Conferência de Georges Didi-Huberman – Imagens e Sons como forma de Luta

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MBL reproduz prática nazista no Brasil do séc. XXI

“[…]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos
dizer nada.
[…]”

(Trecho de No caminho com Maiakóvski, de Eduardo Alves da Costa)

É extremamente vergonhoso o fato ocorrido no último domingo (10) em Porto Alegre. Além de grave, é sintomático – pois revela o momento sombrio que o País atravessa, a nuvem negra da desgraça – que uma exposição de arte tenha sido fechada pela acusação de que seu conteúdo, supostamente, faria apologia à pornografia, pedofilia e zoofilia. Esse fato ignominioso aconteceu quando o Santander Cultural resolveu fechar a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” após críticas advindas do Movimento Brasil Livre (MBL), que divulgou um vídeo afirmando de maneira agressiva que a exposição “só tem putaria, só tem sacanagem” e “é reconhecida como arte”.

A mostra que abrigava 264 obras de 85 artistas – entre eles nomes como Lygia Clark, Cândido Portinari e Alfredo Volpi -, ficaria aberta até o dia 08 de outubro, com um acervo contemplando diferentes linguagens como pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e colagens, abordando questões de gênero, diversidade e temática LGBT. O fato demonstra, além do elemento moralista do discurso dos censores, a presença de outro elemento, cujo conteúdo é tão somente a discriminação pela diferença, a incapacidade de aceitar o diverso, o distinto, o outro e, portanto, manifestam sua intolerância aos valores da democracia.

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Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva, de Fernando Baril, foi considerada imoral pelo MBL.

Ao exigir o fechamento da exposição por “atentar contra os bons costumes”, o MBL e seus seguidores abandonam o discurso liberal e abraçam a prática nazista. Com tal atitude, reproduziram a mesma orientação política utilizada por Hitler na Alemanha e por Stalin na U.R.S.S., que abominavam obras modernistas e perseguiam os artistas de vanguarda que não se alinhavam à sua cartilha. Em seu livro Era dos Extremos, Eric Hobsbawm descreve a situação da Arte sob os regimes totalitários do século XX:

“Nem a vanguarda alemã, nem a russa, portanto, sobreviveram à ascensão de Hitler e Stalin, e os dois países, na ponta de tudo que era avançado e reconhecido nas artes da década de 1920, quase desapareceram do panorama cultural” (p. 187)

Acusaram de maneira desqualificada a Lei Rouanet de financiar (R$ 800 mil) uma mostra que “ultraja símbolos religiosos”, como se a lei de incentivo à cultura tivesse como função avaliar o conteúdo exposto, ao invés de primar pela pluralidade de ideias. Uma lógica que segue a conduta dos mais peçonhentos censores. Por outro lado, alardeiam como se estivessem realmente preocupados com a cultura no Brasil, já que nada falaram sobre o corte de 41% do orçamento do Ministério da Cultura, sob o comando de Temer.

Blasfêmia e Arte degenerada

Entre os argumentos levantados pelo MBL e seus seguidores (notadamente “pessoas de bem”) são comuns as referências à exposição com termos como “pornografia”, “depravação” e “imoralidade”. Não à toa são semelhantes aos discursos proferidos pelos nazistas em Munique, em 1937, quando foi aberta uma exposição chamada Arte Degenerada (Haus der Kunst), cujo objetivo, além de ridicularizar os artistas, era inflamar a opinião pública contra as obras modernistas. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

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Exposição Arte Degenerada, promovida pelos nazistas em 1937.

A coordenadora do MBL/RS, Paula Cassola, do alto de sua arrogância, questionou a legitimidade das obras expostas, como se as obras precisassem de sua permissão para existirem ou como se eles (MBL e cia) fossem parâmetro justo para considerar o que é obra de arte e o que não é. Como ironizou o jornalista Lira Neto nas redes sociais, “os escandalizados com a mostra proibida pelo Santander nunca foram a uma galeria, a um grande museu ou nunca folhearam um livro de arte”. Com sua visão retrógrada e limitada, o que diriam de artistas como Balthus, Hans Bellmer ou Ren Hang? No mínimo seriam tomados por “pedófilos”, “blasfemadores”, “degenerados”, etc.

