Cortázar continua a nos encantar

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Julio Cortázar em Paris

Essa semana a imprensa internacional deu merecido destaque para a data comemorativa do centenário de um dos mais importantes escritores da América Latina, Julio Cortázar. Em Buenos Aires, exposições e palestras discutem o legado deixado pelo autor de As armas secretas. Na França, país onde o escritor viveu e morreu, Julio Cortázar é visto como um dos principais escritores do século XX. Conhecido por sua maestria no desenvolvimento de narrativas curtas, Cortázar também elaborou um estilo inovador em outro gênero literário, o romance.

Sua obra mais conhecida, a Rayuela, publicada em 1963 e traduzida para o português com o título de Jogo da amarelinha, é exemplo de experimentação e inovação da prosa latina. No final da década de 50 e início dos anos 60, junto com o peruano Mario Vargas Llosa, o colombiano Gabriel García Márquez e os brasileiros João Guimarães Rosa e Clarice Lispector, Cortázar figurou entre os autores que despontavam na cena literária mundial através de um movimento que ficou conhecido como o “Boom” da literatura latino-americana.

O enredo do Jogo da amarelinha (se é que podemos dizer que ele possui um único enredo) é o encontro (ou desencontro?) de Maga e Horácio Oliveira pelas ruas de Paris, onde o leitor segue as andanças do casal pela Pont des Arts, pela Place de la  Concorde, pelo Quartier Latin,  pelo Parc Montsouris e outros pontos da cidade que Cortázar conhecia bem, desde quando trabalhava como tradutor da UNESCO em Paris.  Entre as caminhadas do casal por hotéis sujos e quartos abafados, o leitor também verá associações arbitrárias e situações bastante curiosas, como no final do primeiro capítulo em que Horácio está em um restaurante acompanhado de dois amigos e ao perceber que um torrão de açúcar caiu debaixo de uma das mesas, começa uma situação cômica:

“Deixei cair um torrão de açúcar, que foi parar embaixo de uma mesa que se encontrava bastante longe da nossa. A primeira coisa que me chamou atenção foi a forma como esse torrão se afastou da nossa mesa, porque em geral os torrões de açúcar ficam quietos logo que tocam o chão, por razões paralelepipedais evidentes. Todavia, este comportou-se como se fosse uma bola de  naftalina, o que aumentou minha apreensão, e cheguei a pensar que na verdade alguém o arrancara da minha mão” (CORTÁZAR, 1985, p. 25).

Mais adiante, Horácio desenvolve uma verdadeira saga hilariante para recuperar o pequeno torrão de açúcar:

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Primeira edição da Rayuela (1963)

“O empregado curvou-se do lado da mesa, então éramos dois quadrúpedes movendo-se entre os sapatos-galinhas, que lá em cima começavam a cacarejar como loucas. O garçom continuava convencido de que se tratava de uma Parker ou de um luís de ouro. Assim, quando estávamos bem debaixo da mesa, numa espécie de grande intimidade e penumbra, e ele me perguntou do que se tratava e eu lhe respondi,  ficou com uma cara que mais parecia ter sido pulverizada com um fixador, mas eu nem tinha vontade rir, pois o medo era tanto que fiquei com um nó na boca do estômago. Depois, senti-me de tal maneira desesperado (o garçom já se tinha levantado, furioso) que comecei a levantar os sapatos das mulheres e a tentar averiguar se, por acaso, o torrão de açúcar não teria ficado escondido no arco formado entre os saltos e as solas. As galinhas cacarejavam cada vez mais, e os galos gerentes começavam a bater-me nas costas. Ouvi as gargalhadas de Ronald e Etienne, enquanto eu ia de uma mesa para outra, até encontrar o açúcar, escondido atrás de um pé de mesa Segundo Império. Todo o mundo ficara furioso, até eu mesmo, com o açúcar metido na mão e sentindo como o torrão se misturava ao suor da pele, como asquerosamente se desfazia, numa espécie de vingança pegajosa, esse tipo de episódio cotidiano” (CORTÁZAR, 1985, p. 26).

O Jogo da amarelinha pode ser considerado um romance inovador em muitos aspectos: um deles é o estilo fragmentado da narrativa, que dividida em dois tomos, traça um recorte que separa a vida de Horácio Oliveira em Paris (no primeiro livro) e posteriormente o seu regresso à capital argentina, após ser extraditado por ser flagrado fazendo sexo com uma prostituta debaixo de uma ponte. De volta a Buenos Aires, acompanhamos a vida de Horácio Oliveira ao lado de seu amigo Traveler e da esposa de seu amigo, Talita.

