Agamben e a crítica da arte contemporânea

Agamben - girona 2014

Giorgio Agamben, Girona, 2014.

No capítulo intitulado “A privação é como um rosto” do livro O homem sem conteúdo, o pensador italiano Giorgio Agamben analisa a situação da arte contemporânea a partir do contexto de “crise da obra de arte”. Assim, o entendimento da crise da obra de arte passaria pela compreensão da crise da poesia, entendida aqui não como “uma arte entre as outras mas como nome do fazer mesmo do homem, daquele operar produtivo […] o fazer artístico”.  Essa ideia é acompanhada pela mesma concepção que os gregos possuíam sobre a obra de arte, isto é, a compreensão de que a produção artística se dá no momento em que o agir produtivo do homem concebe o objeto a partir da “ocultação e do não ser à luz da presença”. Desse modo, quando temos esse movimento que vai da “ocultação à luz da presença, tem-se poesia”.

O que determina o movimento que faz surgir do “não ser à luz da presença” é, para Aristóteles, o uso da técnica, que necessariamente gera uma forma, produz uma figura. Porém, é somente na segunda metade do século XVIII, com a revolução industrial, diz Agamben, que o desenvolvimento da técnica e o aprofundamento daquilo que Marx caracterizou como a degradante divisão social do trabalho em trabalho manual e trabalho intelectual, que “o estatuto, o modo da presença das coisas produzidas pelo homem se torna de fato dúplice: por um lado estão as coisas que entram na presença segundo o estatuto da estética, isto é, a obra de arte, e, por outro lado, aquela que vêm ao ser segundo o estatuto da técnica, isto é, os produtos em sentido estrito” (p. 105).

duchamp ready made

Ready-made, Marcel Duchamp, 1913.

Agamben identifica a originalidade como sendo o estatuto da obra de arte, aquilo que determina e caracteriza a obra. A originalidade da obra de arte não está ligada ao entendimento de uma obra única, singular e diferente das demais; “originalidade significa: proximidade com a origem”. Nesse sentido, enquanto a originalidade passa a ser o estatuto da obra de arte, o estatuto do produto da técnica será a reprodutibilidade. Esse é um tema que remete ao texto de Benjamin sobre A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Partindo desse contexto, o autor de O que é o contemporâneo aponta no surgimento do ready-made de Marcel Duchamp e na Pop-Art de Andy Wharol, “a essência alienada da obra de arte”. Duchamp, diz Agamben, “jogando criticamente com a existência de um dúplice estatuto da atividade criativa do homem, ele – ao menos no breve instante que dura o efeito do estranhamento – fez passar o objeto de um estatuto de reprodutibilidade e substitutibilidade técnica para aquele de autenticidade e unicidade estética” (p. 108)

Por outro lado, também a pop-art “surge a partir da perversão do dúplice estatuto da atividade produtiva, mas nela o fenômeno se apresenta, de algum modo invertido e se assemelha, antes, aquele reciprocal ready-made em que pensava Duchamp quando sugeria usar um Rembrandt como tábua de passar roupa. Enquanto o ready-made procede, de fato, da esfera do produto técnico à esfera da obra de arte, a pop-art se move, ao contrário, do estatuto estético ao do produto industrial” (p. 109) Desse modo, cabe lembrar de outra sentença proferida por outro pensador italiano, Umberto Eco, segundo o qual, da primeira metade do século XX até os anos 60, na esfera da arte não houve nada além do que o confronto entre a beleza da provocação e a beleza do consumo.

warhol

Campbell’s Soup, Andy Warhol, 1968.

Anúncios