Burroughs, o junky!

O romance autobiográfico de William S. Burroughs, Junky, lançado em 1953, pode ser considerado, ao lado das obras Howl, de Allen Ginsberg e On The Road, de Jack Kerouac, um clássico da Beat Generation. A história narrada em primeira pessoa inicia com as lembranças da infância de Bill, nascido em fevereiro de 1914, “numa grande cidade do meio-oeste” americano. Avesso à matemática e aos jogos competitivos, o jovem William desenvolve seu gosto pela imaginação e pelos livros. “O fato é que me tornei um doente imaginário crônico (…) Lia mais do que a média dos garotos americanos daquele tempo e lugar: Oscar Wilde, Anatole France, Baudelaire e até Gide”. Com o passar dos anos o narrador-protagonista vai revelando os seus primeiros contatos com as drogas, até culminar em sua dependência de heroína e seu envolvimento no tráfico, como forma de garantir o seu próprio consumo. É durante os anos da Segunda Guerra Mundial que Bill têm suas primeiras experiências com drogas pesadas. “Minha primeira experiência com junk foi durante a guerra, em 1944 ou 1945”. Nesse período, Bill segue perambulando, flanando por Nova York na companhia de seus parceiros de “junk”, gíria usada pelos malucos para designar a heroína. Falar de drogas nos EUA nessa época era um grande tabu, muito diferente de hoje, onde a maconha já é legalizada para fins medicinais e recreativos em diversos estados, incluindo a capital Washington. Na introdução à edição de 1977, Allen Ginsberg comenta as dificuldades e os riscos que os usuários de drogas corriam naqueles anos. Era a ofensiva da famigerada “war on drugs”.

beatnik

 “Havia naquela época – e ainda hoje vibram resquícios da paranoia oficial policialesca cultivada pela Delegacia Federal de Entorpecentes (Narcotics Bureau) – uma forte crença implícita, ou pressuposição: se alguém dissesse em voz alta “fumo” (sem contar droga pesada, junk) no ônibus ou no metrô, podia ser preso. Mesmo que estivesse apenas discutindo mudanças na legislação. Era praticamente ilegal falar sobre drogas. Uma década depois, ainda era impossível promover uma discussão nacional na TV sobre as leis que regiam o assunto sem que a Delegacia Federal de Entorpecentes e a FCC (Federal Communications Comission) se intrometessem, semanas depois, com clipes produzidos para a TV que denunciavam o debate. Isso é história”.

A vida dos junkies não é nada fácil. Uma vida de aventuras e riscos, no fio da navalha. Como diz o narrador: “Aprendi a equação junk. Droga pesada não é um meio de aumentar o prazer de viver. Junk não é um barato. É um meio de vida”. Pequenos furtos no metrô e nas estações, risco constante de ser flagrado pelos policiais e ser enquadrado em leis antidrogas, o trabalho de aturar viciados que sempre pedem fiado, a dificuldade em enfrentar as clínicas de reabilitação e se manter limpo após o tratamento, a prostituição e as relações homoafetivas do narrador, a procura por heroína em lugares desconhecidos como Nova Orleans e o México…

Após várias idas e vindas das clínicas de reabilitação, Bill decide rumar para o México, onde pretende permanecer durante tempo indeterminado. Lá se envolve outra vez com junk. A rotina dos viciados, o meio social em que circulam, a lenta degeneração do corpo, tudo enfim, vai aos poucos cansando o narrador. Decidido a parar de usar heroína, Bill lê algo sobre o yage, uma droga usada “por índios nas cabeceiras do rio Amazonas”. Trata-se do chá que conhecemos como Ayahuasca. Com a descoberta do yage, resolve seguir para Colômbia. Assim, o que Bill pretende não é abandonar de uma vez por todas as drogas e sim, encontrar no yage, aquilo que havia buscado nas outras substâncias. “Talvez eu descubra no yage o que eu andava procurando no junk, na maconha, na cocaína. Yage talvez me dê o barato definitivo”. Dessa forma, podemos dizer que o romance de Burroughs  é uma obra e um ato de pura transgressão, desde o tema do vício em drogas pesadas, passando pelas relações homoafetivas, pela prostituição e pela prática de pequenos crimes. Uma obra que vai na contramão do conservadorismo americano da época e propõe ao leitor, um estilo de vida baseado nas drogas, no “desregramento de todos os sentidos” rimbaudiano e antecipa o futuro estilo de vida dos hippies e o surgimento da contracultura americana.

Anúncios

Uivo – III parte

Carl Salomon! Eu estou com você em Rockland onde você está mais louco do que eu

Eu estou com você em Rockland

onde você deve sentir-se muito estranho

Eu estou com você em Rockland

onde você imita a sombra da minha mãe

Eu estou com você em Rockland

onde você assassinou suas doze secretárias

Eu estou com você em Rockland

onde você ri desse humor invisível

Eu estou com você em Rockland

onde somos grandes escritores na mesma abominável máquina de escrever

Eu estou com você em Rockland

onde seu estado se tomou muito grave e é noticiado pelo rádio

Eu estou com você em Rockland

onde as faculdades do crânio não aguentam mais os vermes dos sentidos

Eu estou com você em Rockland

onde você bebe os chás dos seios das solteironas de Utica

Eu estou com você em Rockland

onde você bolina os corpos das suas enfermeiras as hárpias do Bronx

Eu estou com você em Rockland

onde você grita dentro de uma camisa de força que está perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo

Eu estou com você em Rockland

onde você martela o piano catatônico a alma é inocente e imortal e nunca poderia morrer impiamente num hospício armado,

