Um romance sobre o amor, os amores e a amizade

Mathieu Lindon

Mathieu Lindon

  1. O que amar quer dizer é uma romance de cunho autobiográfico lançado em 2011 pelo escritor francês Mathieu Lindon. Nele, o autor narra em primeira pessoa os anos de sua juventude, principalmente sua amizade com o filósofo Michel Foucault (1926-1984) e um grupo de amigos que costumavam frequentar o apartamento do filósofo, na rue Vaugirard. Ambientado na Paris dos anos 70 e 80, Mathieu, o narrador, é um jornalista e escritor, filho de Jérôme Lindon, editor e fundador das Éditions de Minuit, editora responsável pela publicação de escritores vanguardistas como Alain Robbe-Grillet, Marguerite Duras, Samuel Beckett, Gilles Deleuze, entre outros. Uma das angústias do pai do narrador é nunca ter publicado as obras de Foucault em sua editora. Mesmo sabendo que seu filho mantinha amizade e uma relação de proximidade com o filósofo, Jérôme Lindon nunca tentou interferir ou tirar proveito dessa situação.
  1. O enredo se desenrola em torno de dois personagens principais, o pai do narrador e seu amigo, Michel Foucault. A relação com o pai é uma relação de afeto, mas, sobretudo, de respeito, de respeitabilidade burguesa com o nome da família e toda a tradição que ele representa no mundo editorial francês. Quando o narrador lança o seu primeiro romance e envia para seu pai, na tentativa de que o livro venha a ser publicado nas Éditons de Minuit, seu pai acaba criando alguns obstáculos para a publicação do livro, chegando a sugerir que o filho use um pseudônimo, ao invés de usar o nome da família, o que ele acaba aceitando. O motivo: a homossexualidade de Mathieu não deixava seu pai à vontade. Seu pai temia que o livro pudesse causar constrangimento no meio familiar. Por outro lado, Mathieu descobre em sua amizade com Michel Foucault, possibilidades de explorar sua liberdade que até então se mantinha presa sob o jugo da opressão moral, do conservadorismo velado de seu pai. De um lado o amor paterno, o respeito e a admiração por um homem devotado ao seu trabalho de editor. De outro lado, o libertário mundo da rue Vaugirard, as experiências com drogas (ópio, heroína e principalmente LSD), as viagens regadas à música clássica, as aventuras sexuais com homens e mulheres, a fruição artística, a autodescoberta, etc.
  1. A sexualidade e as experiências com drogas são dois motivos constantes do romance. Num primeiro momento, Mathieu se envolve com uma garota e depois passa a conhecer outros jovens que como ele, frequentam o apartamento de Foucault. Um dia, uma antiga amante sua conta que certa vez, ao comentar sobre ele para seu amante, ele respondeu “numa frase lapidar que concentrava todas as censuras, que eu era gay, drogado e amigo de Michel Foucault”. (p. 90) Da parte de seu pai, Mathieu admirava o respeito e a amizade que ele nutria por Samuel Beckett, a quem chamava carinhosamente de Sam. Desse modo, o romance traça em uma trama interessante a relação do narrador com seu pai, com seu amigo Foucault, com os amigos da rue Vaugirard e de seu pai com Samuel Beckett e Alain Robbe-Grillet. O tema da aids também é suscitado no romance, visto que a doença vitimou Foucault e dois outros amigos de Mathieu. O próprio narrador chega a fazer um exame, que dá negativo. Em outra passagem, após a partida de um jovem com quem Mathieu mantinha relação, ele se encontra desolado, com saudades de quem partiu e não retornou e também não deixou pistas. Diante dessa situação, o narrador encontra um livro no apartamento de Foucault: Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes. “Está tudo lá”, confirma pra si mesmo, extasiado pela leitura. “Mas não tenho notícias e sofro obsessivamente. Na estante da sala, deparo com Fragmentos de um discurso amoroso, um dos raros livros de Barthes que ainda não li, e o devoro. Vou lendo sem parar, cada um dos minicapítulos: está tudo lá”. (p. 83)
  1. O que amar quer dizer é no fundo uma homenagem prestada tanto ao seu pai, mas, sobretudo ao seu amigo, Michel Foucault. Homenagem carregada de afeto, de amor e luto. Com narração e passagens que rememoram de maneira nostálgica a atmosfera e o clima libertário vivido na rue Vaugirard, o romance aborda temas universais como a amizade, o sexo, a liberdade, o amor e a morte. Como toda dor causada pela morte de quem amamos, a morte de Foucault e posteriormente a morte do pai do narrador (sem mencionar a morte de dois outros amigos, também vítimas da aids) colocam Mathieu diante da implacável crueza da realidade do homem e da vida, mas que mesmo diante do luto, consegue através da literatura e portanto, da arte, transcendê-lo e render em forma de romance, homenagem a seu amigo “Michel” e buscar no labirinto da memória, momentos de aprendizagem e experiências positivas ao lado de seu pai. O final do romance traz uma reflexão simples, uma anedota que, contudo, reflete a profundeza do sentimento humano. “Lembro-me de uma anedota sinistra sobre o dono de um cachorro muito amado que agora estava morto e que, diante dos ossos do cadáver, lamenta que o cachorro já não possa nem mesmo regalar-se com eles: num momento ou em outro, essa é a história de todo amor”. (p. 284).
Edição de O que amar quer dizer (Cosac Naify)

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