O terrorista, ele observa

wislawa-2

Wislawa Szymborska

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são só treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar;
Alguns de sair.

O terrorista já passou para o outro lado da rua.
A distância o livra de todo mal
E a vista, bom, é como no cinema:

Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo tem sorte, sai de lambreta,
E aquele mais alto entra.

Treze e dezessete e quarenta segundos.
Uma moça, ela passa de fita verde no cabelo.
Só que aquele ônibus a encobre de repente.

Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Se foi tola de entrar ou não.
Vai se saber quando os carregarem para fora.

Treze e dezenove.
Parece que ninguém mais entra.
Aliás, um gordo careca sai.
Mas remexe os bolsos como se procurasse algo.
E às treze e vinte menos dez segundos
Ele volta para buscar a droga das luvas.

São treze e vinte.
O tempo, como ele se arrasta.
Deve ser agora.
Ainda não.
É agora.
A bomba, ela explode.

 

(Wislawa Szymborska – Tradução: Regina Przybycien)

 

 

Anúncios

Sobre Quem Matou Roland Barthes?

laurent-binet

Laurent Binet

Na tarde de 25 de fevereiro de 1980, após sair de um almoço com o futuro presidente da França, François Miterrand, o filósofo, crítico literário e semiólogo francês Roland Barthes (1915 – 1980) é atropelado por uma caminhonete de lavanderia quando atravessava a rue des Écoles, em Paris. Esse é o ponto de partida de La Septième Fonction du Langage, romance de Laurent Binet lançado em 2015 na França e traduzido no Brasil no ano passado com o título de Quem matou Roland Barthes? Utilizando o atropelamento que vitimou o autor de Fragmentos de um discurso amoroso como mote da narrativa, Laurent Binet sustenta ao longo de seu “thriller filosófico” que o acidente de Barthes não fora por acaso, mas premeditado e intencional. O motivo do assassinato seria um documento que Barthes possuía no momento do atropelamento, no qual consta a descoberta feita por Jakobson, da sétima função da linguagem. Em Linguística e Comunicação, Roman Jakobson (1896 – 1982) definiu as funções da linguagem nas seguintes categorias: função referencial, função emotiva, função conativa, função fática, função metalinguística e função poética. Assim, a descoberta de uma nova função “mágica ou encantatória”, que teria capacidade de convencer e agir diretamente sobre as pessoas, independente do contexto ou ocasião, colocava Barthes na mira de muitos interesses, entre os quais estavam espiões soviéticos, búlgaros e japoneses, arrivistas intelectuais, políticos ambiciosos, etc…

Roland Barthes, Philippe Sollers, Stanislas Ivankov

Roland Barthes e Philippe Sollers, 1972.

O romance se situa no estilo policial, com uso de pistas, suspeitos, interrogatórios,  intrigas e desfechos. Os protagonistas são o delegado Jacques Bayard (um anti-intelectual conservador que remete ao delegado Cabeção do filme O Bandido da Luz Vermelha) encarregado de investigar a morte de Roland Barthes, e o jovem professor Simon Herzog, que auxilia Bayard no meio acadêmico e o orienta pelo emaranhado de conceitos da semiologia e da filosofia. O enredo estruturado em cinco partes e 99 capítulos, percorre em cada parte, uma geografia: Paris, Bolonha, Ithaca, Veneza e novamente Paris. O tempo do romance é a década de 80, a França é governada por Giscard d’Estaing, que determina as investigações sobre a morte de Barthes com o objetivo de elucidar o caso e se apossar do valioso documento, que sumiu no momento do atropelamento. Entre o vasto universo de personagens, Binnet utiliza figuras como Foucault, Deleuze, Judith Butler, Derrida, Umberto Eco, Julia Kristeva, Althusser, Sartre, Philippe Sollers, Chomsky, sem, no entanto, deixar de satirizar e zombar muitos desses personagens e do meio acadêmico pelo qual transitam. Dessa forma, o autor consegue construir uma narrativa densa, de caráter “filosófico”, ao mesmo tempo atravessada por uma prosa divertida e burlesca. A própria dicotomia criada pelos estereótipos do delegado “brutamontes reacionário” com o professor magricela “rato de biblioteca”, atesta essa impressão. Na passagem abaixo, vemos o momento em que Bayard chega na universidade de Vincennes para recrutar Simon para a “operação”:

“Bayard, que se lembra de seus longínquos anos de direito em Assas, descobre um lugar totalmente pitoresco e distante: para ter acesso às salas de aula, deve atravessar um tipo de mercado, povoado de africanos, pular por cima dos drogados comatosos caídos no chão, passar diante de um tanque sem água e repleto de detritos, margear as paredes descascadas cobertas de cartazes e grafites nos quais pode ler: ‘Professores, estudantes, reitores, pessoal administrativo: morram, seus putos!’; ‘Não ao fechamento da feira de alimentos!’; ‘Não à mudança de Vincennes para Nogent’; ‘Não à mudança de Vincennes para Marne-la-Vallée’; ‘Não à mudança de Vincennes pra Savigny-sur-Orge’; ‘Não à mudança de Vincennes para Saint-Denis’; ‘Viva a revolução proletária’; ‘Viva a revolução iraniana’; ‘Maoistas = fascistas’; ‘Trotskistas = estalinistas’; ‘Lacan = tira’; ‘Badiou = nazista’; ‘Althusser = assassino’; ‘Deleuze = fode a tua mãe’; ‘Cixous = fode comigo’; ‘Foucault = puta de Khomeiny’; ‘Barthes = social-traidor pró chinês’; ‘Calliclès = SS’; ‘É proibido proibir de proibir’; ‘União das esquerdas = no teu cu’; ‘Vem pra minha casa, a gente vai ler o capital! Assinado: Balibar’… Estudantes fedendo a maconha o abordam com agressividade, passando-lhe toneladas de panfletos: ‘Camarada, sabe o que está acontecendo no Chile? Em El Salvador? Você se sente afetado com o que se passa na Argentina? E em Moçambique? Está pouco ligando para Moçambique? Sabe onde fica? Quer que eu te fale de Timor? Fora isso, a gente está coletando dinheiro para alfabetização na Nicarágua. Me paga um café?”. (2016, p. 31-32)

michel-foucault

Michel Foucault em Vincennes

Um traço marcante do romance é a forma como o autor transita pelo discurso ensaístico, biográfico e ficcional, possibilitando uma leitura intertextual da obra. A passagem em que Althusser mata sua mulher estrangulada, é um exemplo de como o autor intercala um dado real, histórico (o assassinato de Helène), com o inventivo, o ficcional (o motivo que teria levado Althusser assassinar sua esposa), usando o sumiço do documento que continha a sétima função da linguagem como motivo para o estrangulamento. Em outro capítulo, que se passa no campus da universidade americana de Ithaca, Binet apresenta um panorama da influência e das divergências em torno da French Theory no meio acadêmico norteamericano. Em sua apresentação durante um  colóquio, John Searle diverge de Derrida e discorre sobre atos de fala, ilocutório, perlocutório, elocução, conceitos da filosofia da linguagem que o professor Simon Herzog conhece bem. Em outros momentos, o autor se apropria de símbolos da cultura pop, da publicidade, do cinema de ação e do thriller de suspense. A paródia também é um recurso utilizado por Binet, que ao longo da narrativa, não deixa de satirizar o companheiro de Julia Kristeva, o escritor Philippe Sollers.

