fizera seu ídolo Ernst Hemingway e outros escritores da geração perdida. O título do livro de Vila-Matas foi extraído do romance de Hemingway Paris é uma festa, que também fala sobre os anos da juventude do autor em Paris, quando era “muito pobre e muito feliz”. Sua admiração pelo autor de Adeus às armas e sua vontade de levar uma vida ao estilo do escritor americano, fez com que o narrador (que não sabemos o nome) fosse à Paris “em meados dos anos setenta”, em busca de um ambiente propício para escrever seu primeiro romance. Sobrevivendo às custas de uma pequena mesada que seu pai enviava da Espanha, o narrador consegue se hospedar em um quarto minúsculo, uma água-furtada cuja dona era ninguém menos que Marguerite Duras, que incentiva o narrador a se dedicar à escrita.

Ainda nas primeiras páginas o narrador revela que vai participar de uma palestra de três dias, cujo título é “Paris não tem fim”. Descobrimos que o tema da narrativa é justamente o conteúdo da palestra do narrador, que busca tratar seus anos na França sob o olhar da ironia. A maneira como o autor se utiliza de citações de poemas, cenas de filmes e passagens de romances na construção e desenvolvimento da narrativa (e da conferência), é um dos aspectos mais interessantes do livro. Vila-Matas ficcionaliza algumas situações que de fato aconteceram, como por exemplo, a viagem do grupo ligado a revista Tel Quel, que em abril de 1974, visitou a China.

“Naquele 9 de abril, eu estava prestes a cruzar o bulevar Saint-Germain com Marguerite Duras e Raúl Escari quando, de repente, um grande carro negro, quase funerário e de qualquer forma nada primaveril, freou de chofre e parou junto a nós. Olhei e pude ver em seu interior Julia Kristeva, Phillipe Sollers, Marcelin Pleynet e uma quarta pessoa que não identifiquei. Sollers baixou o vidro do carro e falou alguns breves segundos com Marguerite. Não entendi nada do que disseram. Depois, o carro arrancou e desapareceu na distância, acabou esfumando-se no fundo do bulevar. Então Marguerite prontamente disse: ‘Vão para a China”. (p. 69-70)

E logo no parágrafo seguinte:

“O curioso é que era verdade. Em abril e maio de 1974, uma delegação francesa composta por três membros da revista Tel Quel (Sollers, Kristeva e Pleynet), mais François Wahl e Roland Barthes, visitou a China. Foram de Pequim a Xangai e de Nanquim a Xian. Na volta, Barthes publicou um célebre artigo no Le Monde, onde se mostrava decepcionado diante do que ouvira e vira. (p. 70)

Uma das características do livro de Vila-Matas é utilizar o autor de ficção como personagem da própria ficção, fazendo uso constante de referências extraídas da literatura, construindo assim uma narrativa tecida pela metaliteratura ou metaficção. Como afirma a professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés, em seu mais recente livro, “Mutações da literatura no século XXI”, uma das particularidades da literatura contemporânea é que “boa parte da ficção e poesia atuais está encharcada de referências à ficção e à poesia anteriores, na forma de citação, alusão, pastiche ou paródia. Essa ‘memória da biblioteca’ remete à questão do ‘fim da literatura’ que se tornou não apenas um tema acadêmico, mas também um tema literário”. (p. 117)

O debate em torno do fim da literatura é outro aspecto da obra do autor de Bartleby e companhia, que questiona a própria existência do romance tal como o conhecemos. Em recente entrevista ao jornal português Observador, Vila-Matas afirmou: “Acho que o romance se esgotou com as grandes obras como ‘Vermelho e Negro’, ‘Guerra & Paz’ e ‘Madame Bovary’. Não quero isto dizer que não haja obras boas, mas o gênero ‘romance’, no sentido clássico, individualmente, está esgotado”.

Dessa forma, Enrique Vila-Matas permite criar através de sua linguagem, uma espécie de expansão da consciência literária do leitor, manuseando habilmente citações dos mais diversos autores (Borges, Cortázar, Proust, Valéry, Queneau) e narrando episódios do ambiente boêmio e cultural francês, como a festa que fora convidado por Marguerite Duras e onde conhecera a atriz Isabelle Adjani, que havia acabado de filmar, segundo o narrador, L’Histoire d’Adele H., de François Truffaut. Foi o olhar de Adjani, diz o narrador, que o inspirara a construir a personagem de seu primeiro romance, a Assassina Ilustrada. Em outra passagem onde o autor explora o senso de humor, o narrador encontra seu amigo Raúl Escari fumando um baseado com William Burroughs, nos altos da catedral de Notre Dame.

“A fotógrafa Martine Barrat, amiga de amigos comuns, estava imortalizando com sua câmera Raúl Escari, que naquele preciso instante compartilhava um joint com William Burroughs, porque era Burroughs quem estava ali com meu amigo, no mesmo momento não tive nenhuma dúvida, embora meu estranhamento, surpresa e excitação diante de tal descoberta tivessem sido grandes. O que fazia Raúl com aquele famoso escritor lá no alto de Notre Dame? Claro que, quando ia perguntar, eu também deveria ter me perguntado o que eu fazia lá no alto”. (p. 131)

Apesar de declarar o esgotamento da forma do romance clássico na atualidade, Enrique Vila-Matas não é um apocalíptico, no sentindo de decretar a morte de novas experiências no âmbito da linguagem literária. O próprio autor faz de sua narrativa fragmentada e permeada pela intertextualidade, a possibilidade mesma da existência de uma ficção contemporânea, permitindo assim um hibridismo que admite o gênero autobiográfico e ensaístico, convivendo harmoniosamente no mesmo plano da linguagem ficcional.

