Sobre Quem Matou Roland Barthes?

laurent-binet

Laurent Binet

Na tarde de 25 de fevereiro de 1980, após sair de um almoço com o futuro presidente da França, François Miterrand, o filósofo, crítico literário e semiólogo francês Roland Barthes (1915 – 1980) é atropelado por uma caminhonete de lavanderia quando atravessava a rue des Écoles, em Paris. Esse é o ponto de partida de La Septième Fonction du Langage, romance de Laurent Binet lançado em 2015 na França e traduzido no Brasil no ano passado com o título de Quem matou Roland Barthes? Utilizando o atropelamento que vitimou o autor de Fragmentos de um discurso amoroso como mote da narrativa, Laurent Binet sustenta ao longo de seu “thriller filosófico” que o acidente de Barthes não fora por acaso, mas premeditado e intencional. O motivo do assassinato seria um documento que Barthes possuía no momento do atropelamento, no qual consta a descoberta feita por Jakobson, da sétima função da linguagem. Em Linguística e Comunicação, Roman Jakobson (1896 – 1982) definiu as funções da linguagem nas seguintes categorias: função referencial, função emotiva, função conativa, função fática, função metalinguística e função poética. Assim, a descoberta de uma nova função “mágica ou encantatória”, que teria capacidade de convencer e agir diretamente sobre as pessoas, independente do contexto ou ocasião, colocava Barthes na mira de muitos interesses, entre os quais estavam espiões soviéticos, búlgaros e japoneses, arrivistas intelectuais, políticos ambiciosos, etc…

Roland Barthes, Philippe Sollers, Stanislas Ivankov

Roland Barthes e Philippe Sollers, 1972.

O romance se situa no estilo policial, com uso de pistas, suspeitos, interrogatórios,  intrigas e desfechos. Os protagonistas são o delegado Jacques Bayard (um anti-intelectual conservador que remete ao delegado Cabeção do filme O Bandido da Luz Vermelha) encarregado de investigar a morte de Roland Barthes, e o jovem professor Simon Herzog, que auxilia Bayard no meio acadêmico e o orienta pelo emaranhado de conceitos da semiologia e da filosofia. O enredo estruturado em cinco partes e 99 capítulos, percorre em cada parte, uma geografia: Paris, Bolonha, Ithaca, Veneza e novamente Paris. O tempo do romance é a década de 80, a França é governada por Giscard d’Estaing, que determina as investigações sobre a morte de Barthes com o objetivo de elucidar o caso e se apossar do valioso documento, que sumiu no momento do atropelamento. Entre o vasto universo de personagens, Binnet utiliza figuras como Foucault, Deleuze, Judith Butler, Derrida, Umberto Eco, Julia Kristeva, Althusser, Sartre, Philippe Sollers, Chomsky, sem, no entanto, deixar de satirizar e zombar muitos desses personagens e do meio acadêmico pelo qual transitam. Dessa forma, o autor consegue construir uma narrativa densa, de caráter “filosófico”, ao mesmo tempo atravessada por uma prosa divertida e burlesca. A própria dicotomia criada pelos estereótipos do delegado “brutamontes reacionário” com o professor magricela “rato de biblioteca”, atesta essa impressão. Na passagem abaixo, vemos o momento em que Bayard chega na universidade de Vincennes para recrutar Simon para a “operação”:

“Bayard, que se lembra de seus longínquos anos de direito em Assas, descobre um lugar totalmente pitoresco e distante: para ter acesso às salas de aula, deve atravessar um tipo de mercado, povoado de africanos, pular por cima dos drogados comatosos caídos no chão, passar diante de um tanque sem água e repleto de detritos, margear as paredes descascadas cobertas de cartazes e grafites nos quais pode ler: ‘Professores, estudantes, reitores, pessoal administrativo: morram, seus putos!’; ‘Não ao fechamento da feira de alimentos!’; ‘Não à mudança de Vincennes para Nogent’; ‘Não à mudança de Vincennes para Marne-la-Vallée’; ‘Não à mudança de Vincennes pra Savigny-sur-Orge’; ‘Não à mudança de Vincennes para Saint-Denis’; ‘Viva a revolução proletária’; ‘Viva a revolução iraniana’; ‘Maoistas = fascistas’; ‘Trotskistas = estalinistas’; ‘Lacan = tira’; ‘Badiou = nazista’; ‘Althusser = assassino’; ‘Deleuze = fode a tua mãe’; ‘Cixous = fode comigo’; ‘Foucault = puta de Khomeiny’; ‘Barthes = social-traidor pró chinês’; ‘Calliclès = SS’; ‘É proibido proibir de proibir’; ‘União das esquerdas = no teu cu’; ‘Vem pra minha casa, a gente vai ler o capital! Assinado: Balibar’… Estudantes fedendo a maconha o abordam com agressividade, passando-lhe toneladas de panfletos: ‘Camarada, sabe o que está acontecendo no Chile? Em El Salvador? Você se sente afetado com o que se passa na Argentina? E em Moçambique? Está pouco ligando para Moçambique? Sabe onde fica? Quer que eu te fale de Timor? Fora isso, a gente está coletando dinheiro para alfabetização na Nicarágua. Me paga um café?”. (2016, p. 31-32)