“Difícil imaginar o que Kristeva pensa de Sollers em 1980. Que seu dandismo histriônico, sua libertinagem so French, sua presunção patológica, seu estilo adolescente panfletário e sua cultura épate-bourgeois tenham conseguido seduzir a bulgarazinha recém-desembarcada da Europa oriental, nos anos 1960, admitamos. Quinze anos depois, seria de imaginar que ela está menos encantada, mas quem sabe? O que parece evidente é que a associação deles é sólida, que funcionou perfeitamente desde o início e que continua a funcionar: um time consolidado em que os papéis estão bem atribuídos. Para ele, a fanfarronice, as mundanidades e as palhaçadas idiotas. Para ela, o charme eslavo venenoso, glacial, estruturalista, os arcanos do mundo universitário, a gestão dos manda-chuvas, os aspectos técnicos, institucionais e, como deve ser, burocráticos da ascensão de ambos. (Ele não sabe preencher um formulário bancário, reza a lenda)”. (2016, p. 126-127)

kristeva

O surpreendente desfecho do romance levanta uma das questões centrais do livro, que afirma o poder da linguagem e daqueles que detém o domínio do discurso e de suas funções como fator decisivo para exercer o poder em sociedade, desde a Antiguidade até os dias atuais. Penso no comentário que Agamben faz em O homem sem conteúdo, da visão de Platão sobre o poeta e do “poder da arte sobre o espírito”. Diz Agamben que, para Platão “o poder da arte sobre o espírito lhe parecia tão grande que ele pensava que ela poderia, sozinha, destruir o próprio fundamento da sua cidade; e, todavia, se ele era constrangido a bani-la, o fazia, mas apenas a contragosto, ‘porque temos consciência do fascínio que ela exerce sobre nós”. (2012, p. 22-23). No caso de Simon, é o uso que o personagem faz desse domínio que permite salvar sua própria pele no final do livro. Em outro momento, quando Bayard e Simon encontram Umberto Eco em Bolonha, na Itália, este relata a existência de uma curiosa seita herege em que seus membros se exercitam através de confrontos retóricos “em nome da beleza do verbo”.

“A cidade cristã, diz Eco, repousava sobre três pilares: o ginásio, o teatro e a escola retórica. Temos o vestígio dessa tripartição ainda hoje numa sociedade do espetáculo que promove ao nível de celebridades três categorias de indivíduos: os esportistas, os atores (ou cantores, o teatro antigo não fazia distinção) e os políticos. Dessas três categorias, a terceira, até agora, sempre foi a mais forte (mesmo se vemos que com Ronald Reagan as categorias nem sempre são estanques), porque implica o domínio da arma mais poderosa: a linguagem.

Desde a Antiguidade até hoje, o domínio da linguagem sempre foi a implicação política fundamental, mesmo durante o período feudal, que aparentemente consagrava a lei da força física e da superioridade militar. Maquiavel explica ao príncipe que não é pela força mas pelo temor que se governa, e isso não é a mesma coisa: o temor é produto do discurso sobre a força. Allora, quem domina o discurso, por sua capacidade de suscitar temor e amor, é virtualmente o dono do mundo, eh!”

Foi sobre esse pressuposto teórico protomaquiavélico, e também para barrar a influência crescente do cristianismo, que uma seita de hereges fundou o Logi Consilium no século III depois de Cristo.

Em seguida, o Logi Consilium espalhou-se pela Itália, depois pela França, onde tomará o nome de Clube Logos no século XVIII, durante a Revolução”. (2016, p. 186)

Blues dos Refugiados

Turkey To Possibly Join War Against ISIS

Refugiados sírios, 2014.

Digamos que esta cidade tem cerca de dez milhões,
Há os que vivem em buracos, há os que vivem em mansões,
Mas não há lugar para nós, amor, não há lugar para nós.

Já tivemos um país, que nos parecia bem,
Procurem-no no Atlas, que ainda lá vem:
Já não podemos voltar, amor, já não podemos voltar.

Cresce um velho teixo junto ao largo da igreja,
E todas as primaveras de novo floreja,
Mas os velhos passaportes não, amor, os velhos passaportes não.

O cônsul deu um murro na mesa, impaciente:
“Não têm passaporte, estão mortos oficialmente”.
Mas continuamos vivos, amor, continuamos vivos.

Fui a uma comissão, mandaram-me esperar sentado;
Que voltasse para o ano, disseram num tom educado.
Mas para onde iremos hoje, amor, para onde iremos hoje?

Fui a um comício em que o orador, de pé, dizia:
“Se os deixarmos entrar, roubam-nos o pão de cada dia.“
Falava de nós os dois, amor, falava de nós os dois.

Pensei ouvir trovões no céu a tremer;
Era Hitler na Europa, dizendo: “Devem morrer.”
Estava a pensar em nós, amor, estava a pensar em nós

Vi um cão-de-água preso à lapela de um fato,
E uma porta a abrir-se para que entrasse um gato:
Mas não eram judeus alemães, amor, não eram judeus alemães.

Fui até ao porto, pus-me a olhar para a corrente,
Na água vi os peixes a nadar livremente:
Mesmo a dez pés de mim, amor, mesmo a dez pés de mim.

Andei pelas florestas, vi os pássaros empoleirados,
Não tinham políticos e piavam os seus trinados,
Não eram a raça humana, amor, não eram a raça humana.

Sonhei que via um prédio com um milhar de andares,
E milhares de janelas, portas aos milhares,
E nenhuma era nossa, amor, nenhuma era nossa.

Cheguei a uma campina com a neve tombando,
Vi dez mil soldados de lá para cá marchando;
Procurando-nos os dois, amor, procurando-nos os dois.

(W.G. Auden)

Buñuel, Breton: memórias do surrealismo

 

ac

Na autobiografia de Luis Buñuel, Meu Último Suspiro, temos algumas imagens precisas do movimento surrealista, suas posturas escandalosas e muitas vezes autoritárias, sobretudo as de André Breton. Certa vez, quando do lançamento de Un Chien Andalou, em 1929 e do enorme sucesso do filme (chegando a ficar oito meses em cartaz), Buñuel foi convidado pela Revue du Cinéma, editada então pela Gallimard, para publicar o roteiro do filme na próxima edição da revista. Depois de já ter autorizado, Paul Éluard pediu que Buñuel enviasse o roteiro para a revista belga Variétés, que “dedicaria um número inteiro ao movimento surrealista”. Ao explicar que o roteiro já havia sido enviado para Revue du Cinéma, Buñuel foi convidado por Breton para uma “pequena reunião” em sua casa.