O acerto de contas de Thomas Bernhard

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São muitos os personagens que marcaram a história da literatura universal com suas personalidades e atitudes desregradas. O que dizer, por exemplo, de Lafcadio, personagem de Os Porões do Vaticano, de André Gide? Ou do jovem Bayard, personagem do romance Sartoris, de William Faulkner ou ainda Morravagin, do franco-suíço Blaise Cendrars? Todos têm em comum características que chocam a moral estabelecida, que ultrapassam as linhas da ordem num salto. Em uma palavra: gente transgressora. É mais ou menos nessa linha que segue o narrador criado por Thomas Bernhard em seu último romance.

Um personagem que não suporta o seu passado e a relação com seus parentes mais próximos, por isso, procura extinguir toda a sua história através de um livro que pretende escrever. Alguém que simplesmente odeia tudo o que diz respeito à sua família, seu país e sua cidade natal. Eis o leitmotiv de Extinção, romance do escritor e dramaturgo austríaco Thomas Bernhard (1931 – 1989). Franz-Josef Murau, protagonista e narrador do romance, não mede palavras e não disfarça o seu despudor para referir-se ao seu irmão como um imbecil, a seus pais como repulsivos e suas irmãs como abjetas. Esse sentimento de pura aversão pela família percorre as quase quinhentas páginas do romance, dividido em duas partes, cada parte contendo um único parágrafo. Com sua prosa loquaz, grandiloquente e repetitiva, mas também burlesca, irônica e muitas vezes contraditória, Bernhard cria uma narrativa atravessada pelo monólogo interior, em que as ações são sobrepostas pelas reflexões e reminiscências, que dão vazão ao incessante fluxo de consciência de Franz-Josef Murau.

Na primeira parte do romance, intitulada Telegrama, o narrador inicia falando sobre o conteúdo de um telegrama que acabara de receber em Roma, de suas irmãs, anunciando a morte de seus pais e do irmão mais velho, Johannes, em um acidente de carro. Franz-Josef voltara há poucos dias de Wolfsegg, interior da Áustria, quando assistira o casamento de uma de suas irmãs, Caecilia. Em conversa com Gambetti, seu aluno de literatura alemã em Roma, Franz comenta sobre a sensação de estar de volta à Itália, ao seu apartamento na Piazza Minerva, de frente ao Panteão e longe do palavrório tedioso de sua família.

“Falar com Gambetti, também naquele dia, fora outra vez um grande prazer para mim, depois das conversas custosas, cansativas com a minha família em Wolfsegg, todas elas circunscritas às necessidades cotidianas de caráter absolutamente privado e primitivo” (P.8).

No decorrer da narrativa, poucas ações se desenrolam. A primeira delas se passa em Roma, no apartamento do narrador, onde ele lê e relê o telegrama que anuncia a morte dos pais e do irmão. A outra ação se passa quando ele retorna a Wolfsegg, para o enterro dos familiares. Sua narração foge de qualquer discurso linear e temporal, ainda que as ações tenham uma linearidade.

Franz-Josef Murau é um intelectual, apreciador de arte e profundo conhecedor de literatura alemã, francesa e italiana. Sua formação estética se deu através da influência direta de seu tio Georg, que também sempre fora marginalizado pela família. Absolutamente avesso ao sentimentalismo e a moral cristã, após receber o telegrama (sem que a notícia o tenha abalado em algum momento), Murau se lamenta que nos próximos dias não poderá discutir As Afinidades Eletivas com Gambetti, como haviam combinado. Lamenta não a morte dos pais e do irmão, mas o fato de não mais poder encontrar Gambetti nos dias seguintes. Ao invés de conversar sobre O mundo como vontade e representação, Franz-Josef teria que voltar para Wolfsegg, se acercar de suas irmãs e falar sobre os trâmites do enterro dos pais e do irmão e, sem dúvida, sobre a questão da herança.

O que mantém a aversão de Franz por sua família e por Wolfsegg, é o fato de saber que eles (a família) sempre nutriram um grande desprezo por tudo o que ele fazia, dizia ou pensava. Sabia que no fundo sua família era indiferente a tudo que lhe agradasse, mesmo quando ele ainda era criança. Os pais sempre preferiram a companhia do irmão mais velho, agora morto. Como sua família fosse formada por latifundiários que há muitas gerações mantinham um vasto domínio sobre as terras do vilarejo de Wolfsegg, acumulara ao longo das gerações nada menos que cinco bibliotecas. Essas bibliotecas viviam a maior parte do tempo fechadas, ninguém as visitava e os livros disponíveis, segundo o narrador, eram sempre livros de orientação católica. Como seus pais fossem incultos e seus irmãos indiferentes aos livros, quase ninguém fazia uso das bibliotecas de Wolfsegg.

“Em nossas bibliotecas, imagine só, disse a Gambetti, eles haviam mantido sob chave os livros por assim dizer profanos, à diferença dos livros católicos, os armários com os livros profanos haviam ficado trancados por décadas, se não por séculos, dissera a Gambetti, somente os livros católicos eram de livre acesso, os profanos isolados, inacessíveis, não deviam ser lidos, deviam ficar confinados, como se tivessem confinado o espírito livre nesses armários, Gambetti, eles confinavam nesses armários os livros que não eram católicos” (P. 109).

