Blues dos Refugiados

Turkey To Possibly Join War Against ISIS

Refugiados sírios, 2014.

Digamos que esta cidade tem cerca de dez milhões,

Há os que vivem em buracos, há os que vivem em mansões,

Mas não há lugar para nós, amor, não há lugar para nós.

 

Já tivemos um país, que nos parecia bem,

Procurem-no no Atlas, que ainda lá vem:

Já não podemos voltar, amor, já não podemos voltar.

 

Cresce um velho teixo junto ao largo da igreja,

E todas as primaveras de novo floreja,

Mas os velhos passaportes não, amor, os velhos passaportes não.

 

O cônsul deu um murro na mesa, impaciente:

“Não têm passaporte, estão mortos oficialmente”.

Mas continuamos vivos, amor, continuamos vivos.

 

Fui a uma comissão, mandaram-me esperar sentado;

Que voltasse para o ano, disseram num tom educado.

Mas para onde iremos hoje, amor, para onde iremos hoje?

 

Fui a um comício em que o orador, de pé, dizia:

“Se os deixarmos entrar, roubam-nos o pão de cada dia.“

Falava de nós os dois, amor, falava de nós os dois.

 

Pensei ouvir trovões no céu a tremer;

Era Hitler na Europa, dizendo: “Devem morrer.”

Estava a pensar em nós, amor, estava a pensar em nós

 

Vi um cão-de-água preso à lapela de um fato,

E uma porta a abrir-se para que entrasse um gato:

Mas não eram judeus alemães, amor, não eram judeus alemães.

 

Fui até ao porto, pus-me a olhar para a corrente,

Na água vi os peixes a nadar livremente:

Mesmo a dez pés de mim, amor, mesmo a dez pés de mim.

 

Andei pelas florestas, vi os pássaros empoleirados,

Não tinham políticos e piavam os seus trinados,

Não eram a raça humana, amor, não eram a raça humana.

 

Sonhei que via um prédio com um milhar de andares,

E milhares de janelas, portas aos milhares,

E nenhuma era nossa, amor, nenhuma era nossa.

 

Cheguei a uma campina com a neve tombando,

Vi dez mil soldados de lá para cá marchando;

Procurando-nos os dois, amor, procurando-nos os dois.

 

(W.G. Auden)

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Convite para a Ilha

 

jorge de lima

O poeta trabalha 

Não digo em que signo se encontra esta ilha

mas ilha mais bela não há no alto-mar.

O peixe cantor existe por lá.

Ao norte dá tudo: baleias azuis,

o ouriço vermelho, o boto voador.

A leste da ilha há o Gêiser gigante

deitando água morna. Quem quer se banhar?

Há plantas carnívoras sem gula que amam.

Ao sul o que há? – há rios de leite,

há terras bulindo, mulheres nascendo,

raízes subindo, lagunas tremendo,

coqueiros gemendo, areias se entreabrindo.

A oeste o que há? – não há o ocidente nem coisa de lá:

a terra está nova: devemos olhar o sol se elevar.

Convido os rapazes e as raparigas

pra ver esta ilha, correr nos seus bosques,

nos vales em flor, nadar nas lagunas,

brincar de esconder, dormir no areial,

caçar os amores que existem por lá.

O sol da meia-noite, a aurora boreal,

o cometa Halley, as moças nativas,

podeis desfrutar. Meninas partamos

enquanto esta ilha não vai afundar,

enquanto não chegam guerreiros das terras,

enquanto não chegam piratas do mar.

As noites! Que noites de imenso luar!

Podeis contemplar a Ursa maior,

A Lira, a Órion, a Luz de Altair,

estrelas cadentes correndo no espaço,

a estrela dos magos parada no ar.

Que noites, meninas, de imenso luar!

E as sestas? Que sestas! A brisa é tão mansa!

Há redes debaixo dos coqueirais,

sanfonas tocando, o sol se encobrindo,

as aves cantando canções de ninar.

Meninas partamos que as noites de escuro

não tardam a chegar. Então que é da ilha,

da ilha mais bela que há pelo mar

e onde se pode sonhar com os amores

que nunca na vida nos hão de chegar?

(Jorge de Lima)

 

Dois poemas de Apollinaire

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Noite estrelada – Van Gogh (1889)

 

A PONTE MIRABEAU

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

Nossos amores

Devo lembrar a cena

Vinha a alegria sempre após a pena

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

Mãos entre as mãos fiquemos face a face

Enquanto sob

A ponte dos braços passa

Dos eternos olhares a onda tão lassa

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

O amor se vai como essa água corrente

O amor se vai

Como a vida é lenta

E como a esperança é violenta

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

Passam os dias passam as semanas

Nem o tempo passado

Nem os amores voltam

Sob a ponte Mirabeau corre o Sena

 

Venha a noite soe a hora

Eu fico os dias vão-se embora

 

 

