Rufando o Batuque de Bruno de Menezes

bruno de menezes

Bruno de Menezes

Poeta negro, morador do bairro do Jurunas em Belém, Bruno de Menezes (1883-1963), apesar de ser um autor pouco difundido nacionalmente, possui importância significativa para o desenvolvimento da poesia moderna no norte do Brasil. Um dos pioneiros a produzir poesia simbolista na Amazônia, seu livro “Batuque”, lançado em 1931, canta os costumes da presença africana na Amazônia. Sua poesia é composta pelas imagens das águas barrentas dos rios de nossa região, pelo sensualismo dos “corpos lisos lustrosos”, pelo cheiro das ervas, pelo gosto da cana, etc.

O uso dos rituais africanos acompanhados e embalados pelo batuque dos negros também é parte do cenário da poesia de Bruno de Menezes.  Publico aqui dois poemas extraídos do livro “Batuque” que são expressões das angústias, da opressão e dos modos de vida que os negros criaram para “aguentar” suas jornadas extenuantes de trabalhos forçados em terras estranhas.

 

Cachaça

Ó negro arrancado ao torrão congolense!

 

Tocaste urucungo nos brigues corsários,

Dançaste de tanga batuques e jongos

À força de peia

Fingindo alegria!

Foste quem plantou partidas de cana

Na terra da América,

Que o engenho ainda hoje mastiga rangendo.

 

Surrado vendido

Mas tendo na alma

Seu santo Orixá.

Sem nunca esqueceres a selva do Congo,

Os verdes coqueiros os teus bananais,

Fizeste o açúcar o mel a cachaça

Que esquenta teu sangue,

Que te dá coragem.

 

Cachaça é a tua vida,

Tua festa teu mundo,

Saúde remédio até valentia.

Coleira de ferro,

“bacalhau”, palmatória,

Tu nada sentias tomando da “pura”.

 

“Martin Pescador” é teu camarada

Porque bebe “gole” sem nunca tombar.

O teu Pai de Santo

Tua “mãe de terreiro”

O teu “encantado” o teu “curador”

Só fazem “trabalho” cuspindo a “chamada”…

 

Cachaça é teu céu

Onde tem assento

Ogum Omolu Oxóssi Oxum.

Toda tua crença de alma sofrida

Tu sentes no peito

Louvando a “caninha”.

 

“Tambores de Mina” Batuques Macumba,

Se o teu “assistido” te faz seu “cavalo”,

Retorce os membros

Relinchas fungando,

Escarvas o chão

Mastigas cigarros

Sem nada sentir,

Porque a “branquinha” teu corpo fechou.

 

Cachaça nascida do olho da cana,

Que faz com que o negro nem pense em morrer,

Que põe nas mãos dele cuícas e surdos

Na hora dos ranchos dos sambas e choros.

 

Que sai do alambique cheirando a restilo

Já pronta pra tudo

Que a gente quiser.

Se não fosse o negro “cachaça marvada”,

Como é que virias sem fim do mundo?

 

Só tu é que animas qualquer putirum,

Só tu dás consolo

Aos que não te negam.

Que fazes aos olhos ficarem tristonhos,

As bocas cantarem toadas monótonas

Na dança dos pretos cheirando a suor.

 

Que fazes os braços ficarem mais ágeis

Na estiva no rodo empurrando carrinho,

Dando pão de fogo pra boca das fornalhas.

 

Senhora de Engenho Senhora Cachaça

Liberta o teu negro

Que sofre o feitiço

Que tu lhe puseste

De gostar de ti!

 

batuque

Ilustração de Raymundo Martins Vianna

Liamba

Quem descobriu que no teu fumo havia sono?

 

Na maloca na senzala

Na trabalheira do eito,

Como agora nos guindastes nos porões nas usinas,

Quem teria ensinado que o teu fumo faz dormir?

 

Um cigarro da tua erva chama a “linha” do pajé…

 

Amoleces o corpo cansado

Do negro que deitou moído

E te fuma e sonha longe

Beiço mole babando…

 

O coitado do africano,

Da caboclada sujeita,

Na entorpecência da tua fumaça

Não queria mais acordar…

 

Liamba!

Teu fumo foi fuga do cativeiro,

Trazendo atabaques rufando pras danças,

Na magia guerreira do reino de Exu.

 

Liamba!

Na tontura gostosa na quebreira vadia

Que sentem os teus “defumados”

Estaria toda a “força” dos Santos Protetores

Que vieram da outra banda do mar?

 

Liamba! Liamba!

Dá sempre o teu sonho bom,

Embriaga o teu homem pobre,

Porque quando ele te fuma

É com vontade de sonhar…