Franz era o único a frequentar as bibliotecas da família, incentivado por seu tio Georg, irmão de seu pai. O fato de ser o único dos filhos que frequentava assiduamente as bibliotecas da família, fez com que sua mãe passasse a acusá-lo de frequentá-las com o único propósito de cultivar os “seus pensamentos aberrantes”. É nesse ambiente opressivo e nessa atmosfera provinciana que Franz passa sua infância. Não bastasse essa relação tumultuosa, outro trauma que persegue a vida do narrador é o passado nazista de Wolfsegg e de seus pais, que abraçaram com convicção o nacional-socialismo. Como o ambiente de Wolfsegg se tornava cada vez mais reacionário e hostil, Georg, seu tio, não encontrou outra saída senão deixar a Áustria, e passou a viver primeiro em Nice, depois em Cannes, na França.

“Meu pai era um nazista chantageado a tanto, é preciso que você saiba Gambetti, incitado naturalmente pela minha mãe, que foi uma nacional-socialista histérica durante todo o domínio nazista, é preciso que você saiba, uma Mulher Alemã, como ela própria sempre se definiu. No aniversário de Hitler, a bandeira nazista era regularmente hasteada em Wolfsegg, dissera a Gambetti, era asqueroso. Afinal meu tio Georg saiu de Wolfsegg sobretudo porque não queria suportar e não podia suportar o nacional-socialismo, que lá se difundiu com toda a força”. (P. 143).

Na visão do narrador, sua mãe sempre fora a pessoa mais pérfida, maquiavélica e ambiciosa que conhecera. É ela a responsável por todos os constrangimentos, humilhações e traumas de que fora vítima na infância e juventude. Com sua mania de grandeza e seus vícios típicos dos pequenos burgueses, como diz o narrador, gastava enormes quantias em viagens constantes a Viena, Munique, Roma, Paris e Londres. Seu desprezo pela arte era “compensado” pela futilidade das compras que efetuava em seus passeios pelas metrópoles europeias. Seu marido, o pai de Franz, era constantemente manipulado pela mulher, que mantinha um caso às escondidas com Spadolini, um jovem bispo do Vaticano, que travara amizade com o próprio Franz em Roma.

Somente depois de várias horas observando três fotografias que guardava em uma gaveta do seu escritório (uma foto de suas duas irmãs, em Cannes, outra de seu irmão, em um barco à vela e uma terceira dos seus pais, em uma estação em Londres), Franz resolve ligar para as poucas pessoas com quem mantém contato em Roma e anunciar que está voltando para Wolfsegg. Nesse sentindo, a história não avança, nada acontece enquanto Franz está segurando o telegrama na mão. No mais das vezes, o narrador vai até a janela do apartamento, ou senta-se diante da escrivaninha e fica horas observando as fotografias de sua família.

“Recoloquei as fotografias na gaveta da escrivaninha e decidi bater um fio a meus amigos, como se diz, e partir de Roma com o primeiro avião da manhã, para casa. Meus dedos não tremiam, meu corpo não vacilava. Tinha a cabeça perfeitamente lúcida. O que o telegrama significava, eu sabia”. (P. 227).

O segundo capítulo, O Testamento, é marcado pela volta do narrador à casa de seus pais em Wolfsegg. Antes de subir até sua casa, onde sabia que iria encontrar suas irmãs Caecilia e Amalia, Franz-Josef Murau resolve passear pelo bosque, observar a vila das crianças, onde passara momentos felizes em sua infância. Retarda ao máximo o encontro com as irmãs. Imagina a lista de pessoas que em poucas horas estarão no vilarejo para acompanhar o velório. Entre essas pessoas, algumas causam verdadeira aversão ao narrador: são os antigos partidários do nacional-socialismo, pessoas vinculadas à Liga dos Camaradas, grupo de tendência manifestadamente nazista, que travara relações com seus pais durante o Terceiro Reich. Para compensar a presença sórdida dessas pessoas, ele aguarda a companhia de Spadolini, o bispo do Vaticano que tivera um caso com sua mãe durante anos.

Após a chegada do bispo do Vaticano, que fora extremamente bem recebido, Franz se surpreende com a imagem que Spadolini começa a traçar de seus pais. Sentado à mesa com suas irmãs e seu cunhado, Franz-Josef escuta com atenção o bispo se referir ao seu pai como um “filósofo”, um homem íntegro e bom. Desconfia quando este diz que sua mãe era uma mulher “culta”, “apaixonada por Mahler” e amiga dos artistas. A confiança que Franz depositava em Spadolini, fica abalada. Ele não podia acreditar que seus pais pudessem ter esse lado que ele nunca fora capaz de perceber. Então passou a imaginar de que maneira Spadolini subira tão rapidamente os degraus da hierarquia da Igreja Católica. Sem dúvida, pensa o narrador, a base de falsidade, mentiras e conchavos, um papel que ele (Spadolini) aprendera a representar como ninguém.

