Borges e o culto dos livros

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Jorge Luis Borges

Entrevista extraída do livro “Sobre a filosofia e outros diálogos – Borges & Osvaldo Ferrari” (Tradução: John O’Kuinghttons).

OSWALDO FERRARI – Um de seus ensaios, sr. Borges, que se chama “Sob o culto dos livros”, me faz lembrar títulos e autores que o senhor cita familiarmente, digamos.

JORGE LUIS BORGES – Não lembro absolutamente nada daquele artigo… mas, falo dos livros sagrados? Do fato de cada país escolher o seu?

O senhor menciona o primeiro, mas se refere também àqueles que falam contra os livros, a favor da língua oral; por exemplo, há um relato de Platão no qual se diz que a leitura excessiva faz com que cheguemos ao descuido da memória, e que dependamos dos símbolos.

Me parece que Schopenhauer disse que ler era pensar com um cérebro alheio, o que é a mesma ideia, não é? Bem, não é a mesma ideia, mas de qualquer forma, é contra os livros. Será que eu citei aquilo?

Não.

Talvez falasse sobre o tema de que cada país escolhe, prefere ser representado por um livro, e que esse livro costuma não ser parecido com o país. Por exemplo, entende-se que Shakespeare é a Inglaterra; no entanto, nenhuma das características habituais do inglês se encontra em Shakespeare, já que os ingleses costumam ser reservados, de poucas palavras, e Shakespeare flui como um grande rio, abunda em hipérboles, em metáforas, é absolutamente o contrário de um inglês. Ou, no caso de Goethe, temos os alemães, facilmente fanáticos, e Goethe vem a ser o contrário disso: um homem tolerante, um homem que, quando Napoleão invade a Alemanha, vai cumprimentá-lo. Goethe não se parece nada com um alemão. Agora, parece que, em geral acontece assim, não é?

Especialmente no caso dos clássicos.

Especialmente no caso dos clássicos, sim. Ou, por exemplo, a Espanha e Cervantes. Bem… a Espanha contemporânea de Cervantes é a Espanha das fogueiras do Santo Ofício, a Espanha fanática. E Cervantes, sendo espanhol, é um homem sorridente, o imaginamos tolerante; não tinha nada a ver. Seria como se cada país procurasse uma espécie de contraveneno no autor que escolhe. No caso da França, eles têm uma literatura tão rica que não escolheram uma pessoa, mas se Hugo for escolhido, é evidente que Hugo não se parece com a maioria dos franceses.

É claro.

E aqui, curiosamente, os militares aceitaram com entusiasmo a canonização de Martín Fierro, que era um desertor – um desertor que passa para o inimigo. No entanto, os militares argentinos veneram o Matín Fierro.

Quanto a seu culto pessoal pelos livros, sr. Borges, eu lembro entre seus prediletos As mil e uma noites, a Bíblia, e, entre muitas outras, a Enciclopédia Britânica.

É que eu penso que, para um homem ocioso e curioso, a enciclopédia pode ser o mais agradável dos gêneros literários. E, além disso, teria um pai ilustre, que seria Plínio: a História Natural de Plínio é uma enciclopédia. Ali você encontra notícias sobre as artes, sobre a história – não é apenas uma história natural no sentido que atualmente lhe damos- e sobre as lendas, e também sobre os mitos, já que quando ele fala de algum animal, por exemplo, não diz apenas tudo o que averiguou, mas tudo aquilo que a lenda diz: as propriedades mágicas que lhe eram atribuídas, nas quais, provavelmente, Plínio não acreditava. Mas, enfim, ele fez uma esplêndida enciclopédia, escrita, ao mesmo tempo, em um estilo barroco.

E particularmente em relação à Enciclopédia Britânica, o que encontrou ao longo do tempo?

Antes de mais nada, extensos artigos – atualmente as enciclopédias são feitas para consulta, de modo que contêm abundantes artigos muito breves. Por outro lado, a Enciclopédia Britânica era feita para a leitura, ou seja, era uma série de ensaios, ensaios de Macaulay, ensaios de Stevenson, ensaios de Swinburne, nas últimas edições, algum ensaio de Bernard Shaw também. Ensaios, por exemplo, de Bertrand Russell sobre Zenão de Eleia. Sem dúvida já lhe contei que eu costumava ir com meu pai à Biblioteca Nacional; eu era muito tímido – continuo sendo muito tímido -, não me atrevia a pedir livros, mas, nas prateleiras, havia obras de consulta, de onde eu pegava aleatoriamente, por exemplo, um volume da Enciclopédia Britânica. Um dia, tive muita sorte porque peguei o volume D-R; então, pude ler uma excelente biografia de Dryden, sobre quem Eliot escreveu um livro. Depois, um extenso artigo sobre os druidas e outro sobre os drusos do Líbano, que acreditam na transmigração das almas, por exemplo, e onde se fala dos drusos chineses. Bem, naquele dia eu tive muita sorte: Dryden, druidas e drusos, e tudo no mesmo volume, que era o D-R. Outros dias não foram tão afortunados; eu ia com meu pai… meu pai procurava livros de psicologia – ele era professor de psicologia -, mas eu costumava ler a Enciclopédia Britânica e depois lia Huckleberry Finn, de Mark Twain, na Biblioteca Nacional. E nunca teria imaginado que em um futuro muito improvável eu seria diretor da biblioteca; se alguém tivesse me dito isso, teria pensado que era uma brincadeira. No entanto, isso aconteceu, e quando fui diretor, lembrei daquele rapaz que ia com seu pai e pegava timidamente da prateleira algum volume da enciclopédia.

