HHhH: homenagem aos resistentes da Operação Antropoide

Desesperado. Hoje a tarde meio dormindo: esse sofrimento vai acabar explodindo minha cabeça. Bem nas têmporas. Ao imaginar isso, o que de fato vi foi uma ferida de bala, só que as bordas do rombo estavam abertas para fora e tinham as pontas afiadas como uma lata aberta com violência.
Franz Kafka, Sonhos (Diário, 15 de outubro de 1913)

No dia 28 de maio de 1942, Joseph Goebbels escrevia em seu diário: “Uma notícia alarmante chega de Praga”. Referia-se ao atentado contra Reinhardt Heydrich. É esse atentado que vai orientar todas as ações de HHhH, romance de estreia do escritor francês Laurent Binet, que causou forte impressão na cena literária no ano de seu lançamento. O título faz referência a abreviação de uma frase alemã corrente na época, que significa: o cérebro de Himmler se chama Heydrich. Nos 257 capítulos que compõem a narrativa, o autor recria um dos grandes atos de resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial: a Operação Antropoide, responsável pelo assassinato de Heydrich, um dos mais perversos nazistas e um dos mentores intelectuais do Holocausto.

Designado por Hitler como “protetor” da Boêmia-Moravia (República Tcheca), Heydrich implementou um regime de terror com assassinatos em massa que fizeram crescer sua fama e seu poder no covil do partido nazista. Ao perseguir de maneira implacável e afugentar parte da resistência, Heydrich acreditou que possuía o controle absoluto de Praga, sentia-se um verdadeiro semi-rei no país de Kafka. Não esperava que, na Inglaterra, o governo tchecoslovaco em exílio preparava o atentado que tiraria sua vida.

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Reinhardt Heydrich (1904 – 1942)

Em seu Diário de Trabalho (Volume II – 1941–1947), no mesmo dia em que Goebbels escrevia sobre a “notícia alarmante” vinda de Praga, Brecht, por sua vez, exilado nos Estados Unidos, escrevia: “Com Lang, na praia, pensei num filme de refém (movido pela execução de Heydrich em Praga)”. (p. 111)

Logo no primeiro capítulo de HHhH o autor apresenta-nos um inusitado enunciado, onde questiona: “que há de mais vulgar do que um personagem inventado?” De fato, o romance de Binet opta por colocar em ação apenas personagens históricos, em contraposição aos personagens de ficção. Essa característica se repete em seu segundo romance, traduzido no Brasil com o título de Quem Matou Roland Barthes? (Com a diferença que em seu segundo romance os protagonistas são personagens de ficção). A dicotomia entre o romance tradicional (de tipo balzaquiano) e o romance contemporâneo é constantemente ressaltado pelo narrador em HHhH. Sua prosa híbrida é permeada por diferentes discursos, que abrange além do literário, o ensaístico, fait-divers, o biográfico e, sobretudo, o discurso histórico, cujo pano de fundo estrutura e organiza uma narrativa de caráter autoficcional.

Foi com a intenção de homenagear Jan Kubis e Josef Gabcik que Binet escreveu seu livro. Foram esses dois jovens, um tcheco e um eslovaco, ambos treinados no exterior para executarem numa manhã de quarta-feira, 27 de maio de 1942, o grande atentado contra o “açougueiro de Praga”. O tema adotado por Binet, contudo, não é novidade. Confirmando o que havia escrito em seu Diário no ano anterior, Brecht finaliza o roteiro de Os carrascos também morrem que será dirigido por Fritz Lang em 1943. O próprio romance HHhH de Laurent Binet inspirou a adaptação para o cinema feita por Cédric Jimenez, em 2016, com mesmo título.

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Cena de Os carrascos também morrem, Fritz Lang, 1943.

O caráter heroico da ação empreendida contra Heydrich no coração de Praga expôs os cidadãos tchecos ao revide alemão. Como vingança pela morte do “protetor”, a pequena cidade de Lídice foi completamente arrasada e seus cidadãos foram fuzilados ou enviados para campos de concentração. O governo alemão propagandeou os eventos de 10 de junho de 1942 como exemplo para quem atentasse contra as autoridades nazistas, causando enorme repúdio internacional. Esses e outros eventos são narrados com grande habilidade por Laurent Binet, que coloca seu romance na mesma tendência de alguns autores da literatura francesa contemporânea, que privilegiam o uso de personagens históricos e o estilo autoficcional do narrador (Mathieu Lindon em O que amar quer dizer, David Foenkinos em Charlotte, Patrick Deville em Viva!). Essa tendência autoficcional é destacada pela crítica Leyla Perrone-Moisés em seu livro Mutações da literatura no século XXI.

