Trinta Anos Esta Noite – Feu Follet

30-anos-essa-noite

Maurice Ronet e Léna Skerla (Le Feu Follet, Louis Malle, 1963)

este é o mergulho na densidade do mundo

na dualidade da morte

este é o filme ao qual, há tanto tempo, eu devia um poema

o filme no qual foram ditas as palavras mais terríveis:

“não consigo tocar”

“de tanto querer ser amado, achei que amava”

“coragem não é dormir sobre o túmulo, é entrar nele”

o filme do qual só consigo falar em um modo solene, escrevendo

com a voz embargada (só a emoção cria) para relatar

que, toda vez, a janela do apartamento abria-se para

um abismo

como é que pode? como isso é possível?

isto:

a vida resumida à opaca bala de 9 milímetros,

um espelho, umas fotos coladas, algumas

cartas, a maleta que é fechada, a

inspiração que se extingue – e cada noite

igual a todas as noites

nem vagar ao acaso serve para qualquer coisa,

pois os edifícios são surdos

assim é a vida condensada

dos fantasmas sublimes

CINEMA: seu verdadeiro nome é confissão

(Cláudio Willer)

A morte dos enfermos: Sartre e Haneke

No filme Amor, do diretor austríaco Michael Haneke, durante a cena em que George (Jean-Louis Trintignant) tenta forçar Anne (Emmanuelle Riva) a beber água, existe uma semelhança em relação à cisma que surge durante o diálogo entre Charles Darbédat e sua filha Ève, no conto O Quarto, de Jean-Paul Sartre. Quando Anne se recusa a engolir a água que fora forçada a beber e termina por cuspi-la, numa súbita revolta contra a imposição do marido, este acaba reagindo dando-lhe um tapa no rosto. No conto de Sartre, no diálogo entre pai e filha, quando Charles tenta convencer a filha a internar seu marido, que vive preso no quarto do apartamento do casal, isolado do mundo por problemas mentais cada vez mais agudos, Ève recusa a proposta do pai, insistindo em manter o marido no apartamento, alegando o seu amor por ele. É nessa passagem que o senhor Darbédat se irrita, reagindo às palavras da filha.

“ – Eu o amo do jeito que está – disse Ève rapidamente e meio aborrecida.

– Não é verdade – retrucou o sr. Darbédat energicamente. – Não é verdade: você não o ama, não pode amá-lo. Não se pode ter tais sentimentos senão por um ser normal e são. Por Pierre, você tem compaixão, não há dúvida, e também não há dúvida de que você se lembra dos três anos de felicidade que lhe deve, mas não me diga que o ama, eu não poderia acreditar”. (p. 47)

Evidentemente, não há agressão física na passagem acima, mas no diálogo entre o senhor Darbédat e sua filha Ève, as palavras ditas pelo pai são agressões verbais, que, como na cena entre George e Anne, são provocados pela recusa da imposição de um ser ao outro, do ser “saudável” ao ser enfermo, em ambos os casos.

Amor

No filme de Haneke, a filha do casal George e Anne, Eva (Isabelle Huppert), possui o nome parecido com a filha do casal Darbédat, Ève. No conto de Sartre, Ève se recusa a internar seu marido Pierre, enquanto Eva, no filme de Haneke, tenta convencer o pai a internar sua mãe. Em determinada passagem, após discutir com a filha, sem ter conseguido convencê-la a internar o marido, o pensamento de Charles Darbédat mostra o caráter imperioso de seu desejo, que pretende a qualquer custo a internação de seu genro.

“Beijou-a precipitadamente e saiu. ‘Seria preciso’, pensava descendo a escada, ‘mandar dois brutamontes para levar à força esse coitado, metê-lo debaixo de uma boa ducha sem lhe pedir licença”. (p. 49)

*

Os temas abordados tanto no conto de Sartre quanto no filme de Haneke, apresentam um desfecho que em ambas as obras, termina com o enfermo morto por seu próprio parceiro, ou quase isso. No conto O Quarto, a morte de Pierre não se materializa, é apenas enunciada por Ève. No final de Amor, George acaba cometendo um ato inesperado. Sua atitude repentina, asfixiando Anne com o travesseiro, contrasta com os cuidados habituais que ele tinha com a saúde da mulher. Parte desses cuidados foi a promessa que fizera de não mandá-la para uma clínica ou hospital, como desejava sua filha Eva, mas que ela iria permanecer ali, sendo tratada e cuidada ao seu lado. O clímax do filme também coincide com o final do conto de Sartre, onde Ève, sabendo que seu marido entrará numa alienação completa em menos de um ano, permanece recusando os conselhos de seu pai e do Dr. Franchot e mantém-se inabalável em sua postura de manter Pierre no quarto, longe de um manicômio. Contudo, assim como a inesperada atitude de George com Anne, é não menos surpreendente a atitude de Ève com Pierre, no final do conto.

“Isso vai começar antes de um ano, foi o que Franchot me disse’. Mas a angústia não a deixava; um ano; um inverno, uma primavera, um verão, o começo de outro outono. Um dia aqueles traços se deformariam; ele deixaria pender o queixo e entreabriria os olhos lacrimejantes. Ève inclinou-se sobre a mão de Pierre e nela pousou seus lábios. ‘Eu o matarei antes que aconteça”. (p. 64)