LUAR

Lua melifluente aos lábios dos dementes

Os pomares e os burgos têm fome ingente

Os astros muito bem figuram as abelhas

Desse mel luminoso a pingar das parreiras

Pois eis que lentamente caindo do céu

Cada raio de lua é um raio de mel

Ora oculto concebo a tão doce aventura

Temo o dado de fogo dessa abelha Arctura

Que pôs em minhas mãos raios sem cabimento

E colheu mel lunar lá na rosa dos ventos

 

(Tradução: Mario Laranjeira)

Três poemas de Benjamin Péret

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Alô

Meu avião em chamas meu castelo inundado de vinho do Reno

meu gueto de íris negras minha orelha de cristal

meu rochedo despencando-se pela falésia para esmagar o guarda-florestal

meu caracol de opala meu mosquito de ar

meu acolchoado de aves-do-paraíso minha cabeleira de escuma negra

meu túmulo estilhaçado minha chuva de gafanhotos vermelhos

minha ilha voadora minha uva turquesa

minha colisão de loucos e prudentes automóveis minha platibanda selvagem

meu pistilo de dente-de-leão projetado no meu olho

meu bulbo de tulipa no cérebro

minha gazela perdida num cinema das avenidas

meu estojinho de sol minha fruta de vulcão

meu riso de lagoa escondida onde vão se afogar os profetas distraídos

minha inundação de cassis minha borboleta de cogumelo

minha cascata azul como uma vaga de maremoto que faz a primavera

meu revólver de coral cuja boca me chama como o olho d’um poço cintilante

gelado como o espelho onde contemplas a fuga dos colibris do teu olhar

perdido numa mostra de lençóis rodeada de múmias

eu te amo

 

Piscada

Bandos de papagaios atravessam minha cabeça quando te vejo de perfil

e o céu de banha estria-se de relâmpagos azuis que traçam teu nome em todos os sentidos

Rosa penteada de tribo negra perdida numa escada onde os seios agudos das mulheres olham pelos olhos dos homens

Hoje eu olho pelos teus cabelos

Rosa de opala da manhã

e desperto pelos teus olhos

Rosa de armadura

e penso pelos teus seios de explosão

Rosa de lagoa esverdeada pelas rãs

e durmo no teu umbigo de mar Cáspio

Rosa de rosa do mato durante a greve geral

e me perco entre teus ombros de via láctea fecundada por cometas

Rosa de jasmim na noite da lavagem dos linhos

Rosa de casa assombrada

Rosa de floresta negra inundada de selos azuis e verdes

Rosa de papagaio-de-papel sobre um terreno baldio onde brigam crianças

Rosa de fumaça de charuto

Rosa de espuma de mar feita cristal

Rosa

 

Nascente

É Rosa menos Rosa

diz a chuvarada que se alegra por refrescar o vinho branco

aguardando arrombar as igrejas num qualquer dia de Páscoa

É Rosa menos Rosa

e como está o tempo

quando o touro furioso da grande catarata me invade

sob suas asas de corvos escorraçados de mil torres em ruínas

como está o tempo

É um tempo Rosa com um sol de verdade de Rosa

e vou beber Rosa comendo Rosa

até adormecer num sono Rosa

vestido de sonhos Rosa

e o alvorecer Rosa me despertará como um cogumelo Rosa

onde se verá a imagem de Rosa rodeada de um halo Rosa

Tradução: Suely Bastos

Uivo – II parte

Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias! Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!

Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!

Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!

Moloch cuja a mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!

Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!

Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio! Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!

Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!

Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz escorrendo do céu!

Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! Subúrbios invisíveis! Tesouros de esqueletos! Capitais cegas! Indústrias demoníacas! Nações espectrais! Invencíveis hospícios! Caralhos de granito! Bombas monstruosas!

Eles quebraram suas costas levando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!

Visões! Profecias! Alucinações! Milagres! Êxtases! Descendo pela correnteza do rio americano!

Sonhos! Adorações! Iluminações! Religiões! O carregamento todo de bosta sensitiva!

Desabamentos! Sobre o rio! Saltos e crucifixões descendo a correnteza! Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! Jogados nos rochedos do Tempo!

Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! O olhar selvagem! Os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! Rumo à solidão! Acenando! Levando flores! Rio abaixo! Rua acima!

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Jackson Pollock

Conversa galante

Eliot

Eliot

Observo: “Nossa sentimental amiga, a Lua!

Ou talvez (é fantástico, admito)

Seja o balão do Preste João que agora fito

Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar

Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar.”

E ela: “Como divagais!”

Eu, então: “Alguém modula no teclado

Esse noturno raro, com que explicamos

A noite e o luar; partitura que roubamos

Para dar forma ao nosso nada.”

E ela: “Me dirá isso respeito?”

“Oh, não! Eu é que de vazios sou apenas feito.”

“Vós, senhora, sois a perene ironia,

A eterna inimiga do absoluto,

A que mais de leve torce nossa tristeza erradia!

Com vosso ar indiferente e resoluto,

De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios…”

E ela: “Seremos afinal assim tão sérios?”