“Aceitei, não desconfiando de nada, e deparei com o grupo em formação completa. Tratava-se de um julgamento em regra. Aragon exercia com autoridade o papel do promotor e me acusava em termos violentos de ter cedido meu roteiro a uma revista burguesa. Além disso, o sucesso comercial de Um cão andaluz começava a parecer suspeito. Como um filme provocador podia lotar os cinemas? Que explicação eu podia dar?

Sozinho perante o grupo, eu tentava me defender, mas era difícil. Ouvi inclusive Breton me perguntar:

– Você está com a polícia ou com a gente?” (p. 157)

surrealistas

Em The Friends Rendevous, obra de 1922, Max Ernst retrata Breton com a mão direita erguida, num gesto que sugere a autoridade e o papel de liderança que este exercia no grupo. Por muitas atitudes sectárias, não tardaram a surgir as rupturas no seio do movimento surrealista. Em outra passagem de sua autobiografia, Buñuel relata um jantar que ocorrera na casa de André Breton. Segundo o cineasta, Breton havia reclamado que o espanhol nunca apresentara sua esposa Jeanne ao grupo, por isso convidara-os para um jantar em sua casa, em que também participou o pintor belga René Magritte e sua mulher.

“A refeição começou sob uma atmosfera sombria. Por uma razão inexplicável, Breton mantinha a cara no prato, o cenho franzido, falando apenas por monossílabos. Nós nos perguntávamos o que estaria errado, quando de repente, não se aguentando mais, ele apontou com o dedo uma singela cruz que a mulher de Magritte usava no pescoço, presa numa corrente de ouro e declarou altivo que aquilo era uma provocação intolerável e que ela deveria usar outra coisa quando fosse jantar na casa dele. Magritte tomou a defesa da mulher e replicou. A discussão – exacerbada – durou um tempo e se acalmou. Magritte e sua mulher fizeram o sacrifício de não ir embora antes do fim da noite. Seguiu-se um esfriamento, que durou algum tempo”. (p. 162)

ernst1

Outros pequenos casos apontam a visão do diretor de Belle de Jour sobre o autor do Manifeste du Surréalism. Quando Breton retornou à França, após seu encontro com Trotski no México (retratado por Padura em El Hombre que amaba los peros), Buñuel perguntou qual a impressão tivera do velho bolchevique. Ao que Breton respondeu:

“Trotski tem um cachorro de que gosta muito. Um dia esse cachorro estava ao seu lado e o observava. Então Trotski disse: ‘Esse cão tem um olhar humano, não acha?’. Percebe? Como um homem como Trotski pode dizer uma burrice dessa? Um cão não tem um olhar humano! Um cão tem olhar de cão!” (p. 162)

por-uma-arte-revolucionaria-independente

Antes de ser definitivamente expulso, Salvador Dalí fora acusado pelos surrealistas de um crime grave: renegação pública de um ato surrealista. Buñuel narra a primeira vez que Dalí estivera em Nova York, quando participou de um baile de máscaras a convite de um marchand. Na época, a opinião pública americana estava alarmada com o sequestro do bebê Lindbergh, filho de um famoso aviador. A mulher de Dalí, Gala, entrou no baile fantasiada de bebê, com o rosto e parte do corpo ensanguentados. Ao apresentá-la, Dalí dizia:

“- Ela está fantasiada de bebê Lindbergh assassinado”.

O tiro saíra pela culatra e a fantasia de Gala fora considerada de extremo mal gosto para a ocasião. Logo depois, Dalí contou aos jornalistas que na verdade a fantasia de Gala tratava-se de uma inspiração freudiana. De volta à Paris, diz Buñuel, Dalí fora confrontado com o grupo sob a acusação de renegação pública de um ato surrealista.

“O próprio André Breton me contou que, por ocasião desse encontro, ao qual não assisti,  Salvador Dalí caiu de joelhos, os olhos cheios de lágrimas e as mãos juntas, jurando que os jornalistas tinham mentindo e que ele sempre dissera, sempre afirmara, que se tratava efetivamente do bebê Lindbergh assassinado” (p. 260).

dali-e-bunuel

Buñuel e Dalí, 1929

(Meu último suspiro, trad. André Telles, Cosac Naify, 2009)

Trinta Anos Esta Noite – Feu Follet

30-anos-essa-noite

Maurice Ronet e Léna Skerla (Le Feu Follet, Louis Malle, 1963)

este é o mergulho na densidade do mundo
na dualidade da morte
este é o filme ao qual, há tanto tempo, eu devia um poema
o filme no qual foram ditas as palavras mais terríveis:
“não consigo tocar”
“de tanto querer ser amado, achei que amava”
“coragem não é dormir sobre o túmulo, é entrar nele”
o filme do qual só consigo falar em um modo solene, escrevendo
com a voz embargada (só a emoção cria) para relatar
que, toda vez, a janela do apartamento abria-se para
um abismo
como é que pode? como isso é possível?
isto:
a vida resumida à opaca bala de 9 milímetros,
um espelho, umas fotos coladas, algumas
cartas, a maleta que é fechada,
a inspiração que se extingue – e cada noite
igual a todas as noites
nem vagar ao acaso serve para qualquer coisa,
pois os edifícios são surdos
assim é a vida condensada
dos fantasmas sublimes

CINEMA: seu verdadeiro nome é confissão

(Cláudio Willer)

Borges e o culto dos livros

borges-y-biblio

Jorge Luis Borges

Entrevista extraída do livro “Sobre a filosofia e outros diálogos – Borges & Osvaldo Ferrari” (Tradução: John O’Kuinghttons).

OSWALDO FERRARI – Um de seus ensaios, sr. Borges, que se chama “Sob o culto dos livros”, me faz lembrar títulos e autores que o senhor cita familiarmente, digamos.

JORGE LUIS BORGES – Não lembro absolutamente nada daquele artigo… mas, falo dos livros sagrados? Do fato de cada país escolher o seu?

O senhor menciona o primeiro, mas se refere também àqueles que falam contra os livros, a favor da língua oral; por exemplo, há um relato de Platão no qual se diz que a leitura excessiva faz com que cheguemos ao descuido da memória, e que dependamos dos símbolos.

Me parece que Schopenhauer disse que ler era pensar com um cérebro alheio, o que é a mesma ideia, não é? Bem, não é a mesma ideia, mas de qualquer forma, é contra os livros. Será que eu citei aquilo?

Não.