“O homem da Igreja fez desabrochar, já nas poucas horas que passou aqui, sua indescritível arte do cálculo, pensei, sua calculada arte da falsificação, perante nossos olhos e ouvidos, por assim dizer, converteu imbecis em inteligências e malvados em santos, analfabetos em filósofos e gente na verdade abjeta em modelos de caráter. A feiúra em beleza, a baixeza e mesquinharia em grandeza interior e exterior, os monstros em seres humanos, para sermos precisos”. (P. 424)

Não apenas sua família passa a ser alvo de suas críticas e elas não cessam nem mesmo durante o velório e o enterro de seus pais e do irmão mais velho. Seu cunhado, o “vendedor de rolhas para garrafas de vinho”, a literatura alemã contemporânea, a Igreja Católica, o nacional-socialismo, o pseudo-socialismo, a Áustria, Wolfsegg… poucos escapam às rajadas fulminantes de Franz-Josef Murau. Sobre a literatura alemã contemporânea, Murau diz que não passa de uma literatura burocrática, produzida por burocratas. A exceção de Kafka e Maria (poetisa amiga de Franz que vive em Roma), nada se salva dessa literatura. O socialismo que vigora em alguns países da Europa, constata o narrador, nada mais é que uma grande deturpação do verdadeiro socialismo, uma falsificação grotesca perpetrada por partidos convertidos em fiéis defensores dos interesses do mercado e do capital. A Igreja Católica, diz Franz-Josef Murau, foi capaz de incutir esse espírito filistino ao povo austríaco, essa passividade que foi forjada pela tenaz católica durante muitos séculos de domínio espiritual.

Após o enterro, sem saber ao certo qual seria o futuro que ele daria a Wolfsegg, já que agora era o proprietário por direito, Franz esboça uma tentativa de restaurar a vila das crianças, acreditando que dessa forma, parte de sua infância seria também restaurada. Mas logo depois muda de ideia e sem comunicar suas irmãs, decide simplesmente doar incondicionalmente toda as propriedades de Wolfsegg, tal como ela se encontra, à Comunidade Israelita de Viena. Assim é concluída a extinção de Wolfsegg, o acerto de contas final de Bernhard com seu país, bem como o final do romance que o narrador pretendia escrever, cujo título também é Extinção.

Convite para a Ilha

 

jorge de lima

O poeta trabalha 

Não digo em que signo se encontra esta ilha

mas ilha mais bela não há no alto-mar.

O peixe cantor existe por lá.

Ao norte dá tudo: baleias azuis,

o ouriço vermelho, o boto voador.

A leste da ilha há o Gêiser gigante

deitando água morna. Quem quer se banhar?

Há plantas carnívoras sem gula que amam.

Ao sul o que há? – há rios de leite,

há terras bulindo, mulheres nascendo,

raízes subindo, lagunas tremendo,

coqueiros gemendo, areias se entreabrindo.

A oeste o que há? – não há o ocidente nem coisa de lá:

a terra está nova: devemos olhar o sol se elevar.

Convido os rapazes e as raparigas

pra ver esta ilha, correr nos seus bosques,

nos vales em flor, nadar nas lagunas,

brincar de esconder, dormir no areial,

caçar os amores que existem por lá.

O sol da meia-noite, a aurora boreal,

o cometa Halley, as moças nativas,

podeis desfrutar. Meninas partamos

enquanto esta ilha não vai afundar,

enquanto não chegam guerreiros das terras,

enquanto não chegam piratas do mar.

As noites! Que noites de imenso luar!

Podeis contemplar a Ursa maior,

A Lira, a Órion, a Luz de Altair,

estrelas cadentes correndo no espaço,

a estrela dos magos parada no ar.

Que noites, meninas, de imenso luar!

E as sestas? Que sestas! A brisa é tão mansa!

Há redes debaixo dos coqueirais,

sanfonas tocando, o sol se encobrindo,

as aves cantando canções de ninar.

Meninas partamos que as noites de escuro

não tardam a chegar. Então que é da ilha,

da ilha mais bela que há pelo mar

e onde se pode sonhar com os amores

que nunca na vida nos hão de chegar?

(Jorge de Lima)

 

W. G. Sebald e a colonização do Congo

congo

As primeiras notícias sobre maneira e medida dos crimes cometidos contra a população nativa durante a colonização no Congo chegaram a público em 1903 através de Roger Casement, que naquela ocasião tinha o posto de cônsul britânico em Boma. Casement, sobre quem Korzeniowski comentou com um conhecido em Londres que este saberia relatar coisas que ele, Korzeniowski, há muito procurava esquecer, em um memorando apresentado ao Foreign Secretary lord Lansdowne deu indicações precisas sobre a exploração dos negros que nenhuma medida de consideração atenuava, em todos os locais de construção da colônia forçados a trabalhar da manhã à noite pessimamente alimentados e com freqüência acorrentados uns aos outros, sem nenhum pagamento, em última análise até literalmente caírem no chão.
Quem sobe o curso superior do rio Congo e não está ofuscado pela cobiça financeira, escreveu Casement, verá desenrolar-se diante de seus olhos a agonia de um povo inteiro com histórias que cortam o coração, e que deixam na sombra todos os relatos de sofrimento da Bíblia. Casement não deixou dúvidas sobre o fato de que todos os anos centenas de milhares de trabalhadores escravos eram levados à morte por seus capatazes brancos, e que mutilar, decepar mãos e pés e matar a tiros faziam parte das punições realizadas diariamente no Congo para manter a disciplina. Uma conversa pessoal para o qual o rei Leopoldo convidou Casement a ir até Bruxelas deveria servir para abrandar a situação criada pela intervenção de Casement, e para uma avaliação do perigo que as atividades de Casement representavam para os empreendimentos coloniais belgas. O trabalho feito pelos negros, disse Leopoldo, era considerado por ele próprio um legítimo sucedêneo de impostos, e se eventualmente, o que não queria negar, ocorriam excessos preocupantes de parte dos capatazes brancos, isso podia ser atribuído ao fato lamentável, porém dificilmente alterável de que o clima do Congo causava uma espécie de demência na mente de muitos brancos, que infelizmente nem sempre se podia evitar em tempo. Como Casement não mudasse de opinião diante de tais argumentos, Leopoldo usou do privilégio da influência real em Londres, e como conseqüência com duplicidade diplomática o relatório Casement foi de um lado elogiado como modelar, e seu autor recebeu o título Commander of the Order os St. Michael and St. George, mas de outro lado nada foi feito que pudesse prejudicar os interesses belgas.