michel-foucault

Michel Foucault em Vincennes

Um traço marcante do romance é a forma como o autor transita pelo discurso ensaístico, biográfico e ficcional, possibilitando uma leitura intertextual da obra. A passagem em que Althusser mata sua mulher estrangulada, é um exemplo de como o autor intercala um dado real, histórico (o assassinato de Helène), com o inventivo, o ficcional (o motivo que teria levado Althusser assassinar sua esposa), usando o sumiço do documento que continha a sétima função da linguagem como motivo para o estrangulamento. Em outro capítulo, que se passa no campus da universidade americana de Ithaca, Binet apresenta um panorama da influência e das divergências em torno da French Theory no meio acadêmico norteamericano. Em sua apresentação durante um  colóquio, John Searle diverge de Derrida e discorre sobre atos de fala, ilocutório, perlocutório, elocução, conceitos da filosofia da linguagem que o professor Simon Herzog conhece bem. Em outros momentos, o autor se apropria de símbolos da cultura pop, da publicidade, do cinema de ação e do thriller de suspense. A paródia também é um recurso utilizado por Binet, que ao longo da narrativa, não deixa de satirizar o companheiro de Julia Kristeva, o escritor Philippe Sollers.

“Difícil imaginar o que Kristeva pensa de Sollers em 1980. Que seu dandismo histriônico, sua libertinagem so French, sua presunção patológica, seu estilo adolescente panfletário e sua cultura épate-bourgeois tenham conseguido seduzir a bulgarazinha recém-desembarcada da Europa oriental, nos anos 1960, admitamos. Quinze anos depois, seria de imaginar que ela está menos encantada, mas quem sabe? O que parece evidente é que a associação deles é sólida, que funcionou perfeitamente desde o início e que continua a funcionar: um time consolidado em que os papéis estão bem atribuídos. Para ele, a fanfarronice, as mundanidades e as palhaçadas idiotas. Para ela, o charme eslavo venenoso, glacial, estruturalista, os arcanos do mundo universitário, a gestão dos manda-chuvas, os aspectos técnicos, institucionais e, como deve ser, burocráticos da ascensão de ambos. (Ele não sabe preencher um formulário bancário, reza a lenda)”. (2016, p. 126-127)

kristeva

O surpreendente desfecho do romance levanta uma das questões centrais do livro, que afirma o poder da linguagem e daqueles que detém o domínio do discurso e de suas funções como fator decisivo para exercer o poder em sociedade, desde a Antiguidade até os dias atuais. Penso no comentário que Agamben faz em O homem sem conteúdo, da visão de Platão sobre o poeta e do “poder da arte sobre o espírito”. Diz Agamben que, para Platão “o poder da arte sobre o espírito lhe parecia tão grande que ele pensava que ela poderia, sozinha, destruir o próprio fundamento da sua cidade; e, todavia, se ele era constrangido a bani-la, o fazia, mas apenas a contragosto, ‘porque temos consciência do fascínio que ela exerce sobre nós”. (2012, p. 22-23). No caso de Simon, é o uso que o personagem faz desse domínio que permite salvar sua própria pele no final do livro. Em outro momento, quando Bayard e Simon encontram Umberto Eco em Bolonha, na Itália, este relata a existência de uma curiosa seita herege em que seus membros se exercitam através de confrontos retóricos “em nome da beleza do verbo”.

“A cidade cristã, diz Eco, repousava sobre três pilares: o ginásio, o teatro e a escola retórica. Temos o vestígio dessa tripartição ainda hoje numa sociedade do espetáculo que promove ao nível de celebridades três categorias de indivíduos: os esportistas, os atores (ou cantores, o teatro antigo não fazia distinção) e os políticos. Dessas três categorias, a terceira, até agora, sempre foi a mais forte (mesmo se vemos que com Ronald Reagan as categorias nem sempre são estanques), porque implica o domínio da arma mais poderosa: a linguagem.

