Modiano: ficção e história

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Patrick Modiano

  1. Publicado em 1991, Flores da Ruína, romance do escritor francês Patrick Modiano (vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2014), é uma incansável busca pela desconhecida história por trás de lugares comuns da capital francesa. Narrado em primeira pessoa, o autor utiliza em várias passagens da narrativa, referências autobiográficas, mencionando ora o irmão morto ainda na infância, ora o pai, um judeu preso durante a Ocupação. Com um estilo de frases curtas, o autor explora a quebra cronológica do tempo narrativo. Modiano faz com que seu personagem ande sem nenhum destino certo, e assim, ele começa a reencontrar lugares que fazem parte de suas lembranças, mas que há muito tempo ele não revia. “Sentia-me apreensivo ao passar por lugares onde não colocava os pés desde meus dezoito anos”. Os lugares pelos quais o narrador irá seguir até o fim da narrativa, são jardins, praças, estações de metrô, cafés, restaurantes e outros ambientes, que fazem ressurgir na memória e imaginação do narrador (aqui misturam-se história e ficção), um tempo e uma geografia tardia, alterada, transformada e ressignificada em uma realidade que esconde discretamente, suas ligações com o passado. “Tinha a sensação de que os lugares permaneceram do jeito que eu os havia deixado no início dos anos sessenta, e que foram abandonados na mesma época, lá se iam mais de vinte e cinco anos”. Surge ainda, em algumas passagens e como pano de fundo, referências diretas a momentos históricos da França, como a Ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial e a revolta de estudantes em Maio de 68.
  2.  Para seguir em busca de pistas que ajudem e descrever a história daqueles lugares, o narrador conta com o auxílio de jornais antigos, listas telefônicas, pesquisas em anuário, guias de ruas, etc. É no momento em que desemboca numa praça que o narrador irá lembrar do número 26 da rue des Fossés-Saint Jacques. Foi nesse endereço que, em 1933 “um jovem casal se suicida por razões misteriosas”. Esse caso irá acompanhar o narrador até o fim, que pretende encontrar as causas de um crime cometido há muitos anos. Sabe-se pouco sobre o casal. Urbain T. “jovem engenheiro” e Gisele S. “uma bela mulher loura, alta e esbelta”. Aparentavam uma vida tranquila e feliz e numa noite de sábado, resolvem sair para jantar. Retornam duas da manhã para seu apartamento, “acompanhados por dois casais que tinham acabado de conhecer”. Às quatro horas os dois casais vão embora e pouco tempo depois, ouvem-se disparos. Uma vizinha decide, horas depois, tocar a campainha. A mulher aparece na porta, ensanguentada, ferida abaixo do seio esquerdo. “Ela murmurou: Meu marido! Meu marido! Morto”. Com a chegada do comissário de polícia, a cena do crime. “Ele ainda segurava o revólver na mão crispada. Tinha se suicidado com uma bala no coração” e ainda assim, havia deixado um bilhete, escrito às pressas, que dizia: “Minha mulher se matou. Estávamos bêbados. Eu me matei. Não procurem…”.
  3. Modiano persiste, até o fim do romance, no uso da memória, das lembranças e recordações como elementos determinantes na construção e desenvolvimento da narrativa. Outros personagens secundários também são evocados, como Jaqueline, a namorada do narrador que o acompanha ainda muito jovem, com vinte anos, para Viena, Áustria; Claude Bernard, que possuía um armazém no mercado de pulgas e um sebo na avenue de Clichy; o tímido e misterioso Pacheco; a dinamarquesa que lhe oferece Whisky, quando ele está fugindo de uma aula, etc. Para o narrador de Flores da Ruína, trata-se de criar um mundo próprio, forjado na força da memória e dos fragmentos da história, que somados ao caos da realidade, imprimem a singularidade de um espaço poético. De modo que a grande aventura do personagem é determinada em encontrar na realidade, fragmentos e ecos de um passado e de uma Paris ausente, distante, como a vista de uma cidade que, ao longe, permanece encoberta por um cinza invernal, ou como diria Eliot, uma fulva neblina.