“O veredicto”, de Franz Kafka

kafka1

Franz Kafka

A novela do escritor tcheco Franz Kafka “O veredicto” (1912), é uma das poucas obras que o autor publicou quando ainda estava vivo. O tema de representação da novela é o absurdo da vida e sua história possui traços de semelhança com o romance “A Metamorfose”, escrita no mesmo ano.

Em “O Veredicto”, o personagem Georg (outra a semelhança com A metamorfose é o nome dos personagens, Gregor e Georg) se encontra diante da figura opressiva de seu pai, bem como Gregor Samsa sente-se em “A metamorfose” diante de sua família que lhe trata com repugnância.  Essas duas obras estão ligadas pela relação de semelhança entre os personagens, que diante de si, encontram na figura do pai, o ser onipresente, com seu olhar severo e intimidador; assim Georg Bendemann se sente diante de seu pai. Ao anunciar pra ele (um homem velho com a “cabeça de cabelos brancos e desgrenhados”), que vai enviar uma carta para seu amigo que mora na Rússia, contando sobre seu noivado (tema presente também em Carta ao pai escrita em 1919), seu pai lhe responde de maneira desconcertante:

– Georg – disse o pai esticando para os lados a boca desdentada -, ouça bem. Você veio a mim para se aconselhar comigo sobre esse assunto. Isso o honra, sem dúvida. Mas não é nada, é pior do que nada, se você agora não me disser toda a verdade. Não quero levantar questões que não cabem aqui. Desde a morte de nossa querida mãe aconteceram certas coisas que não são nada bonitas. Talvez chegue a horas também de discuti-las – e talvez ela chegue mais cedo que pensamos. Na loja muita coisa foge ao meu controle, talvez não pelas minhas costas -, não tenho mais força suficiente, minha memória começa a falhar, já não tenho visão para tudo isso. Em primeiro lugar, é o curso da natureza; em segundo, a morte da nossa mamãe me abateu muito mais doque a você. Mas já que estamos falando desse assunto, dessa carta, peço-lhe, por favor, Georg, que não me engane. É uma ninharia, não vale nem um suspiro, por isso não me engane. Você realmente tem esse amigo em São Petesburgo?”

É importante perceber como em Kafka esse tema da opressiva figura paterna vai evoluir para uma segunda fase em que o autor de O castelo deixará de relacionar esse sentimento pessoal de opressão, essa “burocratização da figura paterna” para dar lugar a uma opressão maior, mais totalizante. É no absurdo dessa opressão totalizante que o personagem do romance O castelo, se debate em busca de um encontro com o alcaide do vilarejo, sempre distante e inacessível para o agrimensor K. Em O castelo é o personagem K que vai ao encontro (ainda que inacessível) da figura que personifica o poder, o estado; Em O processo, dá-se o contrário, posto que é na figura do estado que Josef K. se encontra ameaçado, quando no início do romance o narrador descreve:

kafka

Franz Kafka

“Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum”.

Nesse sentido, em O veredicto quem assume o papel de condenar é o pai do personagem Georg, sendo transferida essa função para o tribunal no romance O processo.

         O texto de O veredicto que Kafka dedicou a Felice Bauer foi escrito na noite de 22 para 23 de setembro de 1912 e não é por acaso que a noiva do personagem Georg chama-se Frieda Brandenfeld, nome que possui as mesmas iniciais da musa de Kafka, Felice Bauer.

A novela em seu enredo apresenta a sentença do “pai-tribunal” que zomba com cinismo de Georg ao ver o filho se queixar do amigo que deixou de responder suas cartas após se mudar para São Petesburgo:

“– Como você hoje me divertiu quando veio perguntar se devia escrever ao seu amigo sobre o noivado! Ele sabe de tudo, jovem estúpido, ele sabe de tudo! Eu escrevi a ele porque você se esqueceu de me tirar o material para escrever. É por isso que há anos ele não vem, ele sabe de tudo cem vezes mais do que você mesmo, amassa sem abrir as suas cartas na mão esquerda enquanto com a direita segura as minhas diante dos olhos para ler”.

Após discutir com Georg, seu pai brada toda sua autoridade contra o filho e define sua “sentença” de modo ameaçador quando declara, “por isso saiba agora: eu o condeno à morte por afogamento!”

No final da novela, após receber o seu “veredito”, Georg desce apressado as escadas de sua casa e se choca com a criada que se preparava “para arrumar a casa pela manhã”. Ao sair do prédio, ele corre em “direção à agua” (que podemos interpretar como o rio que Georg observa de dentro do seu quarto, no início da novela) e antes de se jogar, observa por uma grade um ônibus que passa pela rua e imagina que ele irá abafar o barulho que fará quando se jogar. Finalmente, antes de se jogar o anti-herói kafkiano exclama em voz baixa:

“- Queridos pais, eu sempre os amei – e se deixou cair.

Nesse momento o trânsito sobre a ponte era praticamente interminável”.

Veja mais: Drama do diretor tcheco Jan Nemec, (Die Verwandlung) filmado em 1975, baseado no romance de Franz Kafka, A metamorfose