O percevejo

maiakovski

Vladímir Maiakóvski

Vladímir Maiakóvski (1893-1930), além de produzir poemas, empreendeu também sua literatura pela dramaturgia. Em 1918, após escrever argumentos para o cinema, apresenta no primeiro aniversário da revolução bolchevique a peça Mistério-bufo, sob a direção de V. E. Meyehold e com cenários de Kasimir Maliévtch, fundador do Suprematismo (movimento de arte abstrata) e um dos expoentes da pintura moderna russa.

Maiakóvski escreveu, em 1928, a peça teatral O Percevejo. No dia 13 de fevereiro de 1929, a obra foi encenada pela primeira vez, também sob a direção de Meyehold. Trata-se de uma crítica, trabalhada num tom fantástico e circense pelo poeta, sobre a degeneração e burocratização vivida pela revolução que conduziu os bolcheviques ao poder em 1917, na Rússia.

O texto original foi traduzido para o português pelo dramaturgo e diretor brasileiro Luís Antônio Martinez Corrêa, com colaboração do ucraniano nacionalizado brasileiro Boris Schnaiderman. Foi apresentada pela primeira vez nos palcos da pátria tupiniquim no Rio de Janeiro, em 1981.

O texto da tradução original, com posfácio de Schnaiderman foi publicado pela editora 34 em 2009, contendo ainda um resumo do próprio Maiakóvski sobre a peça, escrito em 1929, e uma cronologia do poeta russo, também escrita por Schnaiderman em 1967 na publicação “Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, Maiakóvski: poemas”.

Dividida em cinco atos e nove cenas, o Percevejo conta a história de Pierre Prissípkin, ex-operário e ex-membro do partido, noivo de Elzevira Davídovna Renaissance, manicure e caixa de um instituto de beleza.

No desenvolvimento da trama, vão se destacando outros personagens, como o bajulador Oleg Baian e a operária Zoia Bieriòkina, amante apaixonada por Prissípkin. Zoia tenta o suicídio na segunda cena, após saber da notícia do noivado do mesmo com outra mulher. Nessa mesma cena, Prissípkin abandona sua condição de operário e é criticado por seus antigos companheiros e elogiado por Baian, que é, na verdade, um ex-proprietário.

O contexto da história é o período da NEP (Nova Política Econômica), implementada pelo governo dos sovietes, que permitia a existência de pequenos negócios, como ferramenta de impulso da economia russa.

É possível ainda ver nessa cena certa crítica dos personagens socialmente abaixo das condições de Prissípkin a uma certa burocratização do mesmo. Exemplo dessa situação é a crítica feita pelo serralheiro: “Entre ele e um operário não existe nenhuma semelhança” e quando o mesmo serralheiro recita em tom de ironia à Prissípkin:

“Eu trabalhei

                algum tempo

na construção duma ponte para o socialismo.

Mas eu me cansei

                e não terminei

e debaixo da ponte

                eu repousei.

Na ponte cresceu a grama

que os carneirinhos já comeram.

Agora eu só quero

descansar à beira do rio…”

Na terceira e na quarta cena, ocorre o “casamento vermelho” de Prissípkin e Elzevira, porém uma tragédia ocorre durante o festejo. Um incêndio extermina os personagens, não restando nenhum sobrevivente. Na contagem dos corpos, os bombeiros notam que falta um cadáver, que deduzem ter sido consumido pelas cinzas. Ilustra bem o fechamento do ocorrido o seguinte trecho:

“(Uma corneta chama os bombeiros. Eles se colocam em formação e saem marchando pelo teatro, recitando):

Camaradas e cidadãos,

o álcool é um veneno!

Os bêbados

podem facilmente

queimar a República!

Um fogareiro ou um fogão

podem torrar sua casa

e a você também, cidadão!

Incêndios são causados

por sonhos mal-sonhados,

por isso nunca leve

para ler na cama

Nadson e Járov!”