Desde a Antiguidade até hoje, o domínio da linguagem sempre foi a implicação política fundamental, mesmo durante o período feudal, que aparentemente consagrava a lei da força física e da superioridade militar. Maquiavel explica ao príncipe que não é pela força mas pelo temor que se governa, e isso não é a mesma coisa: o temor é produto do discurso sobre a força. Allora, quem domina o discurso, por sua capacidade de suscitar temor e amor, é virtualmente o dono do mundo, eh!”

Foi sobre esse pressuposto teórico protomaquiavélico, e também para barrar a influência crescente do cristianismo, que uma seita de hereges fundou o Logi Consilium no século III depois de Cristo.

Em seguida, o Logi Consilium espalhou-se pela Itália, depois pela França, onde tomará o nome de Clube Logos no século XVIII, durante a Revolução”. (2016, p. 186)

Anúncios

Entrevista com Éric Laurent – O corpo falante (O inconsciente e as marcas de nossas experiências de gozo)

Eric-Laurent

Entrevista publicada na revista CULT – Abril 2016

CULT: Em seu próximo livro, o senhor nos propõe abordar o inconsciente pelo viés que Lacan introduziu no seu último ensino como “O corpo falante”. Isso quer dizer que Lacan, até então, esquecera o corpo?

ÉRIC LAURENT: Com efeito, “O corpo falante” é o tema de um Congresso que acontecerá em breve no Rio de Janeiro, no mês de abril. Trata-se de uma expressão presente na língua, que se compreende de imediata, mas implica também muitas significações e ressonâncias. A ênfase dada sobre o corpo falante se inscreve nas proposições do último ensino de Lacan, no sentido de encontrar alguma coisa que vá mais longe do que o inconsciente. Mais exatamente, que se separe daquilo que, no termo freudiano de inconsciente, está demasiado ligado à consciência, como uma espécie de negativo dela. A consciência, que interessa muito à ciência cognitiva, considerada por Lacan como o que há de menos interessante para a psicanálise. Trata-se, antes, de saber qual é o modo de real com o qual a psicanálise tem de lidar, e esta é a preocupação central do último ensino de Lacan. Ele partiu de uma refundação do inconsciente freudiano separando-o da consciência. Este é também o grande esforço da primeira reformulação do inconsciente freudiano: o inconsciente estruturado como linguagem. No que concerne ao inconsciente, o problema não é saber sobre suas relações com a consciência nem se há o pré-consciente do inconsciente. Não, o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ele tem uma certa matéria que é feita de palavras. Por isso, Lacan disse que Freud é motérialiste – jogo de palavras entre mot [palavra] e materialista. Ao mesmo tempo que dizia que o inconsciente é estruturado como linguagem, Lacan dizia também ser esta uma linguagem transformada pelo fato de que, nela, uma verdade do sujeito se manifesta: “Eu, a verdade, falo”. De um lado, há a fala. Do outro, a linguagem. Ela ali irrompe e não cessa de deformá-la, de furá-la, de transformá-la. Essa é a descoberta de Freud: trata-se de uma linguagem, mas uma linguagem distorcida pelo lapso; é a coisa que escapa pelo chiste, que vem como um “a mais”, algo na língua que não estava ali, ou então pelo ato falho que vem furar as condutas repetitivas, os hábitos, as repetições de comportamentos tão caras aos comportamentalistas. Justamente aí há essa verdade. A matéria do inconsciente freudiano se manifesta na linguagem, mas uma linguagem feita de fragmentos, de pedaços, feita de irrupções e rupturas. Para precisar seu ponto de vista em relação à atmosfera estruturalista, que dava à estrutura uma consistência separada do uso que o sujeito fazia dela – que para alguns autores como Lévi-Strauss, por exemplo, era uma estrutura sem sujeito -, Lacan, no Seminário 10, precisa que o lugar do Outro, desse Outro da estrutura, esse lugar cuja a lógica ele explorou, não está no céu das ideias, não está numa espécie de espírito. Ele o registrou: o lugar do Outro é o corpo. Esta é a fórmula que ele desenvolveu no Seminário sobre a angústia, justamente para se desfazer do que haveria de um incorporal para a estrutura não ligada ao corpo. Incorporal é um termo dos estoicos, que Gilles Deleuze recolocou em circulação no final dos anos 1960. O incorporal dos estoicos é interessante, já que tem relação com o corporal. É nisso que a lógica estoica se articula. Do mesmo modo, Lacan fundamenta a estrutura, que se apresenta em parte como incorporal, em sua inscrição sobre o corpo.

