Buñuel, Breton: memórias do surrealismo

 

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Na autobiografia de Luis Buñuel, Meu Último Suspiro, temos algumas imagens precisas do movimento surrealista, suas posturas escandalosas e muitas vezes autoritárias, sobretudo as de André Breton. Certa vez, quando do lançamento de Un Chien Andalou, em 1929 e do enorme sucesso do filme (chegando a ficar oito meses em cartaz), Buñuel foi convidado pela Revue du Cinéma, editada então pela Gallimard, para publicar o roteiro do filme na próxima edição da revista. Depois de já ter autorizado, Paul Éluard pediu que Buñuel enviasse o roteiro para a revista belga Variétés, que “dedicaria um número inteiro ao movimento surrealista”. Ao explicar que o roteiro já havia sido enviado para Revue du Cinéma, Buñuel foi convidado por Breton para uma “pequena reunião” em sua casa.

“Aceitei, não desconfiando de nada, e deparei com o grupo em formação completa. Tratava-se de um julgamento em regra. Aragon exercia com autoridade o papel do promotor e me acusava em termos violentos de ter cedido meu roteiro a uma revista burguesa. Além disso, o sucesso comercial de Um cão andaluz começava a parecer suspeito. Como um filme provocador podia lotar os cinemas? Que explicação eu podia dar?

Sozinho perante o grupo, eu tentava me defender, mas era difícil. Ouvi inclusive Breton me perguntar:

– Você está com a polícia ou com a gente?” (p. 157)

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Em The Friends Rendevous, obra de 1922, Max Ernst retrata Breton com a mão direita erguida, num gesto que sugere a autoridade e o papel de liderança que este exercia no grupo. Por muitas atitudes sectárias, não tardaram a surgir as rupturas no seio do movimento surrealista. Em outra passagem de sua autobiografia, Buñuel relata um jantar que ocorrera na casa de André Breton. Segundo o cineasta, Breton havia reclamado que o espanhol nunca apresentara sua esposa Jeanne ao grupo, por isso convidara-os para um jantar em sua casa, em que também participou o pintor belga René Magritte e sua mulher.

“A refeição começou sob uma atmosfera sombria. Por uma razão inexplicável, Breton mantinha a cara no prato, o cenho franzido, falando apenas por monossílabos. Nós nos perguntávamos o que estaria errado, quando de repente, não se aguentando mais, ele apontou com o dedo uma singela cruz que a mulher de Magritte usava no pescoço, presa numa corrente de ouro e declarou altivo que aquilo era uma provocação intolerável e que ela deveria usar outra coisa quando fosse jantar na casa dele. Magritte tomou a defesa da mulher e replicou. A discussão – exacerbada – durou um tempo e se acalmou. Magritte e sua mulher fizeram o sacrifício de não ir embora antes do fim da noite. Seguiu-se um esfriamento, que durou algum tempo”. (p. 162)

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Outros pequenos casos apontam a visão do diretor de Belle de Jour sobre o autor do Manifeste du Surréalism. Quando Breton retornou à França, após seu encontro com Trotski no México (retratado por Padura em El Hombre que amaba los peros), Buñuel perguntou qual a impressão tivera do velho bolchevique. Ao que Breton respondeu:

“Trotski tem um cachorro de que gosta muito. Um dia esse cachorro estava ao seu lado e o observava. Então Trotski disse: ‘Esse cão tem um olhar humano, não acha?’. Percebe? Como um homem como Trotski pode dizer uma burrice dessa? Um cão não tem um olhar humano! Um cão tem olhar de cão!” (p. 162)

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Antes de ser definitivamente expulso, Salvador Dalí fora acusado pelos surrealistas de um crime grave: renegação pública de um ato surrealista. Buñuel narra a primeira vez que Dalí estivera em Nova York, quando participou de um baile de máscaras a convite de um marchand. Na época, a opinião pública americana estava alarmada com o sequestro do bebê Lindbergh, filho de um famoso aviador. A mulher de Dalí, Gala, entrou no baile fantasiada de bebê, com o rosto e parte do corpo ensanguentados. Ao apresentá-la, Dalí dizia:

“- Ela está fantasiada de bebê Lindbergh assassinado”.

O tiro saíra pela culatra e a fantasia de Gala fora considerada de extremo mal gosto para a ocasião. Logo depois, Dalí contou aos jornalistas que na verdade a fantasia de Gala tratava-se de uma inspiração freudiana. De volta à Paris, diz Buñuel, Dalí fora confrontado com o grupo sob a acusação de renegação pública de um ato surrealista.

“O próprio André Breton me contou que, por ocasião desse encontro, ao qual não assisti,  Salvador Dalí caiu de joelhos, os olhos cheios de lágrimas e as mãos juntas, jurando que os jornalistas tinham mentindo e que ele sempre dissera, sempre afirmara, que se tratava efetivamente do bebê Lindbergh assassinado” (p. 260).

