Dois poemas de Apollinaire

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Noite estrelada – Van Gogh (1889)

 

A PONTE MIRABEAU

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

Nossos amores

Devo lembrar a cena

Vinha a alegria sempre após a pena

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

Mãos entre as mãos fiquemos face a face

Enquanto sob

A ponte dos braços passa

Dos eternos olhares a onda tão lassa

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

O amor se vai como essa água corrente

O amor se vai

Como a vida é lenta

E como a esperança é violenta

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

Passam os dias passam as semanas

Nem o tempo passado

Nem os amores voltam

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

 

LUAR

Lua melifluente aos lábios dos dementes

Os pomares e os burgos têm fome ingente

Os astros muito bem figuram as abelhas

Desse mel luminoso a pingar das parreiras

Pois eis que lentamente caindo do céu

Cada raio de lua é um raio de mel

Ora oculto concebo a tão doce aventura

Temo o dado de fogo dessa abelha Arctura

Que pôs em minhas mãos raios sem cabimento

E colheu mel lunar lá na rosa dos ventos

 

(Tradução: Mario Laranjeira)

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