Talvez falasse sobre o tema de que cada país escolhe, prefere ser representado por um livro, e que esse livro costuma não ser parecido com o país. Por exemplo, entende-se que Shakespeare é a Inglaterra; no entanto, nenhuma das características habituais do inglês se encontra em Shakespeare, já que os ingleses costumam ser reservados, de poucas palavras, e Shakespeare flui como um grande rio, abunda em hipérboles, em metáforas, é absolutamente o contrário de um inglês. Ou, no caso de Goethe, temos os alemães, facilmente fanáticos, e Goethe vem a ser o contrário disso: um homem tolerante, um homem que, quando Napoleão invade a Alemanha, vai cumprimentá-lo. Goethe não se parece nada com um alemão. Agora, parece que, em geral acontece assim, não é?

Especialmente no caso dos clássicos.

Especialmente no caso dos clássicos, sim. Ou, por exemplo, a Espanha e Cervantes. Bem… a Espanha contemporânea de Cervantes é a Espanha das fogueiras do Santo Ofício, a Espanha fanática. E Cervantes, sendo espanhol, é um homem sorridente, o imaginamos tolerante; não tinha nada a ver. Seria como se cada país procurasse uma espécie de contraveneno no autor que escolhe. No caso da França, eles têm uma literatura tão rica que não escolheram uma pessoa, mas se Hugo for escolhido, é evidente que Hugo não se parece com a maioria dos franceses.

É claro.

E aqui, curiosamente, os militares aceitaram com entusiasmo a canonização de Martín Fierro, que era um desertor – um desertor que passa para o inimigo. No entanto, os militares argentinos veneram o Matín Fierro.

Quanto a seu culto pessoal pelos livros, sr. Borges, eu lembro entre seus prediletos As mil e uma noites, a Bíblia, e, entre muitas outras, a Enciclopédia Britânica.

É que eu penso que, para um homem ocioso e curioso, a enciclopédia pode ser o mais agradável dos gêneros literários. E, além disso, teria um pai ilustre, que seria Plínio: a História Natural de Plínio é uma enciclopédia. Ali você encontra notícias sobre as artes, sobre a história – não é apenas uma história natural no sentido que atualmente lhe damos- e sobre as lendas, e também sobre os mitos, já que quando ele fala de algum animal, por exemplo, não diz apenas tudo o que averiguou, mas tudo aquilo que a lenda diz: as propriedades mágicas que lhe eram atribuídas, nas quais, provavelmente, Plínio não acreditava. Mas, enfim, ele fez uma esplêndida enciclopédia, escrita, ao mesmo tempo, em um estilo barroco.

E particularmente em relação à Enciclopédia Britânica, o que encontrou ao longo do tempo?

Antes de mais nada, extensos artigos – atualmente as enciclopédias são feitas para consulta, de modo que contêm abundantes artigos muito breves. Por outro lado, a Enciclopédia Britânica era feita para a leitura, ou seja, era uma série de ensaios, ensaios de Macaulay, ensaios de Stevenson, ensaios de Swinburne, nas últimas edições, algum ensaio de Bernard Shaw também. Ensaios, por exemplo, de Bertrand Russell sobre Zenão de Eleia. Sem dúvida já lhe contei que eu costumava ir com meu pai à Biblioteca Nacional; eu era muito tímido – continuo sendo muito tímido -, não me atrevia a pedir livros, mas, nas prateleiras, havia obras de consulta, de onde eu pegava aleatoriamente, por exemplo, um volume da Enciclopédia Britânica. Um dia, tive muita sorte porque peguei o volume D-R; então, pude ler uma excelente biografia de Dryden, sobre quem Eliot escreveu um livro. Depois, um extenso artigo sobre os druidas e outro sobre os drusos do Líbano, que acreditam na transmigração das almas, por exemplo, e onde se fala dos drusos chineses. Bem, naquele dia eu tive muita sorte: Dryden, druidas e drusos, e tudo no mesmo volume, que era o D-R. Outros dias não foram tão afortunados; eu ia com meu pai… meu pai procurava livros de psicologia – ele era professor de psicologia -, mas eu costumava ler a Enciclopédia Britânica e depois lia Huckleberry Finn, de Mark Twain, na Biblioteca Nacional. E nunca teria imaginado que em um futuro muito improvável eu seria diretor da biblioteca; se alguém tivesse me dito isso, teria pensado que era uma brincadeira. No entanto, isso aconteceu, e quando fui diretor, lembrei daquele rapaz que ia com seu pai e pegava timidamente da prateleira algum volume da enciclopédia.

E foi diretor durante quase duas décadas, me parece.

Não sei as datas com precisão, porque eu fui indicado em 55, e não sei em que ano voltou Perón, porque, decorosamente, eu não podia continuar.

Em 73, dezoito anos na biblioteca.

Bom, não está mal, não é? Quem é o diretor agora?

Até recentemente foi Gregório Weinberg.

Ah, sim, me parece que renunciou, não é?

Renunciou, e ainda não sei quem o substitui.

Eu lembro que os subsídios que recebíamos eram magros, não é? E, talvez, agora também. Talvez Weinberg tenha renunciado por esse motivo.

Como sempre; então, tinham que se virar com o mínimo?

Bem, o Ministério da Educação foi sempre o mais desvalido, o mais desprotegido de todos. Talvez continue sendo.

A outra referência que o senhor faz nesse ensaio, sr. Borges, é a do oitavo livro da Odisséia, na qual se diz que Deus deu a desgraça aos homens para que tenham alguma coisa que cantar.

Sim, me parece que diz que tecem desventuras para que os homens das futuras gerações tenham algo para cantar, não é?

Sim.

Bem, isso já seria suficiente para demonstrar que a Odisséia é posterior à Ilíada, porque não imaginamos uma reflexão desse tipo na Ilíada.

Sim, porque Homero dá a ideia dos começos…

Sim, e, como disse Rubén Darío: não há dúvida de que Homero tinha seu Homero, já que a literatura sempre pressupõe um mestre, ou uma tradição. Pode-se dizer que a linguagem já é uma tradição, cada linguagem é uma tradição, cada linguagem oferece uma série de possibilidades e também de impossibilidades, ou de dificuldades. Eu não me lembro desse ensaio: “Sobre o culto dos livros”.

Está em Outras Inquisições.

Sem dúvida existe, já que não acredito que o senhor o invente para testar minha memória ou minha desmemória.

(Ri.) Existe, e é de 1951.

Ah, bom, nesse caso, tenho absoluto direito de tê-lo esquecido; seria muito triste ter ficado lembrando o ano de 1951.

Mas o senhor o fecha com aquela frase de Mallarmé.

Sim, que tudo conduz a um livro, não é?

Sim.

Sim, porque eu pego esses versos de Homero e digo que os dois dizem a mesma coisa. Mas Homero pensava ainda no cantar, pensava na poesia que flui; por outro lado, Mallarmé pensava em um livro, e, de alguma forma, em um livro sagrado. Mas, na verdade, é a mesma coisa; tudo para em um livro, ou tudo nos leva a um livro.

Ou seja, em última instância, o acontecer é literário. Mas um livro que o senhor recomenda sempre, até para quem não se dedica à literatura, é a Bíblia.