A partir da quinta cena, a trama avança cinco décadas no tempo e, no dia 12 de maio de 1979, num futuro em que o socialismo avançou para todo o planeta, o corpo de Prissípkin é achado por cientistas e por meio de uma votação mecânica em toda a federação, decide-se pela ressureição do personagem.

Durante a cena, o presidente do Instituto da Ressureição Humana explica em sua fala: “É importante lembrar que depois das guerras que assolaram o mundo e das guerras civis que resultaram na criação da Federação da Terra, a vida humana passou a ser considerada inviolável, segundo decreto de 7 de novembro de 1965”.

Na sexta cena reaparece a personagem de Zoia, agora cinquenta anos envelhecida. Trabalha como assistente do professor que examina e cuida do descongelamento de Prissípkin. Ao se deparar com o antigo amado, Zoia pede para que o professor não faça a experiência. Explica os motivos que são inexplicáveis para o jovem cientista que não compreende expressões como amor, suicídio, os efeitos do álcool no corpo humano ou até mesmo um simples aperto de mão. Esses trechos nessa cena mostram que avanços grandes houveram na tecnologia nesse futuro, porém a humanidade evoluiu divorciando de si os momentos de maior sensibilidade como a embriaguez, a paixão ou mesmo a tristeza. Esse novo mundo deixa Prissípkin completamente perturbado. Junto dele, foi também descongelado um percevejo que ele encontra em seu colarinho.

Na sétima cena todos os que mantém o mínimo de contato com Prissípkin desenvolvem estranhos sintomas: os cães que andam em duas patas, os operários se embriagam e as moças se apaixonam. Há também a caça pela cidade a um inseto chamado Percevejus normalis.

A penúltima cena é marcada pelas duras críticas de Prissípkin à sociedade socialista que erigiu no último meio século. O protagonista da trama dispara indignação em alguns trechos:

“Vida? É isso o que você chama de vida? Você não pode nem pregar o retrato da namorada na parede que as tachinhas entortam nesses vidros malditos…”

Em resposta a fria reação de Zoia, que tenta acamá-lo com a indicação de dois livros de seu tempo, Prissípkin prossegue:

“PRISSÍPKIN (pega o livro e o atira longe)

Não, isso não serve para o coração. Eu quero qualquer coisa que faça o coração disparar…

ZOIA

Eis aqui o outro: Cartas do exílio, de um tal de Mussolini…

PRISSÍPKIN (pega o livro e o atira longe)

Não, isso não serve para a alma. Me deixa em paz com esses livros de propaganda barata! Eu quero alguma coisa que mexa com as entranhas…”

O encerramento da peça acontece com a cidade correndo para a inauguração do jardim zoológico. O diretor apresenta o percevejo capturado e Prissípkin como dois parasitas e expõe:

“São dois os parasitas, diferentes no tamanho mas semelhantes quanto à espécie: um é o famoso Percevejos normalis e o outro é… o Philistaeus vulgaris. Ambos têm o mesmo habitat: os velhos colchões embolorados com o tempo.

Depois da Revolução, quando a massa trabalhadora se agitava e se debatia, livrando-se da sujeira que a recobria, estes parasitas se apropriavam desta sujeira, construindo nela seus ninhos e casas, espancando suas mulheres, invocando Babel e repousando na beatitude e no oportunismo. Entre os dois, o Philistaeus vulgaris é o mais terrível”.

Por fim, o diretor pede música ao maestro e encerra a trama.

De acordo com Schnaiderman, O Percevejo é o ápice da obra dramatúrgica de Maiakóvski. O texto é uma retomada da consciência sobre o momento vivido então pela Rússia, com a consolidação do sistema stalinista e a eliminação de quaisquer vozes divergentes.