Contudo, como diz o ditado, o buraco é mais embaixo. Espera-se dos regimes democráticos que sejam resguardados os direitos de criticar uma exposição, até mesmo de boicotá-la. Impedi-la, censurá-la, porém, é atitude autoritária que não podemos tolerar. Se um grupo econômico, uma religião específica ou um partido político pode impor o fechamento de uma exposição, dentro em breve estarão, com o dedo em riste e bem acomodados aos podres poderes, nos apontando quais livros devemos ler, quais músicas devemos ouvir, quais filmes podemos assistir.

Movimento Brasil Livre?

Importa ressaltar algumas características do MBL, principal grupo a se opor à exposição em Porto Alegre. Surgido nas Jornadas de Junho de 2013, o Movimento Brasil Livre despontou na cena política nacional como um grupo pró-impeachment, anti-corrupção e apartidário, mas não tardou para que surgissem as primeiras denúncias de que o movimento seria financiado por velhos partidos políticos, como PMDB, PSDB e DEM. Já em 2015, seus principais coordenadores (Kim Kataguiri e Fernando Holiday) não se embaraçaram ao fazerem ampla campanha para o notório corrupto Eduardo Cunha (PMDB), que presidiu a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2016. Em reportagem de 27 de maio de 2016, o portal UOL divulgava áudios em que Renan Antônio Ferreira dos Santos, um dos coordenadores do MBL, afirmava em mensagem a outro membro do grupo, que “tinha fechado com partidos políticos” para divulgar os protestos pelo impeachment “usando as máquinas deles também”. Em outra reportagem do dia 24 de julho desse ano, a Folha de São Paulo destacava que os “Líderes do Movimento Brasil Livre na mobilização pelo impeachment de Dilma Roussef, em 2016, vêm ganhando cargos comissionados em grandes cidades neste ano”, participando de governos e recebendo salários que chegam a R$ 10mil.

Em 2016, também não se intimidaram ao desempenharem o vergonhoso papel de milícia, intimidando estudantes que participavam de ocupações de escolas em Curitiba. São apoiadores do famigerado “Escola Sem Partido”, projeto que impõe a censura nas salas de aula e impede a livre docência, com o falso pretexto de defender a “isenção” e a “neutralidade”, como se houvesse neutralidade em qualquer discurso. Na prática, estão incentivando o desconhecimento e promovendo o obscurantismo, o dogmatismo, buscando por todos os meios impedir e cercear a difusão do conhecimento científico nas escolas. Para isso, contam com um time abjeto e conservador na Câmara dos Deputados, que aglutina as bancadas da bala, do boi e da bíblia. São apoiadores de primeira hora do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) que não esconde o desejo de candidatar-se a presidente do Brasil. É preciso resistir e combater os que aplaudem não apenas a retirada de direitos, mas também impedem a livre manifestação artística e cultural.

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Kim Kataguiri, do MBL, ao lado dos comparsas que ajudaram a eleger Eduardo Cunha presidente da Câmara dos Deputados em 2015.

Solidariedade ao professor Evandro Medeiros

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Movimentos sociais, estudantes, técnicos e professores da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) devem fazer um grande ato público em frente ao prédio do Poder Judiciário local no próximo dia 5 de Maio, às 9 horas da manhã, que é quando o professor Evandro Medeiros, da Unifesspa, prestará depoimento por ter sido acusado de uso indevido das próprias razões, durante manifesto ocorrido em 20 de novembro do ano passado, em solidariedade aos atingidos pela tragédia de Mariana (MG).

Em carta apresentada durante assembleia universitária ontem (25) e que será distribuída para assinatura até o dia da audiência, os professores, estudantes e técnicos da Unifesspa lembram que entre os diversos pontos que integram o estatuto pro tempore da instituição, com objetivo de nortear sua atuação, está a defesa dos direitos humanos e a preservação do meio ambiente, sendo este um dos princípios institucionais (Conforme o art. 2º, VIII, Resolução n.º 17 de 29/10/2015-CONSUN).

“Diante disso, todos os sujeitos que integram a universidade têm obrigação – cada um dentro de sua esfera de atuação – de se integrar às dinâmicas sociais locais, contribuindo na resolução de problemas, seja por meio de pesquisas científicas, seja por intervenções, dando concretude ao tripé de qualquer instituição de ensino superior, que é ensino, pesquisa e extensão”, diz trecho do manifesto.