(Tradução: Ivan Junqueira)

Poesia e poema

Octavio Paz

Octavio Paz

“A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos escolhidos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; retorno à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Prece ao vazio, diálogo com a ausência: o tédio, a angústia e o desespero a alimentam. Oração, ladainha, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio todos os conflitos objetivos se resolvem e o homem finalmente toma consciência de ser mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar de uma forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras, criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da ideia. Loucura, êxtase, logos. Retorno à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo e metros e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, voz do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todos os rostos mas há quem afirme que não possui nenhum: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!”

Octavio Paz – O arco e a lira

Rufando o Batuque de Bruno de Menezes

bruno de menezes

Bruno de Menezes

Poeta negro, morador do bairro do Jurunas em Belém, Bruno de Menezes (1883-1963), apesar de ser um autor pouco difundido nacionalmente, possui importância significativa para o desenvolvimento da poesia moderna no norte do Brasil. Um dos pioneiros a produzir poesia simbolista na Amazônia, seu livro “Batuque”, lançado em 1931, canta os costumes da presença africana na Amazônia. Sua poesia é composta pelas imagens das águas barrentas dos rios de nossa região, pelo sensualismo dos “corpos lisos lustrosos”, pelo cheiro das ervas, pelo gosto da cana, etc.

O uso dos rituais africanos acompanhados e embalados pelo batuque dos negros também é parte do cenário da poesia de Bruno de Menezes.  Publico aqui dois poemas extraídos do livro “Batuque” que são expressões das angústias, da opressão e dos modos de vida que os negros criaram para “aguentar” suas jornadas extenuantes de trabalhos forçados em terras estranhas.

 

Cachaça

Ó negro arrancado ao torrão congolense!

 

Tocaste urucungo nos brigues corsários,

Dançaste de tanga batuques e jongos

À força de peia

Fingindo alegria!

Foste quem plantou partidas de cana

Na terra da América,

Que o engenho ainda hoje mastiga rangendo.

 

Surrado vendido

Mas tendo na alma

Seu santo Orixá.

Sem nunca esqueceres a selva do Congo,

Os verdes coqueiros os teus bananais,

Fizeste o açúcar o mel a cachaça

Que esquenta teu sangue,

Que te dá coragem.

 

Cachaça é a tua vida,

Tua festa teu mundo,

Saúde remédio até valentia.

Coleira de ferro,

“bacalhau”, palmatória,

Tu nada sentias tomando da “pura”.

 

“Martin Pescador” é teu camarada

Porque bebe “gole” sem nunca tombar.

O teu Pai de Santo

Tua “mãe de terreiro”

O teu “encantado” o teu “curador”

Só fazem “trabalho” cuspindo a “chamada”…

 

Cachaça é teu céu

Onde tem assento

Ogum Omolu Oxóssi Oxum.

Toda tua crença de alma sofrida

Tu sentes no peito

Louvando a “caninha”.

 

“Tambores de Mina” Batuques Macumba,

Se o teu “assistido” te faz seu “cavalo”,

Retorce os membros

Relinchas fungando,

Escarvas o chão

Mastigas cigarros

Sem nada sentir,

Porque a “branquinha” teu corpo fechou.

 

Cachaça nascida do olho da cana,

Que faz com que o negro nem pense em morrer,

Que põe nas mãos dele cuícas e surdos

Na hora dos ranchos dos sambas e choros.

 

Que sai do alambique cheirando a restilo

Já pronta pra tudo

Que a gente quiser.

Se não fosse o negro “cachaça marvada”,

Como é que virias sem fim do mundo?

 

Só tu é que animas qualquer putirum,

Só tu dás consolo

Aos que não te negam.

Que fazes aos olhos ficarem tristonhos,

As bocas cantarem toadas monótonas

Na dança dos pretos cheirando a suor.

 

Que fazes os braços ficarem mais ágeis

Na estiva no rodo empurrando carrinho,

Dando pão de fogo pra boca das fornalhas.

 

Senhora de Engenho Senhora Cachaça

Liberta o teu negro

Que sofre o feitiço

Que tu lhe puseste

De gostar de ti!

 

batuque

Ilustração de Raymundo Martins Vianna

Liamba

Quem descobriu que no teu fumo havia sono?

 

Na maloca na senzala

Na trabalheira do eito,

Como agora nos guindastes nos porões nas usinas,

Quem teria ensinado que o teu fumo faz dormir?

 

Um cigarro da tua erva chama a “linha” do pajé…

 

Amoleces o corpo cansado

Do negro que deitou moído

E te fuma e sonha longe

Beiço mole babando…

 

O coitado do africano,

Da caboclada sujeita,

Na entorpecência da tua fumaça

Não queria mais acordar…

 

Liamba!

Teu fumo foi fuga do cativeiro,

Trazendo atabaques rufando pras danças,

Na magia guerreira do reino de Exu.

 

Liamba!

Na tontura gostosa na quebreira vadia

Que sentem os teus “defumados”

Estaria toda a “força” dos Santos Protetores

Que vieram da outra banda do mar?

 

Liamba! Liamba!

Dá sempre o teu sonho bom,

Embriaga o teu homem pobre,

Porque quando ele te fuma

É com vontade de sonhar…