W. G. Sebald. Os anéis de saturno. Tradução: Lya Luft. Editora Record, 2002, p. 135-137

Sylvia Plath: inocência americana, corrupção europeia

SylviaPlath

Sylvia Plath na década de 50

Em A mulher calada – Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia, a jornalista americana Janet Malcolm apresenta duas citações de pessoas diferentes em períodos diferentes da vida da autora de The bell jar. Dorothea Krook foi uma das professoras preferidas de Sylvia Plath em Cambridge e Janet anuncia uma passagem em que a professora evoca a presença de Sylvia:

“Sempre limpa e elegante, usando roupas encantadoras e juvenis, o tipo de roupa que nos fazem olhar para a pessoa que as usa e não para seus trajes; cabelos que ainda caíam nos ombros, mas sempre escovados e penteados e presos por uma faixa no alto da cabeça […] Quando penso em sua aparência física, o que mais me ocorre à memória é o encanto que me despertavam seu frescor e sua limpeza tão americanos”.

Janet comenta que as fotografias que aparecem nas biografias de Sylvia Plath e nos Diários da escritora, condizem com a imagem evocada por Dorothea Krook. Segundo a jornalista, “Com seus reluzentes cabelos louros e seu rosto suave e arredondado, evoca os anúncios de sabonete e desodorante dos anos 40 e 50, em que as palavras ‘encanto’ e ‘frescor’ nunca deixavam de aparecer”.

Essa imagem contrasta com a última lembrança de A. Alvarez, na véspera do natal de 1962, em Londres, dois meses antes da morte de Sylvia. Diz Alvarez:

“Seus cabelos, que geralmente usava num coque apertado, de professora primária, estavam soltos. Caíam até sua cintura como uma tenda, dando ao rosto pálido e a silhueta delgada um ar curiosamente desolado e enlevado, lembrando uma sacerdotisa esvaziada pelo rito de seu culto. Enquanto caminhava a minha frente pelo corredor e depois subia as escadas para seu apartamento – ocupava os dois andares de cima da casa -, desprendeu-se de seu cabelo um cheiro forte, poderoso como o de um animal”.

Nesse contexto, o poema Lady Lazarus nos mostra a voz que anuncia pela linguagem poética, o que viria a se tornar sintomático em seus versos:

Morrer

É uma arte, como tudo o mais.

E eu a pratico com um talento excepcional.

Pratico de tal modo que me sinto muito mal.

Pratico de tal modo que parece até real.

Pode-se dizer que tenho vocação,

(Janet Malcolm,  A mulher calada, Trad. Sergio Flaksman, Companhia das Letras, 1994, p. 62-67).

Entrevista com Éric Laurent – O corpo falante (O inconsciente e as marcas de nossas experiências de gozo)

Eric-Laurent

Entrevista publicada na revista CULT – Abril 2016

CULT: Em seu próximo livro, o senhor nos propõe abordar o inconsciente pelo viés que Lacan introduziu no seu último ensino como “O corpo falante”. Isso quer dizer que Lacan, até então, esquecera o corpo?

ÉRIC LAURENT: Com efeito, “O corpo falante” é o tema de um Congresso que acontecerá em breve no Rio de Janeiro, no mês de abril. Trata-se de uma expressão presente na língua, que se compreende de imediata, mas implica também muitas significações e ressonâncias. A ênfase dada sobre o corpo falante se inscreve nas proposições do último ensino de Lacan, no sentido de encontrar alguma coisa que vá mais longe do que o inconsciente. Mais exatamente, que se separe daquilo que, no termo freudiano de inconsciente, está demasiado ligado à consciência, como uma espécie de negativo dela. A consciência, que interessa muito à ciência cognitiva, considerada por Lacan como o que há de menos interessante para a psicanálise. Trata-se, antes, de saber qual é o modo de real com o qual a psicanálise tem de lidar, e esta é a preocupação central do último ensino de Lacan. Ele partiu de uma refundação do inconsciente freudiano separando-o da consciência. Este é também o grande esforço da primeira reformulação do inconsciente freudiano: o inconsciente estruturado como linguagem. No que concerne ao inconsciente, o problema não é saber sobre suas relações com a consciência nem se há o pré-consciente do inconsciente. Não, o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ele tem uma certa matéria que é feita de palavras. Por isso, Lacan disse que Freud é motérialiste – jogo de palavras entre mot [palavra] e materialista. Ao mesmo tempo que dizia que o inconsciente é estruturado como linguagem, Lacan dizia também ser esta uma linguagem transformada pelo fato de que, nela, uma verdade do sujeito se manifesta: “Eu, a verdade, falo”. De um lado, há a fala. Do outro, a linguagem. Ela ali irrompe e não cessa de deformá-la, de furá-la, de transformá-la. Essa é a descoberta de Freud: trata-se de uma linguagem, mas uma linguagem distorcida pelo lapso; é a coisa que escapa pelo chiste, que vem como um “a mais”, algo na língua que não estava ali, ou então pelo ato falho que vem furar as condutas repetitivas, os hábitos, as repetições de comportamentos tão caras aos comportamentalistas. Justamente aí há essa verdade. A matéria do inconsciente freudiano se manifesta na linguagem, mas uma linguagem feita de fragmentos, de pedaços, feita de irrupções e rupturas. Para precisar seu ponto de vista em relação à atmosfera estruturalista, que dava à estrutura uma consistência separada do uso que o sujeito fazia dela – que para alguns autores como Lévi-Strauss, por exemplo, era uma estrutura sem sujeito -, Lacan, no Seminário 10, precisa que o lugar do Outro, desse Outro da estrutura, esse lugar cuja a lógica ele explorou, não está no céu das ideias, não está numa espécie de espírito. Ele o registrou: o lugar do Outro é o corpo. Esta é a fórmula que ele desenvolveu no Seminário sobre a angústia, justamente para se desfazer do que haveria de um incorporal para a estrutura não ligada ao corpo. Incorporal é um termo dos estoicos, que Gilles Deleuze recolocou em circulação no final dos anos 1960. O incorporal dos estoicos é interessante, já que tem relação com o corporal. É nisso que a lógica estoica se articula. Do mesmo modo, Lacan fundamenta a estrutura, que se apresenta em parte como incorporal, em sua inscrição sobre o corpo.

