A prosa anárquica de Gombrowicz

Witold Gombrowicz

Witold Gombrowicz

  1. Decidido a abandonar o lar, a casa onde mora com seus pais em Varsóvia, o personagem principal de Cosmos (romance escrito em 1965 pelo polonês Witold Gombrowicz) anda sem rumo, apenas com a certeza de ir. Para onde? Não se sabe. Witold (o personagem do romance tem o mesmo nome do autor, como alguns personagens de Kafka e Céline) segue seu caminho sem destino certo, até encontrar em uma das esquinas, com aspecto perdido, um desconhecido que está procurando uma casa, um apartamento ou algo do tipo. Após esse encontro, os dois saem juntos, em busca de um lugar pra ficar. Até o final da narrativa, Witold e Fuks protagonizam uma aventura anárquica que termina com um final insólito.
  1. Encontro casual, destino, o que estaria por trás do encontro entre Witold e Fuks? Acompanhamos assim, a longa caminhada dos dois e vemos aos poucos, Witold se cansando da mesma história de Fuks. Sempre as mesmas reclamações contra seu chefe, Drozdowski. Nesse sentindo, o nome de Fuks assume um tom galhofeiro, satírico (a pronúncia parecida com o “Fuck” inglês). Sem saber por que os dois acabam se encontrando, eles aceitam essa “casualidade” e seguem, em busca de uma pensão. Após andarem bastante, encontram uma casa, pequena, simples, mas que cabe no parco orçamento de ambos. Na casa, um senhor idoso (Leon) e sua esposa, caricaturalmente chamada de “Dona Redonda”, a filha do casal (Lena), seu marido (Ludwik) e a empregada da pensão, Katassia. Esse é o círculo de personagens centrais do romance de Gombrowicz. Ao longo da narrativa, outros personagens secundários surgem, como o padre e os dois casais que estão em lua de mel e se ajuntam com a família para fazer um passeio pelas montanhas.
  1. Uma das características desse romance é um sem fim de situações bizarras e absurdas que surgem e acompanha os personagens ao longo da trama. É assim, que, antes de chegar à pensão, Witold e Fuks encontram em um terreno baldio próximo à pensão, um pardal enforcado. Essa imagem do pardal enforcado será determinante e insistentemente retomada no romance. A ela, somam-se outras imagens também absurdas. A partir daí, uma série de conexões estapafúrdias é estabelecida. Para o pardal enforcado no terreno baldio, Fuks e Witold encontram “pistas” que podem levar a desvendar o “mistério” do pássaro morto. Entre as pistas, algumas setas encontradas no teto do quarto (que no fundo não passa de pequenas rachaduras que acabam formando vagamente e sugerindo a presença das tais setas) que apontavam para o quintal da casa e que, por sua vez, no quintal, um graveto pendurado era semelhante ao pardal pendurado e depois, um varal de roupas apontava para o quarto de Lena. Entre essas “conexões”, essas divagações, os personagens vão seguindo uma aventura detetivesca, até o momento em que são envolvidos em outras situações, não menos pitorescas.
  1. Numa noite, após tentar entrar no quarto de Lena, pois o varal apontava pra lá, Witold acaba voltando sem conseguir entrar no quarto. Bate, espera, mas ninguém abre. Resolve voltar. Procura Fuks, que não encontra. Onde estaria? Nesse momento, o gato de Lena atravessa o corredor escuro e para diante de Witold que num impulso, estrangula o animal e pendura-o no muro do quintal. Após estrangular o gato, imediatamente Witold se arrepende, sem saber o motivo que o levou a cometer essa atrocidade. Ainda assim, consegue manter-se em silêncio e apenas observa o pavor de todos na casa, de modo que não levanta suspeitas. O clima na casa, contudo, fica pesado e Leon propõe um passeio pelas montanhas, que prontamente é aceito por todos. Somente Katassia ficou cuidando da casa e além da família, dois casais recém casados se juntam ao grupo. É aqui se que se aproxima o final da narrativa e que de maneira inesperada, após um jantar, Witold sai pra dar uma volta e acaba encontrando o corpo de Ludwik pendurado em uma árvore. Quem poderia ter matado o pacato Ludwik, marido de Lena, genro de Leon e Dona Redonda? Esse crime, cruel e inesperado, assim como outras situações estranhas que surgem na prosa de Gombrowicz, terminam sem ser elucidadas, de maneira anárquica e sem conclusão definida, deixando ao leitor a tarefa de seguir as pistas que Witold e Fuks traçaram ao longo do romance. O cosmos (do grego “organização”, “ordem”) é implodido pelo autor, já que as supostas relações entre os sinais encontrados por Fuks e Witold não encontram ordem, ao contrário, são arbitrariamente estabelecidos.
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