Maiakóvski, torna-se com o tempo, apesar de ser fiel seguidor e defensor do partido e da revolução, um opositor do modelo de arte defendida pelos artistas do chamado realismo socialista, que exigia objetividade na arte e a existência de uma cultura proletária em detrimento da cultura burguesa.

Sobre o protagonista da obra, segundo Schnaiderman, “evidentemente, o beberrão e seresteiro Prissípkin, que Maiakóvski pretendia apresentar ao público em sua peça, deveria ser o tipo negativo a ultrapassar, e execrar, mas, com o desenrolar da ação, ele assume a envergadura de uma grande figura trágica”.

Os elementos fundamentais do teatro maiakovskiano estão presentes em O Percevejo: o espetacular, o circense, sarcasmo feroz voltados contra o aburguesamento, surgidos por causa da NEP e o ambiente marcado pelo consumismo desenfreado.

Ainda de acordo com Schnaiderman, sobre os rumos que o roteiro toma: “tal como no caso de Os demônios de Dostoiévski, o autor tinha em mente determinado fim didático e político, mas a obra foi mais longe e superou em muito o projeto inicial”.

Esse argumento elucida a ponte que atravessa o personagem de Prissípkin, ao longo do roteiro. De uma figura a ser criticada, pelos hábitos e movimentações aburguesadas, passa a ser o crítico do futuro moldado sem emoções e sem liberdade. Há nesse aspecto, uma identificação entre personagem e autor, sobre o que propõe o próprio Maiakóvski enquanto arte e, igualmente, enquanto visão de mundo.

O homem ressuscitado passa então de repugnante pelo espectador a um ser subversivo e heroico, um pária no novo mundo constituído e o mesmo só cabe no jardim zoológico para ser observado, junto a seu companheiro de ressuscitação, o percevejo, que igual a ele, é um transmissor de doenças.

Uma pergunta que nos fica ao final da trama é: o que aconteceria com Prissípkin se acordasse no nosso futuro? O ano de 1979 moldado por Maiakóvski não esteve imune a guerras e conflitos, como o mesmo ilustra ao longo do texto. Era o triunfo de um mundo que também estava longe da perfeição, mas era o triunfo do mundo que estava sendo moldado na Rússia que estava a se degenerar e converter-se numa das mais sangrentas ditaduras da história.

Porém, o futuro do capitalismo triunfou, sobretudo após a queda do muro de Berlim, em 1989. Mas esse futuro também não trouxe um mundo perfeito, tampouco que resolvesse os principais problemas da humanidade.

Se despertasse no lado de cá da realidade, Prissípkin veria nesse ano de 1979 Mikhail Gorbachev sendo eleito para o politburo do PC. Leria nos jornais que um certo Saddam Hussein chegaria ao poder no Iraque e que Margaret Thatcher se tornou a primeira mulher a ser primeira ministra do Reino Unido. Se fosse ao cinema, poderia escolher entre Apocalipse Now, Mad Max ou Star Trek.  Prissípkin também ficaria sabendo que um petroleiro francês explodiu na Irlanda deixando cinquenta pessoas mortas e que também houve um acidente nuclear na Pensilvânia.

Se estivesse vivo, vinte e nove anos depois de seu descongelamento, o personagem de Maiakóvski talvez soubesse que os animais do zoológico da cidade de Wuhan, na China, avisaram de um terremoto feroz que sacudiu o país. Os cientistas nada fizeram, pois contavam com a confirmação dos sismógrafos que nada avisaram. Elefantes e zebras atacavam as barras das jaulas e tigres rugiam enquanto os pavões gritavam. Eduardo Galeano conta essa história em sua obra Os Filhos dos Dias.

Prissípkin teria igual decepção com esse mundo. Talvez estivesse numa jaula, junto a outros animais. Rosnando coisas que fazem o coração disparar. E mexendo com nossas entranhas.

Júlio Ricardo Araújo é jornalista e autor do livro de poesias O estrangeiro de pedras e ventos (2014) Editora Multifoco

Anúncios