Bem, porque a Bíblia é uma biblioteca. Agora, que estranha essa ideia dos hebreus de atribuírem obras tão díspares como o Gênesis, O cântico dos cânticos, o livro de Jó, o Eclesiastes, de atribuírem todas essas obras em um só autor: o espírito. E é evidente que correspondem a obras muito diferentes e a regiões muito diferentes – especialmente a séculos diferentes, momentos diversos do pensamento.

Bom, deve ter relação com aquela outra frase da Bíblia: “O espírito sopra onde quer”.

Sim, está no Evangelho de João, me parece, nos primeiros versículos.

Sim, que o senhor comparou, em outra das nossas conversas, com aquela frase de Whistler: “Art happens” (a arte acontece).

Eu não sabia disso, mas é claro, é a mesma ideia, “a arte acontece”, “o espírito sopra onde quer”. Ou seja, é o contrário, bem, da sociologia da poesia, não é? Do fato de se estudar a poesia socialmente, de se estudar as condições que produziram a poesia… Isso me faz lembrar Heine, que dizia que o historiador é o profeta retrospectivo (ri), aquele que profetiza o que já aconteceu. Seria a mesma ideia.

É claro, um poeta às avessas.

Sim, que profetiza o que já aconteceu, e aquilo que já sabe que aconteceu, não é? “O profeta que olha para trás”, o historiador.

De quem é essa frase sr. Borges?

É de Heine, seria a arte de adivinhar o passado, a história, não é?

Sim, a arte do historiador.

Sim, quando algo já aconteceu, se demonstra que era inevitável que acontecesse. Mas, o interessante seria aplicar isso ao futuro (Ambos riem).

Isso é mais difícil do que adivinhar o passado, é mais difícil ser profeta que ser historiador.

Bom, as histórias da literatura são feitas um pouco dessa forma; depois se demonstra a influência do ambiente, e, depois, como, logicamente, a obra tem que resultar desse autor. Mas isso não se aplica ao futuro, ou seja, não recebemos os nomes e a obra dos escritores do século XXI, não é?

Mas nas histórias da literatura não se deve exigir tanta propriedade como na história propriamente dita; nelas, ainda se permite ser literário.

Sim, tomara.

Outro livro familiar na sua biblioteca é, me parece, As mil e uma noites.

Sim, e meu desconhecimento do árabe me permitiu lê-lo em muitas traduções, e, sem dúvida já devo tê-lo dito, das que li, talvez a mais agradável seja a de Cansinos Assens, exceto se a mais agradável for a primeira de Antoine Galland, que revelou esse livro ao Ocidente.

No seu ensaio, há outra ideia que me interessou; nele se diz que, para os antigos, a palavra escrita era somente um sucedâneo da palavra oral.

Sim, creio que Platão diz que os livros parecem coisas vivas, mas com eles acontece o mesmo que acontece com uma efígie: que não responde quando falamos com ela.

Sim, claro.

Então, precisamente para que livro o falasse, ele inventou o diálogo, que se antecipa às perguntas do leitor e que permite uma ramificação do pensamento e uma explicação.

Sim, isso em relação à língua oral, mas o senhor acrescenta que lá pelo século IV começa o predomínio da língua escrita sobre a oral.

Ah, e cito aquela história de uma pessoa que se surpreende com outra que está lendo em voz baixa.

Sim, Santo Agostinho ficando surpreendido com Santo Antônio, me parece.

Sim, ele está surpreso porque você vê aquilo que nunca tinha visto: uma pessoa lendo em voz baixa. Sim, porque os livros eram manuscritos. O senhor deve ter comprovado muitas vezes isso, quando recebemos uma carta, e se esta carta não está escrita com uma caligrafia que não é, digamos, excelente, a lemos em voz alta para tentar entender, não é?

Sim.

Bom, e se os livros eram manuscritos, era natural que fossem lidos em voz alta. Mas, além dessa informação, creio que, se estivermos lendo silenciosamente e chegarmos a uma passagem eloquente, essa passagem nos comove, e tendemos a lê-la em voz alta. Eu penso que uma passagem bem escrita obriga a uma leitura em voz alta. No caso dos versos, isso é evidente, porque a música do verso exige que, pelo menos, seja murmurada; mas de qualquer forma, tem que ser ouvida. Por outro lado, se você está lendo algo puramente lógico, puramente abstrato, não; nesse caso, você pode prescindir da leitura em voz alta. Mas não pode prescindir dessa leitura quando é um poema.

Faz parte dessa, pelo menos mínima, exaltação que exige a poesia.

Sim, mas é claro que isso agora está se perdendo, já que as pessoas estão perdendo o ouvido. Infelizmente, agora todos são capazes de leitura em voz baixa, porque não escutam o que leem, passam diretamente para o sentido do texto.

Enrique Vila-Matas e a metaliteratura

vila-matas

Enrique Vila-Matas

Paris não tem fim é o décimo terceiro livro do escritor catalão Enrique Vila-Matas, cujo narrador relembra os anos de sua juventude na capital francesa, quando saiu de Barcelona e fugiu do regime franquista decidido a tentar a vida de escritor na França, tal como fizera seu ídolo Ernst Hemingway e outros escritores da geração perdida. O título do livro de Vila-Matas foi extraído do romance de Hemingway Paris é uma festa, que também fala sobre os anos da juventude do autor em Paris, quando era “muito pobre e muito feliz”. Sua admiração pelo autor de Adeus às armas e sua vontade de levar uma vida ao estilo do escritor americano, fez com que o narrador (que não sabemos o nome) fosse à Paris “em meados dos anos setenta”, em busca de um ambiente propício para escrever seu primeiro romance. Sobrevivendo às custas de uma pequena mesada que seu pai enviava da Espanha, o narrador consegue se hospedar em um quarto minúsculo, uma água-furtada cuja dona era ninguém menos que Marguerite Duras, que incentiva o narrador a se dedicar à escrita.

Ainda nas primeiras páginas o narrador revela que vai participar de uma palestra de três dias, cujo título é “Paris não tem fim”. Descobrimos que o tema da narrativa é justamente o conteúdo da palestra do narrador, que busca tratar seus anos na França sob o olhar da ironia. A maneira como o autor se utiliza de citações de poemas, cenas de filmes e passagens de romances na construção e desenvolvimento da narrativa (e da conferência), é um dos aspectos mais interessantes do livro. Vila-Matas ficcionaliza algumas situações que de fato aconteceram, como por exemplo, a viagem do grupo ligado a revista Tel Quel, que em abril de 1974, visitou a China.