“Um corpo é o que é atravessado pelos afetos, um corpo é o lugar marcado e que experimenta afetos e paixões, tanto o corpo político quanto o corpo individual”.

CULT: Essa estrutura será a um só tempo incorporal e ligada ao corpo?

LAURENT: Ao corpo como lugar do Outro. O lugar do Outro é o corpo, uma vez que ele recebe uma marca, que é o lugar onde se inscreve a marca do incorporal na estrutura. Se aproximarmos a primeira formulação de Lacan – o inconsciente é o discurso do Outro, é o que se manifesta em nós da verdade dessa linguagem material que nos atravessa – se substituirmos nessa fórmula o Outro pelo corpo, então o inconsciente é o discurso do corpo, desse corpo marcado, atravessado por afetos, por marcas que lhe chegam daquilo que ele experimenta de um dizer que o atravessa. Esse inconsciente como discurso do corpo, contudo, não é o discurso que tende ao que é enfatizado pela preocupação contemporânea dos discursos de discernimento. Estes propõem que, diante do que há de abstração da cultura, é preciso retornar às coisas que nos reaproximam da natureza, de nosso corpo, que nos permitiriam escutar nosso corpo que nos falaria diretamente. Não, esta não é a perspectiva do corpo falante. Não se trata de um corpo que murmura um discurso de discernimento. É um corpo que goza e é marcado por paixões, por afetos potentes dentre os quais o mais potente é a angústia. No fundo, para Lacan, trata-se de um corpo próximo ao sentido que lhe dava Spinoza. Spinoza foi um filósofo que Lacan amou e com o qual trabalhou desde jovem. Para Spinoza, o corpo é tanto o do sujeito quanto o corpo político. Um corpo é o que é atravessado pelos afetos, um corpo é o lugar marcado que experimenta afetos e paixões, tanto o corpo político quanto o corpo individual. O corpo falante é esse corpo marcado que nos fala por uma irrupção na língua, nos sentidos comuns em que se estabeleceu, onde se sedimentou o modo como pensamos falar a língua de maneira comum. O falante do corpo é a maneira como o corpo não cessa de fazer irrupção por meio das significações pessoais, significações de gozo que damos a essa linguagem que nos atravessa.

CULT: Será que essa concepção de corpo nos aproxima do corpo da harmonia, do acordo ou discernimento, mas sim do corpo como lugar de um sujeito primitivo, animal ou diabólico, atravessado por afetos arcaicos, expressando-os tais quais na consciência?

LAURENT: É isso que torna crucial a escolha do afeto da angústia. Ela é, a um só tempo, um afeto que se pode considerar como primitivo, uma espécie de reação fundamental do sujeito no mundo, e também um afeto dos mais sofisticados. Segundo Heidegger, o estatuto do homem moderno, no século 20, é o estatuto do homem angustiado – Die Angstmensch. Trata-se de um afeto que marca a relação com um mundo que se tornou outro depois do surgimento da ciência, que permitiu lê-lo, transformá-lo, fazer dele outra coisa que não um mundo de natureza, fazer dele um mundo imundo. Vemos que a angústia está em todas as partes da cadeia: está no começo e no final, está em nosso presente. Vivemos sob um regime de angústia particular que vai além dos medos – que pode ter várias caras em nosso mundo e Deus sabe quantas caras tem esse medo -, mas apoiado sobre uma espécie de angústia fundamental. Ela foi situada por Heidegger que a ligou à ciência, ou então por Zygmunt Bauman, que enfatiza o quanto a incerteza fundamental se deve ao fato de que, com a ciência, não há mais repouso em nossa civilização, não há mais ponto de amarração a uma natureza regular, o que faz com que estejamos submetidos a um tipo particular de angústia.

CULT: Isso não parece muito otimista. Quando se postula um sujeito do inconsciente como aquele de um incorporal e fora do corpo, podemos sempre cogitar que ele ajudaria a nos liberar do peso corporal das paixões. Um incorporal que permanece fundado sobre o corpo, como senhor disse, mas apenas em parte, pois nos deixa com uma parte deslocalizada de nós mesmos que será o fundamento de uma angústia não eliminável, que faz parte de nossa constituição. O sujeito do inconsciente como corpo falante é o sujeito da angústia?