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Buñuel e Dalí, 1929

(Meu último suspiro, trad. André Telles, Cosac Naify, 2009)

O romance cubano El hombre que amaba a los perros

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Primeira edição do romance El hombre que amaba a los perros

Publicado em 2009 e traduzido no Brasil em dezembro de 2013 pela Boitempo Editora, O homem que amava os cachorros é um romance que se desenvolve ao longo de fatos históricos que marcaram profundamente a humanidade no século XX. Revolução Russa, Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial, são alguns dos cenários que compõe o romance. O livro do escritor cubano Leonardo Padura coloca no centro de sua narrativa a história de três personagens: o líder bolchevique Leon Trotski, seu assassino, o militante catalão Ramón Mercader e o cubano aspirante a escritor Iván.

Iván vive em Havana e trabalha em uma paupérrima clínica veterinária e conhece na praia um homem que costumava aparecer na orla para passear com dois cachorros. Após conhecer o homem, o escritor – que havia publicado um livro de contos que alcançara certa notoriedade em Cuba e que agora estava afastado do mundo das letras – descobre que a história que aquele homem começara a revelar se tratava de um crime abjeto e emblemático: o assassinato de Trotski. Jaime López (assim se chamava o homem que acompanhava os cães) ao longo de alguns encontros com Iván acaba revelando que o assassino do dirigente bolchevique era seu amigo de muitas datas e a partir daí conhecemos os impulsos e os motivos que levaram Ramón Mercader a assassinar Liev Davídovich (Trotski era um pseudônimo). É nesse momento que Iván encontra um tema para seu novo livro.

Com uma narrativa empolgante caracterizada por seu estilo policial, o romance se desenvolve intercalando três histórias. Da expulsão do partido seguido pela deportação da própria União Soviética, Trostki se vê condenado pela burocracia stalinista a um exílio forçado. Depois de passar pela Turkia, França e Noruega, países que após um período cederam às pressões do governo da União Soviética e acabaram expulsando o velho bolchevique pra fora de suas fronteiras, é no México que o ex comandante do Exército Vermelho vai enfrentar a propaganda detratora vinda de Moscou. Ao lado de Diego Rivera e Frida Kahlo, que acolhem Trotski e sua companheira Natalia Sedova na Casa Azul em Coyoacán, Cidade do México, acompanhamos momentos dramáticos da vida do casal russo, como a misteriosa morte de seu filho Liova em Paris, responsável por organizar na França a fundação da IV Internacional. Também acompanhamos o início e o fim da conturbada relação extraconjugal de Trotski e Frida Kahlo, os desentendimentos com Diego Rivera e a visita que o escritor surrealista André Breton faz ao casal exilado no México.

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O escritor cubano Leonardo Padura

De seu assassino, conhecemos a história do jovem comunista da Catalunha, que após se apaixonar perdidamente por uma comunista (África), se torna um militante profissional. Depois de lutar em defesa da República Espanhola é recrutado por quadros do Partido Comunista Soviético para desenvolver “uma grande tarefa para revolução mundial”. A partir daqui vemos a mudança no perfil do espanhol Ramón Mercader, que passa por diversos treinamentos em território soviético, até se tornar um servo fiel e obediente dos ditames “do camarada Stálin”. Na pele de Jacques Mornard, Ramón Mercader acompanha de Paris os comandos vindos de Moscou e aguarda ansiosamente o dia em que poderá desferir o derradeiro golpe que eliminará de vez a presença física de Leon Trotski.

Outro tema abordado pelo escritor cubano é o drama que muitos jovens sentiram durante a década de 80, momento em que a ilha vivia uma forte crise social acompanhada das ausências de liberdades democráticas. Nesse cenário, Padura aborda o tema da homossexualidade através do professor universitário irmão de Iván. Quando o professor assume sua posição sexual ele acaba sendo expulso da universidade onde trabalhava, encontrando também a hostilidade da própria família.

Por sua habilidade com a narrativa, seu estilo noir e sua pesquisa histórica, Leonardo Padura escreve um romance envolvente que resgata não só a história de personagens importantes do século XX, mas também nos leva a refletir sobre os mecanismos de poder que se estabeleceram no seio do primeiro Estado operário e os efeitos que resultaram dos expurgos, das perseguições políticas de opositores bem como a campanha massiva que após marginalizar politicamente, conseguiu enfim, assassinar o maior crítico da burocracia soviética. Por outro lado, El hombre que amaba a los perros também reflete sobre o fim trágico dos três personagens que norteiam o romance: Trotski é assassinado covardemente; Após cometer seu crime e passar alguns anos na prisão, Ramón leva uma vida abjeta até sua morte; Iván morre de maneira desoladora, soterrado pelo teto precário de sua casa que desaba enquanto ele dormia. Com essa visão final da vida e dos esforços que os personagens fizeram para defender suas ideias e suas utopias, Leonardo Padura desvenda não só a traição stalinista como os caminhos funestos que a ditadura castrista vem levando há algumas décadas em Cuba. No fim das contas, percebemos no final do romance outra ligação entre os personagens que vai além do contexto histórico por um simples fato: os três eram homens que amavam os cachorros.