“Naquele 9 de abril, eu estava prestes a cruzar o bulevar Saint-Germain com Marguerite Duras e Raúl Escari quando, de repente, um grande carro negro, quase funerário e de qualquer forma nada primaveril, freou de chofre e parou junto a nós. Olhei e pude ver em seu interior Julia Kristeva, Phillipe Sollers, Marcelin Pleynet e uma quarta pessoa que não identifiquei. Sollers baixou o vidro do carro e falou alguns breves segundos com Marguerite. Não entendi nada do que disseram. Depois, o carro arrancou e desapareceu na distância, acabou esfumando-se no fundo do bulevar. Então Marguerite prontamente disse: ‘Vão para a China”. (p. 69-70)

E logo no parágrafo seguinte:

“O curioso é que era verdade. Em abril e maio de 1974, uma delegação francesa composta por três membros da revista Tel Quel (Sollers, Kristeva e Pleynet), mais François Wahl e Roland Barthes, visitou a China. Foram de Pequim a Xangai e de Nanquim a Xian. Na volta, Barthes publicou um célebre artigo no Le Monde, onde se mostrava decepcionado diante do que ouvira e vira. (p. 70)

Uma das características do livro de Vila-Matas é utilizar o autor de ficção como personagem da própria ficção, fazendo uso constante de referências extraídas da literatura, construindo assim uma narrativa tecida pela metaliteratura ou metaficção. Como afirma a professora e crítica literária Leyla Perrone-Moisés, em seu mais recente livro, “Mutações da literatura no século XXI”, uma das particularidades da literatura contemporânea é que “boa parte da ficção e poesia atuais está encharcada de referências à ficção e à poesia anteriores, na forma de citação, alusão, pastiche ou paródia. Essa ‘memória da biblioteca’ remete à questão do ‘fim da literatura’ que se tornou não apenas um tema acadêmico, mas também um tema literário”. (p. 117)

O debate em torno do fim da literatura é outro aspecto da obra do autor de Bartleby e companhia, que questiona a própria existência do romance tal como o conhecemos. Em recente entrevista ao jornal português Observador, Vila-Matas afirmou: “Acho que o romance se esgotou com as grandes obras como ‘Vermelho e Negro’, ‘Guerra & Paz’ e ‘Madame Bovary’. Não quero isto dizer que não haja obras boas, mas o gênero ‘romance’, no sentido clássico, individualmente, está esgotado”.

Dessa forma, Enrique Vila-Matas permite criar através de sua linguagem, uma espécie de expansão da consciência literária do leitor, manuseando habilmente citações dos mais diversos autores (Borges, Cortázar, Proust, Valéry, Queneau) e narrando episódios do ambiente boêmio e cultural francês, como a festa que fora convidado por Marguerite Duras e onde conhecera a atriz Isabelle Adjani, que havia acabado de filmar, segundo o narrador, L’Histoire d’Adele H., de François Truffaut. Foi o olhar de Adjani, diz o narrador, que o inspirara a construir a personagem de seu primeiro romance, a Assassina Ilustrada. Em outra passagem onde o autor explora o senso de humor, o narrador encontra seu amigo Raúl Escari fumando um baseado com William Burroughs, nos altos da catedral de Notre Dame.

“A fotógrafa Martine Barrat, amiga de amigos comuns, estava imortalizando com sua câmera Raúl Escari, que naquele preciso instante compartilhava um joint com William Burroughs, porque era Burroughs quem estava ali com meu amigo, no mesmo momento não tive nenhuma dúvida, embora meu estranhamento, surpresa e excitação diante de tal descoberta tivessem sido grandes. O que fazia Raúl com aquele famoso escritor lá no alto de Notre Dame? Claro que, quando ia perguntar, eu também deveria ter me perguntado o que eu fazia lá no alto”. (p. 131)

Apesar de declarar o esgotamento da forma do romance clássico na atualidade, Enrique Vila-Matas não é um apocalíptico, no sentindo de decretar a morte de novas experiências no âmbito da linguagem literária. O próprio autor faz de sua narrativa fragmentada e permeada pela intertextualidade, a possibilidade mesma da existência de uma ficção contemporânea, permitindo assim um hibridismo que admite o gênero autobiográfico e ensaístico, convivendo harmoniosamente no mesmo plano da linguagem ficcional.

O acerto de contas de Thomas Bernhard

thomas-bernhard

São muitos os personagens que marcaram a história da literatura universal com suas personalidades e atitudes desregradas. O que dizer, por exemplo, de Lafcadio, personagem de Os Porões do Vaticano, de André Gide? Ou do jovem Bayard, personagem do romance Sartoris, de William Faulkner ou ainda Morravagin, do franco-suíço Blaise Cendrars? Todos têm em comum características que chocam a moral estabelecida, que ultrapassam as linhas da ordem num salto. Em uma palavra: gente transgressora. É mais ou menos nessa linha que segue o narrador criado por Thomas Bernhard em seu último romance.

Um personagem que não suporta o seu passado e a relação com seus parentes mais próximos, por isso, procura extinguir toda a sua história através de um livro que pretende escrever. Alguém que simplesmente odeia tudo o que diz respeito à sua família, seu país e sua cidade natal. Eis o leitmotiv de Extinção, romance do escritor e dramaturgo austríaco Thomas Bernhard (1931 – 1989). Franz-Josef Murau, protagonista e narrador do romance, não mede palavras e não disfarça o seu despudor para referir-se ao seu irmão como um imbecil, a seus pais como repulsivos e suas irmãs como abjetas. Esse sentimento de pura aversão pela família percorre as quase quinhentas páginas do romance, dividido em duas partes, cada parte contendo um único parágrafo. Com sua prosa loquaz, grandiloquente e repetitiva, mas também burlesca, irônica e muitas vezes contraditória, Bernhard cria uma narrativa atravessada pelo monólogo interior, em que as ações são sobrepostas pelas reflexões e reminiscências, que dão vazão ao incessante fluxo de consciência de Franz-Josef Murau.

Na primeira parte do romance, intitulada Telegrama, o narrador inicia falando sobre o conteúdo de um telegrama que acabara de receber em Roma, de suas irmãs, anunciando a morte de seus pais e do irmão mais velho, Johannes, em um acidente de carro. Franz-Josef voltara há poucos dias de Wolfsegg, interior da Áustria, quando assistira o casamento de uma de suas irmãs, Caecilia. Em conversa com Gambetti, seu aluno de literatura alemã em Roma, Franz comenta sobre a sensação de estar de volta à Itália, ao seu apartamento na Piazza Minerva, de frente ao Panteão e longe do palavrório tedioso de sua família.

“Falar com Gambetti, também naquele dia, fora outra vez um grande prazer para mim, depois das conversas custosas, cansativas com a minha família em Wolfsegg, todas elas circunscritas às necessidades cotidianas de caráter absolutamente privado e primitivo” (P.8).

No decorrer da narrativa, poucas ações se desenrolam. A primeira delas se passa em Roma, no apartamento do narrador, onde ele lê e relê o telegrama que anuncia a morte dos pais e do irmão. A outra ação se passa quando ele retorna a Wolfsegg, para o enterro dos familiares. Sua narração foge de qualquer discurso linear e temporal, ainda que as ações tenham uma linearidade.