LAURENT: É um sujeito que certamente não pode sonhar em separar-se das paixões sem tê-las, digamos, explorado, sem ter, com a ajuda da experiência analítica, se aproximado o mais possível do que são para ele as paixões que o atravessam. De fato, a experiência de ataraxia, de extrair-se de suas paixões como nos propõe o discurso do discernimento. Não é a via do discernimento. Por ela nos aproximamos, o mais possível, do que é a verdade da maneira pela qual experimentamos essas paixões que nos marcam e marcam: experiências de gozo experimentadas pelo corpo gozante.

CULT: Já que o senhor falou de gozo: e o sexo nisso?

LAURENT: O sexo é uma experiência crucial porque parece, pelo menos no sonho do sexo, que seria possível gozar de um outro corpo, que haveria gozo do corpo do outro. E se, além disso, o corpo desse outro é amado, digamos, como satisfação fundamental à qual o sujeito visaria, satisfação e gozo seriam verdadeiramente um só. Freud, em certos aspectos de sua obra, alimentou essa ideia de que seria possível gozar do corpo de outro, mas apenas em alguns aspectos, porque, na verdade, ele sempre marcou que restava um impasse: do lado do homem, pela castração, e do lado da mulher, pelo que ele chamou de inveja do pênis. Ter uma satisfação sexual não livrava a espécie humana de sua falha, de uma falta inscrita, uma falta de satisfação inscrita, de formas distintas, do lado do homem e do lado da mulher.

Já Lacan partiu (por estar a posteriori de Freud) da radicalização do que falha na experiência sexual, por exemplo: gozar do corpo do outro é impossível. Não há gozo do corpo do outro. Há gozo somente do próprio corpo. Do próprio corpo atrelado também ao incorporal de seus fantasmas. Ou seja: há sempre um laço entre esse corporal e o que vem a lhe faltar pela estrutura da linguagem que, podemos dizer, se enxerta, se junta a seu corpo como tal. Então, o sexo é fazer a experiência de que não gozamos do corpo do outro.

“O corpo individual do liberalismo diz: o corpo me pertence. Mas ele desconhece o fato de ele ser, desde o início, articulado e marcado por uma dimensão de laço social”.

CULT: É justo nesse ponto que Lacan situa o amor, não é?

LAURENT: Amar passa por um dizer, pela fala de amor que ocupa o lugar do que não pode se inscrever da relação sexuada como tal. No lugar do que não se pode experimentar nem escrever logicamente dessa relação, vem a fala do amor, o dizer amoroso fazendo suplência. A partir desse dizer de amor, toda linguagem encontra seu lugar – da poesia à prosa -, e fundamenta, a partir desse dizer, que tudo pode ser dito.

CULT: O senhor mostrou que o princípio do corpo falante é o fato de o corpo ser o lugar de uma alteridade incontornável, que o sexo é o encontro com essa alteridade, uma vez que não se goza do corpo do Outro. Mas o senhor também disse que a linguagem é o que vem engendrar dizeres que, desse real do Outro, podem fazer laço. Então, será que uma política do corpo falante poderia se fundar sobre essa via?

LAURENT: Digamos que dimensão política de fato se coloca de início, pois o que é muito importante na perspectiva desse corpo marcado, articulado à linguagem, é que não se fala de um corpo individual. O corpo individual do liberalismo diz: o corpo de pertence. Mas ele desconhece o fato de ser, desde o início, articulado e marcado por uma dimensão de laço social. Mais precisamente, a dimensão de laço social é uma dimensão coletiva. Ela está ali de início, antes do indivíduo. Nem por isso o gozo do corpo próprio é simplesmente individual, uma vez que está atrelado a fantasmas, como por exemplo aqueles que a indústria pornográfica pode mostrar, descrevendo uma tipificação do fantasma, chegando a coletivizar um número impressionante de consumistas no mundo inteiro. Vê-se, logo, essa sistematização do fantasma, essa tomada coletiva do gozo. Isso enfatiza que o corpo, como lugar dos afetos, é político, pois ele é atravessado pela angústia, pelo ódio, pela ignorância, pelo entusiasmo, que são paixões coletivas. Essa política dos corpos falantes implica ter em conta esse laço indissociável que faz com que o corpo seja apreendido no laço social.

Tradução: Vera Avellar Ribeiro e Fernando Coutinho

Edição final: Ondina Machado

Dois poemas de Apollinaire

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Noite estrelada – Van Gogh (1889)

 

A PONTE MIRABEAU

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

Nossos amores

Devo lembrar a cena

Vinha a alegria sempre após a pena

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

Mãos entre as mãos fiquemos face a face

Enquanto sob

A ponte dos braços passa

Dos eternos olhares a onda tão lassa

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

O amor se vai como essa água corrente

O amor se vai

Como a vida é lenta

E como a esperança é violenta

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

Passam os dias passam as semanas

Nem o tempo passado

Nem os amores voltam

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

 

LUAR

Lua melifluente aos lábios dos dementes

Os pomares e os burgos têm fome ingente

Os astros muito bem figuram as abelhas

Desse mel luminoso a pingar das parreiras

Pois eis que lentamente caindo do céu

Cada raio de lua é um raio de mel

Ora oculto concebo a tão doce aventura

Temo o dado de fogo dessa abelha Arctura

Que pôs em minhas mãos raios sem cabimento

E colheu mel lunar lá na rosa dos ventos

 

(Tradução: Mario Laranjeira)

Solidariedade ao professor Evandro Medeiros

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Movimentos sociais, estudantes, técnicos e professores da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) devem fazer um grande ato público em frente ao prédio do Poder Judiciário local no próximo dia 5 de Maio, às 9 horas da manhã, que é quando o professor Evandro Medeiros, da Unifesspa, prestará depoimento por ter sido acusado de uso indevido das próprias razões, durante manifesto ocorrido em 20 de novembro do ano passado, em solidariedade aos atingidos pela tragédia de Mariana (MG).