“Nos anos 80 a França foi inundada de livros cujo assunto era o próprio autor, suas experiências, pensamentos e sentimentos. Não eram diários, porque não registravam o acontecimento do dia-a-dia, em ordem cronológica. Não eram autobriografias, porque não narravam a vida inteira do autor, mas apenas alguns momentos desta. Não eram confissões, porque não tinham nenhum objetivo de autojustificação e nenhum caráter purgativo”. (p. 204)

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Um romance sobre o amor, os amores e a amizade

Mathieu Lindon

Mathieu Lindon

  1. O que amar quer dizer é uma romance de cunho autobiográfico lançado em 2011 pelo escritor francês Mathieu Lindon. Nele, o autor narra em primeira pessoa os anos de sua juventude, principalmente sua amizade com o filósofo Michel Foucault (1926-1984) e um grupo de amigos que costumavam frequentar o apartamento do filósofo, na rue Vaugirard. Ambientado na Paris dos anos 70 e 80, Mathieu, o narrador, é um jornalista e escritor, filho de Jérôme Lindon, editor e fundador das Éditions de Minuit, editora responsável pela publicação de escritores vanguardistas como Alain Robbe-Grillet, Marguerite Duras, Samuel Beckett, Gilles Deleuze, entre outros. Uma das angústias do pai do narrador é nunca ter publicado as obras de Foucault em sua editora. Mesmo sabendo que seu filho mantinha amizade e uma relação de proximidade com o filósofo, Jérôme Lindon nunca tentou interferir ou tirar proveito dessa situação.
  1. O enredo se desenrola em torno de dois personagens principais, o pai do narrador e seu amigo, Michel Foucault. A relação com o pai é uma relação de afeto, mas, sobretudo, de respeito, de respeitabilidade burguesa com o nome da família e toda a tradição que ele representa no mundo editorial francês. Quando o narrador lança o seu primeiro romance e envia para seu pai, na tentativa de que o livro venha a ser publicado nas Éditons de Minuit, seu pai acaba criando alguns obstáculos para a publicação do livro, chegando a sugerir que o filho use um pseudônimo, ao invés de usar o nome da família, o que ele acaba aceitando. O motivo: a homossexualidade de Mathieu não deixava seu pai à vontade. Seu pai temia que o livro pudesse causar constrangimento no meio familiar. Por outro lado, Mathieu descobre em sua amizade com Michel Foucault, possibilidades de explorar sua liberdade que até então se mantinha presa sob o jugo da opressão moral, do conservadorismo velado de seu pai. De um lado o amor paterno, o respeito e a admiração por um homem devotado ao seu trabalho de editor. De outro lado, o libertário mundo da rue Vaugirard, as experiências com drogas (ópio, heroína e principalmente LSD), as viagens regadas à música clássica, as aventuras sexuais com homens e mulheres, a fruição artística, a autodescoberta, etc.
  1. A sexualidade e as experiências com drogas são dois motivos constantes do romance. Num primeiro momento, Mathieu se envolve com uma garota e depois passa a conhecer outros jovens que como ele, frequentam o apartamento de Foucault. Um dia, uma antiga amante sua conta que certa vez, ao comentar sobre ele para seu amante, ele respondeu “numa frase lapidar que concentrava todas as censuras, que eu era gay, drogado e amigo de Michel Foucault”. (p. 90) Da parte de seu pai, Mathieu admirava o respeito e a amizade que ele nutria por Samuel Beckett, a quem chamava carinhosamente de Sam. Desse modo, o romance traça em uma trama interessante a relação do narrador com seu pai, com seu amigo Foucault, com os amigos da rue Vaugirard e de seu pai com Samuel Beckett e Alain Robbe-Grillet. O tema da aids também é suscitado no romance, visto que a doença vitimou Foucault e dois outros amigos de Mathieu. O próprio narrador chega a fazer um exame, que dá negativo. Em outra passagem, após a partida de um jovem com quem Mathieu mantinha relação, ele se encontra desolado, com saudades de quem partiu e não retornou e também não deixou pistas. Diante dessa situação, o narrador encontra um livro no apartamento de Foucault: Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes. “Está tudo lá”, confirma pra si mesmo, extasiado pela leitura. “Mas não tenho notícias e sofro obsessivamente. Na estante da sala, deparo com Fragmentos de um discurso amoroso, um dos raros livros de Barthes que ainda não li, e o devoro. Vou lendo sem parar, cada um dos minicapítulos: está tudo lá”. (p. 83)
  1. O que amar quer dizer é no fundo uma homenagem prestada tanto ao seu pai, mas, sobretudo ao seu amigo, Michel Foucault. Homenagem carregada de afeto, de amor e luto. Com narração e passagens que rememoram de maneira nostálgica a atmosfera e o clima libertário vivido na rue Vaugirard, o romance aborda temas universais como a amizade, o sexo, a liberdade, o amor e a morte. Como toda dor causada pela morte de quem amamos, a morte de Foucault e posteriormente a morte do pai do narrador (sem mencionar a morte de dois outros amigos, também vítimas da aids) colocam Mathieu diante da implacável crueza da realidade do homem e da vida, mas que mesmo diante do luto, consegue através da literatura e portanto, da arte, transcendê-lo e render em forma de romance, homenagem a seu amigo “Michel” e buscar no labirinto da memória, momentos de aprendizagem e experiências positivas ao lado de seu pai. O final do romance traz uma reflexão simples, uma anedota que, contudo, reflete a profundeza do sentimento humano. “Lembro-me de uma anedota sinistra sobre o dono de um cachorro muito amado que agora estava morto e que, diante dos ossos do cadáver, lamenta que o cachorro já não possa nem mesmo regalar-se com eles: num momento ou em outro, essa é a história de todo amor”. (p. 284).
Edição de O que amar quer dizer (Cosac Naify)

Edição de O que amar quer dizer (Cosac Naify)