Franz-Josef Murau é um intelectual, apreciador de arte e profundo conhecedor de literatura alemã, francesa e italiana. Sua formação estética se deu através da influência direta de seu tio Georg, que também sempre fora marginalizado pela família. Absolutamente avesso ao sentimentalismo e a moral cristã, após receber o telegrama (sem que a notícia o tenha abalado em algum momento), Murau se lamenta que nos próximos dias não poderá discutir As Afinidades Eletivas com Gambetti, como haviam combinado. Lamenta não a morte dos pais e do irmão, mas o fato de não mais poder encontrar Gambetti nos dias seguintes. Ao invés de conversar sobre O mundo como vontade e representação, Franz-Josef teria que voltar para Wolfsegg, se acercar de suas irmãs e falar sobre os trâmites do enterro dos pais e do irmão e, sem dúvida, sobre a questão da herança.

O que mantém a aversão de Franz por sua família e por Wolfsegg, é o fato de saber que eles (a família) sempre nutriram um grande desprezo por tudo o que ele fazia, dizia ou pensava. Sabia que no fundo sua família era indiferente a tudo que lhe agradasse, mesmo quando ele ainda era criança. Os pais sempre preferiram a companhia do irmão mais velho, agora morto. Como sua família fosse formada por latifundiários que há muitas gerações mantinham um vasto domínio sobre as terras do vilarejo de Wolfsegg, acumulara ao longo das gerações nada menos que cinco bibliotecas. Essas bibliotecas viviam a maior parte do tempo fechadas, ninguém as visitava e os livros disponíveis, segundo o narrador, eram sempre livros de orientação católica. Como seus pais fossem incultos e seus irmãos indiferentes aos livros, quase ninguém fazia uso das bibliotecas de Wolfsegg.

“Em nossas bibliotecas, imagine só, disse a Gambetti, eles haviam mantido sob chave os livros por assim dizer profanos, à diferença dos livros católicos, os armários com os livros profanos haviam ficado trancados por décadas, se não por séculos, dissera a Gambetti, somente os livros católicos eram de livre acesso, os profanos isolados, inacessíveis, não deviam ser lidos, deviam ficar confinados, como se tivessem confinado o espírito livre nesses armários, Gambetti, eles confinavam nesses armários os livros que não eram católicos” (P. 109).

Franz era o único a frequentar as bibliotecas da família, incentivado por seu tio Georg, irmão de seu pai. O fato de ser o único dos filhos que frequentava assiduamente as bibliotecas da família, fez com que sua mãe passasse a acusá-lo de frequentá-las com o único propósito de cultivar os “seus pensamentos aberrantes”. É nesse ambiente opressivo e nessa atmosfera provinciana que Franz passa sua infância. Não bastasse essa relação tumultuosa, outro trauma que persegue a vida do narrador é o passado nazista de Wolfsegg e de seus pais, que abraçaram com convicção o nacional-socialismo. Como o ambiente de Wolfsegg se tornava cada vez mais reacionário e hostil, Georg, seu tio, não encontrou outra saída senão deixar a Áustria, e passou a viver primeiro em Nice, depois em Cannes, na França.

“Meu pai era um nazista chantageado a tanto, é preciso que você saiba Gambetti, incitado naturalmente pela minha mãe, que foi uma nacional-socialista histérica durante todo o domínio nazista, é preciso que você saiba, uma Mulher Alemã, como ela própria sempre se definiu. No aniversário de Hitler, a bandeira nazista era regularmente hasteada em Wolfsegg, dissera a Gambetti, era asqueroso. Afinal meu tio Georg saiu de Wolfsegg sobretudo porque não queria suportar e não podia suportar o nacional-socialismo, que lá se difundiu com toda a força”. (P. 143).

Na visão do narrador, sua mãe sempre fora a pessoa mais pérfida, maquiavélica e ambiciosa que conhecera. É ela a responsável por todos os constrangimentos, humilhações e traumas de que fora vítima na infância e juventude. Com sua mania de grandeza e seus vícios típicos dos pequenos burgueses, como diz o narrador, gastava enormes quantias em viagens constantes a Viena, Munique, Roma, Paris e Londres. Seu desprezo pela arte era “compensado” pela futilidade das compras que efetuava em seus passeios pelas metrópoles europeias. Seu marido, o pai de Franz, era constantemente manipulado pela mulher, que mantinha um caso às escondidas com Spadolini, um jovem bispo do Vaticano, que travara amizade com o próprio Franz em Roma.

Somente depois de várias horas observando três fotografias que guardava em uma gaveta do seu escritório (uma foto de suas duas irmãs, em Cannes, outra de seu irmão, em um barco à vela e uma terceira dos seus pais, em uma estação em Londres), Franz resolve ligar para as poucas pessoas com quem mantém contato em Roma e anunciar que está voltando para Wolfsegg. Nesse sentindo, a história não avança, nada acontece enquanto Franz está segurando o telegrama na mão. No mais das vezes, o narrador vai até a janela do apartamento, ou senta-se diante da escrivaninha e fica horas observando as fotografias de sua família.

“Recoloquei as fotografias na gaveta da escrivaninha e decidi bater um fio a meus amigos, como se diz, e partir de Roma com o primeiro avião da manhã, para casa. Meus dedos não tremiam, meu corpo não vacilava. Tinha a cabeça perfeitamente lúcida. O que o telegrama significava, eu sabia”. (P. 227).

O segundo capítulo, O Testamento, é marcado pela volta do narrador à casa de seus pais em Wolfsegg. Antes de subir até sua casa, onde sabia que iria encontrar suas irmãs Caecilia e Amalia, Franz-Josef Murau resolve passear pelo bosque, observar a vila das crianças, onde passara momentos felizes em sua infância. Retarda ao máximo o encontro com as irmãs. Imagina a lista de pessoas que em poucas horas estarão no vilarejo para acompanhar o velório. Entre essas pessoas, algumas causam verdadeira aversão ao narrador: são os antigos partidários do nacional-socialismo, pessoas vinculadas à Liga dos Camaradas, grupo de tendência manifestadamente nazista, que travara relações com seus pais durante o Terceiro Reich. Para compensar a presença sórdida dessas pessoas, ele aguarda a companhia de Spadolini, o bispo do Vaticano que tivera um caso com sua mãe durante anos.

Após a chegada do bispo do Vaticano, que fora extremamente bem recebido, Franz se surpreende com a imagem que Spadolini começa a traçar de seus pais. Sentado à mesa com suas irmãs e seu cunhado, Franz-Josef escuta com atenção o bispo se referir ao seu pai como um “filósofo”, um homem íntegro e bom. Desconfia quando este diz que sua mãe era uma mulher “culta”, “apaixonada por Mahler” e amiga dos artistas. A confiança que Franz depositava em Spadolini, fica abalada. Ele não podia acreditar que seus pais pudessem ter esse lado que ele nunca fora capaz de perceber. Então passou a imaginar de que maneira Spadolini subira tão rapidamente os degraus da hierarquia da Igreja Católica. Sem dúvida, pensa o narrador, a base de falsidade, mentiras e conchavos, um papel que ele (Spadolini) aprendera a representar como ninguém.