E foi diretor durante quase duas décadas, me parece.

Não sei as datas com precisão, porque eu fui indicado em 55, e não sei em que ano voltou Perón, porque, decorosamente, eu não podia continuar.

Em 73, dezoito anos na biblioteca.

Bom, não está mal, não é? Quem é o diretor agora?

Até recentemente foi Gregório Weinberg.

Ah, sim, me parece que renunciou, não é?

Renunciou, e ainda não sei quem o substitui.

Eu lembro que os subsídios que recebíamos eram magros, não é? E, talvez, agora também. Talvez Weinberg tenha renunciado por esse motivo.

Como sempre; então, tinham que se virar com o mínimo?

Bem, o Ministério da Educação foi sempre o mais desvalido, o mais desprotegido de todos. Talvez continue sendo.

A outra referência que o senhor faz nesse ensaio, sr. Borges, é a do oitavo livro da Odisséia, na qual se diz que Deus deu a desgraça aos homens para que tenham alguma coisa que cantar.

Sim, me parece que diz que tecem desventuras para que os homens das futuras gerações tenham algo para cantar, não é?

Sim.

Bem, isso já seria suficiente para demonstrar que a Odisséia é posterior à Ilíada, porque não imaginamos uma reflexão desse tipo na Ilíada.

Sim, porque Homero dá a ideia dos começos…

Sim, e, como disse Rubén Darío: não há dúvida de que Homero tinha seu Homero, já que a literatura sempre pressupõe um mestre, ou uma tradição. Pode-se dizer que a linguagem já é uma tradição, cada linguagem é uma tradição, cada linguagem oferece uma série de possibilidades e também de impossibilidades, ou de dificuldades. Eu não me lembro desse ensaio: “Sobre o culto dos livros”.

Está em Outras Inquisições.

Sem dúvida existe, já que não acredito que o senhor o invente para testar minha memória ou minha desmemória.

(Ri.) Existe, e é de 1951.

Ah, bom, nesse caso, tenho absoluto direito de tê-lo esquecido; seria muito triste ter ficado lembrando o ano de 1951.

Mas o senhor o fecha com aquela frase de Mallarmé.

Sim, que tudo conduz a um livro, não é?

Sim.

Sim, porque eu pego esses versos de Homero e digo que os dois dizem a mesma coisa. Mas Homero pensava ainda no cantar, pensava na poesia que flui; por outro lado, Mallarmé pensava em um livro, e, de alguma forma, em um livro sagrado. Mas, na verdade, é a mesma coisa; tudo para em um livro, ou tudo nos leva a um livro.

Ou seja, em última instância, o acontecer é literário. Mas um livro que o senhor recomenda sempre, até para quem não se dedica à literatura, é a Bíblia.

Bem, porque a Bíblia é uma biblioteca. Agora, que estranha essa ideia dos hebreus de atribuírem obras tão díspares como o Gênesis, O cântico dos cânticos, o livro de Jó, o Eclesiastes, de atribuírem todas essas obras em um só autor: o espírito. E é evidente que correspondem a obras muito diferentes e a regiões muito diferentes – especialmente a séculos diferentes, momentos diversos do pensamento.

Bom, deve ter relação com aquela outra frase da Bíblia: “O espírito sopra onde quer”.

Sim, está no Evangelho de João, me parece, nos primeiros versículos.

Sim, que o senhor comparou, em outra das nossas conversas, com aquela frase de Whistler: “Art happens” (a arte acontece).

Eu não sabia disso, mas é claro, é a mesma ideia, “a arte acontece”, “o espírito sopra onde quer”. Ou seja, é o contrário, bem, da sociologia da poesia, não é? Do fato de se estudar a poesia socialmente, de se estudar as condições que produziram a poesia… Isso me faz lembrar Heine, que dizia que o historiador é o profeta retrospectivo (ri), aquele que profetiza o que já aconteceu. Seria a mesma ideia.

É claro, um poeta às avessas.

Sim, que profetiza o que já aconteceu, e aquilo que já sabe que aconteceu, não é? “O profeta que olha para trás”, o historiador.

De quem é essa frase sr. Borges?

