Sylvia Plath: inocência americana, corrupção europeia

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Sylvia Plath na década de 50

Em A mulher calada – Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia, a jornalista americana Janet Malcolm apresenta duas citações de pessoas diferentes em períodos diferentes da vida da autora de The bell jar. Dorothea Krook foi uma das professoras preferidas de Sylvia Plath em Cambridge e Janet anuncia uma passagem em que a professora evoca a presença de Sylvia:

“Sempre limpa e elegante, usando roupas encantadoras e juvenis, o tipo de roupa que nos fazem olhar para a pessoa que as usa e não para seus trajes; cabelos que ainda caíam nos ombros, mas sempre escovados e penteados e presos por uma faixa no alto da cabeça […] Quando penso em sua aparência física, o que mais me ocorre à memória é o encanto que me despertavam seu frescor e sua limpeza tão americanos”.

Janet comenta que as fotografias que aparecem nas biografias de Sylvia Plath e nos Diários da escritora, condizem com a imagem evocada por Dorothea Krook. Segundo a jornalista, “Com seus reluzentes cabelos louros e seu rosto suave e arredondado, evoca os anúncios de sabonete e desodorante dos anos 40 e 50, em que as palavras ‘encanto’ e ‘frescor’ nunca deixavam de aparecer”.

Essa imagem contrasta com a última lembrança de A. Alvarez, na véspera do natal de 1962, em Londres, dois meses antes da morte de Sylvia. Diz Alvarez:

“Seus cabelos, que geralmente usava num coque apertado, de professora primária, estavam soltos. Caíam até sua cintura como uma tenda, dando ao rosto pálido e a silhueta delgada um ar curiosamente desolado e enlevado, lembrando uma sacerdotisa esvaziada pelo rito de seu culto. Enquanto caminhava a minha frente pelo corredor e depois subia as escadas para seu apartamento – ocupava os dois andares de cima da casa -, desprendeu-se de seu cabelo um cheiro forte, poderoso como o de um animal”.

Nesse contexto, o poema Lady Lazarus nos mostra a voz que anuncia pela linguagem poética, o que viria a se tornar sintomático em seus versos:

Morrer

É uma arte, como tudo o mais.

E eu a pratico com um talento excepcional.

Pratico de tal modo que me sinto muito mal.

Pratico de tal modo que parece até real.

Pode-se dizer que tenho vocação,

(Janet Malcolm,  A mulher calada, Trad. Sergio Flaksman, Companhia das Letras, 1994, p. 62-67).

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