“Um corpo é o que é atravessado pelos afetos, um corpo é o lugar marcado e que experimenta afetos e paixões, tanto o corpo político quanto o corpo individual”.

CULT: Essa estrutura será a um só tempo incorporal e ligada ao corpo?

LAURENT: Ao corpo como lugar do Outro. O lugar do Outro é o corpo, uma vez que ele recebe uma marca, que é o lugar onde se inscreve a marca do incorporal na estrutura. Se aproximarmos a primeira formulação de Lacan – o inconsciente é o discurso do Outro, é o que se manifesta em nós da verdade dessa linguagem material que nos atravessa – se substituirmos nessa fórmula o Outro pelo corpo, então o inconsciente é o discurso do corpo, desse corpo marcado, atravessado por afetos, por marcas que lhe chegam daquilo que ele experimenta de um dizer que o atravessa. Esse inconsciente como discurso do corpo, contudo, não é o discurso que tende ao que é enfatizado pela preocupação contemporânea dos discursos de discernimento. Estes propõem que, diante do que há de abstração da cultura, é preciso retornar às coisas que nos reaproximam da natureza, de nosso corpo, que nos permitiriam escutar nosso corpo que nos falaria diretamente. Não, esta não é a perspectiva do corpo falante. Não se trata de um corpo que murmura um discurso de discernimento. É um corpo que goza e é marcado por paixões, por afetos potentes dentre os quais o mais potente é a angústia. No fundo, para Lacan, trata-se de um corpo próximo ao sentido que lhe dava Spinoza. Spinoza foi um filósofo que Lacan amou e com o qual trabalhou desde jovem. Para Spinoza, o corpo é tanto o do sujeito quanto o corpo político. Um corpo é o que é atravessado pelos afetos, um corpo é o lugar marcado que experimenta afetos e paixões, tanto o corpo político quanto o corpo individual. O corpo falante é esse corpo marcado que nos fala por uma irrupção na língua, nos sentidos comuns em que se estabeleceu, onde se sedimentou o modo como pensamos falar a língua de maneira comum. O falante do corpo é a maneira como o corpo não cessa de fazer irrupção por meio das significações pessoais, significações de gozo que damos a essa linguagem que nos atravessa.

CULT: Será que essa concepção de corpo nos aproxima do corpo da harmonia, do acordo ou discernimento, mas sim do corpo como lugar de um sujeito primitivo, animal ou diabólico, atravessado por afetos arcaicos, expressando-os tais quais na consciência?

LAURENT: É isso que torna crucial a escolha do afeto da angústia. Ela é, a um só tempo, um afeto que se pode considerar como primitivo, uma espécie de reação fundamental do sujeito no mundo, e também um afeto dos mais sofisticados. Segundo Heidegger, o estatuto do homem moderno, no século 20, é o estatuto do homem angustiado – Die Angstmensch. Trata-se de um afeto que marca a relação com um mundo que se tornou outro depois do surgimento da ciência, que permitiu lê-lo, transformá-lo, fazer dele outra coisa que não um mundo de natureza, fazer dele um mundo imundo. Vemos que a angústia está em todas as partes da cadeia: está no começo e no final, está em nosso presente. Vivemos sob um regime de angústia particular que vai além dos medos – que pode ter várias caras em nosso mundo e Deus sabe quantas caras tem esse medo -, mas apoiado sobre uma espécie de angústia fundamental. Ela foi situada por Heidegger que a ligou à ciência, ou então por Zygmunt Bauman, que enfatiza o quanto a incerteza fundamental se deve ao fato de que, com a ciência, não há mais repouso em nossa civilização, não há mais ponto de amarração a uma natureza regular, o que faz com que estejamos submetidos a um tipo particular de angústia.

CULT: Isso não parece muito otimista. Quando se postula um sujeito do inconsciente como aquele de um incorporal e fora do corpo, podemos sempre cogitar que ele ajudaria a nos liberar do peso corporal das paixões. Um incorporal que permanece fundado sobre o corpo, como senhor disse, mas apenas em parte, pois nos deixa com uma parte deslocalizada de nós mesmos que será o fundamento de uma angústia não eliminável, que faz parte de nossa constituição. O sujeito do inconsciente como corpo falante é o sujeito da angústia?