É de Heine, seria a arte de adivinhar o passado, a história, não é?

Sim, a arte do historiador.

Sim, quando algo já aconteceu, se demonstra que era inevitável que acontecesse. Mas, o interessante seria aplicar isso ao futuro (Ambos riem).

Isso é mais difícil do que adivinhar o passado, é mais difícil ser profeta que ser historiador.

Bom, as histórias da literatura são feitas um pouco dessa forma; depois se demonstra a influência do ambiente, e, depois, como, logicamente, a obra tem que resultar desse autor. Mas isso não se aplica ao futuro, ou seja, não recebemos os nomes e a obra dos escritores do século XXI, não é?

Mas nas histórias da literatura não se deve exigir tanta propriedade como na história propriamente dita; nelas, ainda se permite ser literário.

Sim, tomara.

Outro livro familiar na sua biblioteca é, me parece, As mil e uma noites.

Sim, e meu desconhecimento do árabe me permitiu lê-lo em muitas traduções, e, sem dúvida já devo tê-lo dito, das que li, talvez a mais agradável seja a de Cansinos Assens, exceto se a mais agradável for a primeira de Antoine Galland, que revelou esse livro ao Ocidente.

No seu ensaio, há outra ideia que me interessou; nele se diz que, para os antigos, a palavra escrita era somente um sucedâneo da palavra oral.

Sim, creio que Platão diz que os livros parecem coisas vivas, mas com eles acontece o mesmo que acontece com uma efígie: que não responde quando falamos com ela.

Sim, claro.

Então, precisamente para que livro o falasse, ele inventou o diálogo, que se antecipa às perguntas do leitor e que permite uma ramificação do pensamento e uma explicação.

Sim, isso em relação à língua oral, mas o senhor acrescenta que lá pelo século IV começa o predomínio da língua escrita sobre a oral.

Ah, e cito aquela história de uma pessoa que se surpreende com outra que está lendo em voz baixa.

Sim, Santo Agostinho ficando surpreendido com Santo Antônio, me parece.

Sim, ele está surpreso porque você vê aquilo que nunca tinha visto: uma pessoa lendo em voz baixa. Sim, porque os livros eram manuscritos. O senhor deve ter comprovado muitas vezes isso, quando recebemos uma carta, e se esta carta não está escrita com uma caligrafia que não é, digamos, excelente, a lemos em voz alta para tentar entender, não é?

Sim.

Bom, e se os livros eram manuscritos, era natural que fossem lidos em voz alta. Mas, além dessa informação, creio que, se estivermos lendo silenciosamente e chegarmos a uma passagem eloquente, essa passagem nos comove, e tendemos a lê-la em voz alta. Eu penso que uma passagem bem escrita obriga a uma leitura em voz alta. No caso dos versos, isso é evidente, porque a música do verso exige que, pelo menos, seja murmurada; mas de qualquer forma, tem que ser ouvida. Por outro lado, se você está lendo algo puramente lógico, puramente abstrato, não; nesse caso, você pode prescindir da leitura em voz alta. Mas não pode prescindir dessa leitura quando é um poema.

Faz parte dessa, pelo menos mínima, exaltação que exige a poesia.

Sim, mas é claro que isso agora está se perdendo, já que as pessoas estão perdendo o ouvido. Infelizmente, agora todos são capazes de leitura em voz baixa, porque não escutam o que leem, passam diretamente para o sentido do texto.

Os dois reis e os dois labirintos

Contam os homens dignos de fé (mas Alá sabe mais) que nos primeiros tempos houve um rei das ilhas da Babilônia que reuniu seus arquitetos e magos e os mandou construir um labirinto tão desconcertante e sutil, que os varões mais prudentes não se aventuraram a entrar, e os que entravam se perdiam. A obra era um escândalo, porque a confusão e a maravilha são operações próprias de Deus, e não dos homens. Com o passar do tempo veio à sua corte um rei dos árabes, e o rei da Babilônia (para zombar da simplicidade do hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde perambulou ofendido e confuso até o cair da tarde. Então implorou socorro divino e deu com a porta. Seus lábios não proferiram queixa alguma, mas disse ao rei da Babilônia que ele na Arábia também tinha um labirinto que, se Deus fosse servido, lhe daria a conhecer algum dia. Depois voltou à Arábia, reuniu seus capitães e alcaides e devastou os reinos da Babilônia com tamanha boa sorte que arrasou seus castelos, dizimou sua gente e aprisionou o próprio rei. Amarrou-o em cima de um camelo veloz e o levou para o deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: “Ó rei do tempo e substância e cifra do século!, na Babilônia desejaste que eu me perdesse num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; o Poderoso teve por bem que eu agora te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros para impedir a passagem”.
Logo depois, desamarrou-o e o abandonou no meio do deserto, onde ele morreu de fome e sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

(Jorge Luis Borges – O Aleph)

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