Obra de vanguarda que acabou se transformando em best-seller, o Jogo da amarelinha pode ser visto também como um livro aberto, onde o leitor tem a possibilidade de “desmontar” a obra, escolhendo à sua maneira os capítulos que serão lidos. No início do romance o autor adverte para esse detalhe:

“À sua maneira, este livro é muitos livros, mas é, sobretudo, dois livros. O leitor fica convidado a escolher uma das seguintes possibilidades: o primeiro livro pode ser lido na forma corrente e termina no capítulo 56, ao término do qual aparecem três vistosas estrelinhas que equivalem à palavra ‘FIM’. Assim, o leitor prescindirá sem remorsos do que virá depois” (CORTÁZAR, 1985, p. 11).

Outra característica do romance de Cortázar é que o enredo não é o foco principal da narrativa; o humor, a ironia e o sarcasmo estão presentes do começo ao fim do livro; a ausência da descrição dos personagens ao estilo dos romances do século XIX, também é suplantada pelo escritor argentino. O estilo psicológico dos personagens de Rayuela se aproxima mais do fluxo de consciência de Virginia Woolf do que das descrições de personagens feitas nos romances de Balzac, por exemplo. As experimentações linguísticas de Cortázar se aproximam da linguagem inovadora de Ulysses, de James Joyce. Nesse sentido, dentro dessas características a obra de Cortázar pode ser enquadrada em outro estilo literário surgido na década de 50 na França, o Nouveau Roman.

        As ideias defendidas por escritores que desenvolveram obras ao estilo do Nouveau Roman é tentar tirar o foco do enredo, das ideias dos personagens, da ação na narrativa. Assim são as obras de autores como Marguerite Duras e Alain Robbe-Grillet, que também produziram roteiros para o cinema, dentre eles, alguns filmes inovadores como Hiroshima mon amour (1959) e Ano passado em Marienbad (1961), ambos dirigidos pelo cineasta Alain Resnais. Não é à toa que a Rayuela possui diversas passagens em que as experimentações linguísticas são evidentes, sobretudo a tentativa de suplantar a cronologia do romance, traçando várias descrições simultaneamente, como na linguagem cinematográfica.

Cortázar é o responsável por essa polifonia que surge entre os diálogos e reflexões metafísicas dos diversos personagens do romance. Entre os diálogos absurdos de Maga e Horácio, entre a preocupação da situação precária de Rocamadour e dos encontros regados à vodka e a jazz do Clube da Serpente, é possível encontrar diálogos ricos onde o autor acrescenta toda sua paixão pelo jazz (através das explicações jazzísticas de Ronald), a concepção de arte e pintura de Etienne, bem como uma profusão de citações de artistas do século XX: não é raro vermos alguma descrição da obra do pintor Paul Klee ou de Max Ernst; do mesmo modo que temos reflexões e “viagens” na descrição da música de Duke Ellington, Ma Rainey, Bessie Smith e John Coltrane, para citar alguns.

Jogo da amarelinha é isso tudo e muito mais: um livro inovador que Cortázar gostava de associar aos jovens. Em 2009, vinte e cinco anos após a morte do autor de Histórias de cronópios e de famas, a editora Civilização Brasileira publicou um livro inédito do escritor argentino. Papéis inesperados é uma coletânea que possui ensaios, contos desconhecidos, artigos sobre arte e literatura, crônicas de viagem, etc. Dentre esses ensaios, um especial dedicado ao jogo da amarelinha, o escritor afirma:

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O escritor Julio Cortázar

“Dez anos depois, enquanto eu me distancio pouco a pouco de O jogo da amarelinha, uma infinidade de rapazes aparentemente chamados a estar longe dele se aproximam do risco de seus quadrados de giz e jogam a pedra em direção ao Céu. E esse Céu, e isto é o que nos une, eles e eu chamamos de revolução” (CORTÁZAR, 2010, p. 174).

Essa afirmação deve ser entendida dentro do contexto da visão política de Julio Cortázar. Escritor rebelde, Cortázar esteve ao lado dos estudantes franceses durante o Maio de 68; dedicou parte de seus direitos autorais ao movimento sandinista de libertação nacional da Nicarágua e em suas últimas entrevistas, só aceitava concedê-las com a condição de poder defender abertamente a causa sandinista.

Para finalizar, deixo um capítulo curto do primeiro livro do Jogo da amarelinha. Trata-se do capítulo 7 e mostra com traços surrealistas as inovações linguísticas pretendidas por Cortázar, sem esquecer da preocupação estética das imagens.

CAPÍTULO 7

        Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

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