LAURENT: É um sujeito que certamente não pode sonhar em separar-se das paixões sem tê-las, digamos, explorado, sem ter, com a ajuda da experiência analítica, se aproximado o mais possível do que são para ele as paixões que o atravessam. De fato, a experiência de ataraxia, de extrair-se de suas paixões como nos propõe o discurso do discernimento. Não é a via do discernimento. Por ela nos aproximamos, o mais possível, do que é a verdade da maneira pela qual experimentamos essas paixões que nos marcam e marcam: experiências de gozo experimentadas pelo corpo gozante.

CULT: Já que o senhor falou de gozo: e o sexo nisso?

LAURENT: O sexo é uma experiência crucial porque parece, pelo menos no sonho do sexo, que seria possível gozar de um outro corpo, que haveria gozo do corpo do outro. E se, além disso, o corpo desse outro é amado, digamos, como satisfação fundamental à qual o sujeito visaria, satisfação e gozo seriam verdadeiramente um só. Freud, em certos aspectos de sua obra, alimentou essa ideia de que seria possível gozar do corpo de outro, mas apenas em alguns aspectos, porque, na verdade, ele sempre marcou que restava um impasse: do lado do homem, pela castração, e do lado da mulher, pelo que ele chamou de inveja do pênis. Ter uma satisfação sexual não livrava a espécie humana de sua falha, de uma falta inscrita, uma falta de satisfação inscrita, de formas distintas, do lado do homem e do lado da mulher.

Já Lacan partiu (por estar a posteriori de Freud) da radicalização do que falha na experiência sexual, por exemplo: gozar do corpo do outro é impossível. Não há gozo do corpo do outro. Há gozo somente do próprio corpo. Do próprio corpo atrelado também ao incorporal de seus fantasmas. Ou seja: há sempre um laço entre esse corporal e o que vem a lhe faltar pela estrutura da linguagem que, podemos dizer, se enxerta, se junta a seu corpo como tal. Então, o sexo é fazer a experiência de que não gozamos do corpo do outro.

“O corpo individual do liberalismo diz: o corpo me pertence. Mas ele desconhece o fato de ele ser, desde o início, articulado e marcado por uma dimensão de laço social”.

CULT: É justo nesse ponto que Lacan situa o amor, não é?

LAURENT: Amar passa por um dizer, pela fala de amor que ocupa o lugar do que não pode se inscrever da relação sexuada como tal. No lugar do que não se pode experimentar nem escrever logicamente dessa relação, vem a fala do amor, o dizer amoroso fazendo suplência. A partir desse dizer de amor, toda linguagem encontra seu lugar – da poesia à prosa -, e fundamenta, a partir desse dizer, que tudo pode ser dito.

CULT: O senhor mostrou que o princípio do corpo falante é o fato de o corpo ser o lugar de uma alteridade incontornável, que o sexo é o encontro com essa alteridade, uma vez que não se goza do corpo do Outro. Mas o senhor também disse que a linguagem é o que vem engendrar dizeres que, desse real do Outro, podem fazer laço. Então, será que uma política do corpo falante poderia se fundar sobre essa via?

LAURENT: Digamos que dimensão política de fato se coloca de início, pois o que é muito importante na perspectiva desse corpo marcado, articulado à linguagem, é que não se fala de um corpo individual. O corpo individual do liberalismo diz: o corpo de pertence. Mas ele desconhece o fato de ser, desde o início, articulado e marcado por uma dimensão de laço social. Mais precisamente, a dimensão de laço social é uma dimensão coletiva. Ela está ali de início, antes do indivíduo. Nem por isso o gozo do corpo próprio é simplesmente individual, uma vez que está atrelado a fantasmas, como por exemplo aqueles que a indústria pornográfica pode mostrar, descrevendo uma tipificação do fantasma, chegando a coletivizar um número impressionante de consumistas no mundo inteiro. Vê-se, logo, essa sistematização do fantasma, essa tomada coletiva do gozo. Isso enfatiza que o corpo, como lugar dos afetos, é político, pois ele é atravessado pela angústia, pelo ódio, pela ignorância, pelo entusiasmo, que são paixões coletivas. Essa política dos corpos falantes implica ter em conta esse laço indissociável que faz com que o corpo seja apreendido no laço social.

Tradução: Vera Avellar Ribeiro e Fernando Coutinho

Edição final: Ondina Machado