Eu estou com você em Rockland

onde com mais cinquenta eletrochoques sua alma nunca mais retornará a seu corpo de volta da sua peregrinação rumo a uma cruz no vazio

Eu estou com você em Rockland

onde você acusa os seus médicos de loucura e prepara a revolução socialista hebraica contra o Gólgota nacional e fascista

Eu estou com você em Rockland

onde você rasga os céus de Long Island e faz surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo sobre-humano

Eu estou com você em Rockland

onde há mais vinte cinco mil camaradas loucos todos juntos cantando versos finais da Internacional

Eu estou com você em Rockland

onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos sob nossas cobertas os Estados Unidos que tossem a noite toda e não nos deixam dormir

Eu estou com você em Rockland

onde despertamos eletrocutados do coma pelos nossos próprios aeroplanos da mente roncando sobre o telhado eles vieram jogar bombas angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora ó choque de misericórdia salpicado de estrelas a guerra eterna chegou Ó vitória esquece tua roupa de baixo estamos livres

Eu estou com você em Rockland

nos meus sonhos você caminha gotejante de volta de uma viagem marítima pela grande rodovia que atravessa América em lágrimas até a porta do comeu chalé dentro da Noite Ocidental

andy

Andy Warhol – Campbell’s Soup

Uivo – II parte

Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias! Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!

Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!

Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!

Moloch cuja a mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!

Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!

Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio! Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!

Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!

Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz escorrendo do céu!

Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! Subúrbios invisíveis! Tesouros de esqueletos! Capitais cegas! Indústrias demoníacas! Nações espectrais! Invencíveis hospícios! Caralhos de granito! Bombas monstruosas!

Eles quebraram suas costas levando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!

Visões! Profecias! Alucinações! Milagres! Êxtases! Descendo pela correnteza do rio americano!

Sonhos! Adorações! Iluminações! Religiões! O carregamento todo de bosta sensitiva!

Desabamentos! Sobre o rio! Saltos e crucifixões descendo a correnteza! Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! Jogados nos rochedos do Tempo!

Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! O olhar selvagem! Os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! Rumo à solidão! Acenando! Levando flores! Rio abaixo! Rua acima!

pollock.jpg

Jackson Pollock

Uivo – I parte

Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

I

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,

Arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,

Que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,

Que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,

Que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,

Que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o Terror através da parede,

Que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para New York,

Que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite

Com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,

Incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,

Solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,

Que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,

Que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,

Que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,

Batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,

Tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,

Intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada à rua,

Que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões-postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,

Sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliados de Newark,

Que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,

Que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,

Que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,

Que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários,

Que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural,

Que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à meia-noite,

Que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para África,

Que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra de suas calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,

Que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais em suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,

Que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,

Que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island

Que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,

Que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,

Que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,

Que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,

Que enrabaram e foram enrabados por serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,

Que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseiras, que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmen pra quem quisesse vir,

Que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespassá-los com sua espalda,

Que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão,

Que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão de boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,

Que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,

Que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N. C. herói secreto destes poemas, garanhão e Adônis de Denver – prazer ao lembrar das suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também,

Que apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam até as agências de desemprego,

Que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto com montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,

Que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamento do Hudson à luz azul de holofote antiaéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,

Que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,

Que choraram diante do romance de ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,

Que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos,

Que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,

Que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,

Que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht & tortillas sonhando com o puro reino vegetal,

Que se atiram sob caminhões de carne em busca de um ovo,

Que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças por todos os dias da década seguinte,

Que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram,

Que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanelas em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido dos batalhões de ferro da moda & os guinchos de nitroglicerina das bichas das propaganda & o gás mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta,

Que se jogaram da ponte de Brooklyn, isso realmente aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros de Chinatown, nem uma cerveja de graça,

Que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se da janela do metrô, saltaram no imundo rio Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30 na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,

Que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília de cadeia do Gólgota de carro envenenado de cada um ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,

Que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido uma visão para descobrir a Eternidade,

Que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver & esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está com saudades dos seus heróis,

Que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando por sua salvação e luz e peito até que a calma iluminasse seu cabelo por um segundo,

Que se arrebentaram nas suas mentes na prisão aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada e o encanto da realidade em seus corações que entoavam suaves blues de Alacatraz,

Que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave Buda ou Tânger para os garotos ou Pacífico Sul para a locomotiva negra ou Havard para Narciso para o cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o túmulo,

Que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,

Que jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e em seguida se apresentaram nos degraus de granito do manicômio com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,

E que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrasol choque elétrico hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pingue-pong & amnésia, que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica de pingue-pongue, mergulhando logo a seguir na catatonia,

Voltando anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue e lágrimas e dedos para a visível condenação de louco nas celas das cidades-manicômio do Leste,

Piligrim State, Rockland, Greystone, seus corredores fétidos, brigando com ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão à meia noite dos domínios de mausoléu druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos transformados em pedras tão pesadas quanto a lua,

Com a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela do cortiço e a última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação –

Ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo –

E que por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro & do plano vibratório,

Que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arranjo da alma entre 2 imagens justapostas e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque de consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,

Para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento em sua cabeça nua e infinita,

O vagabundo louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo após a morte,

E se reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz no espectro da trompa dourada da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com que as cidades tremessem até seu último rádio,

Com o coração absoluto do poema da vida arrancado de seus corpos bom para comer por mais mil anos.

(Tradução: Claudio Willer)

Jean-Michel Basquiat & Keith Haring

Jean-Michel Basquiat & Keith Haring