Camus, o centenário de um estrangeiro

camus e malraux

Camus à esquerda e Malraux vestido com o uniforme do exército francês.

       Albert Camus nasceu no dia 7 de novembro de 1913, na cidade de Mondovi na Argélia, há 101 anos. Sua terra natal, a Argélia colonial, será parte presente em sua vida e sua obra. O clima e a geografia argelina são partes de sua ficção. Oriundo de uma família humilde, seu pai, Lucien Camus, trabalhava na colheita de uvas para produção de vinhos. Sua mãe, Catherine Hélène Sintès, era analfabeta, tinha problemas de audição e trabalhava como empregada doméstica. Com todas as adversidades, Camus manteve seus estudos e acabou conquistando o doutoramento em filosofia com uma tese sobre Santo Agostinho. Em 1939 muda-se para Paris e na capital francesa segue dando continuidade a atividade jornalística que já vinha exercendo na Argélia.

        No momento em que Camus chegou à França o país estava dividido. Era véspera da Segunda Guerra Mundial, da ocupação nazista e do governo colaboracionista de Vichy, representados pelo marechal Phillippe Pétain e pelo primeiro ministro Pierre Laval. Nesse ambiente, muitos escritores já estão pensando na ideia da resistência ao invasor alemão e ao governo que colabora com o inimigo. Alguns escritores irão se agrupar em torno do jornal “Combat”, no qual Camus obterá notoriedade através dos editoriais que escrevia para o então jornal clandestino.

        Mesmo com seu destacado papel como jornalista e editor do principal jornal da esquerda não comunista no período do pós-guerra, foi como romancista que o escritor argelino conquistou uma ampla visibilidade. Com a publicação de “O estrangeiro” em 1942, o livro mais vendido da editora francesa Gallimard, Albert Camus se torna uma celebridade festejada pelos círculos literários de Paris. O responsável por introduzir Camus nesse meio foi Sartre, que fez uma elogiosa resenha do romance de estreia de Camus. Nas palavras de Sartre, “o mundo é um caos, uma equivalência divina que nasce da anarquia; não há amanhã, já que morremos. Num universo subitamente privado de ilusões e luzes o homem se sente um estrangeiro” (ARONSON, 2004, p. 30). Camus por sua vez, já conhecia Sartre através de seu primeiro romance “A náusea”, publicado em 1938, o qual Camus havia feito uma resenha. Desde então os dois manterão uma mútua admiração. Camus, no entanto, nunca se definiu como filósofo nem como existencialista. A amizade entre os dois principais intelectuais franceses do pós-guerra terminou mal quando Camus escreveu o livro “O homem revoltado” em 1952, onde tece críticas ao stalinismo. No auge da Guerra Fria, a polarização que exigia a tomada de posição dos intelectuais fez com que Sartre se aproximasse dos comunistas. A crítica ao stalinismo e a defesa do pacifismo feita por Camus acabou se transformando em uma obsessão anticomunista. Les Temps Modernes, a revista de Sartre, passou oito meses para fazer uma resenha do livro de Camus, que ficou furioso. Sartre achava que Camus não havia lido Marx e Engels, como conta Ronald Aronson em “Camus e Sartre”. Nas primeiras linhas do artigo em que rompe publicamente com Camus, Sartre diz: “Meu caro Camus: Nossa amizade não era fácil, mas sentirei falta dela” (ARONSON, 2004, p. 11).

        Em seu romance de estreia, Camus conta a história de Mersault, um homem que vive uma vida tranquila em Argel e começa narrando à morte de sua mãe, de maneira vaga: “Hoje, minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem” (CAMUS, 1972, p. 11).

        Ao longo da narrativa, Mersault se envolve em uma briga com árabes. Durante um passeio pela praia, acaba disparando contra um dos árabes que havia lhe seguido pela praia. Uma morte aparentemente banal. No seu julgamento, Mersault sente-se intimidado pelas insinuações que o juiz levanta no tribunal; a impressão é que o anti-herói do romance de Camus está sendo julgado não pelo seu crime, mas pelo seu comportamento, pelo fato de ter colocado sua pobre mãe em um asilo, por sua frieza em não chorar a morte desta durante todo o longo percurso de seu enterro, por ter ido ao cinema assistir uma comédia de Fernandel, no dia após o enterro de sua mãe, etc. Esse clima do julgamento de Mersault retrata um tema muito caro ao escritor argelino: o tema do absurdo.

       Assim como em Kafka, Camus retomará esse tema para demonstrar a situação do homem diante do absurdo da existência. Seu romance de estreia foi adaptado em 1967 para o cinema em um belo filme dirigido pelo cineasta italiano Luchino Visconti (1906-1976) com os atores Marcello Mastroianni e Anna Karina no elenco.

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Camus à esquerda durante visita ao Rio de Janeiro.

        Em 1949 Camus esteve no Brasil e foi acompanhado por Oswald de Andrade durante sua passagem por São Paulo. O escritor também visitou Porto Alegre e o Rio de Janeiro. Cláudio Abramo relata em crônica publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 5 de agosto de 1949, as perguntas feitas ao escritor durante uma coletiva de imprensa: “Fala-se de política e dos intelectuais franceses empenhados em política: ‘André Malraux é degaulista. Todo mundo o sabe e, aliás, ele tem a coragem de suas opiniões. Não as compartilho, mas isso não me impede de dizer que Malraux, como escritor, é o precursor, muitas vezes admirável, de uma grande parte da literatura francesa contemporânea. Todos nós lhe devemos alguma coisa” (ABRAMO, 2006, p. 55).

       Em matéria publicado no prosa do jornal O Globo em 2 de novembro de 2013, o jornalista Fernando Eichenberg escreve a despeito de seu centenário: “O autor de ‘O estrangeiro’ e ‘A peste’, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1957, é um dos campeões de vendas de livros na França e tema onipresente nos programas escolares do país. Celebrado também no exterior, o Camus que rejeitava o rótulo de moderno e o status de filósofo é hoje definido como um pensador ‘contemporâneo’ e ‘universal’, constantemente solicitado como fonte na busca de sentido para um mundo em crise de ideologias. Neste início de século XXI, seu conceito de revolta, considerado por muitos como a chave de seu pensamento, conecta-se com ideias dos movimentos dos Indignados e Ocuppy Wall Street (deflagrados na Espanha e nos Estados Unidos, respectivamente), de manifestantes nas praças do Egito ou da Turquia e de jovens que têm saído às ruas em protesto no Brasil”.

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Imagem do carro após o acidente que vitimou Camus.

        Homem de saúde frágil, tuberculoso e fumante inveterado, Albert Camus morreu em 1960. Um acidente de carro o vitimou quando tinha 46 anos. Deixou uma obra que abrange contos, romances, peças de teatro, crítica literária e ensaios. Cinquenta e quatro anos após sua morte, o estrangeiro Camus não deixou de exercer sua influência de homem revoltado.

 

Veja mais: O filme que foi baseado no romance ‘O Estrangeiro’ está disponível na internet para quem quiser conferir. A adaptação de 1967 foi dirigida por Luchino Visconti (1906-1976).

*ABRAMO, Cláudio. A regra do jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

*ARONSON, Ronald. Camus e Sartre: O polêmico fim de uma amizade no pós-guerra. Tradução de Caio Liudvik. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

*CAMUS, Albert. O estrangeiro. Tradução de Antônio Quadros. São Paulo: Abril, 1972.