A morte dos enfermos: Sartre e Haneke

No filme Amor, do diretor austríaco Michael Haneke, durante a cena em que George (Jean-Louis Trintignant) tenta forçar Anne (Emmanuelle Riva) a beber água, existe uma semelhança em relação à cisma que surge durante o diálogo entre Charles Darbédat e sua filha Ève, no conto O Quarto, de Jean-Paul Sartre. Quando Anne se recusa a engolir a água que fora forçada a beber e termina por cuspi-la, numa súbita revolta contra a imposição do marido, este acaba reagindo dando-lhe um tapa no rosto. No conto de Sartre, no diálogo entre pai e filha, quando Charles tenta convencer a filha a internar seu marido, que vive preso no quarto do apartamento do casal, isolado do mundo por problemas mentais cada vez mais agudos, Ève recusa a proposta do pai, insistindo em manter o marido no apartamento, alegando o seu amor por ele. É nessa passagem que o senhor Darbédat se irrita, reagindo às palavras da filha.

“ – Eu o amo do jeito que está – disse Ève rapidamente e meio aborrecida.

– Não é verdade – retrucou o sr. Darbédat energicamente. – Não é verdade: você não o ama, não pode amá-lo. Não se pode ter tais sentimentos senão por um ser normal e são. Por Pierre, você tem compaixão, não há dúvida, e também não há dúvida de que você se lembra dos três anos de felicidade que lhe deve, mas não me diga que o ama, eu não poderia acreditar”. (p. 47)

Evidentemente, não há agressão física na passagem acima, mas no diálogo entre o senhor Darbédat e sua filha Ève, as palavras ditas pelo pai são agressões verbais, que, como na cena entre George e Anne, são provocados pela recusa da imposição de um ser ao outro, do ser “saudável” ao ser enfermo, em ambos os casos.

Amor

No filme de Haneke, a filha do casal George e Anne, Eva (Isabelle Huppert), possui o nome parecido com a filha do casal Darbédat, Ève. No conto de Sartre, Ève se recusa a internar seu marido Pierre, enquanto Eva, no filme de Haneke, tenta convencer o pai a internar sua mãe. Em determinada passagem, após discutir com a filha, sem ter conseguido convencê-la a internar o marido, o pensamento de Charles Darbédat mostra o caráter imperioso de seu desejo, que pretende a qualquer custo a internação de seu genro.

“Beijou-a precipitadamente e saiu. ‘Seria preciso’, pensava descendo a escada, ‘mandar dois brutamontes para levar à força esse coitado, metê-lo debaixo de uma boa ducha sem lhe pedir licença”. (p. 49)

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Os temas abordados tanto no conto de Sartre quanto no filme de Haneke, apresentam um desfecho que em ambas as obras, termina com o enfermo morto por seu próprio parceiro, ou quase isso. No conto O Quarto, a morte de Pierre não se materializa, é apenas enunciada por Ève. No final de Amor, George acaba cometendo um ato inesperado. Sua atitude repentina, asfixiando Anne com o travesseiro, contrasta com os cuidados habituais que ele tinha com a saúde da mulher. Parte desses cuidados foi a promessa que fizera de não mandá-la para uma clínica ou hospital, como desejava sua filha Eva, mas que ela iria permanecer ali, sendo tratada e cuidada ao seu lado. O clímax do filme também coincide com o final do conto de Sartre, onde Ève, sabendo que seu marido entrará numa alienação completa em menos de um ano, permanece recusando os conselhos de seu pai e do Dr. Franchot e mantém-se inabalável em sua postura de manter Pierre no quarto, longe de um manicômio. Contudo, assim como a inesperada atitude de George com Anne, é não menos surpreendente a atitude de Ève com Pierre, no final do conto.

“Isso vai começar antes de um ano, foi o que Franchot me disse’. Mas a angústia não a deixava; um ano; um inverno, uma primavera, um verão, o começo de outro outono. Um dia aqueles traços se deformariam; ele deixaria pender o queixo e entreabriria os olhos lacrimejantes. Ève inclinou-se sobre a mão de Pierre e nela pousou seus lábios. ‘Eu o matarei antes que aconteça”. (p. 64)

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Jazz e Nouvelle Vague

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Cartaz do filme de Louis Malle

Em 1957, Jean-Paul Rappeneau (assistente do então jovem cineasta Louis Malle, que tinha 25 anos) convida o trompetista americano Miles Davis para compor a trilha sonora do primeiro filme de Louis Malle, “Ascenseur pour l’echafaud” (Ascensor para o cadafalso). O elenco conta Jeanne Moreau, que mais tarde ganharia reconhecimento internacional por sua atuação nos filmes da chamada “nova onda”, sobretudo no papel de Catherine, em Jules et Jim (1962) de François Truffaut. A criação da trilha composta por Miles Davis não durou mais que dois dias, iniciando na noite de 4 dezembro e terminando na manhã do dia seguinte. Nessa época, o jazz começava a conquistar o público europeu. Mesmo antes, no romance A Náusea de Sartre, publicado em 1938, várias passagens fazem referência direta ao jazz. Antoine Roquetin, narrador e personagem principal do romance de Sartre, repente várias vezes a letra de Some of these days. Em seu História Social do Jazz, Eric Hobsbawn fala sobre as diferenças entre a influência do jazz nos EUA, sua terra natal e sua influência no contexto europeu. “Mas o mais significativo é que, desde o início da década de 1950 em Hollywood – e desde o final da década de 1950, na televisão americana e no cinema europeu – surgiu a moda de criar, para filmes sobre crime, sexo e gerações perdidas, trilhas de jazz sérias ou descomprometidas, a maioria de caráter moderno. Musicalmente, os franceses foram os mais bem-sucedidos nesse tipo de ligação, principalmente com trilhas feitas por Miles Davis e o Modern Jazz Quartet (…) pois o jazz, nos Estados Unidos, é uma linguagem comum e não apenas, como na França, um tipo de gíria das classes altas”. O disco “Ascenseur pour l’echafaud”, além de Miles Davis no trompete, conta com o também americano Kenny Clarkes na bateria e os músicos franceses Barney Wilen, sax tenor, René Urtreger, piano e Pierre Michelot, baixo.

Miles Davis – Ascenseur pour l’echafaud (Full Album) http://migre.me/sgxde