“O homem da Igreja fez desabrochar, já nas poucas horas que passou aqui, sua indescritível arte do cálculo, pensei, sua calculada arte da falsificação, perante nossos olhos e ouvidos, por assim dizer, converteu imbecis em inteligências e malvados em santos, analfabetos em filósofos e gente na verdade abjeta em modelos de caráter. A feiúra em beleza, a baixeza e mesquinharia em grandeza interior e exterior, os monstros em seres humanos, para sermos precisos”. (P. 424)

Não apenas sua família passa a ser alvo de suas críticas e elas não cessam nem mesmo durante o velório e o enterro de seus pais e do irmão mais velho. Seu cunhado, o “vendedor de rolhas para garrafas de vinho”, a literatura alemã contemporânea, a Igreja Católica, o nacional-socialismo, o pseudo-socialismo, a Áustria, Wolfsegg… poucos escapam às rajadas fulminantes de Franz-Josef Murau. Sobre a literatura alemã contemporânea, Murau diz que não passa de uma literatura burocrática, produzida por burocratas. A exceção de Kafka e Maria (poetisa amiga de Franz que vive em Roma), nada se salva dessa literatura. O socialismo que vigora em alguns países da Europa, constata o narrador, nada mais é que uma grande deturpação do verdadeiro socialismo, uma falsificação grotesca perpetrada por partidos convertidos em fiéis defensores dos interesses do mercado e do capital. A Igreja Católica, diz Franz-Josef Murau, foi capaz de incutir esse espírito filistino ao povo austríaco, essa passividade que foi forjada pela tenaz católica durante muitos séculos de domínio espiritual.

Após o enterro, sem saber ao certo qual seria o futuro que ele daria a Wolfsegg, já que agora era o proprietário por direito, Franz esboça uma tentativa de restaurar a vila das crianças, acreditando que dessa forma, parte de sua infância seria também restaurada. Mas logo depois muda de ideia e sem comunicar suas irmãs, decide simplesmente doar incondicionalmente toda as propriedades de Wolfsegg, tal como ela se encontra, à Comunidade Israelita de Viena. Assim é concluída a extinção de Wolfsegg, o acerto de contas final de Bernhard com seu país, bem como o final do romance que o narrador pretendia escrever, cujo título também é Extinção.

Convite para a Ilha

 

jorge de lima

O poeta trabalha 

Não digo em que signo se encontra esta ilha

mas ilha mais bela não há no alto-mar.

O peixe cantor existe por lá.

Ao norte dá tudo: baleias azuis,

o ouriço vermelho, o boto voador.

A leste da ilha há o Gêiser gigante

deitando água morna. Quem quer se banhar?

Há plantas carnívoras sem gula que amam.

Ao sul o que há? – há rios de leite,

há terras bulindo, mulheres nascendo,

raízes subindo, lagunas tremendo,

coqueiros gemendo, areias se entreabrindo.

A oeste o que há? – não há o ocidente nem coisa de lá:

a terra está nova: devemos olhar o sol se elevar.

Convido os rapazes e as raparigas

pra ver esta ilha, correr nos seus bosques,

nos vales em flor, nadar nas lagunas,

brincar de esconder, dormir no areial,

caçar os amores que existem por lá.

O sol da meia-noite, a aurora boreal,

o cometa Halley, as moças nativas,

podeis desfrutar. Meninas partamos

enquanto esta ilha não vai afundar,

enquanto não chegam guerreiros das terras,

enquanto não chegam piratas do mar.

As noites! Que noites de imenso luar!

Podeis contemplar a Ursa maior,

A Lira, a Órion, a Luz de Altair,

estrelas cadentes correndo no espaço,

a estrela dos magos parada no ar.

Que noites, meninas, de imenso luar!

E as sestas? Que sestas! A brisa é tão mansa!

Há redes debaixo dos coqueirais,

sanfonas tocando, o sol se encobrindo,

as aves cantando canções de ninar.

Meninas partamos que as noites de escuro

não tardam a chegar. Então que é da ilha,

da ilha mais bela que há pelo mar

e onde se pode sonhar com os amores

que nunca na vida nos hão de chegar?

(Jorge de Lima)

 

W. G. Sebald e a colonização do Congo

congo

As primeiras notícias sobre maneira e medida dos crimes cometidos contra a população nativa durante a colonização no Congo chegaram a público em 1903 através de Roger Casement, que naquela ocasião tinha o posto de cônsul britânico em Boma. Casement, sobre quem Korzeniowski comentou com um conhecido em Londres que este saberia relatar coisas que ele, Korzeniowski, há muito procurava esquecer, em um memorando apresentado ao Foreign Secretary lord Lansdowne deu indicações precisas sobre a exploração dos negros que nenhuma medida de consideração atenuava, em todos os locais de construção da colônia forçados a trabalhar da manhã à noite pessimamente alimentados e com freqüência acorrentados uns aos outros, sem nenhum pagamento, em última análise até literalmente caírem no chão.
Quem sobe o curso superior do rio Congo e não está ofuscado pela cobiça financeira, escreveu Casement, verá desenrolar-se diante de seus olhos a agonia de um povo inteiro com histórias que cortam o coração, e que deixam na sombra todos os relatos de sofrimento da Bíblia. Casement não deixou dúvidas sobre o fato de que todos os anos centenas de milhares de trabalhadores escravos eram levados à morte por seus capatazes brancos, e que mutilar, decepar mãos e pés e matar a tiros faziam parte das punições realizadas diariamente no Congo para manter a disciplina. Uma conversa pessoal para o qual o rei Leopoldo convidou Casement a ir até Bruxelas deveria servir para abrandar a situação criada pela intervenção de Casement, e para uma avaliação do perigo que as atividades de Casement representavam para os empreendimentos coloniais belgas. O trabalho feito pelos negros, disse Leopoldo, era considerado por ele próprio um legítimo sucedêneo de impostos, e se eventualmente, o que não queria negar, ocorriam excessos preocupantes de parte dos capatazes brancos, isso podia ser atribuído ao fato lamentável, porém dificilmente alterável de que o clima do Congo causava uma espécie de demência na mente de muitos brancos, que infelizmente nem sempre se podia evitar em tempo. Como Casement não mudasse de opinião diante de tais argumentos, Leopoldo usou do privilégio da influência real em Londres, e como conseqüência com duplicidade diplomática o relatório Casement foi de um lado elogiado como modelar, e seu autor recebeu o título Commander of the Order os St. Michael and St. George, mas de outro lado nada foi feito que pudesse prejudicar os interesses belgas.

W. G. Sebald. Os anéis de saturno. Tradução: Lya Luft. Editora Record, 2002, p. 135-137