Benjamin e as cidades I: Nápoles

Heinrich Hermanns - A Festive Afternoon with a view over Naples

Heinrich Hermanns – A Festive Afternoon with a view over Naples

  1. Em Imagens de pensamento – Sobre o haxixe e outras drogas, Benjamin descreve em forma de diário, vários aspectos de algumas das cidades que visitou. Em 1924 o filósofo alemão esteve na Ilha de Capri, na companhia da revolucionária russa Asja Lacis, cuja autoria do texto sobre Nápoles, publicado no Frankfurter Zeitung, é atribuída a ambos. Nesse texto, Benjamin enxerga em Nápoles (e não em Roma) o último reduto do catolicismo italiano. Um dos personagens da cidade, Alfonso Maria de’ Liguori (1696 – 1787) beatificado em 1816 e proclamado santo em 1839 pelo papa Gregorio XVI, é caracterizado como o “santo que flexibilizou as práticas da igreja (…) no ofício de delinquentes e prostitutas”. Outro detalhe percebido: a única a se igualar à criminalidade organizada da Camorra é a Igreja e não a Polícia.
  1. A cidade é percebida também em seus aspectos de miséria e delinquência. A paisagem urbana é vista em sua ausência de luz, como uma cidade cinza, “de um cinzento vermelho ocre, um cinzento branco” onde a ordem só consegue espaço ao abrigo dos “grandes hotéis e armazéns do cais”, ao passo que a anarquia impera no antigo centro da cidade; aqui, diz o autor, não se orienta pelo número das casas, mas pelas “lojas, fontes e igrejas”. Em certas bancas das ruas do porto o viajante pode encontrar “pontas de cigarro, cabeças de gato e restos de comida”. Nápoles produz o seu próprio som e o barulho da cidade é oriundo dos jogos de azar, das festas populares que ocupam as ruas e se somam ao vozerio dos jovens vendedores de jornais. Benjamin identifica esse vozerio, é “o grito da manufatura urbana”. Os cafés da cidade nem de longe lembra os cafés vienenses, reservado às elites burguesas. O café napolitano, comenta o filósofo, é tumultuado, um lugar “onde não é possível passar muito tempo” e “quanto mais pobre o bairro, mais numerosas são as tabernas”.