Em carta apresentada durante assembleia universitária ontem (25) e que será distribuída para assinatura até o dia da audiência, os professores, estudantes e técnicos da Unifesspa lembram que entre os diversos pontos que integram o estatuto pro tempore da instituição, com objetivo de nortear sua atuação, está a defesa dos direitos humanos e a preservação do meio ambiente, sendo este um dos princípios institucionais (Conforme o art. 2º, VIII, Resolução n.º 17 de 29/10/2015-CONSUN).

“Diante disso, todos os sujeitos que integram a universidade têm obrigação – cada um dentro de sua esfera de atuação – de se integrar às dinâmicas sociais locais, contribuindo na resolução de problemas, seja por meio de pesquisas científicas, seja por intervenções, dando concretude ao tripé de qualquer instituição de ensino superior, que é ensino, pesquisa e extensão”, diz trecho do manifesto.

Ainda segundo o documento, foi pautado nessa visão e a partir desse compromisso, que o professor Evandro Medeiros, junto com estudantes, outros servidores da Unifesspa e moradores que vivem nas margens da Estrada de Ferro Carajás (EFC), em Marabá, participaram, em novembro do ano passado, de ato em solidariedade aos moradores de Mariana (MG), que foi arrasada pelo rompimento de barragem de rejeitos da Samarco/Vale naquele mesmo mês, causando prejuízo ambiental e social incalculável.

Durante o ato, realizado ao lado dos trilhos da Ferrovia Carajás, ocorreram atividades que estimularam a criação cultural e o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo, tanto entre os estudantes quanto entre os professores e os próprios moradores que vivem naquela localidade, conforme dispõe o Artigo 3º do estatuto pro tempore da Unifesspa.

Por outro lado, durante todo o tempo em que aconteceu o ato em solidariedade aos moradores de Mariana, não houve ações violentas e tampouco risco à segurança ferroviária. “Ou seja, não há motivo para denunciar o professor Evandro Medeiros ou qualquer outro manifestante por crime algum. Trata-se de uma medida desproporcional tomada pela Vale, que parece mais buscar – via poder judiciário – um mecanismo de intimidação não apenas ao professor, mas a todos que se manifestarem contra os interesses da mineradora”, diz a carta.

“Diante do exposto, os professores, técnicos e estudantes da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) ratificam seu compromisso social, moral e estatutário de envolvimento nos problemas enfrentados pelos moradores desta região, sobretudo os mais pobres, e repudiam a ação judicial movida pela mineradora Vale contra o professor Evandro Medeiros e ainda se solidarizam com este e convidam todos a participar de grande ato público em frente à sede do Poder Judiciário local no próximo dia 5 de maio, a partir das 9 horas da manhã, que é quando o professor Evandro será ouvido pelas autoridades judiciais sobre as acusações imputadas contra ele pela Mineradora Vale”, convoca.

Da mesma forma, também, os professores, técnicos e estudantes da Unifesspa se solidarizam com os cidadãos Tiago Cruz, Iara Reis, João Reis, Waldy Gonçalves Neves e demais manifestantes do Bairro Alzira Mutran, que são alvos de inquéritos da Polícia Civil, por se organizarem para lutar por seus direitos.

Fonte: http://marabanoticias.com.br/index.php/noticias/manchete/404-protesto-vai-marcar-oitiva-do-professor-evandro-medeiros

Somos todos grupelhos

Guattari

A luta de classes não passa mais simplesmente por um front delimitado entre os proletários e os burgueses, facilmente detectável nas cidades e nos vilarejos; ela está igualmente inscrita através de numerosos estigmas na pele e na vida dos explorados, pelas marcas de autoridade, de posição, de nível de vida; é preciso decifrá-la a partir do vocabulário de uns e de outros, seu jeito de falar, a marca de seus carros, a moda de suas roupas, etc. Não tem fim! A luta de classe contaminou, como um vírus, a atitude do professor com seus alunos, a dos pais com suas crianças, a do médico com seus doentes; ela ganhou o interior de cada um de nós com seu eu, com o ideal de status que acreditamos ter de adotar para nós mesmos. Já está mais do que na hora de se organizar em todos os níveis para encarar esta luta de classe generalizada. Já é hora de elaborar uma estratégia para cada um destes níveis, pois eles se condicionam mutuamente. De que serviria, por exemplo, propor às massas um programa de revolucionarização ao antiautoritária contra os chefinhos e companhia limitada, se os próprios militantes continuam sendo portadores de vírus burocráticos superativas, se eles se comportam com os militantes dos outros grupos, no interior de seu próprio grupo, com seus próximos ou cada um consigo mesmo, como perfeitos canalhas, perfeitos carolas? De que serve afirmar a legitimidade das aspirações das massas se o desejo é negado em todo lugar onde tenta vir à tona na realidade cotidiana? Os fins políticos são pessoas desencarnadas. Eles acham que se pode e se deve poupar as preocupações neste domínio para mobilizar toda a sua energia em objetivos políticos gerais. Estão muito enganados! Pois na ausência de desejo a energia se autoconsome sob a forma de sintoma, de inibição e de angústia. E pelo tempo que já estão nessa, já podiam ter se dado conta destas coisas por si mesmos! (Guattari, Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo, Trad. Suely Belinha Rolnik, Editora Brasiliense, 1981, p. 15).