A submissão de Houellebecq

Spain, Michel Houellebecq

Michel Houellebecq em 2014

  1. Sem entrar na polêmica em que esteve envolvido “Submissão”, último romance de Michel Houellebecq, gostaria antes, destacar algumas impressões sobre o livro publicado no Brasil pela editora Alfaguara. Nessa narrativa, o tempo se passa no ano de 2022 e o pano de fundo é a atmosfera que antecede as eleições presidenciais da França, no mesmo ano. Dominada pela alternância no poder entre os partidos social democratas (PS) e conservadores (UMP), o cenário político francês e a correlação de força entre os partidos se vê diante de uma mudança radical. O candidato da Fraternidade Muçulmana, Mohammed Ben Abbes, político hábil e carismático, possui chances reais de vencer as eleições no segundo turno, derrotando a candidata da extrema direita, Marine Le Pen (FN). O clima é de tensão e a líder da Frente Nacional, em determinada passagem, convoca uma grande mobilização, que o primeiro ministro Manuel Valls trata rapidamente de anunciar sua proibição e de qualquer outra manifestação. Ainda assim, dois milhões de pessoas estavam presentes na Champs-Élysées, segundo os organizadores. A faixa que se impunha diante da multidão dizia em grandes caracteres: NÓS SOMOS O POVO DA FRANÇA! Em outros cartazes o slogan se repetia: ESTA É A NOSSA CASA! Nesse contexto, ao vislumbrar a possibilidade de um partido muçulmano passar a dirigir a vida da França, Françoise, um professor universitário especializado na obra de Joris-Karl Huysmans, começa a indagar a si mesmo e a outros poucos conhecidos, quais seriam as implicações caso o candidato da Fraternidade Muçulmana vencesse as eleições. Para sua surpresa, muitos professores universitários estão dispostos a aceitar as mudanças propostas por Mohammed Ben Abbes.
  1. É nesse contexto que observamos a vida solitária do professor da Université Sorbonne Nouvelle Paris 3. Françoise vive sozinho e uma das poucas mulheres que ainda mantém relação é Myrian, sua ex namorada, uma estudante de 22 anos que após as eleições, deixa a França com seus pais a caminho de Israel, temerosos da vitória do candidato muçulmano. A partida de Myrian – uma das poucas mulheres que Françoise ainda mantém um resquício de relacionamento – coloca o professor universitário diante de uma solidão cada vez mais opressora, chegando a suscitar algumas vezes o suicídio como solução para sua crise existencial (tema presente em outro romance de Houellebecq, “O mapa e o território”). Do ponto de vista pessoal e na tentativa de minimizar sua solidão, François recorre aos serviços de diferentes garotas de programa. A sexualidade, tal como a solidão do mundo contemporâneo, é um dos aspectos explorados por Houellebecq e muitas vezes assume um caráter cômico, como na passagem a seguir. “Será que, ao envelhecer, eu era vítima de uma espécie de andropausa? Aquilo podia estar realmente acontecendo e, para tirar a limpo, resolvi passar minhas noites no YouPorn, que ao longo dos anos se tornou um site pornô de referência. O resultado foi, logo de saída, extremamente tranquilizador. O YouPorn respondia às fantasias dos homens normais, espalhados pela superfície do planeta, e eu era, o que se confirmou desde os primeiros minutos, um homem de normalidade absoluta”.
  1. Mas esses são temas que passam em torno do núcleo central do romance, sendo, portanto, secundários. Para o autor, o que importa é suscitar a discussão em torno das transformações mais profundas nas raízes da cultura ocidental, a partir da vitória de Ben Abbes. A ameaça da vitória de um muçulmano colocaria em xeque alguns dos pilares da República Francesa, como a laicidade, por exemplo. Mas as mudanças iam muito além disso. O diálogo com um agente secreto francês faz com que Françoise perceba mais profundamente as verdadeiras intenções do novo governo. Trata-se não apenas de impor o islã como a religião nacional, mas também, inspirado no Império Romano, construir uma Europa em que o islã seja a religião majoritária. Para isso, Ben Abbes pretende apresentar projetos que incluam outros países árabes na União Europeia, como Líbano, Egito, Tunísia e Marrocos. A política nacional defendida pela Fraternidade Muçulmana inclui ainda a exclusão das mulheres dos postos de trabalho; o corpo docente universitário deverá ser composto em sua integralidade por professores convertidos ao islã, etc. Num desses diálogos, o interlocutor de Françoise esclarece. “A Fraternidade Muçulmana é um partido especial, você sabe: muitas das suas implicações políticas habituais os deixam mais ou menos indiferentes; e, sobretudo, não põem a economia no centro de tudo. Para eles o essencial é a demografia e a educação (…) sob o ponto de vista deles, é tão simples assim, e a economia, e até a geopolítica, não passam de pura fachada para inglês ver: quem controla as crianças controla o futuro, ponto final. Então, o único ponto capital, o único ponto sobre o qual fazem questão de obter ganho de causa é a educação das crianças”.
  1. A Fraternidade Muçulmana vence as eleições. “É um terremoto”, anuncia o jornalista David Pujadas após as primeiras apurações. As mudanças começam a ser perceptíveis, o crescimento no número de mulheres usando burcas nas ruas é visível, a poligamia passa a ser permitida e para o espanto de Françoise, alguns colegas da universidade estão bem acomodados nessa situação. Ele mesmo, depois do impacto dessas primeiras transformações, passa a ver a política de Ben Abbes com outros olhos. O financiamento do ensino superior francês passa a dispor de uma quantia impressionante, oriunda sobretudo do interesse das petromonarquias (como a Arábia Saudita) no controle do sistema de ensino superior francês. Assim, após um período afastado da docência, dedicado a um único projeto intelectual (o prefácio da edição La Pléiade da obra de Huysmans), Françoise recebe o convite pessoal do reitor da Sorbonne para que aceite integrar o corpo docente da universidade. Para isso, porém, Françoise terá que se converter ao islamismo. Desse modo, a submissão assume um aspecto geral que envolve toda a sociedade e no fim, o próprio Françoise se submete aos novos rumos que o cenário político impõe a sua pacata vida de professor universitário. A submissão, por fim, é a aceitação da derrocada final de uma Europa Ocidental e cristã, é a submissão e abdicação do projeto de União Europeia, cada vez mais ameaçado com a expansão da cultura árabe no velho mundo. Contudo, a submissão parece ser também inofensiva e deixa a impressão, em certos momentos, de que as mudanças não são assim tão graves, pois é assim que no final do romance, Françoise acaba se convertendo ao islã, um pouco por interesse econômico, um pouco por não ter mais nenhuma perspectiva em seu horizonte. De toda forma, sua conversão ou sua submissão, parece ser gratuita, sem compromisso, precedida por outros interesses que não a comunhão com ideais do islã. (É possível que Françoise também tenha sofrido a influência de Huysmans, que em determinado período de sua vida, acabou se convertendo ao catolicismo). A própria cerimônia de conversão denota esse caráter descompromissado de Françoise. “Depois, com uma voz calma eu pronunciaria a seguinte fórmula, que teria aprendido foneticamente: ‘Ash-hadu anna la iláha illa alláh, wa ash-hadu anna muhammadan rasul alláh’. Cujo sentido exato era: ‘Testemunho que não há divindade senão Deus, e que Maomé é o enviado de Deus’. E depois estaria terminado; dali em diante eu seria um muçulmano”.