Um conto de Marguerite Duras

duras

Cartaz do colóquio em homenagem ao centenário de Duras, realizado em Belém

Em função da comemoração de seu centenário em 2014, Marguerite Duras foi tema de um recente colóquio e mostra de cinema realizado em Belém com o título “Uma poética do transbordamento”. Foi em Saigon (antiga Indochina francesa) que Duras nasceu em 1914 e passou sua infância e adolescência. Aos 18 anos mudou-se para Paris, onde estuda Direito, Matemática e Ciências Políticas. No final da Segunda Guerra Mundial Marguerite Duras foi filiada ao Partido Comunista Francês, mas rompeu em 1950. Teve papel destacado no movimento contra a guerra da Argélia e durante as manifestações do Maio de 68.

Seu legado literário inclui romances como o vencedor do Prêmio Gouncourt de1984, O amante, peças de teatro e roteiros cinematográficos, alguns muito famosos como Hiroshima Mon Amour, filme dirigido pelo cineasta Alain Resnais. Marguerite Duras morreu em Paris, em 3 de março de 1996. Abaixo, um conto presente em seu livro Cadernos da Guerra e outros textos, publicado em 2009.

BAILARINAS CAMBOJANAS

         Era naquela parte do alto Camboja presa entre o mar e a montanha, para o lado da fronteira do Sião. Lá só há uma estrada cada vez pior e que para, vencida, diante do mar. A serra do Elefante a ladeia até o fim e mergulha no calmo golfo de Ream, onde algumas ilhotas ainda se notam, cada vez mais raras. Algumas aldeiazinhas pobres estão semeadas à beira da estrada, enfiadas na floresta. Pela tarde elas se acendem; grandes fogueiras de lenha verde e pesadas colunas de fumaça resinosa embalsamam o campo.

Essa lokhon, essa dançarina, ia de aldeia em aldeia. Quando chegou a Bem-Teai, eu estava lá por acaso. Um pequeno tam-tam monótono anunciava-a desde a manhã; sem trégua ela chamava, implorava que se viesse vê-la; caída a noite, os caminhos ficaram cheios de curiosos, de mulheres e homens vindos de outras aldeias.

Quando cheguei, a palhoça estava escura e já repleta de gente. No meio, sobre um estrado nu, a lokhon já estava dançando. Lamparinas fumarentas pareciam isolá-la do resto do mundo e da noite. Uma velha cambojana, num canto da palhoça, agachada, cantava uma melopeia de ritmo duro. Sua voz era vazia e rouca. Sua voz era feia, mas ela sabia colocar na voz a paixão de um ritmo impecável; por vezes, para segui-lo, ela gritava, não podendo mais cantar, e seu grito parecia de desespero. Essa lembrança sempre continua para mim como uma visão:

A moça dança; ainda é jovem e, no entanto, sua beleza é madura e já pronta para o sacrifício do declínio.

Vestida de outros falsos embaçados, está mal maquiada, maquiada com cal. Seus ombros estão nus e os braços também. Deve ter andado por longos dias debaixo do sol, pois o pescoço está queimado. A pele do braço é branca e fresca e os pesados braceletes parecem mordê-la.

Ela não sabe dançar, é uma pagã, uma falsa lokhon. Dá sua dança a todos, dá sua juventude, não sabe guardar nada e, terminada a dança, dá seu corpo pelo resto da noite. Ninguém a quereria como criada, ela só dança à noite. De dia, dorme em alguma valeta ou anda pelas estradas com sua velha cantora, que só tem a ela.

Graças a sua dança, compreendi a dança khmer, aquela que desde de séculos alimenta um povo com as magia e carrega um [grande] cerimonial até nessa palhoça escura e …

Marguerite Duras

Marguerite Duras na França, 1955

Ela e a velha começam juntas. As primeiras notas cantadas são baixas e sombrias, mas sente-se logo que elas chamam outras, mais distantes.

A dança se inicia sobriamente, como se dedicasse uma extrema atenção para nascer no momento exato. Começa com uma batida de saltos; depois sobe, sinuosa e lenta até os quadris. Espalha-se e vive intensamente  no torso que logo se torna uma coisa fechada, infinitamente preciosa, de onde a dança tenta escapar sem se fartar.

Os quadris imobilizam-se, as pernas separam-se uma da outra e os pés fixam-se sabiamente. Então os braços e o busto recebem de repente a graça e são tomados pela necessidade da dança. Os braços flexíveis parecem partidos pelo eflúvio que recebem de repente a graça e são tomados pela necessidade da dança. Os braços flexíveis parecem partidos pelo eflúvio que recebem. Por vezes eles vivem contrariamente; um atrás rechaçando e defendendo, o outro levado à frente, com a palma inflamada, implorando. A mão, a divina mão está quebrada como por um peso grande demais.  Está rígida e sofre infinitamente.

Uma vez que começa, ela improvisa, sem dúvida. Pensa-se na derradeira atenção da dançarina de corte aprisionada em sua dança, essa segunda vida que a designou e que a possui. Já esta, esta é livre, e trama a sua dança numa solidão perfeita consigo mesma.

Dir-se-ia que ela se estira para fora do próprio corpo, de repente cansada de [abranger] tão pouco espaço, de não poder ir mais longe fora de si mesma.

Depois a dança para.

A dançarina volta a seu pequeno corpo acanhado e lasso. Ofegante e fosca pelo calor, ela descansava. Todos consideravam com uma curiosidade baixa e cruel. Despida pela primeira vez, sua nudez de aparato ficava exposta; e os homens a desejavam de repente por causa dessa fadiga que a entregava a eles.

Ela teve de dançar a noite toda. Por longo tempo o pequeno tambor lançou seu apelo menor. Só parou quando a fresca madrugada entrou na palhoça, esgotada.

Ela se foi com o dia, pois era daquelas que não podem parar em lugar algum.

A preciosíssima dançarina de corte riria de sua dança e de sua sorte, sem compreender que ela também foi designada para levar aos campos longínquos a mensagem de sua dança mal aprendida.

Veja mais: Filme com roteiro escrito por Marguerite Duras e dirigido por Alain Resnais, Hiroshima mon amour (1959). [Legendas em espanhol]

hiroshima mon amour