Ainda segundo o documento, foi pautado nessa visão e a partir desse compromisso, que o professor Evandro Medeiros, junto com estudantes, outros servidores da Unifesspa e moradores que vivem nas margens da Estrada de Ferro Carajás (EFC), em Marabá, participaram, em novembro do ano passado, de ato em solidariedade aos moradores de Mariana (MG), que foi arrasada pelo rompimento de barragem de rejeitos da Samarco/Vale naquele mesmo mês, causando prejuízo ambiental e social incalculável.

Durante o ato, realizado ao lado dos trilhos da Ferrovia Carajás, ocorreram atividades que estimularam a criação cultural e o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo, tanto entre os estudantes quanto entre os professores e os próprios moradores que vivem naquela localidade, conforme dispõe o Artigo 3º do estatuto pro tempore da Unifesspa.

Por outro lado, durante todo o tempo em que aconteceu o ato em solidariedade aos moradores de Mariana, não houve ações violentas e tampouco risco à segurança ferroviária. “Ou seja, não há motivo para denunciar o professor Evandro Medeiros ou qualquer outro manifestante por crime algum. Trata-se de uma medida desproporcional tomada pela Vale, que parece mais buscar – via poder judiciário – um mecanismo de intimidação não apenas ao professor, mas a todos que se manifestarem contra os interesses da mineradora”, diz a carta.

“Diante do exposto, os professores, técnicos e estudantes da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) ratificam seu compromisso social, moral e estatutário de envolvimento nos problemas enfrentados pelos moradores desta região, sobretudo os mais pobres, e repudiam a ação judicial movida pela mineradora Vale contra o professor Evandro Medeiros e ainda se solidarizam com este e convidam todos a participar de grande ato público em frente à sede do Poder Judiciário local no próximo dia 5 de maio, a partir das 9 horas da manhã, que é quando o professor Evandro será ouvido pelas autoridades judiciais sobre as acusações imputadas contra ele pela Mineradora Vale”, convoca.

Da mesma forma, também, os professores, técnicos e estudantes da Unifesspa se solidarizam com os cidadãos Tiago Cruz, Iara Reis, João Reis, Waldy Gonçalves Neves e demais manifestantes do Bairro Alzira Mutran, que são alvos de inquéritos da Polícia Civil, por se organizarem para lutar por seus direitos.

Fonte: http://marabanoticias.com.br/index.php/noticias/manchete/404-protesto-vai-marcar-oitiva-do-professor-evandro-medeiros

Somos todos grupelhos

Guattari

A luta de classes não passa mais simplesmente por um front delimitado entre os proletários e os burgueses, facilmente detectável nas cidades e nos vilarejos; ela está igualmente inscrita através de numerosos estigmas na pele e na vida dos explorados, pelas marcas de autoridade, de posição, de nível de vida; é preciso decifrá-la a partir do vocabulário de uns e de outros, seu jeito de falar, a marca de seus carros, a moda de suas roupas, etc. Não tem fim! A luta de classe contaminou, como um vírus, a atitude do professor com seus alunos, a dos pais com suas crianças, a do médico com seus doentes; ela ganhou o interior de cada um de nós com seu eu, com o ideal de status que acreditamos ter de adotar para nós mesmos. Já está mais do que na hora de se organizar em todos os níveis para encarar esta luta de classe generalizada. Já é hora de elaborar uma estratégia para cada um destes níveis, pois eles se condicionam mutuamente. De que serviria, por exemplo, propor às massas um programa de revolucionarização ao antiautoritária contra os chefinhos e companhia limitada, se os próprios militantes continuam sendo portadores de vírus burocráticos superativas, se eles se comportam com os militantes dos outros grupos, no interior de seu próprio grupo, com seus próximos ou cada um consigo mesmo, como perfeitos canalhas, perfeitos carolas? De que serve afirmar a legitimidade das aspirações das massas se o desejo é negado em todo lugar onde tenta vir à tona na realidade cotidiana? Os fins políticos são pessoas desencarnadas. Eles acham que se pode e se deve poupar as preocupações neste domínio para mobilizar toda a sua energia em objetivos políticos gerais. Estão muito enganados! Pois na ausência de desejo a energia se autoconsome sob a forma de sintoma, de inibição e de angústia. E pelo tempo que já estão nessa, já podiam ter se dado conta destas coisas por si mesmos! (Guattari, Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo, Trad. Suely Belinha Rolnik, Editora Brasiliense, 1981, p. 15).